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quarta-feira, 26 de junho de 2024

Scarlett/E O Vento Levou 2


 Nada é sagrado em Hollywood. A regra geral, que perdura já tem muitas décadas, é que, se fez sucesso, deve ganhar uma sequência –em certos casos, nem necessita tanto sucesso assim... Improvável, portanto, que uma das realizações mais aclamadas, bem-sucedidas e portentosas de todos os tempos acabasse escapando dessa engrenagem. Quando foi lançado, seja no meio literário, seja no meio cinematográfico, uns anos depois, “E O Vento Levou”, escrito por Margareth Mitchell, foi um sucesso imediato; o filme em si, arrastou multidões para as salas de cinemas –com valores atualizados da inflação, ele continua sendo, até hoje, a maior arrecadação financeira da história do cinema, mesmo a frente de sucessos como “Avatar” e “Vingadores-Ultimato” –e saiu laureado com o maior número de prêmios na histórica cerimônia do Oscar 1940, tida como a mais disputada de todas.

Não apenas o público, mas, sobretudo, os gananciosos estúdios e produtores, sempre imploraram para a autora que uma continuação fosse escrita –até por conta do instigante final em aberto que a obra tem. Entretanto, Margareth Mitchell nunca arredou o pé; a escritora sempre se manteve firme na convicção de que a história não deveria ser continuada, permanecendo da maneira como estava. No entanto, os direitos autorais de Margareth Mitchell (que faleceu em agosto de 1949) iriam expirar nos anos 1970, foi quando se iniciaram os procedimentos para, enfim, dar continuidade à “E O Vento Levou”. Com os direitos autorais disponibilizados por seu herdeiro (no caso, o irmão de Margareth Mitchell), a trama da sequência, após muitas idas e vindas, acabou nas mãos da escritora Alexandra Ripley que publicou a continuação das aventuras e desventuras de Scarlett O’Hara em 1991 –o livro tinha tão somente o título de “Scarlett”.

Três anos depois, em 1994, já estavam em gestação os planos para que a adaptação ganhasse a luz do dia. Para espanto de muitos cultuadores do épico original –que consideravam tudo isso uma heresia! –a sequência foi uma minissérie para TV e não uma obra para cinema; aqui no Brasil “Scarlett”, ou “E O Vento Levou 2”, foi lançado, com seus quatro capítulos compactados num único filme, diretamente em homevideo.

Para o lendário papel de Scarlett O’Hara (cuja procura pela intérprete ideal, que culminou na magnífica Vivien Leigh, foi enredo do sensacional telefilme “Moviola”) foi escolhida a atriz britânica Joanne Whalley (então, casada com Val Kilmer, ela havia chamado alguma atenção no thriller “Escândalo”, de 1989) para o papel de Rhett Butler (imortalizado por Clark Gable) foi chamado o ex-James Bond Timothy Dalton (ele tinha acabado de ser substituído por Pierce Brosnan) e para o papel de Ashley Wilkes (vivido no original por Leslie Howard) foi escolhido o ator Stephen Collins (da série “O Sétimo Céu”).

Na trama, que se inicia na manhã seguinte, em relação ao desfecho do filme original, encontramos Scarlett em Atlanta, no dia do funeral de Melanie Wilkes. Após a partida de Rhett, depois da morte trágica da filha do casal, ela permanece determinada em reconquistá-lo. Contudo, Rhett deseja esquecer o passado e voltar a ser o velho soldado da fortuna desapegado de antes, e com isso, ele atrai a companhia da cortesã Belle Watling (Ann-Margret).

Numa manobra que afasta a personagem de sua essência original, é Scarlett quem se esforça para reconquistar o amor de Rhett, tornando a primeira parte da trama uma série de situações aleatórias e pouco envolventes: Retornando à Tara, a fazenda de propriedade de sua família, Scarlett descobre as dificuldades nas quais está vivendo sua irmã, Sue Ellen (Melissa Leo, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “O Vencedor”), ocupante de lá.

