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terça-feira, 30 de agosto de 2022

Benedetta


 Filmes como “Benedetta” são um belo argumento para a existência de autores como o holandês Paul Verhoeven no panorama do cinema atual, tão prejudicado por posturas ideológicas e politicamente corretas –muitos já perceberam a ausência cada vez maior de comédias nos meios de exibição, tão temerosos os realizadores ficaram de ofender a tudo e a todos. E hoje em dia, sabe-se, as pessoas se ofendem por qualquer coisa...

Verhoeven ao que parece, e graças aos céus, não liga para nada disso. Deste seu início de carreira nos anos 1970 até os dias atuais, ele parece perseguir um entendimento humano no qual sua avaliação sobre os infindáveis contextos sobre os quais trabalhou incluem facetas que muitos realizadores (especialmente aqueles atrelados ao modo de trabalho hollywoodiano) preferem  ignorar ou omitir, sobretudo, no que tange à inescapável sexualidade.

“Benedetta” não abre mão de nada disso e ainda se atreve a abordar um tema que nove entre dez diretores tem medo de adentrar: A religião. Sua trama parte de uma história real registrada por documentos católicos datados do Século XVII, na Itália, o julgamento de Benedetta Carlini por crimes de heresia.

Mas, Verhoeven, como todo o bom diretor, começa pelo princípio: A jovem Benedetta mal tinha completado seus catorze anos quando seu pai, um abastado fidalgo da Toscana, a levou para viver em um convento como cumprimento de uma promessa feita à Deus, e na cena que abre o filme, vemos as predisposições da pequena Benedetta a relacionar acontecimentos aparentemente aleatórios favoráveis à intervenções divinas –ou seria mesmo que algo de fora do comum cerca de fato aquela menina?

Essa será a dúvida que atravessará todo o filme, persistindo mesmo nos momentos cruciais –e Paul Verhoeven parece se divertir a valer encontrando formas petulantes, pontuais, elegantes e travessas para fazer a manutenção desse questionamento.

Dezoito anos depois, e agora interpretada pela bela e interessante Virginie Efira (com quem Verhoeven já havia trabalhado em “Elle”), Benedetta é uma das irmãs da abadia comandada pela Madre Superiora Irmã Felicita (Charlotte Rampling), uma freira com sérias e reprimidas ressalvas em confiar nos desígnios de Deus. A fé de Benedetta, por outro lado, é mais que inabalável, ela é metafísica (!): A freira tem visões nas quais enxerga Jesus Cristo como um pastor de cabras humano, palpável e real, seu marido, enfim.

Sejam surtos delirantes, sejam visões celestiais, os delírios de Benedetta a levam à uma condição que as religiosas em geral não são capazes de entender ou explicar –muito menos a Madre Superiora, francamente inclinada a tomar tudo como loucura: Em seus pulsos e tornozelos surgem chagas semelhantes aos estigmas de Cristo. A situação de Benedetta,contudo, leva ela a ganhar uma espécie de cuidadora nas formas da Irmã Bartolomea (Daphné Patakia, sensacional), uma jovem recolhida nas dependências do convento dias antes e que fora estuprada pelo pai e pelos irmãos.

A intimidade resultante entre Benedetta e Bartolomea leva as duas a uma tensão sexual e, logo mais, a um interlúdio lésbico de fato (filmado com a perícia artística e a desenvoltura visual impecáveis que sempre caracterizaram Paul Verhoeven), enquanto que paralelamente, novas visões de Benedetta convencem de tal maneira o reverendo da abadia que ele termina nomeando Benedetta a nova abadessa, removendo o título da Irmã Felicita.

Esse equilíbrio de poder se mostra tênue quando Felicita –impelida pelo trágico suicídio da filha, também ela uma das freiras do convento –foge para Florença e lá alerta o Nuncio Alfonso Giglioli (Lambert Wilson, pernicioso feito uma serpente) sobre os milagres atribuídos à Benedetta e a corrosiva possibilidade de que tudo seja uma encenação. Instalam-se então as circunstâncias para um julgamento onde já não estão mais em jogo os conceitos de verdade ou mentira, mas sim as importâncias políticas que serão mais convenientes à preservação do poder da Igreja.

É bastante irônico, e até admirável, que, ao moldar uma obra com todas as características do violento, tenso e sanguinário subgênero da Inquisição, Paul Verhoeven, sem fazer concessão alguma e sem jamais abrir mão das inquietações tão caras ao seu cinema, tenha conseguido urgir um filme até que leve e agradável de ser acompanhado. Claro que todos os elementos que definem Verhoeven enquanto realizador comparecem –sua ousadia, sua salutar provocação às definições morais, sua empatia pelos corruptos sinceros mais que pelos dissimulados moralistas, e sua disposição em converter sexo e nudez na mais espontânea das ferramentas narrativas –entretanto, ele parece valer-se de “Benedetta” e da formidável história que ela conta para levar uma interessante posição reflexiva ao expectador: A de que, por mais suscetíveis à cada uma das tentações e fraquezas da carne, o ser humano pode, sim, almejar uma proximidade com o Divino, e Dele esperar Sua benção.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Sem Controle


 Filmes sobre jovens desportistas existem aos borbotões, e “Sem Controle”, que marca ruidosamente a fase holandesa do diretor Paul Verhoeven antes de migrar para os EUA, ameaça ser uma realização nesses moldes em seus primeiros minutos de duração. Basta, porém, que as trajetórias a envolver seu trio de protagonistas comecem a revelar seus avanços para que possamos perceber a perspicácia feroz com que Verhoeven sabe transfigurar expectativas cinematográficas e distorcer pressuposições de convenção valendo-se do mais puro e afiado cinismo –algo que parece, ao menos na percepção de hoje, bastante a ver com a geração que ele diz retratar: Jovens holandeses enfastiados com a postura ‘paz & amor’ da geração anterior, turbinados pela rebeldia da emergente cultura punk, às voltas com a inconsequência e brutalidade a envolver sua nem sempre tranquila sexualidade.

Os protagonistas de Verhoeven, aqui, são Rien (Hans Van Tongeren), Eef (Toon Agterberg) e Hans (Maarten Spanjer), todos eles envolvidos com as disputas tumultuadas de motocross.

O mais promissor dos três, Rien sinaliza o grande campeão que parece predestinado a ser; enquanto Eef, vindo da opressão de uma família religiosa, é seu mecânico; resta ao desengonçado Hans ficar à sombra desses dois na dinâmica que construíram em sua amizade.

No registro frenético, colorido e pulsante da juventude que realiza, Verhoeven não esconde a clara influência de “Os Embalos de Sábado À Noite” em seu trabalho; inclusive, menções à John Travolta e posteres de seus outros filmes não faltam em cena.

