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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Quarteto Fantástico - Primeiros Passos


 Criado nos quadrinhos pela dupla Stan Lee e Jack Kirby nos anos 1960, o Quarteto Fantástico já teve quatro versões anteriores feitas para cinema –a de 1994 (uma produção B cuja pobreza técnica e artística foi tamanha que sequer foi lançado!), a de 2005 (talvez, a mais famosa, que trazia Chris Evans como Tocha Humana), sua continuação de 2007 (aproveitando também o arco narrativo a envolver Galactus e o Surfista Prateado, resultando nada mais que uma sessão da tarde mediana) e a de 2015 (uma obra problemática, assolada por todo o tipo de equívoco e, como é habitual em casos assim, uma verdadeira lástima).

Faltava, em cada um desses exemplares, alguém atrás das câmeras que fizesse um esforço mínimo para entender os quadrinhos originais, a motivação dos personagens, o propósito e o contexto para o qual foram criados. Felizmente, a Marvel Studios (enfim, detentora desses personagens após um tortuoso vai e vem de direitos autorais) entregou o material nas mãos do diretor Matt Shakman (realizador de todos os episódios da elogiada série “WandaVision”) que soube pontuar os elementos pertinentes de cada membro do grupo, encontrou o empuxo moral e existencial que dava impulso às suas tramas, e organizou essas considerações numa narrativa bem calibrada, sólida e enxuta, além de adornar seu trabalho com um visual de encher os olhos, aproveitando a estética sci-fi retrô escolhida para a produção.

Numa versão alternativa do planeta Terra (chamada Terra 828, alternativa inclusive ao próprio Universo Marvel em si, cujas obras de sucedem noutra realidade), o mundo chegou à década de 1960 usufruindo de uma plenitude tecnológica fora do comum, graças à existência de um gênio conhecido como Reed Richards (Pedro Pascal). Esse mesmo Reed Richards que, numa eventual viagem espacial (são anos 1960, logo, período da Exploração Espacial) junto de sua tripulação, formada pela esposa Sue Storm (Vanessa Kirby), pelo cunhado Johnny Storm (Joseph Quinn, de “Um Lugar Silencioso-Dia Um” e “Gladiador II”) e pelo amigo Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach, de “Que Horas EuTe Pego?” e da série “The Bear”), acaba colhido por raios espaciais que conferem à todos eles, poderes diferenciados. Reed, agora, além da mente privilegiada, tem também a capacidade de se esticar; Sue consegue produzir poderosos campos de força, além de ficar invisível; Johnny controla o fogo podendo inclusive tornar o próprio corpo incandescente; e Ben vira um ser rochoso superforte ao qual dão a alcunha de Coisa. Essa família se transforma assim nos grandes heróis da Terra, o Quarteto Fantástico.

Quando a trama tem, de fato, início –mostrando essa origem mencionada acima numa breve sequência de um programa de TV –o Quarteto Fantástico testemunha a chegada à Terra da Surfista Prateada (Julia Garner, de “Sin City-A Dama Fatal”), criatura de poder cósmico que afirma ser arauto do poderoso Galactus, um ser tão antigo quanto o universo, movido por uma fome incontrolável e incessante. O seu alimento: Planetas! E chegou a hora dele alimentar-se da Terra.

A Surfista vem, portanto, anunciar para o Quarteto e para o mundo o prazo final da raça humana.

As esperanças se debruçam, obviamente, sobre os quatro membros do Quarteto Fantástico, contudo, quando finalmente eles encontram o incomensurável Galactus (vivido numa imponência assombrosa por Ralph Ineson), ele os confronta com um dilema: Salvar a Terra entregando a ele o filho de Sue e Reed, ainda por nascer.

Ainda que, de longe, a produção mais visualmente arrebatadora e fascinante a adaptar o Quarteto Fantástico para as telonas, o grande trunfo do filme é mesmo seus acertos no roteiro e no elenco: Hábil no manejo dramático de sua trama, o diretor Shakman conseguiu desenvolver de modo satisfatório não só cada um dos membros do grupo como também estabeleceu instigantes e eficientes dinâmicas entre cada um deles e a personagem da Surfista Prateada. Como nas HQs, portanto, “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos” vale-se de pertinentes expedientes da ficção científica para enfatizar os laços familiares que unem seus personagens, centralizando assim a personagem vivida brilhantemente por Vanessa Kirby (ela que –veja só! –é neta do próprio Jack Kirby!) no cerne da narrativa, à exemplo do que Shakman já havia também feito em “WandaVision” com a personagem da ótima Elisabeth Olsen –a mulher, esposa e mãe, tornada assim o pilar emocional de toda a união conjunta de um grupo.

sábado, 26 de julho de 2025

10 Anos de Ato Cinematográfico


 Eis que este blog completa hoje, neste dia 26 de Julho de 2025, uma década de existência quando, há dez anos atrás, eu iniciei este espaço com a resenha de “Jurassic World”. Foram dez anos cheios de transformações. Escrevi alguns livros. Li outros tantos. Saí de um emprego de quinze anos e arrumei outro –onde espero permanecer por muito tempo. E assisti filmes. Muitos filmes.

É possível observar um panorama desigual do cinema moderno durante esses dez anos em que, até aqui, o Ato Cinematográfico existiu: Entre 2015 e 2025, a indústria cinematográfica sofreu reviravoltas inesperadas. As antigas videolocadoras rapidamente viraram histórias de museu (com sua história contada no maravilhoso documentário “Cinemagia”), substituídas pelo avanço implacável das plataformas de streaming; A Marvel Studios experimentou seu auge (com “Vingadores-Ultimato”) e hoje luta para evitar o próprio declínio (com fracassos como “As Marvels”); Grandes diretores como Denis Villeneuve se sagraram com obras antológicas (“A Chegada”, depois “Blade Runner 2049” para então nos entregar os magníficos “Duna-Parte1” e “Duna-Parte 2”); Christopher Nolan alcançou sua aclamação com “Oppenheimer”; Franquias encontraram seu final (“Star Wars-A Ascensão Skywalker”), enquanto outras despontaram para novas jornadas (“The Batman” ou “Mad Max-Estrada da Fúria”). Perdemos Hector Babenco (“O Beijo da Mulher-Aranha”), David Bowie (“Labirinto-A Magia do Tempo”), Bernardo Bertolucci (“O Céu Que Nos Protege”), William Hurt (“Viagens Alucinantes”), José Mojica Marins, Andrzej Zulawski (“Possessão”), Cacá Diegues (“Bye Bye Brasil”), David Lynch (“O Homem Elefante”) e tantos outros; Entretanto, “ganhamos” Damien Chazelle (“Babilônia”), Edward Berger (“Conclave”), Sydney Sweeney (“Os Observadores”), Coralie Fargeat (“A Substância”); Florence Pugh ("Lady Macbeth"), Glen Powell (“Assassino Por Acaso”), Timothé Chamalet (“Me Chame Pelo Seu Nome”), Ryan Coogler (“Pecadores”) e Sean Baker (“Anora”); o Brasil finalmente ganhou um Oscar de Melhor Filme Internacional (“Ainda Estou Aqui”); como sempre o cinema se adaptou às novas tecnologias, atravessou uma pandemia para tirar as pessoas de dentro de suas casas com “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, e segue passando por tendências, constantes reinvenções e refletindo o tempo e o mundo à sua volta.