Em seguida, termina indo para Charleston, visitar a Família Butler e tem atritos com a mãe de Rhett (Julie Harris) na tentativa de ganhar a ajuda dela para uma reconciliação. Entre uma escapadela com sua antiga paixão, Ashley, e uma ida à propriedade de sua mãe em Savannah, enquanto é recebida por seu avô Robelard (John Gielgud), Scarlett procura reaproximar-se de seus parentes, como o primo Colum (Colm Meaney, de “Os Vivos e Os Mortos”), ordenado padre.

A partir de certo ponto, frustrada pelos infortúnios, Scarlett decide viajar para a Irlanda,

onde conhece o Lord Richard Fenton (Sean Bean), dono da propriedade Ballyhara, a casa ancestral dos O'Hara. Ela compra-lhe a propriedade e torna-se assim, a chefe da família O'Hara, contudo, Scarlett termina se envolvendo na guerra civil de outro conflito armado, um pano de fundo histórico que substitui, de forma um tanto quanto ineficaz, a Guerra de Secessão do primeiro filme. Na Irlanda, Scarlett é perseguida, violentada e presa –num enredo cuja sucessão de revezes lembra involuntariamente uma novelona mexicana! –e, acusada no tribunal, é socorrida na última hora por Rhett.

Mesmo sua fonte, o livro de Alexandra Ripley, já era incapaz de igualar a excelência da fonte original, que o diga esta adaptação limitada, básica e negligenciada –sequer teve um bom orçamento da parte de sua produtora, a emissora de TV CBS –o resultado é uma obra sôfrega, balbuciante na tentativa de acompanhar os desdobramentos do livro, incapaz de igualar qualquer lampejo de intensidade da magnânima produção que almeja dar continuidade.

Joanne Whaley podia até ser uma atriz bela, talentosa e atrativa, mas ela não consegue (como qualquer uma jamais conseguiria) se equiparar a Vivien Leigh e sua presença incandescente na personagem ímpar que ela desempenhou, o mesmo vale para Timothy Dalton que, em seus melhores momentos, se revela adequado no papel de Rhett Butler, mas nunca chega a atingir a voltagem palpitante no misto de galã e cafajeste que Clark Gable tão magnificamente foi capaz de incorporar.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Magia Negra


 A estréia na direção do ator Richard Attenborough –quase uma espécie de experimento antes de assumir as rédeas do oscarizado “Gandhi” –é um misto curioso e elegante de “Psicose” e “Brinquedo Assassino”.

Um jovem Anthony Hopkins, alguns anos antes da consagração por “O Silêncio dos Inocentes”, vive Corky, aprendiz de mágico cujo mentor, já em avançada idade, manifesta preocupação se lhe passou corretamente os segredos do ofício. Sem querer compartilhar com sua figura paterna a desilusão, Corky mente: Diz que sua primeira apresentação foi um sucesso. O velho não se deixa enganar, mas não deixa também de expressar suas esperanças no pupilo.

Há então um corte seco na narrativa –seco demais, inclusive, incapaz de passar a impressão dos anos que transcorreram –e vemos, no mesmo local, Corky desfrutando de algum êxito; ele acrescentou à sua apresentação um elemento que fez toda diferença. Agora, Corky realiza seus truques na companhia de um boneco chamado Fats, ostentando também habilidades de ventríloquo.

Entretanto, seria mesmo Fats um simples boneco?

Na sequência, vemos também que Corky tem agora um agente, Ben Greene (Burgess Meredith, de “Rocky-Um Lutador”) que providencia a ele um contrato com uma emissora de TV; a promessa de sucesso enfim se anuncia no horizonte. Entretanto, Corky se mostra estranhamente avesso aos exames médicos que um contrato com a TV exige. Subitamente revoltado, ele toma um táxi e tenta desaparecer. Volta para a mesma bucólica cidadezinha onde passou a juventude, com planos enevoados de rever seu grande amor.