Entretanto, a personagem mais curiosa e interessante do filme –e indicativa do talento e da predisposição em fazer-se moralmente ambíguo em Verhoeven –é Fientje, interpretada com inteligência, sagacidade e sensualidade por Renée Soutendijk (que, três anos depois, fez “O Quarto Homem”, com Verhoeven, também ao lado de Jeroen Krabbé). Fientje é ambiciosa e trabalha num trailer com o irmão a vender frituras durante as corridas, em suas atitudes perante o público e os demais personagens, fica claro que ela é movida muito menos por romantismo e muito mais por pragmatismo: Seu alvo inicial, dentre os três amigos é certamente Rien, o qual ela não pestaneja em roubar da dedicada namorada Maya (Marianne Boyer). Por um golpe do destino, porém, Rien sofre um acidente e acaba confinado a uma cadeira de rodas. O próximo alvo da lista de Fientje é, portanto, Eef, que tenta convencê-la das finanças elevadas que possui –na verdade, Eef obtém esse dinheiro roubando michês nas ruas de Roterdan. Numa dessas noites, ele inevitavelmente se dá mal, e cada estuprado por um grupo de garotos de programa. Numa manobra extremamente criticada e polemizada à época, Eef acaba levado, pela experiência do estupro, à admitir sua própria homossexualidade –arco dramático controverso, certamente, mas elaborado e conduzido pelo diretor com notável coerência.

Resta à Fientje o jovem e aparvalhado Hans, cujo desempenho nas pistas de corrida serve, quando muito, aos interesses desprezíveis do atual campeão da modalidade e de um repórter interesseiro e dissimulado (ambos interpretados respectivamente por Rutger Hauer e Jeroen Krabbé, em breves papéis secundários).

Habilmente, Verhoeven jamais esquece o zelo e a precisão ao acompanhar a narrativa de cada um dos protagonistas, gradativamente cada vez mais distante de um mero filme sobre corridas: O confinamento do amargurado Rien à uma cadeira de rodas, o que o leva a um ressentido reencontro com Maya e à uma dolorosamente sarcástica tentativa de vislumbrar alguma fé em Deus; a homossexualidade de Eef, a definí-lo como antagonista do próprio pai com cada vez mais violência e contundência; e o caminho trilhado por Hans que, ao cruzar-se com Fientje, parece descobrir novos atalhos para um destino algo razoável –o que, na comparação com os apuros dos outros dois, não é algo para se reclamar...

Pavimentando este filme curioso e sempre envolvente sobre as aflições do jovem proletariado holandês, o estilo de Verhoeven –que vinha de um retrato romantizado, ainda que ácido, das classes abastadas com “Soldado de Laranja” –comparece com a ousadia que lhe é, até hoje, habitual: Cenas explícitas de nudez e sexo, inclusive com momentos que não se furtam de romper os limites de um filme convencional e entregar trechos desconcertantes. Essa autenticidade na caracterização de tais cenas custou à Verhoeven uma tremenda polêmica na época em que “Sem Controle” foi lançado na Holanda, em 1980. Revisto hoje, com a controvérsia fazendo um sentido bem menor em seu contexto –e diante da solidez que, nesse sentido, Verhoeven manteve em sua carreira –“Sem Controle” é um belo e corajoso retrato de uma juventude no limiar de suas próprias mazelas, às voltas com questionamentos e dilemas de ordem moral e social, definitivos para seu sucesso ou sua derrocada.

Uma realização cheia de ousadia, energia e talento, plenamente digna de um grande diretor.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O Quarto Homem


 Com alguma atenção, pode-se notar neste suspense realizado ainda no princípio dos anos 1980, inúmeros elementos que o diretor Paul Verhoeven viria a lançar mão mais uma vez em seu sucesso “Instinto Selvagem” na década seguinte.

Como nele, há uma mulher potencialmente loira, sedutora e mortal, bem como um senso de humor corrosivo e sádico, no qual a possibilidade de perigo nunca deixa de ser uma impressão a rondar exclusivamente a cabeça do protagonista, fazendo ser ele o único personagem a presumir aquilo que é tornado óbvio aos olhos do público.

“O Quarto Homem” já se inicia assim com elementos abertamente indicativos da celeuma que virá: Numa teia tecida entre figuras de santos católicos, uma aranha captura as moscas inadvertidas que grudam-se ali –Verhoeven admitiu a redundância deliberada com a qual elaborou metáforas tão supérfluas em sua narrativa, tudo na intenção de irritar os críticos!

Escritor oscilando entre a pobreza e uma ocasional mordomia proporcionada pela repercussão de algumas obras, o holandês Gerard Reve (Jeroen Krabbé), às voltas com um compulsivo alcoolismo e com seus nada apropriados impulsos homossexuais –ele chega a perseguir um rapaz que julga atraente numa estação de trem! –vai à uma cidadezinha litorânea prestar uma palestra a um grupo de fãs locais. Lá conhece a enigmática, interessante e andrógina Christine Halslag (Renée Soutendijk), cujo manuseio de uma câmera, de início, o irrita aparentando nunca deixá-lo em paz. No entanto, Christine sugere hospedá-lo em sua casa, numa alternativa ao quarto de hotel reservado, com o qual Gerard tivera um incômodo pesadelo durante a viagem de trem –um dentre inúmeros lampejos premonitórios que a narrativa de Verhoeven planta aqui e ali com perversidade hitchcockiana.

Gerard é seduzido por Christine descobrindo, no dia seguinte, que ela é muito rica –devido à um salão de beleza herdado do último marido –e que o mesmo rapaz visto (e cobiçado) por Gerard na estação de trem no dia anterior é também amante dela.

Disposto a usar de estratagemas para seduzir o jovem, Gerard convence Christine a recebê-lo em sua casa enquanto está instalado ali, porém, a medida que dá continuidade aos seus planos de seduzi-lo, Gerard vai se deparando com indícios –nunca nítidos o bastante –de que Christine possa ter matado seus três maridos anteriores; e que, no decurso convencional de seus planos, Gerard (ou talvez, o rapaz) possa ser o marido morto número quatro (!).

Travesso na condução sádica e sarcástica dessas impressões, Verhoeven jamais deixa que esses indícios presentes em seu filme –e, no final, determinantes do suspense que ele é –deixem de serem nebulosos o bastante para que comprovem as suspeitas do protagonista. O perigo do qual ele gradativamente se dá conta, afinal, existe ou não? Numa audácia impraticável em Hollywood (para onde Verhoeven foi logo após este trabalho), o filme jamais abandona a decisão de manter-se ambíguo em relação às suas constatações, e esse é apenas um dos inúmeros aspectos notáveis de “O Quarto Homem”.

