Da filmografia de Nelson Pereira dos Santos, agora sendo restaurada num esforço de preservação da Labo Cine através do Programa Petrobrás Cultural, “Jubiabá” é um exemplar tímido diante de suas mais consagradas realizações. Adaptado da obra de Jorge Amado (e contando com o próprio em meio ao seu time de roteiristas), “Jubiabá” não escapa do tom novelesco que prevalece em inúmeras de suas passagens, e nem é uma obra que prima tanto pelo fôlego narrativo, uma vez que, nota-se, é pontuada por sequências convencionais, corriqueiras e redundantes.
Na Bahia, ainda pequeno, o negro Antônio
Balduíno, apelidado por todos de Baldo (vivido então pelo pequeno Antônio José
Santana), testemunha a própria tia (Ruth de Souza) que o criava sofrer um surto
de loucura; segundo alguns, devido ao enorme peso sobre sua cabeça da imensa
bandeja que levava para trabalhar todos os dias e todas as noites. Órfão, Baldo
fica sob os cuidados de seu avô, o pai de santo Jubiabá (Grande Otelo) que
sabe, mais do que ninguém, que não leva jeito algum para criar uma criança.
Assim, ele entrega Baldo para ser criado por uma família abastada da vizinhança,
os Ferreira –nos anos seguintes, Jubiabá passará a
exercer, quando muito, mais um papel de mentor espiritual e existencial para
ele.
Conforme vai crescendo, Baldo até que consegue
uma certa aceitação do pai da família, o Comendador Ferreira (Raymond Pellegrin),
entretanto, ele se enrabicha pela jovem filha dele, Lindinalva (interpretada,
na fase criança, por Tatiana Issa, que mais tarde se tornaria diretora de
documentários), enquanto consegue o ódio e a desaprovação da empregada da
família, a rancorosa Amélie (Catherine Rouvel). É ela quem denuncia para o Comendador
as segundas intenções de Baldo, levando-o a ser expulso da casa. O restante de
sua juventude, Baldo viverá nas ruas de Salvador ao lado do amiguinho Gordo (Romeu
Evaristo), com quem aprenderá a cometer crimes e a entrar em constante atrito
com a polícia –irritadiço e de pavio curto, Baldo bate de frente com os
policiais, sobretudo, os mais intratáveis, o que lhe garante sucessivas idas
para a cadeia local.
Mais adulto (agora interpretado por Charles
Baiano), Baldo conhece Luigi (Julien Guiomar), empreendedor, mais sonhador do
que prático, que percebe sua desenvoltura para brigar e o coloca para disputar
lutas de boxe. Entre surras e vitórias, Baldo arruma problemas quando se recusa
a contribuir com o sistema corrupto não se deixando subornar numa luta
comprada.
Enquanto isso, a situação da família de Lindinalva
(agora vivida pela atriz francesa Françoise Goussard, com uma pavorosa dublagem
brasileira!) não vai nada bem. Afogado em dívidas (as quais, em dado momento,
lhe obrigam a vender a casa) o Comendador acaba tirando a própria vida dentro
do bordel de Madame Zaira (Betty Faria, também ela produtora do filme), e é
para o bordel de Madame Zaira que a própria Lindinalva terá de ir, a fim de
continuar sobrevivendo, desta vez, sem o pai.
Ao deixar o mundo do boxe, Baldo segue
trilhando o caminho artístico sugerido por Luigi e se torna o homem forte do
circo, onde conhece e se envolve com Rozenda, personagem de Zezé Motta.
Num recurso que a direção de Nelson Pereira
sempre insiste em manter, em todos os romances que tanto Baldo, quanto Lindinalva,
vivenciam ao longo da juventude e da vida adulta (sejam eles fortuitos ou um
pouco mais duradouros), ambos só conseguem dar continuidade ao imaginar um ao
outro no lugar de seus parceiros; é como se para Baldo só existisse Lindinalva
e para Lindinalva só existisse Baldo –ainda que eles nunca tenham conseguido,
de fato, se envolver.
Uma nova tragédia –desta vez, a morte de Luigi
que encerra sua vida numa noite em que, bêbado, tenta reencenar um número no
trapézio, o mesmo onde anos antes perdeu a amada –afasta em definitivo Baldo do
mundo do circo. Ele volta a morar nas proximidades de Jubiabá e de seu terreiro
de umbanda, trabalhando como estivador no cais do porto quando os trabalhadores
braçais tentam, à duras penas, organizar uma greve.
É nessas condições que Baldo reencontra Lindinalva
agora com um filho pequeno e padecendo de severos males físicos e mentais,
consequentes da vida que levou.
À sua maneira ácida e poética, o texto de Jorge Amado, em conjugação com a direção dramaticamente contundente de Nelson Pereira dos Santos estabelece uma trajetória na qual seu personagem principal descobre (de uma maneira um tanto torta) as três emoções mais básicas do ser humano: A magia do aprendizado; a descoberta do amor; e a conscientização política.

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