quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Selena


 Existem perdas que doem demais. Pessoas que, se não tivessem partido tão cedo, teriam brilhado mais do que todas as outras, sem a menor sombra de dúvida. É com um sentimento assim agridoce que nos deixa o filme de Gregory Nava, um registro pessoal (ainda que imperfeito) da trajetória fugaz e fulgurante da cantora Selena Quintanilla, consolidada como um dos maiores ícones latinos no fim dos anos 1980, início dos 90.

“Selena” já começa numa sequência de um show da cantora (ocorrido em Nashville) expondo logo de cara seu maior trunfo: A composição certeira, plena de identificação, da atriz Jennifer Lopez que, tal e qual a personagem verídica que interpreta, canta e dança com perfeição – também ali vemos a janela de aspecto escolhida pelo diretor de fotografia (Edward Lachman, mesmo de “Carol” e “As Virgens Suicidas”) que começa intencionalmente no formato 4:3 (simulando o antigo padrão quadrado de TV) para evocar essas memórias e então se expande dinamicamente para a proporção widescreen (e para o glorioso e panorâmico 2.39:1, padrão das telas de cinema) quando as cortinas do palco se abrem.

O filme então volta no tempo (até demais) para contar a juventude, não somente de Selena, mas de seu pai (!), Abraham Quintanilla que, mais tarde, será interpretado pelo veterano Edward James Olmos (que voltou a interpretar o pai de Jennifer Lopez vinte e nove anos depois na comédia romântica “Paixão de Escritório”): Abraham sonhava em fazer sucesso como cantor num conjunto musical, no entanto, o forte preconceito norte-americano com descendentes de mexicanos lhe podou esse sonho, que ele terminou transferindo para os três filhos pequenos que ele, desde muito cedo, incentivou a formarem uma banda.

Eram o menino A.B., no contrabaixo, a menina Suzette, na bateria, e a caçula, Selena (vivida pela jovem Rebecca Lee Meza) no vocal. Apesar dessa ser claramente uma vontade mais de seu pai do que deles, logo, as crianças (sobretudo, Selena) adquiriram o gosto pelas apresentações musicais – que ocorriam principalmente no restaurante que Abraham mais tarde comprou.

Com a chegada da juventude (e dos anos 1980), e já ostentando o nome “Selena Y Los Dinos”, eles passaram a se apresentar em parques de diversões, rodeios e outros eventos, arrebanhando, ao longo de uma década, cada vez mais fãs e admiradores, todos capturados pelo magnetismo e pela presença de palco sem igual de Selena que, crescida, converteu-se não somente numa talentosíssima cantora, mas também numa linda mulher.

As apresentações da banda terminam por leva-los ao México, onde Selena é desafiada a cantar músicas mexicanas perante plateias que falavam mexicano legítimo, e é por lá que ela inicia sua meteórica trajetória como a “Rainha da Música Trejana”, já retornando aos EUA como uma estrela ante o olhar do público latino. Na vida afetiva, Selena se apaixona pelo guitarrista Chris Perez (o inexpressivo Jon Seda, de “O Pagamento Final”) com quem se envolve e se casa a despeito da inicial objeção paterna.

Seu amargo desfecho chega após a consagração no Grammy (de onde Selena saiu com o prêmio de Melhor Álbum Mexicano/Americano e um contrato para um álbum em inglês que jamais viu concluído) quando ela é baleada e morta por Yolanda Saldívar (Lupe Ontiveros, de “Os Goonies” e “Melhor É Impossível”), chefe de seu fã-clube e ex-gerente de sua franquia de butiques, “Selena Etc.”.

Lançado em 1997, “Selena”, o filme, foi realizado com um intervalo notadamente curto de tempo em relação à morte da cantora – ocorrida em 1995, dois anos antes do filme – por isso, seu sentimento de pesar é quase transbordante. Por mais protagonista e onipresente em cena que seja Selena, parece que nunca estamos com ela tempo suficiente, seja pela profunda sensação de perda que o filme nos passa (foi produzido pelo próprio Abraham, pai e empresário dela, o que confere um tom deliberadamente solene), seja pelo encanto sem igual que Jennifer Lopez consegue evocar com sua presença.

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