Foi uma jornada e tanto –que venham as próximas décadas!

domingo, 4 de maio de 2025

Thunderbolts*


 Quando a Marvel Studios lançou a pra lá de bem-sucedida dobradinha, “Vingadores-Guerra Infinita” e “Vingadores-Ultimato”, em 2018 e 2019, não imaginava estar criando uma verdadeiro cilada para si mesma e para suas vindouras produções a serem elaboradas futuramente –ao conceber duas obras que, em si, atingiam ápices cinematográficos antes inimagináveis, a Marvel estabeleceu um patamar altíssimo, padrão para as expectativas que seu público teria em relação à obras que viessem depois.

Embora realmente tenham havido, depois disso, filmes oscilantes em qualidade –e desse fato alimentar uma constante e aborrecida discussão sobre a saturação das adaptações de histórias em quadrinhos junto ao público –a Marvel ainda conseguiu, vez ou outra, entregar algo de qualidade. Afinal, para cada presepada como “Thor-Amor e Trovão”, havia um passatempo satisfatório como “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, para cada deslize como “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania” ou “As Marvels”, havia um belo trabalho como “Guardiões da Galáxia Vol. 3” ou “Deadpool & Wolverine”.

Bem, em 2025, a Marvel Studios, se não foi capaz de fazer “Capitão América-Admirável Mundo Novo” tão memorável quanto seus pares, ela conseguiu, com este “Thunderbolts*” entregar aos expectadores tudo aquilo que, no geral, sempre deles se espera –uma obra vibrante, com personagens cativantes e envolventes do início ao fim, bem conjugada no manejo de uma trama que oscila, com desenvoltura e descontração, entre a ação, o humor e o drama.

Grupo clandestino e marginalizado de anti-heróis nos quadrinhos da Marvel –mais ou menos que é “O Esquadrão Suicida” na DC Comics –os Thunderbolts são, tal e qual os Vingadores, uma junção de vários personagens, oriundos de diversos filmes e séries que a Marvel Studios foi produzindo ao longo dos anos; com o adendo de que, diferente dos heróicos e nobres protagonistas à toda prova de antes, agora temos aqui personagens ambíguos, sobreviventes no limiar de suas próprias falhas traumáticas, das experiências defeituosas e das trajetórias torpes que a cada um foi imposta. E o diretor Jake Schreier (de "Cidades de Papel") espertamente soube ancorar esses elementos um tanto quanto diferenciais na narrativa absorvente, política e intrigante que conduz com seu filme.

Pode-se partir do princípio que o eixo em torno do qual “Thunderbolts*” gira é Yelena Belova (Florence Pugh, maravilhosa), a ‘Nova Viúva Negra’, introduzida no Universo Marvel em “Viúva Negra”, sendo irmã adotiva de Natasha Romannof, a Viúva Negra ‘original’, e amargurada desde a morte desta em “Ultimato” –Yelena assume, em “Thunderbolts*”, um protagonismo que Natasha jamais teve a chance de ter num filme dos Vingadores. Além dela, seu ‘pai’, Alexei Shostakov (David Harbour), o Guardião Vermelho, surge como o grande alívio cômico do filme, roubando com carisma inabalável, muitas das cenas em que aparece. Operando nas sombras, e agindo com a ambivalência moral que pouquíssimas vezes vimos em Natasha, Yelena vai finalmente deixando para trás o luto pela irmã, enquanto começa, pouco a pouco, a questionar as missões nebulosas designadas a ela por Valentina Allegra de Fontaine (Julia Loius-Dreyfus, perniciosa feito uma cobra!). Executiva de alto nível em Washington, e encarregada da C.I.A., Valentina enfrenta, no Senado, uma tentativa de impeachment capitaneada, entre outros, por Bucky Barnes (Sebastian Stan, cada vez mais sensacional), devido às atividades nada ortodoxas do Serviço de Inteligência durante a sua gestão. Para continuar no jogo do poder e evitar o impeachment, Valentina vale-se de Yelena para ‘queimar arquivos’ referentes às inúmeras experiências ilícitas que andou autorizando para criar toda uma nova geração de superhumanos a fim de substituírem os tão saudosos Vingadores.

É assim que Yelena termina numa base de operações científicas longínqua, encrustrada numa montanha, onde aparentemente deve dar cabo da Fantasma (Hannah John-Kamen), uma operativa com poder de intangibilidade cuja origem foi revelada em “Homem-Formiga e A Vespa”. No entanto, lá Yelena encontra também o Agente Americano, John Walker (Wyatt Russell), o ex-Capitão América mostrado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”, enviado para neutralizá-la, além da Treinadora (Olga Kurilenko), também vista em “Viúva Negra” –e, após alguns atritos, todos chegam à conclusão de que foram para lá despachados a fim de se matarem, pois, como tudo o mais, eles são indícios vivos das travessura ilegais que Valentina tem autorizado por baixo dos panos, e devem ser, assim, eliminados. Junto deles, há também o misterioso Bob Reynolds (Lewis Pullman, filho do ator Bill Pullman) cuja atitude normal e amedrontada esconde o fato de que foi cobaia numa experiência que pode fazer dele um dos seres mais poderosos do Universo Marvel: O Sentinela.

Adentrar mais na trama de “Thunderbolts*”, que se desdobra para muito além disso, seria revelar spoilers que certamente comprometeriam a diversão –e fica, portanto, aquela orientação básica, usual à todo lançamento de um filme da Marvel Studios, de evitar a internet (e os spoilers) até que se tenha visto o filme!

Adornado de um clima sombrio e fatalista que poucos filmes da Marvel em geral chegaram a adotar –até porque, neste caso, isso reflete bastante as personalidades alquebradas e em constante conflito pessoal dos anti-heróis aqui reunidos –“Thunderbolts*” é dirigido e roteirizado com primordial atenção à essas facetas desiguais de seus personagens, levando em conta cada uma de suas motivações para a composição do arco de história que os fará uma equipe e os colocará, no clímax fabuloso, na improvável condição de heróis –e por mais que Yelena e Bucky possuam um respaldo de protagonismo muito maior na importância final, todos aqui têm seu momento.

É um consenso entre crítica e público que “Thunderbolts*” é um grande acerto da Marvel Studios, resta saber se eles seguirão conseguindo atender as difíceis exigências de seu público nos próximos projetos –e pelo menos um desses projetos ganha aqui um gancho narrativo e tanto na sua empolgante cena pós-créditos!

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Capitão América - Admirável Mundo Novo


 Embora persiga o tempo todo a atmosfera conspiratória do excelente “Capitão América-O Soldado Invernal”, este “Brave New World” dá continuidade realmente aos eventos mostrados em “O Incrível Hulk” (de um já longínquo 2008) e “Eternos” (de 2021). Quando reencontramos o protagonista, Sam Wilson (Anthony Mackie), ele já veste o manto de Capitão América a pelo menos quatro anos –desde que assumiu esse legado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”. Sua missão é deter a negociação envolvendo um item desconhecido entre a Sociedade da Serpente, chefiada pelo inescrupuloso Coral (Giancarlo Esposito), e um comprador misterioso. Já aí, a narrativa concebida pelo diretor Julius Onah (de “The Cloverfield Paradox”) orquestra vários pontos de partida (como é de praxe, muitos deles extraídos dos quadrinhos originais) para buscar um todo mais sólido e exuberante, ainda que, ao contrário do que fizeram (e muito bem) os Irmãos Russo nos filmes predecessores, essa solidez e essa exuberância nunca cheguem, de fato, a aparecer.