Oriundo de um ramo muito peculiar de cinema vertido na Holanda –ao qual pertencem outras obras do período como o festejado “O Silêncio do Lago” original –este trabalho de Verhoeven embala na sua premissa mercadológica de tensão e suspeitas uma série de questionamentos de ordem mais liberal e digamos regional, onde estão em relevo a misoginia, e as questões homossexuais a atormentar o protagonista, tudo justaposto e centralizado na relação afetiva envolvendo uma mulher. O talento demonstrado por Paul Verhoeven foi usar desses elementos para construir aqui um suspense acima de tudo envolvente e intrigante a despeito de tendências remanescentes e impressões adjacentes da época à que ele pertence.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Robocop

Quando assistimos “Robocop” sabendo que o protagonista poderia ter sido interpretado por Rutger Hauer, nos pegamos o tempo todo indagando quão ainda mais sensacional não teria sido se o astro holandês não tivesse se desentendido com o diretor também holandês Paul Verhoeven, em algum momento das filmagens do ótimo “Conquista Sangrenta” interrompendo uma parceria que trouxe ambos da Holanda-natal para os EUA.
No lugar de Hauer, foi escolhido Peter Weller que fez um trabalho memorável o suficiente para que sua carreira fosse marcada para todo o sempre pelo personagem.
O começo do filme já deixa bem claro que a migração para o cinema hollywoodiano comercial não amenizou o sarcasmo inerente ao estilo do diretor: Um noticiário de TV, pulsante de ironia e humor negro, mostra dois âncoras de telejornal relatando trágicas notícias ao redor do mundo com frivolidade e até certa indiferença –impressionante como algumas dessas notícias, fantasiosas para os anos 1980 de então, soam até bem plausíveis para os dias de hoje... –é aí que descobrimos que a força policial naquele futuro não é mais um orgão federal, mas uma empresa privada, e enquanto os policias, seus funcionários, discutem a possibilidade de uma greve, a OCP (Omni Consumer Products), empresa que lhe fornece equipamento, já trabalha num projeto para substituir a mão de obra humana, por assim dizer.
A ideia inicial, vinda do vilanesco vice-presidente da companhia Dick Jones (Ronny Cox, de “Amargo Pesadelo”), um andróide denominado ED-209, dá completamente errado, fulminando a tiros um dos executivos da OCP; entra em cena, então, o engravatado Bob Morton (Miguel Ferrer, de “Vingança”) com a alternativa conhecida como Robocop: Um ciborgue, meio homem, meio máquina, criado a partir dos restos mortais de um policial, garantindo um produto mecanicamente eficiente, porém, com instinto humano para agir.
Não tarda a surgir, então, a cobaia perfeita: Recém-integrado ao seu distrito, o policial Murphy (Peter Weller), ao lado de sua parceira, a oficial Lewis (Nancy Allen, de “Vestida Para Matar”), persegue um bando de criminosos liderados pelo pretendente à chefão do crime Clarence Boddicker (Kurtwood Smith, de “Sociedade dos Poetas Mortos”), acabando emboscado e morto –numa cena extremamente sangrenta e sádica, indicativa dos padrões que diferenciavam bastante o diretor Verhoeven de outros artesões mais contidos e convencionais do período.
Praticamente morto, Murphy tem sua consciência, e partes irrisórias do corpo preservadas, integrando assim o Projeto Robocop: Agora convertido em um ciborgue (e com suas memórias apagadas), ele habita um poderoso corpo sintético, regido por programações avançadas implantadas em seu próprio cérebro.
O novo policial da chamada Velha Detroit é assim efetivo, eficaz e implacável –e essencialmente impessoal, também, como fica claro quando ele salva uma mulher de uma tentativa de estupro; o Robocop é infalível na retaliação contra os criminosos, mas não tem qualquer respaldo emocional ou afetivo a oferecer à pessoa ali desamparada –e nesse registro das mazelas sociais de amanhã, hoje e sempre em colisão com um conceito tão formidável de ficção científica, o diretor Verhoevem cria um comentário cheio de humor e refinamento sobre as sementes do totalitarismo que sempre poluíram os discursos progressistas norte-americanos.
Em seu visual deliberadamente fantástico, “Robocop” até parece uma adaptação de histórias em quadrinhos, embora não o seja, mas é certamente pioneiro em relação ao cinema comercial, ao usar de seu formato escapista para materializar uma trama carregada de observações políticas: As empresas, sobretudo, a OCP almejam controlar a criminalidade exclusivamente para que sejam iniciadas as obras para a construção de Delta City, a cidade futurista erguida sobre os escombros da Velha Detroit, o que faz de Robocop e seu desempenho no combate ao crime apenas uma peça no jogo corporativo.
E por isso, quando suas memórias e sua humanidade em algum momento começam a regressar, ele acaba descobrindo o envolvimento do criminoso Clarence com Dick, o que pode colocar toda a força policial contra ele.
Um clássico da década de 1980 com todas as letras, “Robocop” é mais um título a integrar a brilhante filmografia de Paul Verhoeven que, a partir dele, revelou-se também um grande diretor de obras de ficção científica –outros belos exemplares foram “O Vingador do Futuro”, com Arnold Schwarzenegger, e “Tropas Estrelares” –aqui, ele assimila com inteligência certos elementos que remetem à linguagem dos quadrinhos, evidenciando em diversos momentos simbólicos a predisposição heróica (messiânica até) do Robocop e seu imponente visual.
Uma pena que, na franquia claudicante que originou, este magistral primeiro filme continue sendo a honrosa exceção: Todas as continuações, derivações e imitações feitas de “Robocop” nos anos seguintes foram incapazes de igualar sua arrojada mescla de ação, futurismo e crítica social.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Homem Sem Sombra


