sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Tina - A Verdadeira História de Tina Turner


 Em 1993 o cinema norte-americano enfim prestou um tributo a uma de suas mais reluzentes cantoras – a cinebiografia da icônica Tina Turner foi lançada trazendo no papel principal (e em uma atuação vulcânica) a formidável Angela Bassett – ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz perdendo para Holly Hunter por “O Piano”.

Dirigido pelo inglês Brian Gibson (de “Ainda Muito Loucos” e “A Jurada”), “Tina” – ou “What’s Love Got To Do With It” – não escapa de fragilidades convencionais a um filme construído a partir de conceitos formulaicos e cuja trama, plena de sofrimento e superação, convida a uma nem sempre apropriada inclinação ao melodrama, mas há um elemento quase intrínseco que se sobressai a isso tudo em algum momento e faz desta produção uma experiência comovente.

Caso você não saiba do que o filme se trata – e com isso, pode nem ter vivido neste planeta (!?) – “Tina” conta a história de Anna Mae Bullock, neste ponto interpretada pela pequena e notável Rae’Ven Kelly, menina nascida no interior do Tennessee, abandonada pela mãe e que cresceu criada pela avó. Ela veio a conhecer a própria mãe e a irmã mais velha já quase adulta, quando a avó faleceu levando-a para junto do convívio das duas na cidade de St. Louis. Frequentando o bar no qual a irmã trabalhava como bartender, Anna toma conhecimento da festejada banda local, liderada pelo carismático Ike Turner (Laurence Fishburne, também ele indicado ao Oscar de Melhor Ator perdendo para Tom Hanks por “Philadelphia”).

Tradição do local, Ike selecionava garotas entre as frequentadoras para breve tentativa como cantora ali perante o público. Após algumas noites, Anna é escolhida e demonstra para todos a capacidade vocal que, quando criança, já chamava a atenção para si no coral da igreja.

Ike enxerga nela o talento que poderia vir finalmente a fazer sua banda de Blues, The Kings of Rythm, crescer e acontecer. Com sua lábia privilegiada, ele convence a mãe de Anna a deixar a filha fazer ininterruptas jornadas noite adentro ensaiando e gravando canções com Ike e seus músicos.

Não demora para que ela passe a participar de extenuantes turnês junto da banda, e também para que Ike faça dela sua esposa – ainda que ela ignore o fato de que, pela cama de Ike, passavam todas as mulheres que integravam a banda.

Após casada, ela adota o nome artístico de Tina Turner e, embora fique óbvio que o sucesso da banda e do próprio Ike vem exclusivamente da força e do talento de Tina nos palcos, isso não impede ela de vivenciar um verdadeiro inferno e sua vida pessoal: Ike se mostra um marido negligente e extremamente abusivo e violento, revelando seu temperamento em agressões físicas que se sucediam independente dos acontecimentos serem bons ou ruins. Em alguns momentos específicos, o filme deixa bem claro, Ike agredia Tina pelo simples recalque de perceber que era ela quem o público, os fãs e os produtores musicais queriam – e ele, posando de marido controlador e empresário autoritário, tão somente aproveitava-se da situação e do talento de sua esposa.

Todo esse calvário – que perpassa a década de 1960 e vai até o final da década de 1970 – só começa a terminar quando Tina se converte para o budismo, adquirindo discernimento o suficiente para, num dado momento, dar um basta em todo aquele abuso.

O filme mostra os primeiros passos de Tina Turner em sua carreira solo, sobretudo, o lançamento de seu primeiro álbum (mais tarde, agraciado com o Grammy Awards) onde ela trocou o Blues de suas primeiras (e sofridas) décadas como cantora pelo Rock’N Roll, estilo dentro do qual ela se tornou um ícone, quando já se adentrava os anos 1980.

“Tina” poderia tranquilamente ser uma obra dramática debruçada sobre um esforço compulsivo em denunciar a agressão doméstica e oferecer um quadro de vítima e abusador corriqueiro ao público, mas não é isso que acontece.

Amparado nos desempenhos estupendos de Angela Bassett e Laurence Fishburne, o diretor Gibson concebeu um trabalho que é muito mais que a soma de suas partes – a trajetória de quatro décadas da rainha do rhythm’n blues é uma obra feita com inteligência e sensibilidade, um filme feito de uma alegria genuína a refletir o brilho de sua maravilhosa personagem principal.

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