Se de um lado temos Sam Wilson e seus válidos esforços em corresponder às expectativas dele esperadas como Capitão América –não apenas ao substituir a grande e inspiradora presença de Steve Rogers, mas também ao representar um herói tão icônico sendo também um homem negro a trazer consigo à reboque toda uma questão de representatividade racial –do outro, temos o General Thadeus Ross (vivido por Harrison Ford, substituindo o falecido William Hurt, intérprete anterior do personagem) cuja fama de irascível ele procura avidamente deixar de lado por conta de A) reatar os laços com a filha, Betty (Liv Tyler), em frangalhos desde que ele caçou, por anos, o Hulk, assim como outros heróis, e B) honrar seu novo cargo de presidente eleito dos EUA perante o povo norte-americano.

Para tal intento, Ross quer se aproximar de Sam Wilson, sobretudo, após a bem-sucedida missão em recuperar o tal item desconhecido (que havia sido roubado de aliados japoneses), entretanto, novas complicações tornam a afastá-los: Acontece que o Celestial petrificado em pleno oceano em “Eternos”, vem a ser constituído de um novo minério que as potências mundiais identificaram como tão resistente (ou até mais!) que o cobiçado vibranium de Wakanda, o adamantium. De olho nessa nova riqueza, vários países forjam uma tênue aliança com os EUA, mas um atentado na Casa Branca –perpetrado por Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um ex-supersoldado veterano, ao que tudo indica sob controle mental –pode colocar tudo a perder, e deixar os EUA à beira de uma guerra.

A tarefa deste novo Capitão América em seu primeiro filme solo é, portanto, complicada: Provar a inocência de Isaiah, descobrir quem é o misterioso vilão manipulador que aparentemente está por trás de tudo isso, e deter uma crise política de proporções globais. Tudo isso, contando com a ajuda do novo Falcão, Joaquim Torres (Danny Ramirez), uma vez que o próprio Presidente Ross, como sempre, mostra-se alguém de difícil relação –em especial, por conta do segredo que o liga ao tal vilão manipulador, e que pode levar Ross a uma metamorfose inesperada como a ameaça conhecida por Hulk Vermelho –e, embora desse detalhe seja resguardado para o trecho final do filme, ele não é nenhuma surpresa, uma vez que dominou por completo o material promocional do filme nos últimos meses antes de sua estréia. Grave problema de marketing: Certamente, se a questão envolvendo o Hulk Vermelho e sua aparição no clímax de “Brave New World” tivesse sido guardado exclusivamente para ser visto nos cinemas (como foi feito com as aparições dos Homens-Aranhas, Tobey Maguire e Andrew Garfield, em “Sem Volta Para Casa”) a empolgação provocada pelo filme seria exponencialmente maior.

Como está, “Brave New World” não é um filme ruim, longe da irrelevância maçante de “As Marvels” ou da afetação lastimável de “Thor-Amor & Trovão”, e Anthony Mackie se esforça genuinamente para ser um herói com dignidade e valor, no entanto, os predicados desta produção –leia-se, roteiro (fragmentado e mal-amarrado em muitos momentos) e direção (burocrática e incapaz de evidenciar sequências mais memoráveis) –ficam muito aquém das obras nas quais se inspira e às quais tenta a todo o custo igualar: Os excelentes filmes estrelados pelo Capitão América anterior, Steve Rogers (Chris Evans).

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Cavaleiro da Lua


 Dentre a profusão de séries e minisséries que a Marvel Studios despejou no streaming do Disney Plus a partir de sua Fase 4, “Cavaleiro da Lua” é uma das poucas que não viu sua qualidade se dissipar na medida em que toda uma trama que poderia ser comportada num filme se estendeu (e se enrolou) por todo um seriado –a produção (concebida na maioria de seus seis episódios por Mohamed Biab, diretor, e Jeremy Slater, produtor) é enxuta, dinâmica, intrigante, felizmente despida de conexões muito comprometedoras com demais obras da Marvel (aspecto narrativo que, com o tempo, prejudicou a fluidez de muitos trabalhos) e soube manejar roteiro, direção e elenco de modos a enfatizar o protagonista como o grande personagem que ele é.

Superherói do segundo (talvez, terceiro!) escalão da Marvel nos quadrinhos, o Cavaleiro da Lua sempre foi visto pela maioria dos fãs como uma espécie de variação do Batman na Marvel –seu apelo visual, com capa, máscara e apetrechos de uso físico, realmente leva à essa constatação –no entanto, o enredo bastante funcional da série foca justamente naquilo que o personagem tem de mais original, e que faz dele um exemplar bastante relevante dos elementos muito humanos que a Marvel sempre buscou imprimir em suas criações: Seus transtornos mentais.

Steven Grant (Oscar Isaac) aparenta ser um cidadão londrino absolutamente normal, tem um trabalho medíocre vendendo bugigangas na ala egípcia do Museu de História de Londres, vive sendo achincalhado por sua patroa e mal é notado por seus colegas, entretanto, há algo de suspeito na rotina de Steven: Ele prende uma corrente na própria perna todas as noites antes de dormir, coloca uma fita aderente em sua porta e, assim mesmo, possui frequentes lapsos de tempo (esquece do que fez ao longo de dois dias, por exemplo). Quem acompanha os quadrinhos sabe da explicação (ainda que no primeiro episódio se faça algum suspense para fornecê-la): Steven tem uma outra personalidade chamada Marc Spector que trabalha, na realidade, como mercenário, em missões audaciosas mundo afora. Mais que isso; numa de suas missões, Marc, alvejado por tiros e à beira da morte, foi interpelado pelo deus egípcio Khonshu (voz do grande F. Murray Abrahams) que fez dele seu avatar na Terra –o que dá à Marc poderes que vêem com o traje místico do Cavaleiro da Lua, como força, resistência e habilidades de luta aprimoradas (o pacote básico do superherói)!

Embora do protagonista de fato seja Marc Spector, e não Steven Grant, é Steven quem detém o protagonismo nos primeiros episódios da série –Marc vai surgindo aos poucos, inclusive o mistério em torno da origem de seus poderes, assim como os elementos conhecidos dos quadrinhos que o circundam. À reboque de seu protagonismo veem outros personagens, como Layla (a bela May Calamawy), que revela-se a esposa de Marc (!) e forma com ele um casal dos mais complicados; e o vilão Arthur Harrow (Ethan Hawke, cada vez melhor), um fanático líder religioso cujos planos são despertar a Deusa Ammit, uma ferrenha oponente de Khonshu, cuja fúria homicida pode varrer a maior parte da vida no planeta.

O terceiro episódio traz o personagem Mogart (interpretado pelo francês Gaspard Ulliel, falecido pouco antes da estréia da série no Disney Plus, no início de 2022), um rico colecionador de antiguidades no Egito que oferece à Marc e Layla uma alternativa para encontrar o rastro de Ammit antes de Harrow.

Fazendo um marcante elo do personagem principal com a cultura e a mitologia egípcia –elemento trazido com entusiasmo por Mohamed Diab e sua esposa Sarah Goher, consultora de produção do projeto –“Cavaleiro da Lua” se revela um dos mais independentes e auto-contidos produtos a surgir na Marvel Studios em muito tempo (num primeiro momento, pode-se afirmar que praticamente não existem referências à outras obras da Marvel, como é comum em suas outras realizações), o que termina sendo um trunfo: Munido de um enredo eficaz e envolvente e de uma direção relativamente bem administrada, na gerência de cenas de ação e de efeitos visuais, “Cavaleiro da Lua” joga boa luz sobre um personagem desconhecido do grande público, dando-lhe chances de elevar-se ao status dos grandes figurões do estúdio.

