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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Também Conhecido Como Charlie Sheen

 


Parte 1

Tão cheio de histórias para contar (muitas inéditas até para fãs ferrenhos), este documentário da Netflix sobre a vida loca do astro Charlie Sheen resultou tão extenso que precisou ser dividido em duas partes. A verdade é que a trajetória de Charlie Sheen –nascido Carlos Irwin Estevez, filho do astro Martin Sheen –se confunde com parte da história do showbizz norte-americano, no cinema e na TV. Aqui, o próprio Charlie Sheen se expõe diante das câmeras e assume muitos de seus imensuráseis lapsos, não se furtando de comentar muitos momentos escabrosos que ele mesmo protagonizou ao longo de seus 60 anos.

O filme já começa surpreendente, revelando que Charlie Sheen (assim como seus irmãos, entre eles o também ator Emilio Estevez) foi amigo de infância de Sean Penn (que comparece prestando seu depoimento) de quem eram vizinhos! Desde muito jovem, o pequeno Charlie conviveu com os bastidores de Hollywood na companhia do pai –suas lembranças do caótico set de filmagens de “Apocalypse Now” são uma passagem marcante –assim, não chegou a ser surpresa quando, já a adentrar os anos 1980, ele e Emilio tiveram interesse em ingressar na carreira cinematográfica. Com o nome Charlie Sheen (em correspondência ao nome artístico do pai, algo que Emilio optou por não adotar), ele conseguiu seu primeiro papel num filme de terror B, “The Grizzly 2”, que foi também a estréia de George Clooney e Laura Dern (!), lamentando o fato de que, com isso, deixou escapar a chance de estrelar “Karatê Kid” (!!). No entanto, ele conseguiu se sobressair no papel seguinte, chamando a atenção numa ponta de apenas três minutos no filme “Curtindo A Vida Adoidado”.

O estrelato até que veio de forma rápida e inesperada: Ele aceitou o papel principal no drama da Guerra do Vietnam “Platoon” –até uma maneira de homenagear o próprio pai –e, no ano seguinte, enquanto filmava “Wall Street-Poder e Cobiça” com o mesmo diretor Oliver Stone viu a produção ganhar o Oscar de Melhor Filme. A badalação logo trouxe seu ônus, potencializado pela amizade dele com Nicolas Cage, outro notório bad boy do período: São inúmeras as histórias de farras, bebedeiras e excessos protagonizadas pelos dois.

Ao fim da década de 1980, começo da de 90, Charlie já demonstrava sinais preocupantes de descontrole, o que levou sua família a tentar uma intervenção e a colocá-lo, pela primeira vez, numa clínica de reabilitação. Ai sair de lá, ele logo engatou o sucesso “Top Gang-Ases Muito Loucos”, uma paródia de “Top Gun-Ases Indomáveis” –logo depois dele, Sheen estrelou a continuação (talvez, até mais famosa do que o primeiro filme!) “Top Gang 2-A Missão”, paródia, por sua vez, de “Rambo 2”. Duas coisas ficaram bem claras: A primeira, que o público conseguia perfeitamente vê-lo como um comediante; e a segunda, que mesmo visitando o fundo do poço, uma recuperação era possível.

Ainda na década de 1990, Sheen participou do filme “Tudo Por Dinheiro” (que fez mais sucesso nos EUA do que aqui no Brasil) do qual a maior e melhor consequência foi a amizade com o co-star Chris Tucker, entretanto, naquela época, um dos escândalos de maior repercussão envolvendo o nome de Charlie Sheen foi mesmo o julgamento de Heidi Fleiss, conhecida como “A Cafetina de Hollywood” por agenciar garotas de programa para vários famosos de Los Angeles –levada à julgamento por sonegação de impostos, Heidi teve sua lista de clientes revelada ao público, e quem era o cliente número 1 da lista? O próprio Charlie Sheen, cujos cheques foram encontrados em propriedade de Heidi!

Após esses e outros tantos percalços inacreditáveis, os últimos anos da década de 1990 encontraram Charlie Sheen disposto  a reconquistar a sobriedade e abandonar seus vícios. A Parte 1 se encerra, nesse ponto, contudo, todos sabem que há muito mais história para ser contada na Parte 2 –e provavelmente, ficou reservado para lá os trechos mais hardcore da vida tumultuada desse inacreditável Charlie Sheen.

