quinta-feira, 2 de julho de 2026

Alice In Wonderland - An X-Rated Musical Fantasy


 Na década de 1970, na era do exploitation, eis que surgiu este projeto de adaptar o clássico “Alice No País das Maravilhas” – já devidamente adaptado pelos Estúdios Disney num longa de animação que capturou com estranheza as reflexões da obra de Lewis Carroll – e nele depositar um tanto da libertinagem propagada pelo movimento do ‘amor livre’ da década anterior, além de agregar a essa incomum miscelânea elementos do musical, gênero que já não dava às caras a um bom tempo no circuito comercial. Tudo isso servindo de reflexo da contracultura e compondo no painel deste pouco usual trabalho o diferencial que justificava sua existência.

Incontáveis vezes transposto para as telas, “Alice No País das Maravilhas” sempre foi uma realização que conseguia expor as características de seu próprio tempo, e não deixa de ser assim com esta produção. Aqui Alice (vivida com certa desenvoltura pela atriz Kristine DeBell) é uma jovem adulta a trabalhar em uma biblioteca. Bastante pudica, a jovem recebe a visita de William (Ron Nelson) rapaz que tem lá suas intenções libidinosas com a moça, todavia, Alice evita ceder às suas investidas – ele argumenta afirmando que Alice deve se libertar dessas amarras e começar a viver. Um pouco abalada por esse discurso (inquietação que a protagonista expressa na sequência da primeira cena musical), Alice parece adormecer e então encontra, inevitavelmente, o coelho branco. Mas, não exatamente um coelho branco comum, trata-se de um ator (Larry Gelman, no caso) maquiado e paramentado como o personagem de Carroll num registro antropomórfico.

A continuidade da trama é de conhecimento de qualquer pessoa que tenha vivido no planeta Terra, e cruzado com qualquer uma das infindáveis versões de “Alice No País das Maravilhas”; a jovem, ao perseguir o tal coelho, entra por um buraco que imediatamente a leva até no País das Maravilhas – cenário que aqui, em função do orçamento bastante limitado do filme, se converte no aproveitamento de uma floresta qualquer. Esse local é habitado por criaturas estranhas, ligeiramente deslocadas da realidade, mas que servem, em sua maioria, ao objetivo de conduzir Alice na auto-descoberta de sua libido e sexualidade. E é curioso que, apesar dessas intenções aparecerem escancaradas desde o começo, demora um certo tempo para o filme do diretor Bud Townsend ceder completamente ao explícito – isso acontece numa cena em que Alice, incentivada por vozes onipresentes dos elementos da natureza, descobre por conta própria o êxtase da masturbação (!). A partir daí a obra de Townsend caminha numa corda bamba, buscando manter-se relativamente fiel à obra literária original, seus tópicos e personagens, emulando sequências musicais que independente de qualquer lapso técnico da produção (e eles são muitos!) contribuem para uma atmosfera bem-vinda e surreal, mas sempre prestes a despencar na gratuidade das cenas de nudez e sexo, e dele fazer um autêntico filme pornográfico.

Em sua chegada ao tal País das Maravilhas, Alice é despida de suas roupas pelos primeiros personagens que encontra – e que nela vestem trajes diáfanos que nada deixam para a imaginação! A sequência da mesa de chá, transcorrida pouco depois, mostra o Chapeleiro Maluco (Alan Novak) a exibir, para uma indiferente Alice, seus desfavorecidos atributos (!?). Mais tarde, toda essa trupe – Alice, o Coelho Branco, o Chapeleiro e a Lebre de Março – encontram Humpty Dumpty (Bucky Searles), o personagem com Cabeça de Ovo, a lamentar sua disfunção erétil (!!!) na tentativa de convencer Alice a proporcionar-lhe sexo oral (!!!). Pouco depois, numa cena desinibida, vemos duas enfermeiras (Nancy Dare e Terri Hall, de “Opening of Misty Beethoven”) a rolar pela relva sem roupa numa audaz sequência de lesbianismo.

Muito do filme descamba a partir daí: Alice encontra os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, que aqui são, na verdade, um casal de irmãos (interpretados por Tony Richards e Bree Anthony), protagonistas da primeira cena de sexo (incestuoso, no caso) verdadeiramente explícita do filme.

Mais tarde, surge a despudorada Rainha de Copas (Juliet Graham) que, embora permaneça a declarar que quer a cabeça de Alice(!), demonstra interesse real em outras partes de sua anatomia (!!!).

Ao fim, após um vai e vem bastante frenético de situações lúbricas intercaladas por números musicais um tanto inusitados – a mistura de gêneros confere uma atmosfera bastante desigual ao filme – Alice retorna à biblioteca e à cena do início, onde o apaixonado William espera dela alguma reciprocidade. Agora, inteirada de todas as questões sexuais que antes ignorava (!), Alice está pronta para consumar seu ato amoroso e o faz numa cena característica das produções do gênero com direito a todas as posições e ângulos que fazem o prazer dos voyeurs (!).

Aclamada por público à sua época (a fusão desinibida entre números musicais e cenas de sexo explícito alarmou de tal forma os censores que o público ficou absolutamente ávido por conferir o filme que tanta celeuma suscitou), a ponto de ser cogitada uma refilmagem pelas mãos do famigerado diretor Ken Russell – infelizmente, jamais realizada de fato – este “Alice In Wonderland – An X-Rated Musical Fantasy” (chamado, aqui no Brasil, de “Alice No País das Maravilhas Eróticas”) escancara as evidências de seu baixo orçamento, e oferece uma disposição entusiasmada de elenco e equipe muito maior em contrapartida às suas capacidades artísticas ou técnicas assim alcançadas, no entanto, suas características de filmagem e o próprio aspecto datado da produção lhe conferem hoje um elemento charmoso e vintage que faz dele uma curiosa experiência.

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