Se depender do belíssimo trabalho do ator guatemalteco Oscar Isaac (um ótimo ator subaproveitado pela indústria cuja carreira ascendeu após marcar presença no magnífico “Inside Llewyn Davis-Balada de Um Homem Comum”) na composição despida de caricatura ou de afetação das inúmeras personas fragmentadas de sua psiquê, esse personagem ainda irá longe.

sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

As Marvels


 Houve uma época, não muito tempo atrás, em que a Marvel Studios era um gigante das telas de cinema; filmes produzidos pelo estúdio e protagonizado por seus personagens eram estrondosos sucessos de bilheteria e, não raro, iam muito bem numa avaliação da crítica revelando uma capacidade notável para o estúdio compreender as dinâmicas de seus personagens e dar-lhes versões cinematográficas que conseguiam satisfazer em inúmeros aspectos.

Essa, porém, é uma época que ficou no passado –essa é a triste constatação a que se chega ao conferir “As Marvels”. Dono do nada honroso título de pior bilheteria do estúdio (isso dentre seus mais de vinte longa-metragens) o filme dirigido por Nia DaCosta não é exatamente uma obra ruim. Seu pecado é não atingir notas de intensidade que justifiquem qualquer entusiasmo do público, para o bem ou para o mal. Ele não consegue sequer ser um produto de opções controversas que despertam indignação apaixonada nos fãs como fez, por exemplo, “Batman Vs Superman”. Na ânsia de fazer um produto que errasse o mínimo possível, evitando ousar ou atrever-se em qualquer direção, a Marvel Studios realizou uma obra pasteurizada que perde cada uma das chances de se fazer memorável.

E essas chances, infelizmente, existiram.

Temos como exemplo disso o aguardado desenlace da relação entre Carol Danvers (Brie Larson) e Monica Rambeau (a belíssima Teyonah Parris), conduzido desde “Capitã Marvel”, na qual Monica se tornou adulta enquanto esperava pela concretização da promessa da ‘Tia Carol’, de voltar à Terra para rever ela e a mãe, Maria Rambeau (Lashana Lynch). Aconteceu que Carol, ocupada demais com as atribulações pesadíssimas de uma superheroína de nível cósmico por todo o universo afora, não foi capaz de regressar à Terra antes de Maria morrer de câncer e Monica acabar ganhando, também ela, poderes inusitados (explicações para isso, na série “WandaVision”) –em “As Marvels”, o momento em que enfim Monica e Carol se reencontram e têm a oportunidade para esclarecer sua relação afetiva é tão negligenciado, tratado de maneira tão desdenhosa e com tamanha falta de profundidade que dá até pra imaginar o misto de injúria e inconformismo que despertou em todos os fãs.

E essa sensação de descontentamento diante do que podia ter sido e não foi é, lamento dizer, uma constante em “As Marvels”.

Na trama, Monica e Carol têm seus poderes entrelaçados com os da terceira protagonista do filme, Khamala Khan (Iman Vellani, da série “Miss Marvel”, de longe, a melhor coisa do filme todo): Toda a vez que elas usam seus poderes em conjunto, estejam em qualquer lugar do universo que estiverem, as três trocam de lugar –o que prontamente explicada a misteriosa cena pós-créditos no final da série “Miss Marvel”...

Esse curioso efeito acaba tornando-as uma espécie de equipe involuntária, unidas contra a vilã da vez, a implacável Dar-Benn (Zawe Ashton, esposa de Tom Hiddleston, o “Loki”), uma Acusadora do antigo Império Kree (mesmo posto de Ronan, o vilão de “Guardiões da Galáxia”) cujo objetivo é juntar os dois lendários e poderosos braceletes quânticos –um dos quais, responsável pelo despertar dos poderes de Khamala –e usá-los para extrair o poder do sol, ou alguma coisa assim...

Em algum momento dessas idas e vindas, o roteiro deixa entrever numa ou noutra motivação injustificada, o crescente desprezo que os realizadores parecem sentir pelo material com o qual estão trabalhando: Não apenas as predisposições para estabelecer propósitos em seus personagens vai minguando (chegando ao cúmulo de uma constrangedora cena musical ganhar mais importância na trama do que muitas explicações plausíveis), como também inúmeras cenas que deveriam esclarecer alguns pontos de seu enredo acabam completamente ignoradas, talvez, deixadas de lado de forma displicente numa sala de edição, como a aparição sem sentido de Carol Canvers na primeira cena em que as Marvels se veem todas juntas; o destino dado ao planeta Aladna que teve todo seu oceano sugado para outro lugar; o portal que drenava a energia do sol; o destino final dos braceletes (no desfecho, só um deles é visto com Khamala) e muitos outros momentos.

É como se toda aquela minúcia e atenção dedicada aos detalhes que fazia de “Vingadores-Ultimato” uma obra tão brilhante e notável já não fosse qualquer prioridade aqui.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Loki - 1ª Temporada


 O Loki que vemos como protagonista desta primeira temporada de sua série individual, lançada em 2021 pela Marvel Studios, não é o Loki que vimos nos três primeiros filmes do Thor (embora ainda brilhantemente interpretado pelo mesmo ator Tom Hiddleston); aquele Loki morreu pelas mãos de Thanos, como visto em “Vingadores-Guerra Infinita”. Este Loki, na verdade, trata-se de uma variante (um termo que a série usará à exaustão) –uma outra versão vinda de uma realidade alternativa. Melhor esclarecendo: A trama paralela deste Loki (que os seis episódios sensacionais desta primeira temporada tratam de descortinar) se inicia na cena de “Vingadores-Ultimato” na qual, quando Tony Stark se atrapalha e deixa o Cubo Cósmico cair aos pés de um Loki aprisionado logo após os eventos de “Vingadores”, este junta a Jóia do Infinito do chão e, num piscar de olhos, consegue escapar, dando origem assim à premissa desta série.

Eu posso apenas supor a confusão com que adentraram, aqui, expectadores que não chegaram a assistir os filmes anteriores da Marvel, que explicam detalhadamente toda a trajetória que levou Loki à protagonizar sua própria série –embora seja bastante improvável hoje haverem pessoas no público completamente alheias aos filmes da Marvel Studios... Uma vez em liberdade, Loki –sempre lembrando, este personagem não acompanhou os eventos presentes em “Thor-O Mundo Sombrio” ou “Thor-Ragnarok” –descobre que é uma anomalia, uma variante. Sua escapadela originou uma nova linha temporal, e existem seres incumbidos de corrigir esse tipo de lapso, são os agentes da AVT (Autoridade de Variância Temporal) que vivem patrulhando o fluxo do tempo impedindo que eventos improváveis deem origem à novas realidades alternativas, preservando assim uma única e sagrada linha do tempo.