Parte 2

Na segunda parte de sua trajetória pra lá de problemática e tumultuada, Charlie Sheen revela que chegou em meados de 1998 disposto a sossegar –ele pensava que a pior fase de seu vício em drogas e de suas bebedeiras havia passado e, agora que estava limpo e fora da reabilitação, seu objetivo era obter alguma estabilidade profissional. O cinema era então um mercado extremamente disputado (e, devido à sua notoriedade, os papéis rentáveis de protagonista não chegavam mais, apenas propostas para papéis coadjuvantes) e ele achou que a TV oferecia oportunidades mais consistentes para ele ganhar a vida. Foi assim que, no ano 2000, ele foi contratado para uma sitcom chamada “Spin City”, estando ela em sua quarta temporada (!). Acontece que o astro original de “Spin City”, Michael J. Fox, havia sido diagnosticado com Mal de Parkinson e, diante de sua saída da série, os produtores pensaram na arriscada possibilidade de contratar outro ator para, com outro personagem, tentar substituir o protagonista anterior –contra muitos prognóstipos, Charlie Sheen conseguiu dar uma sobrevida à série, levando à ainda mais duas temporadas, o que resultou em sua vitória como Melhor Ator em Série de Comédia e Musical no Globo de Ouro 2002, o primeiro e único prêmio de atuação que, até hoje, Charlie Sheen afirma ter conquistado!

Contudo, não há como falar de Charlie Sheen e não falar da série “Two And A Half Men” –a Warner Bros. animada com o sucesso de “Spin City”, encomendou uma série ao produtor Chuck Lorre, onde um dos personagens principais, segundo ele, “tinha um Q de Charlie Sheen!”.

Os produtores conseguiram o próprio Charlie Sheen para dar vida ao personagem Charlie Harper, dando o estopim inicial a um dos maiores sucessos da TV norte-americana. Na época, Charlie estava casado com a atriz Denise Richards (de “Tropas Estelares” e “Garotas Selvagens”) que havia conhecido no set de “Spin City” e que esteve presente na primeira temporada de “Two And A Half Men”. Ao longo daqueles anos –como é relatado pelo próprio Charlie e também por seu colega de elenco, Jon Cryer –Charlie tentou compensar a falta que começava a sentir do êxtase provocado pelas drogas e pelo álcool tomando remédios; ele simulava sintomas de doenças específicas em consultas médicas para que lhe fossem receitados remédios específicos que ele começou a consumir. O resultado desse novo vício foram alterações súbitas de humor e surtos de agressividade que culminaram no fim de seu casamento.

Não tardou para que o inquieto Charlie arrumasse uma outra esposa, desta vez a socialite Brooke Mueller, instável e viciada, cujo comportamento logo leva Charlie à retornar para o consumo de drogas. Mais tumultos e escândalos se seguem, resultando em mais um divórcio. Curiosamente, a audiência de “Two And A Half Men” só faz crescer, e com ela o cacife de Charlie Sheen junto à Warner Bros. o que o leva, em sucessivas negociações para novas temporadas, a se tornar o ator mais bem pago da história da TV norte-americana!

Tanto dinheiro leva à ainda mais excessos, e Charlie acaba contratando um traficante de drogas particular (!!), que depois tornar-se seu grande amigo, e comparece até mesmo neste documentário (!!!), prestando um descontraído depoimento (!!!!).

No auge do seu vício e acarretando muitos transtornos para a produção da série, Charlie é retirado pelos produtores de “Two And A Half Men”, nessa época ele também se casa com a atriz pornô Brett Rossi (!!!) e, após divorciar-se dela, é diagnosticado HIV positivo.

O documentário mostra suas sucessivas apresentações nos EUA –algo como apresentações de stand-up sem ser stand-up... –nas quais Charlie insistia numa richa descabida com a Warner e os produtores que o demitiram. De qualquer forma, essas apresentações serviram para consolidar Charlie Sheen como uma espécie de ícone da atualidade, arrebanhando milhões de seguidores em redes sociais, e transformando-o numa celebridade cult, com direito a memes e citações na internet; inclusive de algumas entrevistas prestadas na época, das quais hoje Charlie admite sentir tremenda vergonha.

