quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Inferno Selvagem


 O lendário filme dono da única cena de sexo da carreira de Sandra Bullock passa à crônica cinematográfica exatamente por isso; por trazer a belíssima e consagrada estrela (à época, 1993, ainda uma desconhecida) numa sequência erótica que, apesar do sexo simulado, traz um despojamento que a faz parecer quase explícita. Não é por acaso, portanto, que este trabalho, engavetado pelos próprios realizadores à época da produção, descontentes com o pífio resultado final, só foi lançado em homevideo no final da década, depois que Sandra havia sido catapultada ao estrelato.

“Inferno Selvagem” – ou “Fire On The Amazon” – já evidencia em sua procedência que nada muito promissor haveria de emergir dali: O diretor é o peruano Luis Llosa, realizador do clássico B non-sense “Anaconda” (como todos sabem, memorável por sua ruindade!) e de um dos mais destrambelhados filmes de ação estrelados por Sylvester Stallone nos anos 1990, “O Especialista”. Já, a produção é assinada por Roger Corman que, longe das elegantes adaptações de Edgar Allan Poe dos anos 1960 e das ficções inventivas (ainda que vulgares) dos anos 1980, resolveu bancar, nos anos 1990, algumas das produções mais mambembes de sua carreira.

“Fire On The Amazon” possui, em algum lugar entre seus tantos equívocos, um enredo que busca expor os malefícios do desmatamento e a tentacular corrupção entre os seringueiros da floresta amazônica. Seu protagonista, o displicente fotojornalista R.J. O’Brian (o péssimo Craig Sheffer, de “Nada É Para Sempre”) cai de paraquedas no que parece ser uma conspiração: Correspondente americano na Bolívia, ele fica sabendo do assassinato de um líder seringueiro dedicado ao ativismo ambiental e à proteção da floresta contra os desmatadores.

Disposto a investigar as causas do assassinato (cujas pistas plantadas apontam deliberadamente para os índios da tribo Zingari), R.J. acaba preso por policiais corruptos na mesma cela em que se encontra um índio, capturado para servir de bode expiatório nessa mesma investigação.

Libertado graças à influência de Alyssa Rothman (Sandra Bullock, de longe, a única coisa satisfatória e relevante no filme), uma ativista relutante que ele conheceu dias antes, no velório do falecido, R.J. resolve seguir o corpo do dito ‘culpado pelo crime’ – que rápida e convenientemente apareceu morto! – levado pelos membros de sua tribo rio acima para os procedimentos fúnebres.

Na tribo, após alguns percalços pela mata, R.J. e Alyssa conhecem o líder Ataninde (Juan Fernández, de “Crocodilo Dundee 2” e “Kinjite-Desejos Proibidos”), ciente da tentativa das autoridades locais em tentar incriminar seu povo, mas avesso à buscar, entre eles, alguma justiça – entretanto, é óbvio para qualquer um os rumos previsíveis no arco narrativo desse e dos demais personagens.

Percebe-se, em várias frentes, o quanto as intenções do diretor Luis Llosa (aqui também produtor) e das roteiristas Luana Andrews, Catherine Cyran e Beverly Gray miravam numa obra de engajamento, urgência e fervor como “Salvador-O Martírio de Um Povo”, de Oliver Stone (que, inclusive, contava com Juan Fernández em seu elenco), mas, acabaram desembocando numa mescla desajeitada de filme investigativo, aventura selvagem e ação policial terceiro-mundista com sua pobreza orçamentária ficando evidente em quase todos os momentos – até mesmo naqueles em que a produção lança mão de artifícios para parecer maior do que é.

Mas, e a tal cena de sexo de Sandra Bullock?

Transcorrida no trecho em que a personagem dela e a de Craig Sheffer vão parar na tribo Zingari e transam sob efeito de algum chá alucinógeno (!), a cena é elíptica e ao mesmo tempo reveladora, e embora até venha de encontro às tendências do cinema comercial de então (as telas dos anos 1990 eram chacoalhadas por obras como “Instinto Selvagem” e “Proposta Indecente”) não tem a menor relevância para com a trama ou o arco de seus protagonistas – eles mal chegam a engrenar um romance...

Nenhum comentário:

Postar um comentário