Uma vez capturado na AVT, Loki ganha uma inesperada chance de redenção: Ir além do ingrato destino que é perecer nas mãos de Thanos e, de repente, até conhecer cara à cara os misteriosos Guardiões do Tempo (criadores onipotentes da AVT), se colaborar com o Agente Mobius (Owen Wilson, em ótima sintonia com Hiddleston) numa investigação. Ao que parece, uma variante do próprio Loki –uma versão estrategista, obstinada e feminina, vivida por Sophia Di Martino (de “Yesterday”) –está criando problemas para a AVT, disposta a sabotar a linha temporal sagrada. Em sua astúcia, somente um Loki, presume Mobius, é capaz de achar o paradeiro de outro Loki.

É claro que, como todo enredo a reunir elementos de investigação e mistério (ainda que temperados com a fantasia e a ficção científica peculiares da Marvel), em “Loki” nada é aquilo que parece, e os rumos das investigações de Mobius e Loki irão revelar segredos obscuros guardados dentro da própria AVT, muitos deles personificados na sisudez ameaçadora da Juíza Renslayer (a excelente Gugu Mbatha-Raw, de “Nos Bastidores da Fama”). Também irão revelar que não é exatamente a personagem de Sophia Di Martino a antagonista da série, mas sim o enigmático personagem de Jonathan Majors, chamado Aquele Que Permanece.

Contratado pela Marvel Studios, como todo mundo bem sabe, para dar vida à Kang, O Conquistador, o novo vilão que desempenhará, nesta nova fase, o papel feito por Thanos nas fases anteriores, Jonathan Majors não surge, aqui, como o antagonista definitivo que dará as caras dentro em breve (ele reaparece, como Kang, de fato, em “Homem-Formiga & Vespa-Quantumania”), mas sim como uma variante devidamente posicionada à fim de manter um mínimo de controle diante da ameaçadora possibilidade de um multiverso emergir de um descuido na manutenção do tempo. A série “Loki”, portanto, como se pode perceber, é fundamental para os pontos de partidas de muitos acontecimentos que se sucedem nas obras posteriores da Marvel –entre elas, “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” e “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, ambos a tratar das complexidades do multiverso. Diferente do contexto mais simples a envolver Thanos, este personagem traz consigo toda uma circunstância intrincada e fascinante que aparenta se estender para inúmeros filmes futuros, e o ator Jonathan Majors não nega fogo entregando uma atuação minimalista, raivosa, cheia de petulância e inteligência.

Honorável presença entre as melhores obras entregues pela Marvel Studios desde que se aventuraram também no formato televisivo das séries “Loki” termina num caos instigante e inquietante, deixando pontas soltas e possibilidades palpitantes para sua já anunciada segunda temporada. É certamente mérito da interpretação humana, melindrosa, carismática e precisa de Tom Hiddleston que um vilão relativamente comum tenha adquirido tal envergadura –e predileção do público –a ponto de sair da sombra de seu heróico irmão e ganhar uma série própria de TV; e nesse processo deixar de ser o vilão relativamente comum que era e migrar para o status de anti-herói incomum.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Invasão Secreta


 Há uma quebra de paradigma promovida pela Marvel Studios na minissérie “Invasão Secreta” –uma pena que essa quebra não tivesse se refletido em aumento de qualidade para o material: Adaptado de um aclamado arco em forma de saga nos quadrinhos, “Invasão Secreta” prometia emoções impactantes aos fãs. Como nas HQs, a Terra seria palco de uma silenciosa infiltração dos alienígenas transmorfos skrulls cujo plano seria o de usarem de suas habilidades para assumir, sem que os personagens principais (e o próprio público) soubessem, o lugar de algumas figuras conhecidas da Marvel, alguns deles, ocupando importante papel de influência junto ao governo norte-americano, promovendo assim uma série de mau-entendidos diplomáticos e conflitos governamentais que levariam à guerra e à extinção da Humanidade. Também, finalmente veríamos o magnífico Samuel L. Jackson e seu personagem, o agente Nick Fury, assumindo um papel protagonista que ele andava merecendo desde, pelo menos, sua aparição em “Vingadores”.

Ao menos, uma dessas promessas se cumpriu: De fato, é Nick Fury o grande personagem principal aqui, infelizmente, ele surge combalido, desanimado, desmotivado e, durante muito tempo, incapaz de se equiparar ao grande espião que havia sido antes, fruto das desilusões experimentadas pelos revezes das últimas décadas, incluindo o ‘Blip’ promovido por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –os realizadores, devem ter julgado que seria um diferencial interessante explorar uma faceta mais decadente de um personagem conhecido por sua astúcia, entretanto, do modo como é mostrado insistentemente na série, esse aspecto do personagem nunca soa válido dentro da narrativa servindo mais para engessá-la do que para torná-la melhor. Nesse sentido, é infinitamente mais vibrante prestar atenção na personagem de Olivia Colman, Sonya Falsworth, que surpreende o expectador e alguns dos personagens ao seu redor sempre que aparece, ao mostrar-se um passo afrente de todos os demais –uma característica que outrora pertenceu à Nick Fury.

“Invasão Secreta” tem início quando alguns agentes aleatórios da CIA conseguem identificar um skrull infiltrado entre agentes de campo que deveriam ser supostamente bem informados: Morto por Maria Hill (Colbie Smulders) e pelo skrull aliado Talos (Ben Mendhelson), o skrull espião havia assumido a identidade do Ag. Everett Ross (Martin Freeman) –a última vez em que vimos o que seria o verdadeiro Ross, ele estava, na verdade, refugiado em Wakanda, após os eventos de “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”. Isso traz Nick Fury de volta à Terra, interrompendo um auto-exílio que, sabemos, já ocorreu há anos –pois, pelo menos, o Nick Fury de “Homem-Aranha Longe de Casa” sabemos ter sido ‘personificado’ por Talos. Esses agentes identificaram um problema preocupante: Os skrulls, agora não mais liderados por Talos, mas por um jovem líder extremista chamado Gravik (Kingsley Ben-Adir, de “Barbie”) desejam usar de operativos disfarçados em cargos fundamentais nos governos dos EUA e do Reino Unido para fomentar uma série de ataques que levarão os Estados Unidos e a Rússia à Terceira Guerra Mundial, aniquilando a Humanidade e deixando o planeta livre para a ocupação skrull. Não somente isso, mas, como logo fica evidente em episódios posteriores, Gravik também quer garantir-se quanto à eventual interferência dos grandes super-heróis do panteão da Marvel –embora estranhamente nenhum deles jamais dê as caras nesta minissérie... –adquirindo vestígios genéticos de alguns vingadores e levando seus soldados à ganhar seus poderes, convertendo-os em superskrulls!

Dirigida por Ali Selim com uma deliberada (e equivocada) predisposição para a lentidão em detrimento da ação (normalmente uma especialidade da Marvel) e em prol de um suposto suspense (uma promessa de tensão que jamais se concretiza de fato), “Invasão Secreta” avança ao longo de seus seis episódios numa atmosfera e num ritmo que, estranhamente, sugerem, o tempo todo, a chegada iminente de um clímax que justifique todo o investimento do público em sua premissa titubeante, em seus personagens pouco envolventes e em suas soluções de roteiro nada originais –não lembra nem um pouco o sopro renovado de entusiasmo narrativo presente nas obras dos dez primeiros anos da Marvel Studios –mas, termina realmente se revelando burocrático, genérico, redundante e trivial. É de se lamentar quando uma minissérie –especialmente uma cercada de tantas possibilidades promissoras como esta –tem, como elemento que mais despertou interesse de discussão nos expectadores, a sua aflitiva abertura feita por Inteligência Artificial.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

WandaVision


 Não deixa de ser um problema para a Marvel Studios o fato de que, quando decidiu adentrar com mais propriedade o terreno das séries de TV, produzindo obras conectadas ao seu Universo Cinematográfico da mesma forma que já o fazia há mais de dez anos (e com largo sucesso) no cinema, isso se deu já entregando seu mais brilhante produto: Primeira das tantas séries e minisséries que saíram com exclusividade na plataforma Disney +, “WandaVision” permanece sendo a mais inteligente, a mais inovadora e, por que não, a mais cativante.

