Na década de 1970, na era do exploitation, eis que surgiu este projeto de adaptar o clássico “Alice No País das Maravilhas” – já devidamente adaptado pelos Estúdios Disney num longa de animação que capturou com estranheza as reflexões da obra de Lewis Carroll – e nele depositar um tanto da libertinagem propagada pelo movimento do ‘amor livre’ da década anterior, além de agregar a essa incomum miscelânea elementos do musical, gênero que já não dava às caras a um bom tempo no circuito comercial. Tudo isso servindo de reflexo da contracultura e compondo no painel deste pouco usual trabalho o diferencial que justificava sua existência.
Incontáveis vezes transposto para as telas,
“Alice No País das Maravilhas” sempre foi uma realização que conseguia expor as
características de seu próprio tempo, e não deixa de ser assim com esta
produção. Aqui Alice (vivida com certa desenvoltura pela atriz Kristine DeBell)
é uma jovem adulta a trabalhar em uma biblioteca. Bastante pudica, a jovem
recebe a visita de William (Ron Nelson) rapaz que tem lá suas intenções
libidinosas com a moça, todavia, Alice evita ceder às suas investidas – ele
argumenta afirmando que Alice deve se libertar dessas amarras e começar a
viver. Um pouco abalada por esse discurso (inquietação que a protagonista
expressa na sequência da primeira cena musical), Alice parece adormecer e então
encontra, inevitavelmente, o coelho branco. Mas, não exatamente um coelho
branco comum, trata-se de um ator (Larry Gelman, no caso) maquiado e
paramentado como o personagem de Carroll num registro antropomórfico.
A continuidade da trama é de conhecimento de
qualquer pessoa que tenha vivido no planeta Terra, e cruzado com qualquer uma
das infindáveis versões de “Alice No País das Maravilhas”; a jovem, ao
perseguir o tal coelho, entra por um buraco que imediatamente a leva até no
País das Maravilhas – cenário que aqui, em função do orçamento bastante
limitado do filme, se converte no aproveitamento de uma floresta qualquer. Esse
local é habitado por criaturas estranhas, ligeiramente deslocadas da realidade,
mas que servem, em sua maioria, ao objetivo de conduzir Alice na
auto-descoberta de sua libido e sexualidade. E é curioso que, apesar dessas
intenções aparecerem escancaradas desde o começo, demora um certo tempo para o
filme do diretor Bud Townsend ceder completamente ao explícito – isso acontece
numa cena em que Alice, incentivada por vozes onipresentes dos elementos da
natureza, descobre por conta própria o êxtase da masturbação (!). A partir daí
a obra de Townsend caminha numa corda bamba, buscando manter-se relativamente
fiel à obra literária original, seus tópicos e personagens, emulando sequências
musicais que independente de qualquer lapso técnico da produção (e eles são
muitos!) contribuem para uma atmosfera bem-vinda e surreal, mas sempre prestes
a despencar na gratuidade das cenas de nudez e sexo, e dele fazer um autêntico
filme pornográfico.
Em sua chegada ao tal País das Maravilhas,
Alice é despida de suas roupas pelos primeiros personagens que encontra – e que
nela vestem trajes diáfanos que nada deixam para a imaginação! A sequência da
mesa de chá, transcorrida pouco depois, mostra o Chapeleiro Maluco (Alan Novak)
a exibir, para uma indiferente Alice, seus desfavorecidos atributos (!?). Mais
tarde, toda essa trupe – Alice, o Coelho Branco, o Chapeleiro e a Lebre de
Março – encontram Humpty Dumpty (Bucky Searles), o personagem com Cabeça de
Ovo, a lamentar sua disfunção erétil (!!!) na tentativa de convencer Alice a
proporcionar-lhe sexo oral (!!!). Pouco depois, numa cena desinibida, vemos
duas enfermeiras (Nancy Dare e Terri Hall, de “Opening of Misty Beethoven”) a
rolar pela relva sem roupa numa audaz sequência de lesbianismo.
Muito do filme descamba a partir daí: Alice
encontra os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, que aqui são, na verdade, um casal
de irmãos (interpretados por Tony Richards e Bree Anthony), protagonistas da
primeira cena de sexo (incestuoso, no caso) verdadeiramente explícita do filme.
Mais tarde, surge a despudorada Rainha de Copas
(Juliet Graham) que, embora permaneça a declarar que quer a cabeça de Alice(!),
demonstra interesse real em outras partes de sua anatomia (!!!).
Ao fim, após um vai e vem bastante frenético de
situações lúbricas intercaladas por números musicais um tanto inusitados – a
mistura de gêneros confere uma atmosfera bastante desigual ao filme – Alice
retorna à biblioteca e à cena do início, onde o apaixonado William espera dela
alguma reciprocidade. Agora, inteirada de todas as questões sexuais que antes
ignorava (!), Alice está pronta para consumar seu ato amoroso e o faz numa cena
característica das produções do gênero com direito a todas as posições e
ângulos que fazem o prazer dos voyeurs (!).

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