A garota que ele amou, Peggy (vivida pela bela Ann Margret), é agora casada e dona de uma pousada à beira de um lago. Corky –e Fats... –chegam por lá para hospedar-se quando o marido dela, Duke (Ed Lauter), se encontra ainda ausente.

Nas reminiscências que se seguem, Peggy confessa a deterioração de seu casamento e Corky declara seu amor. Eles passam a noite juntos e, logo, planos para fugirem para sempre são feitos. No entanto, Peggy não sabe que a inocente e divertida habilidade de Corky em interagir com seu boneco Fats é mais que mera ocupação: Mesmo nos momentos de solidão, a personalidade do boneco, muito mais agressivo e sem freios morais, interfere sobre a dele, quase coagindo-o.

Para piorar tudo, Ben aparece, seguindo as pistas do paradeiro de Corky e, ao demonstrar preocupação com sua condição psicológica assim descoberta, acaba oferecendo à Corky os motivos para eliminá-lo. Na manhã seguinte, Corky não apenas tem o cadáver de Ben para consumir, mas o marido de Peggy em regresso de viagem com o qual lidar.

Realmente não restam dúvidas da tremenda influência de Hitchcock neste bom trabalho de Attenborough, certamente assolado por uma ou outra consequência do amadorismo –sendo o ritmo lento provavelmente o maior de seus empecilhos –mas, ele emprega muito bem as lições deixadas sobre tudo em “Psicose”: Anthony Hopkins interpreta uma variação bastante vívida de Norman Bates, onde as neuroses de seu personagem se refletem no boneco que ganha vida ao seu lado. A questão sobrenatural (ou não) a envolver o boneco –salientada no clima evocado na trilha sonora de Jerry Goldsmith –é uma sugestão deliberadamente mantida até onde se pode, até que os elementos corriqueiros do suspense de fato se façam notáveis.

Trata-se de um filme simples, trabalhado com dedicação, amparado em eficazes influências cinematográficas e interpretado acima de tudo com brilhantismo –resultado do fato de ser dirigido por um ator. Se ao final tem-se a sensação de um término deveras abrupto –ou mesmo de que pouca coisa realmente relevante deu-se ao longo de sua duração –isso, e outros lapsos, se devem pela inexperiência de seu realizador. Algo que pode ser completamente relevado diante do bom entretenimento que ele proporciona.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Cactus Jack - O Vilão


Uma diversão só este filme!
Longe de incursões pretensiosas em variações do gênero faroeste que definiram a produção dos anos 1960 e 70, o trabalho do diretor Hal Needham, lançado em 1979, é de tal forma descompromissado que seu objetivo não parece nem mesmo fazer de seus três personagens principais variações debochadas dos três protagonistas de “Era Uma Vez No Oeste” –o que, no princípio, ele até dá a impressão de ser.
Lembra um pouco o vilão de Henry Fonda o azarado bandido Cactus Jack Slade interpretado por Kirk Douglas na plenitude de seu timing cômico –pouco explorado ao longo de sua carreira. Assim como o personagem de Arnold Schwarzenegger, Forasteiro Bonitão (sim, esse é nome do personagem!), ligeiramente parece fazer as vezes do pistoleiro vivido por Charles Bronson, o que torna a insinuante mocinha interpretada por Ann-Margret, uma versão ainda mais melindrosa e estonteante da heroína vivida por Claudia Cardinale.
Na cena que abre o filme (hilária, por sinal), já descobrimos o potencial para o infortúnio do bandido Cactus Jack: Ele quer se firmar como grande bandido no Velho Oeste –e para tanto, até cata dicas em livretos com histórias de Jesse James, Billy The Kid e outros –mas, todas os seus planos dão errados, em muitas das vezes, por conta de seu cavalo, Uísque, que não resiste à tentação de ocasionalmente sacaneá-lo.
No entanto, um banqueiro pra lá de inescrupuloso (Jack Elam, ator presente, aliás, no elenco de “Era Uma Vez No Oeste”) aparece com uma proposta: Quer que Cactus Jack realize um roubo!
A vítima em questão é a mocinha Charmosa Jones (Ann-Marget, a tentação em pessoa) que levará numa carroça um empréstimo polpudo para a mina de prata de seu pai. No caminho, ela conta com a proteção do fortão e inocente Forasteiro Bonitão, em cima de quem joga charme o filme todo sem muito resultado.
Com essa premissa que lembra mais um desenho animado de Hanna-Barbera, o diretor Hal Needham (cujos créditos incluem a comédia de perseguição “Agarra-Me Se Puderes”) constrói o seu filme, dando ao roteiro –a partir do momento em que Charmosa e Bonitão pegam a estrada e os incessantes planos atrapalhados de Cactus Jack se iniciam –uma estrutura episódica, onde as presepadas físicas do atrapalhado vilão se sucedem.
No desfecho, inesperado para alguns, a narrativa até presta uma manobra de simpatia em favor de seu desafortunado (e, no fim das contas, simpático) vilão.
Parece muito com o humor pastelão de Blake Edwards na série “A Pantera Cor-de-Rosa”, com um resultado igualmente saboroso e engraçado.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tommy