Dirigida (e muitíssimo bem!) por Matt Shakman e dona de uma desafiadora estrutura narrativa que em princípio faz dela uma espécie de homenagem da Marvel aos sitcoms televisivos norte-americanos, “WandaVision” começa com seu primeiro episódio em preto & branco (a evocar seriados antigos dos anos 1950 como “I Love Lucy” e “The Dick Van Dyke Show”) trazendo com certa galhofa inocente os personagens de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen, sensacional) e Visão (o ótimo Paul Bettany) chegando à cidadezinha de Westview, em New Jersey, e lá se instalando, na busca pela rotina de um casal de classe média normal, coisa que eles não são: Visão (a despeito de arrumar trabalho num escritório banal cujos procedimentos não lhe fazem muito sentido) é um poderoso sintozóide artificial, enquanto que Wanda (embora desempenhe o papel de uma dona de casa satisfeita e dedicada) é uma feiticeira de abrangente controle sobre a realidade.

O segundo episódio já remete às séries dos anos 1960, com nítida inspiração em “A Feiticeira” (até mesmo a abertura em animação é referenciada), enquanto que o terceiro, já adornado de cores, segue o padrão das séries dos anos 1970. Ao longo dessa evolução estilística, uma trama também se desenvolve: Wanda e Visão fazem o possível para viver com tranquilidade em família –ignorando, na medida do possível, que ambos foram Vingadores e que participaram da árdua batalha contra Thanos em “Guerra Infinita” e “Ultimato”, de onde o Visão saiu morto (!), mas... não vamos nos apressar.

Conforme seu dia-a-dia nesse subúrbio idealizado se desenrola, vemos Wanda também engravidar, dar à luz a seus filhos gêmeos Billy e Tommy (Julian Hilliard e Jett Klyne), que crescem absurdamente rápido até a idade de dez anos (!), e ainda receber a visita de seu irmão velocista Pietro (!), ainda que este tivesse morrido (!!) em “Vingadores-A Era de Ultron” (contudo, nesse filme, o personagem era vivido por Aaron Taylor Johnson, enquanto que aqui, num genial lance metalinguístico, ele é vivido por Evan Peters que deu vida ao mesmo personagem em “X-Men Dias de Um Futuro Esquecido”), sempre sob a presença insistente e histriônica da vizinha enxerida Agnes (Kathryn Hahn, de “Glass Onion”).

Contudo, assim como começa a ocorrer com o expectador, não tarda para que o Visão note algo de muito estranho nisso tudo: Nada faz muito sentido naquela harmonia perfeita e artificial que partilham. É em algum momento entre o terceiro e o quarto episódios que “Wanda Vision” começa a surpreender ainda mais o público ao revelar a personagem de Monica Rambeau (a maravilhosa Teyonah Parris), uma agente governamental que infiltrou-se dentro da simulação sobrenatural que é Westview –e penso estar, agora, adentrando os spoilers da trama, visto que muito do que relatar a partir daqui haverá de esbarrar nas sensacionais surpresas reservadas por este enredo até a finalização dos nove episódios.

Apesar dessa inusitada e ousada proposta –valer-se de um formato estendido de seriado televisivo para homenagear e parodiar as próprias séries de TV, sua estrutura clássica e seus clichês de gênero (inclusive os infalíveis ‘saquinhos de risada’), enquanto desenvolve uma trama mais intrincada e complexa na qual os papéis de vilã e heroína, no que diz respeito à protagonista, são colocados em notável perspectiva –“WandaVision” é assombrosamente fluído e compreensível; quando todas as peças começam a se encaixar, não restam pontas soltas, e se torna cristalina a belíssima continuidade que os realizadores deram a estes personagens, Wanda e Visão, normalmente relegados à coadjuvantes em produções anteriores, mas que aqui, alçados à protagonistas, têm a chance de evidenciar os ótimos e riquíssimos personagens que são, e os maravilhosos intérpretes que lhes dão vida.

A trajetória de Wanda Maximoff, à propósito, é retomada no longa-metragem para cinema “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” que, diferente deste primoroso trabalho, cede com mais facilidade à obviedade de fazer dela a vilã da história, entretanto, voltando à esta minissérie: Lá no fundo, “WandaVision” ousa também fazer um bonito e significativo comentário sobre o luto, construindo a referência narrativa da progressão de sua história –e gradual descoberta do expectador de todo o mistério –em torno das suas cinco fases: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação.

A Marvel Studios começou de tal maneira sublime sua contribuição em séries de TV que nenhuma outra produzida –mesmo aquelas que seguiram excelentes –foi capaz de ombrear o brilhantismo de “WandaVision”.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Guardiões da Galáxia - Especial de Natal


 Pouco antes de sua última aparição nos cinemas –no excelente “Guardiões da Galáxia Vol. 3” –e depois de suas participações em “Vingadores-Ultimato” e em “Thor-Amor & Trovão”, a equipe de heróis espaciais tornados memoráveis graças ao talento do diretor e roteirista James Gunn deu o ar da graça neste média-metragem especial, exclusivo da plataforma Disney Plus. Esperto, James Gunn –uma verdadeira enciclopédia viva de referências à cultura pop –resgatou a lembrança, não tão honorável assim, do “Star Wars-Especial de Natal”, que George Lucas lançou em 1978, com toda a trupe de seu sucesso cinematográfico reunida para pagar um mico desgraçado. Varrido para debaixo do tapete pela vergonha dos fãs perante a mitologia vasta em longa-metragens, animações e afins, aquele filme televisivo é relembrado aqui, por James Gunn, com um certo carinho agridoce. Entretanto, se Gunn relembra sua existência, ele evita por completo seus equívocos: Este média-metragem é uma piscadela aos fãs feita para explorar o carisma de seus personagens, estender com muito bom humor um pouco mais sua mitologia e, lá no fundo, favorecer o conteúdo exclusivo do streaming da Disney, com um irresistível apelo aos inúmeros expectadores do MCU.

Instalados em Luganhenhum, a cabeça decepada de um Celestial, desde que o lugar fora devastado por Thanos, os Guardiões da Galáxia descobrem que na Terra, o planeta-natal de Peter Quill (Chris Pratt), está sendo comemorada a época do Natal –festividade completamente ignorada pelos outros membros, alienígenas. Todavia, como lembra Kraglin (Sean Gunn) na sequência animada que abre o filme (na qual figura o personagem de Michael Rooker, Yondu, em participação especial) os natais de Quill, passados durante sua infância entre os rudes Saqueadores Espaciais, não foram dos mais calorosos.

Para Manthis (Pom Klementieff) –que lembra do fato de que ela e Quill são meio-irmãos, já que foi criada por Ego, o pai dele –há uma certa importância em resgatar tal data, já que Quill anda desolado devido à perda de Gamora, ocorrida em “Vingadores-Guerra Infinita”. Com isso em mente –e com uma visão ligeiramente deturpada do quê é o Natal e sua troca de presentes –ela e Drax (Dave Bautista) veem até a Terra, na intenção de providenciar para Peter o melhor presente possível: O seu ídolo em pessoa, o ator Kevin Bacon –numa participação especial das mais hilárias!

