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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

1984 de Orwell


O filme dirigido por Michael Radford (de “O Carteiro e O Poeta”), adaptado do clássico de George Orwell, embora careça de alguma sutileza narrativa, é um trabalho belíssimo e cheio de propriedades.
E oportuno: Foi lançado exatamente no ano de 1984, o que acentua a característica de ‘distopia alternativa’ idealizada por Orwell, não porém sua capacidade de previsão –o Grande Irmão, ao qual a trama e os personagens se referem com frequência concedendo-lhe onipresença na narrativa, é uma alegoria tão perfeita do controle tecnológico gradualmente exercido sobre o cidadão comum pelo estado autocrata que está hoje impregnado na cultura pop; e muitos são os que relacionam esse termo mais ao reality show “Big Brother” do que à obra de George Orwell.
Assim sendo, no mundo paralelo em que se passa o enredo imaginado pela mente metódica e inquieta de Orwell, a Inglaterra é um local onde se cultivam catatônicos.
Para o Estado, os indivíduos que formam a massa comum devem ser esmagados por um conjunto opressor de regras que não fornecem outras opções senão ser um mero operário sem distinção dos demais. E o protagonista Winston (John Hurt, fantástico) não é, deveras, nada mais que isso.
Na sociedade em que vive, emoções e sensações mais extremas são tolhidas e proibidas. Fazer sexo –ou mesmo expressar alguma sexualidade –é ilegal. Pensamentos fora do padrão resignado são considerados prontamente subversivos.
E o Grande Irmão tudo vê e tudo sabe.
Um misto de Fuhrer, divindade e popstar, o Grande Irmão é o único elemento desse mundo que os cidadãos têm autorização para venerar –e, por conta disso, as sessões de enaltecimento a ele mostram um assustador extravasamento de energia reprimida.
É a jovem Julia (Suzanna Hamilton) quem dará à trajetória de Winston um rumo diferente da de tantos outros homens sufocados pelo controle: A partir de um afeto que se inicia aos poucos, eles logo iniciam encontros fortuitos que não apenas flertam com a inédita excitação do proibido, como também os levam a refugiar-se em áreas terminantemente interditadas devido à histórias de guerra que seu governo contou; e sua presença lá faz Winston então notar que tais histórias começam a mostrar-se distantes da realidade verdadeira.
Como é inerente à Orwell, a liberdade (ou o vislumbre da liberdade) cobra um preço –e, não tarda para que Winston e Julia caiam nas garras do homem de confiança do Grande Irmão, o implacável O’ Brien (que Richard Burton interpreta com uma peculiaridade magnética), e sejam submetidos a ele para que tenham sua integridade física e psicológica virada do avesso até, por fim cederem.
Narrando com elegância à toda prova a adaptação cinematográfica de um dos mais primorosos textos do século XX, o diretor Radford moldou um tratado sobre a sordidez mortífera da autocracia cujo mérito é alarmar tanto quanto seu famoso livro original.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O Carteiro e O Poeta

Eis um filme pleno em sua poesia. São lindas as imagens que a câmera do diretor Michael Radford (da brilhante versão de “1984 de Orwell”) capta, ao registrar os caminhos por onde passa, esbaforido com sua bicicleta, o carteiro de uma pequena ilha do Mediterrâneo, Mario (Massimo Troisi, que morreu quando o filme ainda estava em pós-produção e ganhou assim uma indicação póstuma ao Oscar de Melhor Ator) que, mais tarde, construirá com o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret, de “Cinema Paradiso”), ali exilado, uma transformadora amizade.
O ano é 1952, e Neruda sofre o afastamento forçado de seu povo e sua pátria que ele defendia ideologicamente com tanto fervor.
Em sua simplicidade, Mario se deixa fascinar por essa paixão e Neruda se encanta dessa inocência e, a partir da influência poderosa do famoso poeta, o tímido carteiro já arruma também coragem para declamar a sua própria paixão pela bela Beatrice (Maria Grazia Cucinotta), para subjugar a pequena opressão doméstica promovida por seu pai idoso –que se diz comunista mas não quer dividir nada com ninguém!!! –e até mesmo para almejar uma vida melhor.
Seria bastante obtuso não reconhecer o enorme e significativo peso dramático que o formidável “Cinema Paradiso” exerce sobre este filme: Não somente na presença de Philippe Noiret, mas também na familiaridade de trama que esboça o amadurecimento intelectual e emocional de um personagem através de um mentor de inspiração.
É, sobretudo, a presença de Massimo Troisi quem determina aquilo que este filme é: Massimo, que já sofria do coração durante as filmagens, teria se tornado uma estrela internacional se tivesse ficado vivo para testemunhar o amplo sucesso de seu filme. Sua condição física obrigou o diretor Radford a rever a construção de cenas que havia pré-determinado, dando ao seu trabalho uma orientação mais intimista, obrigando-o a empregar sua criatividade de maneira muito mais austera e equilibrada.
O resultado foi uma obra absolutamente sutil, onde felizmente, a fama e o personagem exuberante de Noiret não se sobressaem –risco que poderia ter corrido –proporcionando, em vez disso, uma narrativa lírica e emocionante.