Kevin Bacon não tinha noção de encrenca em que se meteu ao aceitar protagonizar este projeto que atualizava os conceitos de “O Homem Invisível” de H.G. Wells.
Em princípio, era de se imaginar que a equipe de efeitos especiais se encarregaria de tudo, entretanto, o que o diretor Paul Verhoeven tinha em mente era uma aplicação inédita e arrojada de efeitos visuais que tornassem invisíveis um ser humano em cena.
Para tanto, a presença física e o tempo todo palpável de Kevin Bacon, embora sempre em cena é apagada através de truques digitais inéditos (que só não levaram o Oscar de Efeitos Visuais na cerimônia de 2001 porque a Academia tinha em mais alta conta a reconstituição visual do Coliseu realizada em “Gladiador”): Para que isso fosse possível o ator precisou submeter-se a uma das mais dolorosas experiências de sua carreira, onde teve o corpo nu (pois era assim que ele precisava estar em cena) todo pintado de azul ou verde (cores que poderiam ser apagadas no kroma-key) inclusive seus orgãos genitais e seus olhos que eram cobertos por imensas lentes de contato.
Como resultado desse esforço, o filme de Verhoeven revela-se sensacional.
Arrogante e presunçoso, o cientista Sebastian Caine (Kevin Bacon, que ainda por cima entrega uma atuação formidável) lidera uma equipe de técnicos empenhados em buscar o segredo da invisibilidade: Numa das primeiras cenas vemos a surpreendente experiência ser submetida num gorila.
Uma série de incertezas científicas emperra o projeto, mas Sebastian está convicto de que um teste em seres humanos deve ser feito. Desejoso do reconhecimento, o egocêntrico Sebastian decide ser, ele próprio, cobaia da própria experiência e sujeita-se a ser o primeiro ser humano tornado virtualmente invisível –e a sequência em que a invisibilidade se torna possível, onde testemunhamos o corpo do protagonista desaparecer, camada após camada, é digna de palmas!
Contudo, efeitos colaterais inesperados acontecem (e se intensificam quando o procedimento se revela irreversível): A solidão completamente de sua condição, bem como as inúmeras posssibilidades morais e imorais à sua disposição levam Sebastian a abandonar seus escrúpulos –o que não se vê, afinal, não convém à punição –e ele gradativamente se torna mais perigoso, traiçoeiro e implacável.
E certamente isso se mostra particular arriscado para sua ex-namorada Linda McKay (Elisabeth Shue), membro de sua própria equipe, que agora namora às escondidas, o pesquisador e amigo de Sebastian, Dr. Matthew Kensington (Josh Brolin).
A despeito dos efeitos especiais inquestionavelmente espetaculares e da fantástica presença de Kevin Bacon, “O Homem Sem Sombra”, ainda assim, se torna o filme memorável que é graças ao tom de imprevisibilidade conferido pela narrativa de Paul Verhoeven que corajosamente agrega à premissa deste filme comercial elementos como violência, nudez e sexo (comuns à sua filmografia, mas certamente transgressivos em uma obra hollywoodiana como esta). E olha que os produtores ainda pressionaram para que fosse deletada uma infame cena de estupro que faria parte essencial do roteiro.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Vingador do Futuro 1990 e 2012


Uma das mais sensacionais aventuras protagonizadas por Arnold Schwarzenegger, “Total Recall” talvez tenha sido o primeiro blockbuster a unir o kistch desavergonhado e charmoso dos anos 1980 com o cinismo (já típico no cinema do holandês Paul Verhoeven) que viria a definir uma certa postura da indústria nos anos 1990.
Como muitos filmes fantasiosos daquele período, “O Vingador do Futuro” exige certa cumplicidade dos expectadores de hoje, certo entendimento da maneira precariamente incisiva com que eram realizadas e compreendidas as coisas.
Só essa consideração já viabiliza em si a presença de Schwarzenegger interpretando um operário da construção civil no futuro –papel de homem comum que, em si, soaria incabível a alguém como ele, mas que o filme de Verhoeven faz com que seja uma das razões para a diversão.
Schwarzenegger é assim Douglas Quaid. Morador do planeta Terra do ano de 2048, casado com a bela e estranhamente condescendente Lori (Sharon Stone, pouco antes do sucesso de “Instinto Selvagem”, por sinal, do mesmo Verhoeven), ele começa a perceber estranhos indícios de que a vida que vive não lhe parece bastar.
Movido por essa despropositada indignação, Quaid decide encarar um inovador "pacote de férias" onde ao invés de uma dispendiosa viagem, a companhia encarregada lhe proporciona implantes de memória destinados a simular uma viagem para qualquer lugar do sistema solar.
Quaid escolhe ir para Marte, no entanto, algo sai errado e ele se vê perseguido por misteriosos agentes, muitos interessados em matá-lo de uma vez.
Ao que tudo indica, já haviam outros implantes de memória em sua mente, e ele nunca foi um mero operário. Em busca de respostas ele ruma para o planeta Marte de fato, onde um importante papel numa insurreição o aguarda.
Para os padrões de filmes que Schwarzenegger havia protagonizado –e mais ainda, para os padrões da platéia que ele construiu com esses filmes –a trama de “O Vingador do Futuro” é demasiada complexa e intrincada; e sendo ela baseada em livro de Phillip K. Dick, com seus costumeiros questionamentos sobre quem e o que somos, não poderia ser mesmo diferente.
A junção de facetas tão aparentemente incompatíveis (um roteiro melindroso cheio de ramificações e reviravoltas que confundem a elucidação e um filme de ação de aparência descerebrada, com um astro de filmes de ação notoriamente descerebrados) parece ser, contudo, o grande diferencial em torno do qual o diretor Paul Verhoeven revela de fato entusiasmo em trabalhar: A partir desses elementos absolutamente desconcertantes no que tange a um filme de intenções tão assumidamente comerciais, o holandês maluco entrega um filme sanguinolento, ágil, sensual e repleto de variados e à época realmente impressionantes efeitos especiais.


