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sábado, 13 de junho de 2026

O Palácio dos Anjos


 Produção realizada a partir de um acordo de cooperação cinematográfica com financiadores franceses, "O Palácio dos Anjos" –cujo título internacional foi o pomposo “Le Palais Des Anges Érotiques Et Des Plaisirs Secrets” ou “O Palácio dos Anjos Eróticos e dos Prazeres Secretos” –havia sido enviado à França para concorrer à Palma de ouro no Festival de Cannes de 1970 representando o Brasil ao lado de “Azyllo Muito Louco”, de Nelson Pereira dos Santos (uma transgressora adaptação de “O Alienista”, de Machado de Assis). Lançado depois de “As Amorosas” (1968), onde o diretor Walter Hugo Khouri explorava a figura de seu personagem-chave Marcelo, sob um usual prisma de referência à Antonioni, e antes de “As Deusas” (1972), no qual entra em voga uma formidável alusão à Ingmar Bergman em geral e à “Persona” em particular, "O Palácio dos Anjos", na brilhante cartilha cinematográfica que Khouri foi construindo ao longo dos anos, não era nem uma coisa nem outra: A história era, sim, baseada nas experiências de uma amiga de Khouri da época da faculdade –daí o fato de não se enxergar tanta proximidade assim em relação à outras manifestações artísticas que Khouri havia feito e que ainda faria.

Todavia, não há que se negar o mérito de “Palácio dos Anjos” ao trazer três mulheres protagonistas ao centro de questões que envolvem a luta por independência num mundo esmagador, misógino e machista.

Essas três protagonistas são Barbara (a francesa Geneviève Grad, dublada em português por Lilian Lemmertz), Ana Lúcia (Adriana Prieto) e Mariazinha (Rosana Ghessa, de “Convite Ao Prazer”), amigas que dividem um mesmo apartamento e trabalham numa mesma instituição financeira. Lá, elas sofrem assédio constante dos homens, em especial, a belíssima Barbara, cujo patrão, o inescrupuloso Ricardo (Luc Merenda, de “Torso”) a vê como seu objeto de desejo. Quando Barbara o recusa, ela é demitida. Entra na história então a personagem de Rose (Joana Fomm), uma proprietária de um bordel que sugere à Barbara trabalhar como acompanhante de luxo. Sem ceder à ideia desconfortável de expor-se num bordel, Barbara convence suas outras amigas à valer-se da lista de clientes milionários da instituição para trabalharem como prostitutas tendo como local de atendimento o próprio apartamento onde vivem, que passa a ser chamado de “Palácio dos Anjos”.

Ainda que o filme também conte com uma elegante trilha sonora de Rogério Duprat, sem falar das ótimas presenças das três atrizes principais (sempre um ponto forte numa obra de Khouri) –além de uma participação especial de Norma Bengell –“Palácio dos Anjos” foi apontado pela crítica (inclusive em Cannes) como uma desajeitada apologia à prostituição, vista na narrativa como uma solução quase mágica aos problemas financeiros e sociais das assalariadas paulistanas.

Embora seja uma obra fotografada com competência por Peter Overbeck, o filme não agradou a Khouri e nem aos seus críticos por tratar-se somente de sua segunda experiência em filmar à cores (a primeira havia sido “Fronteiras do Inferno” em 1959), resultando num inoportuno espectro cromático que ocasionalmente descamba para a poluição visual. Em projetos posteriores, Khouri aprenderia a trabalhar com a fotografia colorizada, indo muito além do mero acréscimo de cores às imagens para, com elas, construir magníficas metáforas visuais em realizações vindouras cheias de propriedade.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Idade da Terra


Glauber Rocha fez experimentalismos cinematográficos numa época em que os filmes não sofriam o processo de migrar para outras mídias: Não existia o DVD, sequer o Blu-Ray, e muito menos o hoje jurássico VHS.
É necessário saber disso para se compreender a proposta por trás de “A Idade da Terra”. Glauber Rocha procurou levar ao ápice sua capacidade de distorcer o convencionalismo incrustrado no ato de reger um filme –e até mesmo de assistí-lo.
No cinema, um longa-metragem de duas horas de duração em geral consiste de dezesseis rolos que são projetados numa ordem específica para a plateia numa sala de cinema. Ao realizar “A Idade da Terra” (inspirado, segundo consta, num poema de Castro Alves), Glauber Rocha vislumbrou a mais abstrata experiência cinematográfica baseada na estrutura básica desse procedimento.
O quê ele fez?
Ele rodou dezesseis rolos de filmagens completamente independentes e aleatórios, deixando que a ordem em que fossem exibidos ficasse à critério do próprio projecionista da ocasião. Conforme são apresentados, esses, digamos, episódios podem se relacionar, se complementar ou simplesmente se suceder sem muita explicação –ou com um sentido nebuloso –tudo depende de sua ordem.
O DVD de “A Idade da Terra” –cuja reprodução, lógico, não obedece a mecânica de uma sala de cinema –tem uma assim chamada “Montagem Sugerida” embora, claro, os dezesseis capítulos possam ser assistidos em qualquer ordem.
Por isso mesmo, não só é difícil afirmar qual é exatamente o tema proposto por essa reflexão como também existem intermináveis associações e interpretações que podem serem feitas.
Alguns deles são silenciosas composições de estilo onde Glauber exercita sua habilidade técnica; outros, são improvisos tão soltos e livres que quase esbarram na anarquia ou na escatalogia; acompanhamos um monólogo quase aleatório sobre o golpe de 1968; vemos o ator Antonio Pitanga personificar um Cristo de inclinações muitos particulares em uma alucinada disertação sobre a liberdade e a libertinagem enquanto se acha nu em uma campina ao lado de outra moça; num dos momentos mais constrangedores, um trio formado por Norma Bengell, Jece Valadão e Maurício do Valle delira sobre arte, teatro, embriagez e mitologia numa cama à beira do que parece ser um menage à trois enquanto ocasionalmente alguém da própria equipe técnica (Glauber, talvez) lhes chama a atenção para repetir a fala para que seja captada pela aparelhagem de som; Tarcisio Meira aparece como um personagem ostensivamente messiânico (outra variação de Cristo, possivelmente) em meio aos carros alegóricos de uma escola de samba; e tantas outras sequências de natureza artística, cultural, política, religiosa e afim.
Último filme de Glauber Rocha e, portanto, realizado em uma época em que ele, a exemplo de Godard, já começava a acreditar em um certo mito surgido em torno de si mesmo, “A Idade da Terra” está longe de ser uma obra acessível ou para qualquer tipo de público. É um trabalho desafiador e inconstante, fruto de uma mente que procurava, antes de mais nada, meios cada mais inesperados de transgredir em sua arte –e como tal deve ser encarado.