Vindo de um amplo esforço que Ken Russell moveu em sua carreira a fim de conciliar, num estilo vibrante, vigoroso e desafiador, o cinema e a música (e cujos exemplares ainda não dei a devida atenção), a adaptação da ópera-rock da banda inglesaThe Who é um dos filmes que define a reputação infame do extravagante diretor Russell, levando essa percepção a se sobrepor à excelência que ele demonstrou em outros trabalhos que ficaram menos conhecidos.
Na obra, conduzida de forma a arrebatar os sentidos do público –e, não raro, deixar nele uma sensação de desconforto e ar rarefeito –Russell leva suas câmeras a acompanhar a singular trajetória do desafortunado garoto Tommy (Roger Daltrey, membro do próprio grupo, cuja falta de experiência como ator serve aos propósitos de Russell) vítima de um trauma –ele flagra a própria mãe (Ann-Margaret) e seu amante (Oliver Reed) assassinando e ocultando o corpo de seu pai (!) e sofre severa recriminação por isso –que o deixa cego, surdo e mudo (!!). A partir daí, a vida quase vegetal de Tommy (que chega a sofrer abuso) contada ao som das irônicas, inquisitivas e constantemente impiedosas canções do The Who toma um rumo inesperado quando ele se torna um improvável campeão de pinball (!!!), derrotando o indignado campeão do mundo, o Mago do Pinball, vivido por Elton John –uma das inúmeras participações especiais de astros da músicas que o filme oferece.
Sua família se torna rica às custas dessa habilidade de Tommy, até que ele consegue, num momento de transcendência, se curar –enquanto que, paralelamente, os excessos da vida milionária proporcionada pelo próprio Tommy, levam sua mãe e seu padrasto à um colapso.
Adulto, Tommy vira então o líder de um culto messiânico e, por algum tempo, mobiliza uma legião de seguidores, até perder tudo e ser abandonado.
Ao som agressivo do rock dos anos 1970, este filme, não obstante ao fato de ser repudiado por algumas platéias que se ressentiram de sua natureza pungente, tornou-se cultuado por fãs que reconheceram a imensa propriedade com que o diretor Ken Russell adaptou o célebre álbum do The Who, preservando-lhe a verve fortemente crítica, a acidez, os violentos e dilacerantes arroubos existenciais, ainda que por vezes continue sendo uma obra desgastante, desconexa e de difícil acessibilidade por parte daqueles expectadores incapazes de abraçar as extravagâncias estéticas, gestuais e sensoriais de seu realizador.