Ao orquestrar, em 2012, um corre-corre frenético abarrotado de efeitos especiais que buscava refilmar o sucesso dos anos 1990 com Schwarzenegger, o diretor Len Wiseman (de “Anjos da Noite”) realizou um produto comercial –exemplo perfeito do tipo de cinema que ele exerce –assombrado por diversas outras obras além daquela que ele tentou atualizar: Também oriundos da mente do escritor Phillip K. Dick, “Blade Runner” e “Minority Report” são talvez ainda mais determinantes para as opções visuais encontradas aqui, assim como a trama rocambolesca (ou talvez, pretensamente rocambolesca) costurada ao redor de mistérios nebulosos da mente que busca remeter à atmosfera hipnótica de “A Origem”.
Se Paul Verhoeven abraçou o inusitado de seu filme como uma escolha convicta de estilo, Wiseman quer optar vaidosamente pela elegância: No papel que antes soou tão desigual em Schwarzenegger aqui está o (bom) ator Colin Farrell que, justamente por sua adequação, nada acrescenta ao personagem.
A trama continua a se ambientar num futuro distante (e as maravilhas tecnológicas, agora materializadas por efeitos digitais de última geração, cuidam de distanciar ainda mais esse mundo da realidade). Nada de Marte desta vez: Por mais que a Terra encontre-se quase inabitável, as únicas regiões povoadas do planeta são a F.U.B. (a metrópole rica e elitizada) e a "Colônia" (uma espécie de favela high-tech), ambas conectadas por um grande elevador que atravessa o núcleo do planeta.
Em meio a uma dissidência entre o governo opressor que impõe subserviência ao proletariado e a resistência daqueles que buscam igualdade, o operário Doug Quaid (Farrell) descobre que as memórias que possuía até então lhe foram implantadas, e que sua real identidade é a de um importante agente da resistência, o quê pode explicar a violenta perseguição da qual ele passa a ser vítima.
A diferença mais pontual entre os dois filmes (e a que têm mais inspiração também) surge aí. A melhor sacada de Wiseman foi fundir dois personagens do filme anterior num só: O perseguidor vilanesco vivido por Michael Ironside e a esposa de embuste interpretada por Sharon Stone são combinados na personagem sarcástica, implacável e divertida de Kate Beckinsale (por sinal, esposa de Len Wiseman e também protagonista de “Anjos da Noite”).
Pena que, talvez como conseqüência disso, os outros personagens careçam tanto de brilho: A mocinha tão bem intencionada que dá sono de Jessica Biel (particularmente muito má empregada na reformulação de uma das cenas mais interessantes do filme original) e o líder dos perseguidores, um vilão completamente raso vivido pelo normalmente excelente Bryan Cranston.
Este novo “Total Recall” foge dos enigmas intrincados do filme anterior, optando por uma trama de perseguição que, em sua maior parte, soa mais inteligível e acessível. E todas as escolhas do diretor Wiseman vão, aos poucos, impondo uma atmosfera que de fato afasta-se do trabalho de Verhoeven.
Entretanto, chega um ponto em que Wiseman precisa e deve dizer a quê seu filme veio afinal –é quando o novo “Vingador do Futuro” dá suas mais espetaculares escorregadas: Se o tom kistch imposto pelo diretor Verhoeven funcionava muito bem no filme de 1990, aqui a seriedade de Len Wiseman lhe tira muito da graça que poderia ter tido.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Traição

Do alto de seus 79 anos de idade, o diretor holandês Paul Verhoeven ainda guarda fôlego e ânimo para algumas traquinagens. Cerca de seis anos depois de seu “A Espiã” –onde revisitava com perícia e habilidade um tema que ele havia explorado muito bem no fim da década de 1970, com “Soldado de Laranja” –ele criou este pequeno e até certo ponto experimental conto sobre adultério e mentiras, destituído do drama comiserativo que nove entre cada dez cineastas imprimem ao tema: No filme que Verhoeven construiu, prima o humor, ainda que esta não seja uma comédia. É, na realidade, a vida em seus inescapáveis rompantes de ridículo a que todos estamos expostos, e sob a luz dessa reflexão, Verhoeven passeia por diversos gêneros com tal agilidade desenvoltura que é de se lamentar o intervalo notadamente longo que ele tem entre um projeto e outro.
Remco (Peter Blok) é um pai de família holandês que administra –de maneira um tanto quanto mais idealista do que seus sócios –uma empresa de construção. E Remco, como ficará evidente mais a frente, é do tipo que, digamos, não resiste a um rabo de saia.
Quando o filme começa somos arremessados nos preparativos de seu aniversário de 50 anos e, assim sendo, no turbilhão de folhetim que envolve sua vida: Sua esposa Ineke (Ricky Koole), ainda que amargurada pelas escancaradas traições do marido, está disposta a prosseguir com a festa; sua filha Lieke (Carolien Spoor), a revolta em pessoa, tem na amiga Merel (a pra lá de deliciosa Gaite Jansen) a única pessoa em quem confiar –isso pelo menos até ela descobrir que Merel é mais uma das amantes de seu insaciável pai! Já, o filho de Remco, Tobias (Robert de Hoog), divide-se entre o hobby da fotografia –que ele adora –o flerte constante com Merel –que ele deseja –e uma indiferença para com tudo o mais.
Na ciranda de meias verdades que envolvem estes personagens outros aparecem para intensificá-la: Wim (Jochum ten Haaf), o sócio dissimulado e traiçoeiro de Remco que pretende vender a empresa à revelia dele e Nadja (Sallie Harmsen), a outrora amante de Remco que após uma viagem de alguns meses ao Japão retorna grávida, para o constrangimento de todos.
Com esse enredo, que muitos diretores usariam como base para um filme longo, lamurioso e arrastado, Verhoeven cria um média-metragem (somente cinqüenta e seis minutos de duração) pulsante, sensual e engraçado.
Parece ser uma experimentação de sua parte: Uma narrativa com câmera digital na mão, de um ritmo ágil e dinâmico onde as intrigas novelescas não têm tempo de se tornarem modorrentas. Talvez, o holandês maluco tenha feito este singelo, mas admirável trabalho para reencontrar sua capacidade peculiar de rastrear na disfunção corriqueira e na dramaticidade suburbana as fissuras nas quais injeta doses maciças de humor, inteligência e malícia.
Um irresistível exercício de estilo que serviu de trampolim temático e narrativo para ele conceber um dos grandes filmes de sua carreira: O magistral e elogiado “Elle”, com Isabelle Hupert.