Na Terra, confusões usuais se seguem –no humor recorrente e espontâneo da Marvel Studios –quando Manthis e Drax descem em plena Los Angeles, intoxicada pelo usual culto às celebridades: O que leva personagens tão exóticos quanto os dois a se misturar até que bem à fauna esquisita e alienada de pessoas que ganham dinheiro com a curiosidade dos turistas (!). Após um tumulto considerável na mansão de Kevin Bacon –onde, por razões óbvias, tiveram um atrito com a polícia (!!) –Manthis e Drax seguem de volta à Luganenhum para surpreender Peter. Ainda que a surpresa termine não sendo como eles esperavam.

Descontraído, mais espirituoso do que de fato divertido, este “Especial de Natal” é certamente recomendado aos fãs mais incondicionais dos Guardiões da Galáxia, que haverão de apreciar o filme pela sempre envolvente interação de seus personagens –um aspecto singular em suas criações do qual a Marvel Studios sempre soube se beneficiar. Aos expectadores mais casuais, ele é uma obra curta, ligeiramente vaga e sem muita razão de ser (exceto pelos pequenos detalhes de informação que acrescenta como a aproximação entre Manthis e Drax e entre Rocket Racoon e Nebula) que serve como uma modesta ponte entre os demais filmes e o derradeiro (e brilhante!) “Guardiões da Galáxia-Vol. 3”.

domingo, 18 de junho de 2023

Homem-Aranha Através do Aranhaverso


 Já de arrancada percebemos o grande acerto que foi os realizadores da animação “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” terem dado mais espaço à personagem Spider-Gwen (voz de Hailee Steinfeld). Vinda de uma realidade alternativa onde Peter Parker morreu –e quem terminou convertendo-se em Mulher-Aranha foi ela, Gwen Stacy –a Spider-Gwen (como passou a ser chamada pelos fãs) logo tornou-se favorita do público nos quadrinhos, tradição que se manteve ao aparecer nos cinemas em “Homem-Aranha No Aranhaverso”, que esta nova animação trata de continuar. Todavia, Gwen não é a única protagonista deste arrojado longa-metragem de animação –desde já, grande candidato ao Oscar da categoria no ano que vem –há também, Miles Morales (voz de Shameik Moore).

Transformado em Homem-Aranha após os contratempos que levaram à morte de Peter Parker em sua realidade, Miles vivenciou todo o arco narrativo de aprendizado e descoberta do herói no filme anterior –agora, ele está tentando ainda adaptar-se à nova vida, e às novas mudanças que não param de chegar: Os pais de Miles –o pai, recentemente promovido à capitão de polícia; a mãe, uma enfermeira que imigrou de Porto Rico –relutam em deixar que Miles explore todo seu potencial indo estudar numa faculdade em Nova Jersey, longe do Brooklyn, onde acreditam mantê-lo sempre por perto. Essa dramaturgia, até bastante importante para o filme e o personagem, não tem muito tempo para transcorrer quando uma inusitada ameaça se manifesta: Trata-se do Mancha (!?), cientista capaz de materializar buracos de teleporte aqui e ali, e que é um dos vilões mais subestimados e ridicularizados do Homem-Aranha nos quadrinhos. Contudo, a criatividade irreprimível dos diretores Joaquim dos Santos, Justin K. Thompson e Kemp Powers, e dos roteiristas Phil Lord, Christopher Miller e David Callaham transforma Mancha num contratempo que começa, sim, atrapalhado e desengonçado (ele mal consegue controlar os poderes que ganhou por puro acaso no clímax do filme anterior), no entanto, a medida que a narrativa desvenda uma amplitude maior de seus poderes, descobrimos, ao lado de Miles, uma periculosidade que pode acabar colocando em risco todo o Multiverso.

Na sequência desses acontecimentos, Miles reencontra Gwen, por quem teve uma queda durante sua breve interação no outro filme –sendo personagens vindos de universos distintos, não havia, para os dois, maiores esperanças de se verem uma outra vez, ainda assim, Gwen acaba aparecendo no quarto de Miles. As explicações são breves, mas pontuais: Gwen (como vemos no prólogo arrebatador deste filme) foi recrutada por Miguel O’Hara (voz de Oscar Isaac), um Homem-Aranha taciturno e autoritário vindo do ano de 2099, para compor um numeroso grupo formado por versões alternativas do Homem-Aranha vindo de várias partes do assim chamado Aranhaverso. A missão deles: Impedir que indivíduos desgarrados de suas realidades originais (pelos eventos mostrados no filme anterior) comprometam a existência dos vastos universos provocando a destruição de todos eles.

Dentro dessa curiosa lógica multiversal, Miles Morales ocupa uma posição inesperada; ao que tudo indica, nunca foi o destino dele se tornar um Homem-Aranha –tanto é que a aranha radioativa que mordeu-o, dando-lhe seus poderes, veio por acidente de uma outra realidade. Para Miguel O’Hara, Miles é, portanto, uma anomalia, das tantas que ele impôs a si próprio a missão de corrigir.

É curioso notar que, no empuxo proporcionado a seus muitos e notáveis personagens, “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” é um filme sobre paternidade: É sobre o Capitão Stacy, pai de Gwen, e sobre o seu dilema de perseguir a própria filha por não saber ser ela a vigilante mascarada Mulher-Aranha; é sobre o Capitão Morales que, como policial, tem a relutante ajuda no Homem-Aranha para lutar contra o crime, sem saber que ele é seu filho, Miles, cujos segredos dessa vida dupla, aos poucos vão minando a relação que tinham; e é também sobre o veterano e fora de forma Peter Parker (do filme original) que redescobriu sua satisfação para viver (e seguir sendo Homem-Aranha) ao se tornar pai da pequenina May Day e sobre o próprio Miguel O’Hara, alimentado e impulsionado pela amargura de ter perdido mulher e filho devido a um erro multiversal –e disposto a não deixar que esse mesmo erro se suceda com mais ninguém novamente.

É um primor que “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” traga tantos personagens e que, mesmo assim, todos encontrem um momento satisfatório de desenvolvimento que os fazem mais profundos do que inicialmente se presume que eles sejam, e mais notável ainda que esse desenvolvimento se dê por meio de um tema que parece conectar a todos eles numa única e emocionante unidade narrativa –a despeito de manter o mesmo jogo assombroso de cores (os estilos de animação distintos variam conforme os personagens de diferentes universos se apresentam), as mesmas cenas alucinantes de ação do original (ainda mais inquietas, estilizadas e vertiginosas) e a mesma cinematografia pulsante e original (inclusive, com um trilha sonora que oscila descontraidamente entre funk, soul, rap e hip hop), “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” surpreende o expectador ao revelar-se inesperadamente intimista –são as particularidades de ordem pessoal e os problemas emotivos, familiares e sentimentais de seus personagens, construídos com zelo e delicadeza fora do comum, que representam, de fato, o coração do filme, e o fazem ser assim tão especial.