Essa via-crusis auto-destrutiva só não o engoliu por completo porque seu traficante pessoal (lembram dele?!), por ter se tornado seu grande amigo, resolveu um dia reduzir gradativamente o conteúdo de cocaína nas drogas que Charlie consumia (isso porque o próprio Charlie afirmou que, no que dependesse dele, ele não iria parar!). Assim, em cerca de um ano, o consumo já não o estava afetando, e ele se encontrou em condições de parar definitivamente.

Desconcertante pela forma extraordinariamente despoja com que seu personagem principal se presta à expor, comentar, admitir e a fornecer seu ponto de vista da maior parte das passagens que compuseram sua atribulada trajetória (só é omitida sua tentativa, não muito eficaz, de emplacar com a série “Tratamento de Choque”), e em breves instantes, tocante na evidência de um certo arrependimento com que Charlie admite ter desperdiçado muitos momentos importantes em família por causa de seus vícios, este documentário salienta a persona singular de um ator carismático, talentoso e incorrigível que conseguiu se tornar um personagem muito mais antológico e peculiar do que qualquer outro que interpretou. A contar até a gravação deste documentário, Charlie Sheen está limpo há oito anos.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

O Senhor das Armas


 Sob sua direção, Andrew Niccol havia então realizado dois filmes: O cultuado “Gattaca-A Experiência Genética” e o irregular, porém, promissor “S1mone”. Entretanto, não passou despercebido da crítica –e talvez nem do próprio Niccol –que seus roteiros, quando filmados por outros diretores (caso do fabuloso “Show de Truman”, dirigido por Peter Weir) obtinham excelência cinematográfica maior do que quando tratados por seu próprio autor.

Em “O Senhor das Armas”, nota-se um esforço digno e intermitente de Niccol em corresponder a esse anseio e fazer um filme, por assim dizer, mais vívido e menos artificial, lapsos que assolavam suas outras obras, em especial, “S1mone”.

E ele já entrega virtuosismo e originalidade em seu prólogo –uma sequência ininterrupta onde a câmera acompanha a trajetória de um cartucho de bala, desde a confecção, passando pelas idas e vindas de seu comércio até o momento em que por fim é usado no campo de batalha para tirar uma vida. Na esteira desse momento um tanto quanto impactante, é deveras uma trajetória –só que, desta vez, de um personagem de carne e osso –que o restante do filme também se prestará a acompanhar: A do mercador de armas Yuri Orlov, vivido por Nicolas Cage. Numa narração em off –à qual Cage acrescenta toda a fina ironia com a qual moldou diversos personagens –somos informados que Yuri é descendente de imigrantes ucranianos que, em plena Nova York dos anos 1970, fingem-se passar por judeus a fim de evitar problemas.

Diferente do irmão mais novo, Vitaly (Jared Leto), para quem o restaurante da família já comportava as medíocres aspirações, Yuri almeja alguma grandeza. Nem que o seja por meios um tanto quanto ilícitos: Ao testemunhar uma fracassada tentativa mafiosa de execução, algo nele desperta para a utilidade crucial das armas de fogo e, munido desse entendimento algo filosófico da propensão à auto-destruição do ser humano, Yuri se torna um traficante de armas.

Iniciando de forma tímida, ele vai aprimorando sua lábia de vendedor à medida que os anos 1980 vão chegando e avançando –e entregando assim, circunstâncias sócio-políticas propícias ao surgimento de mercadores negros como ele próprio. Yuri –em princípio, ao lado de Vitaly, até que o vício em cocaína dele o obriga a internar-se –passa a sucatear arsenais de repúblicas destituídas, espólios de guerras civis reaproveitados onde outros conflitos emergiram, e vai aos mais variados cantos do mundo, do Leste Europeu ao Sul da Àfrica, fornecendo armas para que as guerras assim travadas continuem ocorrendo, sempre convencendo a si mesmo que, no papel de mero intermediário entre o armamento e seus usuários, ele não tem qualquer participação na carnificina assim deflagrada.

Dois personagens representam, de certa maneira, o caminho de Yuri rumo ao fim: Um está lá desde o começo, e vem a ser a bela Ava Fontaine (Bridget Moynaghan, de “Eu, Robô”, “O Novato” e “John Wick-DeVolta Ao Jogo”), modelo e objeto de desejo de Yuri desde os tempos de classe média, ela cai em seus braços quando ele já tem dinheiro o suficiente para ostentar riqueza de sobra (e para fazer dela sua esposa-troféu); o outro personagem surge em consequência das atividades ilegais de Yuri: O incorruptível agente da Interpol Jack Valentine (Ethan Hawke, que trabalhou com Niccol em “Gattaca”).