sábado, 2 de setembro de 2017

A Espiã

Um dos clássicos do início dos anos 1970 e começo dos 1980 que fizeram a fama do diretor Paul Verhoeven, ainda em sua Holanda natal, foi “O Soldado de Laranja”, que acompanhava as peripécias de um oficial holandês inescrupuloso vivido por Rutger Hauer.
É um tema bastante similar que Verhoeven revisita aqui (um personagem às voltas com o lado mais obscuro e lascivo da guerra), em seu melhor filme nas últimas décadas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Rachel Stein (Carice Van Houten, dona de uma beleza clássica adequada ao tom e à ambientação da produção), uma ex-cantora judia cuja família foi toda dizimada numa tentativa de escapar ao jugo nazista da Holanda ocupada, une-se à resistência para combater os alemães, assumindo a identidade de Ellis De Vrie.
Uma vez transformada em espiã, a missão de Rachel/Ellis passa a ser infiltrar-se como prostituta de luxo num QG alemão e valer-se de seu indisfarçável sex-appeal para seduzir o diretor de Inteligência Alemã na Holanda, Muntze (Sebastian Koch, de “A Vida dos Outros”), e obter informações.
Para Ellis, sua incumbência tem dupla importância pessoal: Ela deseja fazer justiça ao perverso oficial alemão Franken (Waldemar Kobus) que assassinou sua família; e, no processo, resguardar o relacionamento genuíno que construiu com Muntze.
Entretanto, as coisas serão muito mais complicadas do que parecem. Em meio à uma audaciosa tentativa de libertar prisioneiros quase prestes a serem executados, dá-se uma reviravolta tão dramaticamente radical que poderia pertencer a uma obra de ficção (o filme é baseado em fatos reais): Eis que por meio de uma escuta que ela mesma plantou, Ellis é descoberta por Franken, que se vale da circunstância para fazer os aliados dela (que podiam apenas ouvi-lo) acreditarem que ela é uma traidora.
Pouco depois, as Forças Aiadas invadem a Holanda, subjugando os alemães.
contudo, a situação de Ellis é delicada: Perseguida pelos nazistas por seu envolvimento na Resistência, ela agora é também perseguida por seus antigos companheiros que acreditam ser ela uma traidora.
sua única alternativa é Muntze, ao lado de quem ela tentará descobrir a verdadeira (e surpreendente) identidade do traidor de fato, neste formidável suspense de guerra repleto de agentes duplos, aliados que se tornam inimigos e inimigos que se tornam aliados.
Mais conhecida por seu papel como a Sacerdotisa Vermelha na série “Game Of Thrones”, a atriz Carice Van Houten é uma grata revelação neste belo trabalho de Verhoeven que teria todos os trejeitos e características de um thriller à moda antiga, não fosse a presença audaz de generosas cenas de nudez e sexo, além de outros costumeiros excessos de seu ousado realizador –e que, vez ou outra, desabilitam a harmonia do todo. Entretanto, o próprio Verhoeven é quem, deveras, consegue brilhar como diretor: Além de uma condução tão coerente e serena que inspira até tranqüilidade, ele pontua sua trama com pequenos e inteligentes detalhes que somados conseguem a um só tempo homenagear e questionar os filmes antigos de guerra; sendo um de seus elementos mais notáveis a introdução do ambíguo personagem nazista de Sebastian Koch que desafia o público e a protagonista a gostarem dele.

domingo, 11 de junho de 2017

Louca Paixão

Eric (Rutger Hauer) é transgressor típico da juventude holandesa dos anos 1970 a que pertence; além de tudo é artista e petulantemente questionador. A jovem Olga (Monique Van De Ven), profundamente irritadiça com as restrições paternas vê, no namoro com Eric, uma maneira bastante prática e natural de questionar a atitude dos pais.
Desse ímpeto de ingênua transgressão é que se constrói o romance imaginado por Paul Verhoeven. E quem conhece Verhoeven há de imaginar que o registro de tal relacionamento não será destituído de sua habitual inclinação para com cenas de nudez e sexo, ostentadas de forma generosa.
Sua câmera estuda os corpos como forma de entender o ideário da juventude da época, na medida em que tal despojamento é, por assim dizer, a ação que os define (e em sua trangressão, o diretor Verhoeven não economiza qualquer ousadia para fazer deste um dos títulos mais atrevidos de sua muito atrevida filmografia!).
Há em Eric e Olga a propensão para adquirir maturidade e nela encontrar um lugar em que sua relação fique em harmonia, mas esse não parece ser o caminho sereno pelo qual o diretor os guiará: Como interessa a seu peculiar cinema, os atritos entre a vigência e o inconformismo cobram sempre seu preço, e as conseqüências são ilustradas no terço final deste belo ainda que mal-comportado filme, onde os dois jovens amantes, depois de um tempo separados, se reencontram e reencontram também um meio de encerrar de uma vez por todas a sua relação.
O filme de Verhoeven, em princípio, parece irmanar-se a muitos trabalhos característicos dos anos 1970, que experimentaram os limites comerciais do sexo (“O Último Tango em Paris”, “O Império dos Sentidos”), mas é, acima de tudo, um produto tipicamente holandês, e brilhantemente indicativo da fase fervilhante e audaciosa que o jovem cinema holandês vivia –e Verhoeven, por sua vez, se mostra um de seus mais notáveis artesãos, ao incutir este conto sarcástico e sensual de uma agridoce constatação: A maturidade está ali na esquina, e ela chegará mesmo aos mais imprevisíveis, ainda que essa chegada traga toda a dor que, em sua inércia juvenil, eles tentaram ignorar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Elle

Nesta temporada, dois filmes aparentam uma curiosa similaridade entre si: Este “Elle”, de Paul Verhoeven, e o drama de guerra “Até O Último Homem”, dirigido por Mel Gibson.
Ambos são obras de insuspeita qualidade e habilidade (ainda que completamente diferentes entre si) que trazem de volta à ribalta dois grandes (e polêmicos) realizadores após quase uma década de sua ausência no cinema.
Não há um segundo de filme desperdiçado na narrativa vigorosa que Paul Verhoeven impõe aqui, a lançar uma atenção peculiar sobre desdobramentos corriqueiros do cotidiano (trabalhar; encontrar-se com amigos, conhecidos, familiares; participar de uma festa de Natal) cujo contexto transforma tais percepções numa audaciosa abordagem da postura que escolhemos para lidar com acontecimentos da vida, e que terminam por nos definir.
“Elle” é, portanto, um filme cujo brilho e genialidade provêm, acima de tudo, dos fatores inerentes à sua protagonista. E que golpe de sorte teve Verhoeven ao escalar Isabelle Huppert para interpretá-la –Isabelle Huppert é a continuidade do filme. É a sua coerência. É a razão absoluta para a trama sustentar-se e, no tom espetacularmente preciso de sua atuação, dela proporcionar a chance para que o público extraia exatamente os tópicos e observações almejados pelo diretor.
Que atriz, senhores! Que atriz!
Qualquer outra intérprete em seu lugar (e olha que Verhoeven cogitou, de fato, usar nomes mais hollywoodianos como Sharon Stone ou Nicole Kidman), e o filme perderia seu impacto, e a exatidão fluida com que se dá seu desenvolvimento.
Isabelle é Michelle (ou Elle para os mais íntimos), uma mulher bem-sucedida que, já na cena que abre o filme, é estuprada dentro da própria residência por um mascarado misterioso.
Os dias que se seguem registram um comportamento inesperado da parte dela, em relação ao ocorrido –e particularmente interessa muito ao diretor Verhoeven essa dicotomia.
Dona de uma empresa de designer de videogames, Elle não é uma mulher acostumada ao vitimismo: Quando relata o que aconteceu ao ex-marido e a um casal de amigos numa mesa de restaurante, ela é a menos abalada com o fato.
Não há também nada de comum em Elle: Ela exerce, como ficará nítido ao longo do filme, um controle ocasionalmente tirânico sobre as pessoas à sua volta: Interfere nas relações afetivas da própria mãe, assim como do filho, que vai morar com a namorada grávida num apartamento que Elle faz questão de bancar. Até mesmo a vida amorosa do ex-marido não lhe escapa ao radar.
Há, talvez, uma explicação para isso: Na infância, Elle assistiu, do mais inusitado dos camarotes, uma chacina psicótica perpetrada pelo pai (e muito bem ilustrada, com parcimônia e brilho, ao longo do filme), cuja lembrança oscila na memória dela entre o intencionalmente repulsivo e o convulsivamente terno.
Daí o rigor com que Elle encara todo o resto –e a personagem só não perde em empatia para o expectador, porque é uma cintilante e genial Isabelle Huppert quem está lá, a catalisar toda a importância do filme.
E, se controle é um elemento que determina a maneira com que ela lida com tudo o mais, não é o fato de ter sido estuprada (e, nem mesmo, de seu misterioso estuprador ainda estar por perto, a cercá-la), que irá mudar isso: Pouco a pouco, Elle estabelece um jogo de reconhecimento, aproximação e, por que não, de sedução com seu agressor. Um jogo que não se altera nem mesmo depois que ela descobre a identidade dele!
Muitos foram os patrulheiros do politicamente correto que criticaram o filme de Paul Verhoeven (que sempre esteve habituado à uma controvérsia) acusando-o de criar uma obra que enaltece a cultura do estupro. Um erro crasso: Verhoeven tão somente se recusa a embalar seu filme e sua protagonista numa roupagem convencional e melodramática da qual tantos outros filmes já lançaram mão. À sua maneira sarcástica, debochada e ousada, Verhoeven dá um ímpeto de empoderamento feminino à “Elle”, fazendo dela a grande personagem de sua própria história.
Um diferencial espetacular que coloca “Elle” entre os melhores filmes do ano.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os Indicados Ao Oscar 2017