Tão sublime e brilhante é esse trabalho que mal se percebe o tempo passar e o filme caminhar na direção de seu inevitável desfecho, que pega toda a plateia de surpresa ao não terminar coisa alguma: O encerramento deste “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” é tão abrupto e aberto que a sensação dos expectadores ao fim da sessão é uma ansiedade perplexa pela chegada da já anunciada terceira parte.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Mulher-Hulk - Defensora de Heróis


 Quando a Disney lançou sua plataforma de streaming, o Disney Plus, era inevitável que seus produtos exclusivos aproveitassem, e muito, o material vasto de que a empresa dispunha, sendo que o mais rentável deles é, sem sombra de dúvidas, as obras oriundas da Marvel Studios. Por meio disso, os fãs viram o que antes era uma sequência de filmes prolongada por pouco mais de dez anos –o assim chamado MCU –ser expandido para a mídia televisiva em formato de séries e minisséries. Personagens adaptadas dos quadrinhos, habitantes do mesmo universo compartilhado onde vimos o Homem-de-Ferro e o Capitão América, agora surgiam também em séries para a TV, na medida do possível, produzidas com o mesmo esmero e qualidade almejados no cinema, mas com a duração estendida de série, o que possibilitava aprofundamento de personagens e, em geral, a chance de adaptar com ainda mais fidelidade arcos inteiros dos quadrinhos. Muito aguardada, a série da “Mulher-Hulk” foi um desses casos, entretanto, pode-se dizer que ela padeceu por diversas circunstâncias inesperadas.

Acometida de um acidente automobilístico, a advogada Jennifer Walters (a ótima Tatiana Maslany) tem seu sangue acidentalmente misturado com o de seu primo que, à propósito é Bruce Banner (Mark Ruffalo), o Hulk em pessoa. Ao converter-se numa versão turbinada, forte e esverdeada de si mesma, Jennifer recebe de Bruce a explicação que o DNA da família deles cria, de alguma forma, uma compatibilidade com a mutação provocada pela radiação gama, o que transforma ambos em ‘Hulks’. Contudo, se Bruce levou anos para dominar a fúria de seu alter-ego, Jennifer não tem esse problema: Sua personalidade permanece sempre a mesma a despeito da capacidade de oscilar entre dois corpos tão diferentes.

É claro que, ao tentar retomar a vida como advogada, essa nova condição não passa despercebida e Jennifer se torna uma espécie de celebridade conhecida como Mulher-Hulk (ou “She-Hulk”, no original) passando a usar de seus conhecimentos em advocacia para ajudar pessoas envolvidas com problemas diretamente relacionados aos superheróis.

O que se sucede com “Mulher-Hulk”, a série, a partir daí é uma infestação de personagens classe C e D da Marvel nos quadrinhos, como a vilã Titania (Jameela Jamil) que tenta passar um golpe na heroína ao processá-la pelo uso indevido da própria marca “She-Hulk” registrada por ela, e algumas participações um pouco mais ilustres, como Emil Blonski, o Abominável (Tim Roth) cuja participação em “Shang-Chi A Lenda dos Dez Anéis”, lutando contra Wong (Benedict Wong, que também aparece!) é esclarecida aqui quando requisita os serviços da Mulher-Hulk para ser liberado pela condicional (!).

Outros tópicos da série (cujos desdobramentos se estendem por nove episódios) incluem uma tentativa virtual e tóxica de sabotar a vida de Jennifer (um reflexo de comportamentos nocivos e muito reais dos tempos atuais) e sua já tumultuada vida amorosa que ganha um viés de dubiedade a partir do momento em que Jennifer tem a oportunidade de escolher entre duas personas distintas –a Jennifer Walters comum e sem maiores atrativos que, por uma questão de princípios ou de auto-afirmação, ela insiste em manter no controle de sua vida, ou a poderosa, exótica e atraente Mulher-Hulk capaz de personificar o tipo impraticável de mulherão que até então ela era incapaz de ser, mas que traz a reboque atribulações com as quais ela não tem certeza se consegue lidar.

O time de hábeis roteiristas e diretoras (entre elas, Kat Coiro, Jessica Gao, a criadora do programa, Francesca Gailes, Jacqueline J. Gailes, Melissa Hunter, Dana Schwartz, Kara Brown, e outras) reunidas para esta série compreende as variações dessa dicotomia, e as expõe com humor afiado e ritmo audaz, fazendo da série um deleite para ser apreciado. Os últimos episódios ainda brindam o público com a participação sensacional e pra lá de especial de Matt Murdock (Charlie Cox, fantástico), o Demolidor, também ele, um herói da Marvel que age como advogado em sua vida civil. A sintonia entre Tatiana e Charlie, por sinal, possui a mais perfeita química de toda a Fase 4 da Marvel.

Nos quadrinhos –e a versão em série de TV é admiravelmente fiel à eles, diga-se –a Mulher-Hulk também vem a ser prima de Bruce Banner ganhando poderes iguais aos do seu primo e virando algo que, em diversos momentos na existência da personagem, ameaçou fazer dela uma mera ‘versão feminina’; rótulo do qual sua equipe criativa (composta por várias mulheres talentosas) tenta e consegue se desvencilhar. Também pudera: Nos quadrinhos mesmo, a Mulher-Hulk, ou melhor, Jennifer Walters, ganhou originalidade e personalidade própria graças aos esforços do escritor e roteirista John Byrne que fez dela um título notável empregando humor e, para sua época, uma inovadora quebra da quarta parede: A personagem, em suas histórias SABIA estar dentro de uma história em quadrinhos, e isso rendia histórias divertidas, espirituosas e diferenciadas. Esta série da Mulher-Hulk segue uma linha bastante parecida –seria mesmo um desperdício não adotar um estilo tão interessante –mas, é curioso que isso tenha desagrado muitos ‘fãs’: Ao colocar um mulher empoderada e supina como protagonista de uma série com propostas relativamente inéditas, os produtores provocaram a ira de expectadores incapazes de enxergar personagens femininas com a mesma iniciativa arrojada que se vê em personagens masculinos.

Dois exemplos muito difundidos pela internet são patentes: No primeiro, um meme resultado de uma das cenas pós-créditos em um dos episódios (a série tem várias), onde a Mulher-Hulk faz uma dancinha ao lado da cantora Megan The Stallion, irritou alguns expectadores. Robert Downey Jr. pode dançar à vontade no papel de Tony Stark, isso só enfatiza o quanto ele é charmoso, seguro de si e cool, já uma mulher... bem, na opinião de muitos internautas, uma mulher não pode (!). No segundo exemplo, a já mencionada postura da personagem de quebrar a quarta parede, e dirigir-se para a câmera conversando com o público –e, no processo, estabelecer, uma interessante metalinguagem ao assumir que a protagonista compreende estar numa série de TV –também desagradou parte do público; outro personagem da Marvel, o “Deadpool”, já fizera algo assim em seus dois filmes para cinema, e tal manobra (não destituída de mérito) foi aplaudida e festejada, mas, no caso da Mulher-Hulk fazer isso, para alguns, soou forçado.

Em resumo, “Mulher-Hulk” conquistou o desagrado de parte da audiência, não por seus supostos defeitos, mas, por muitas de suas virtudes, denunciando assim um certo machismo institucionalizado infelizmente ainda vigente no subconsciente de alguns expectadores. Para aqueles que não selecionarem seu entretenimento a partir de considerações tão mesquinhas, esta divertida série da Marvel Studios será um satisfatório, vívido e pulsante passatempo, plenamente capaz de entreter e cativar com seu humor descompromissado e com sua interessante protagonista.