Hoje, quinta feira, 24 de Janeiro, conhecemos os filmes que disputarão o grande prêmio do cinema no próximo dia 26 de Fevereiro, numa exibição bonita que abriu mão da tradicional apresentação ao vivo.
Eis os indicados:

MELHOR FILME
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Até O Último Homem"
"A Qualquer Custo"
"Estrelas Além do Tempo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Manchester À Beira-Mar"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

E "La La Land-Cantando Estações" chega pronto para fazer história com um número recorde de indicações (foram 14, somente dois filmes antes dele atingiram esta marca, sendo eles “A Malvada” e “Titanic”), podendo sair da cerimônia de entrega com um feito raro no cinema. Seus maiores concorrentes acabam sendo os elogiadíssimos “Moonlight” e “Manchester À Beira-Mar”.
Até lá, dá para lamentar um pouco a nem tão surpreendente ausência de “Deadpool” –mas, talvez, fosse pedir demais do Oscar mesmo... –e comemorar com a merecida lembrança de “A Chegada”.

DIREÇÃO
"A Chegada", Denis Villeneuve
"Até O Último Homem", Mel Gibson
"La La Land-Cantando Estações", Damien Chazelle
"Manchester À Beira-Mar", Kenneth Lonergan
"Moonlight-Sob a Luz do Luar", Barry Jenkins

Já era hora mesmo de Denis Villeneuve receber uma indicação de Melhor Diretor (que poderia ter vindo por qualquer um de seus últimos trabalhos), mas ela chega num momento em que dificilmente o prêmio escapará das mãos hábeis do jovem Damien Chazelle.
De resto é um bocado interessante ver a Academia render-se à primorosa execução de filme de guerra realizada por Mel Gibson em “Até O Último Homem”, cujas indicações soam como um reconhecimento (e uma redenção) proporcionados pela Academia. Também pudera: Comparados às denúncias de estupro de Nate Parker –outrora um potencial candidato ao Oscar por seu elogiado porém esquecido “O Nascimento de Uma Nação” –os escândalos de Mel parecem brincadeira de criança.

ATRIZ
Isabelle Huppert, "Elle"
Ruth Negga, "Loving"
Natalie Portman, Jackie
Emma Stone, "La La Land-Cantando Estações"
Meryl Streep, "Florence-Quem É Essa Mulher?"

A indicação de Meryl Streep se deve em grande parte pela repercussão de seus discurso anti-Trump no Globo de Ouro. Rezamos para que isso não interfira na premiação propriamente dita, uma vez que seu trabalho é bastante fraco se comparado à suas magníficas concorrentes, sobretudo o trabalho ímpar entregue por Isabelle Huppert, em “Elle”.
Dito isso, a maior concorrente de Huppert é mesmo a apaixonante Emma Stone que pelo ovacionado “La La Land” vem ganhando diversos prêmios. Também premiada, mas perdendo considerável força com o avanço da temporada de premiações está Natalie Portman e sua atuação em “Jackie”.
Correndo por fora, o belo trabalho de Ruth Negga em “Loving” vem representar a única lembrança da Academia ao filme.

ATOR
Casey Affleck, "Manchester À Beira-Mar"
Andrew Garfield, "Até O Último Homem"
Ryan Gosling, "La La Land-Cantando Estações"
Viggo Mortensen, "Capitão Fantástico"
Denzel Washington, "Um Limite Entre Nós"

Dificilmente o prêmio escapará das mãos do mais cotado: O talentoso Casey Affleck, que já vem sendo amplamente reconhecido na temporada de prêmios. Mas as lembranças nesta categoria a tornam uma vitrine do que de melhor, em termos interpretativos, o ano de 2016 entregou: Denzel Washington, primoroso como sempre em "Um Limite Entre Nós”; o jovem Andrew Garfield superando a mal-fadada experiência como Homem-Aranha; Viggo Mortensen provando sua excelência num personagem brilhante; e Ryan Gosling, sempre ótimo, no filme-sensação da temporada.

ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis, "Um Limite Entre Nós"
Naomie Harris, "Moonlight-Sob a Luz do Luar"
Nicole Kidman, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Octavia Spencer, "Estrelas Além do Tempo"
Michelle Williams, "Manchester À Beira-Mar"

Este certamente será o ano de Viola Davis: Ao menos nesta categoria poucas (ou quase nenhuma) concorrentes têm chance contra ela.
Isso se a maré de favoritismo até lá não mudar a favor do grande trabalho de Naomi Harris em “Moonlight” (um filme que ainda pode surpreender), ou de Nicole Kidman no ainda pouco visto “Lion”.

ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali, "Moonlight-Sob A Luz do Luar"
Jeff Bridges, "A Qualquer Custo"
Lucas Hedges, "Manchester À Beira-Mar"
Dev Patel, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Michael Shannon, "Animais Noturnos"

Teimando em contrariar o Globo de Ouro, a Academia ignorou o premiado Aaron Taylor Johnson, indicando seu colega de elenco, Michael Shannon, na única menção ao elogiado filme de Tom Ford.
As chances parecem concentradas em Mahershala Ali, que tem no veterano Jeff Bridges aparentemente seu único concorrente mais forte. Mas ainda pode ser que Dev Patel, ou mesmo Lucas Hedges venham a surpreender –o olhar do SAG Awards ainda repousa sobre todos eles.

FOTOGRAFIA
"A chegada"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Silêncio"

LONGA DOCUMENTÁRIO
"Fogo No Mar", Gianfranco Rosi
"I Am Not Your Negro", Raoul Peck
"Life, Animated", Roger Ross Williams
"O.J.-Made In America", Ezra Edelman
"A 13ª Emenda", de Ava DuVernay

CURTA DOCUMENTÁRIO
"Extremis"
"4.1 Miles"
"Joe's Violin"
"Watani-My Homeland"
"The White Helmets"

FILME ESTRANGEIRO
"Terra de Minas" (Dinamarca)
"Um Homem Chamado Ove" (Suécia)
"O Apartamento" (Irã)
"Tanna" (Austrália)
"Toni Erdmann" (Alemanha)

A França perdeu a chance de estar nesta categoria (talvez, como favorito!) ao deixar de indicar o brilhante “Elle” como representante do país. Ficou de fora, e os cinco indicados terminaram com títulos pouco significativos, não havendo nenhum favorito.
Dito isso, há alguma chance de “Um Homem Chamado Ove” prevalecer.

MIXAGEM DE SOM
"A Chegada"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Rogue One-Uma História Star Wars"
"13 horas-Os Soldados Secretos de Benghazi"

EFEITOS VISUAIS
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Doutor Estranho"
"Mogli-O Menino Lobo"
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Rogue One-Uma História Star Wars"

Páreo duro. Pelo menos três dos melhores blockbusters do ano disputam ferrenhamente esta categoria, na qual ambos não apenas amparam suas narrativas, como também oferecem novas possibilidades para o emprego dos efeitos visuais.
São eles, a exuberância técnica e fascinante de “Mogli-O Menino Lobo” que recria todo um mundo ao redor do pequeno protagonista Neel Sethi; o aprimoramento e o aperfeiçoamento, um patamar além, do que “A Origem” já fez (e também do que o Universo Marvel vinha fazendo no cinema) de “Doutor Estranho”; e a recriação sem precedentes de mundos, criaturas e personagens (e seus intérpretes) realizada em “Rogue One”.
Se fosse para escolher, eu ficaria com “Rogue One”!

MAQUIAGEM
"Um Homem Chamado Ove"
"Star Trek:-Sem Fronteiras"
"Esquadrão Suicida"

O melhor trabalho de maquiagem é “Star Trek-Sem Fronteiras”. Ponto.
Resta, contudo, conferir se este não é um gesto político da Academia lembrando um filme achincalhado pela crítica de um grande estúdio (no caso, “Esquadrão Suicida”, da Warner), mas que teve grande recepção de público –o elemento, afinal, que mantém a indústria.

FIGURINO
"Aliados"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Florence-Quem É Essa Mulher?"
"Jackie"
"La La Land-Cantando Estações"

EDIÇÃO DE SOM
"A Chegada"
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Sully-O Heroi do Rio Hudson"

DIREÇÃO DE ARTE
"A Chegada"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Ave, César"
"La La Land-Cantando Estações"
"Passageiros"

TRILHA SONORA
"Jackie"
“La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Passageiros"

A Academia aproveitou as categorias técnicas para lembrar de alguns filmes que ficaram de fora dos prêmios principais. Como o sucesso “Animais Fantásticos...”, e os esquecidos “Ave, César”, dos Irmãos Coen, e “Sully”, colaboração de Clint Eastwood e Tom Hanks.
Quem levou a melhor foi o irregular “Passageiros” cuja data de lançamento facilitou sua lembrança entre os votantes

CANÇÃO ORIGINAL
"Audition (The fools who dream)", de “La La Land-Cantando Estações"
"Can't stop the feeling", de "Trolls"
"City of stars", de "La La Land-Cantando Estações"
"The empty chair", de "Jim-The James Foley Story"
"How far I go", de "Moana-Um Mar de Aventuras"

Comparecendo com duas indicações numa mesma categoria, é improvável que “La La Land- Cantando Estações" fique sem o prêmio. Ele deve vir pela música mais mencionada e comentada do filme, “City of stars”, cantada (e muito bem) por Ryan Gosling, mas a minha preferida vai sempre continuar sendo a emocionante “Audition” na voz de Emma Stone –um dos grandes momentos do filme.
Fica até difícil para os outros concorrentes.

ROTEIRO ORIGINAL
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"O Lagosta"
"Manchester À Beira-Mar"
"20th Century Women"

ROTEIRO ADAPTADO
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Estrelas Além do Tempo"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

A Academia lembrou-se do inusitado “O Lagosta” na categoria de roteiro original, o quê pouco significa diante da força de “La La Land-Cantando Estações".
Na de roteiro adaptado, “Moonlight” e “Lion” devem disputar pau a pau o prêmio, ficando provavelmente com o primeiro. Mas, não seria nada ruim ver “A Chegada” pegando a todos de surpresa!

LONGA DE ANIMAÇÃO
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Moana-Um Mar de Aventuras"
"Minha Vida de Abobrinha"
"A Tartaruga Vermelha"
"Zootopia"

O fato de “Kubo e As Cordas Mágicas” ter duas indicações (além desta, a de efeitos visuais) dá uma ligeira impressão de favoritismo, mas isso se dissipa quando vemos que ali está o genial “Zootopia”, que andou levando quase todos os prêmios a que concorreu e é mesmo uma obra de animação que cresce com o tempo.
Muito legal a lembrança da Academia ao belíssimo “A Tartaruga Vermelha”.

CURTA ANIMADO
"Blind Vaysha"
"Borrowed Time"
"Pear Cider and Cigarettes"
"Pearl"
"Piper"

EDIÇÃO
"A Chegada"
"Até O Último Homem "
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

CURTA-METRAGEM
"Ennemis Intérieurs", Slim Azzazi
"La Femme Et Le TGV", Timo von Gunten e Giacun Caduff
"Silent Nights", Aske Bang e Kim Magnusson
"Sing', Kristof Deak e Anna Udvardy
"Timecode", Juanjo Gimenez

No dia 26 de Fevereiro descobriremos quais favoritos se confirmarão, e quais darão espaço para inesperados vencedores.