Sempre um passo a frente de Valentine justamente por valer-se das pequenas brechas da lei que lhe permitem escapar ileso sem provas circunstanciais que o incriminem, Yuri vai constituindo seu império enquanto fornece armas às guerras do mundo inteiro. Sua situação chega perto de complicar-se quando ele se envolve com o psicótico ditador de uma república sul-africana, que o faz sentir-se bem próximo da mortandade que julga tão longe de si –e planta pequenos indícios que permitem a Valentine finalmente aproximar-se dele, não sem contar com ajuda indireta de Ava, aos poucos, consciente da atividade do marido.

Embora lembre um pouco o posterior “Feito Na América”, com Tom Cruise” –e como ele seja alardeadamente baseado num suposto fato real –“O Senhor das Armas” persegue, do início ao fim, a referência primordial do cinema de Martin Scorsese: O diretor Niccol emprega uma câmera inquieta, uma montagem tão minuciosa quanto frenética, um roteiro meticuloso e hábil na junção entre seriedade e farsa, usando de tudo isso para enfatizar o êxtase embriagante em que se transforma a via-crucis de seu protagonista antes dela ganhar os ares sombrios da inevitável derrocada –que surge quando, já nos anos 1990, o perfil geopolítico mundial acirra ainda mais as guerras ao redor do mundo, tornando seu trabalho um pântano de areia movediça do qual não existem mais chances de escapar.

A justaposição cruelmente irônica que o filme de Niccol coloca ante seu personagem principal é que, no fim das contas, o meio em que vive, e no qual tanto fez por se inserir, terminou se tornando o inferno que tragou toda sua vida pessoal, e do qual já não há mais oportunidades de escapatória.

É claro que falta nele o manejo habilidoso que faz de Martin Scorsese um mestre (pois, se fosse fácil fazer, qualquer um faria...), mas Andrew Niccol não deixa de entregar um espetáculo cheio de credibilidade e astúcia, um produto de entretenimento que tem a sublime intenção de levar alguma fagulha de consciência ao expectador, mesmo que o faça focando num protagonista que não possui nenhuma.

terça-feira, 12 de março de 2019

Coração Selvagem

Revisto “Coração Selvagem” conserva inalterado todo seu fascínio. É notável perceber também que ele pertence a uma fase em que David Lynch se permitia trabalhar com materiais oriundos de outrem –como “Duna” extraído do romance de Frank Herbert ou o livro de Barry Gifford, como é o caso aqui –e mesmo assim se manter dentro de seu estilo rocambolesco, ácido e desafiador.
Saltam aos olhos as analogias estabelecidas entre “O Mágico de Oz” –uma pequena obsessão de Lynch vide a personagem de Isabela Rosellini chamada Dorothy em “Veludo Azul” –possivelmente responsáveis principais pelo estranhamento deliberado que ele evoca nesta obra.
Como Saylor, Nicolas Cage é incrivelmente adequado ao universo do diretor: Um ator perfeito para os rompantes bipolares que a narrativa irá impor ao personagem que começa o filme cometendo um chocante assassinato, termina encontrando um tortuoso caminho para virar pai de família, e durante todo o processo enaltece Elvis Presley.
No papel da garota que ele ama –e junto da qual vive toda uma jornada de fuga e redenção –Laura Dern, uma das atrizes prediletas de Lynch, compõe uma personagem diametralmente oposta ao seu trabalho anterior, em “Veludo Azul”: Se antes era a menina recatada, aqui ela é a garota sensual; facetas opostas numa mesma intérprete que Lynch parece contrabalancear em cores quentes. Com efeito, se Cage é um reflexo de Elvis Presley, Dern é um reflexo de Marilyn Monroe.
E ambos, no papel assumido de criações norteadas pela caricatura, são assim os protagonistas perdidos em um conto de fadas perverso, corrosivo e sórdido. A estrada pela qual dirigem todo o filme, a fugir da mãe dela (Diane Ladd) que os deseja separados e Saylor, morto, é, portanto, a estrada de tijolos amarelos que deveria levar à Cidade Esmeralda, mas leva à cidadezinha poeirenta de Big Tuna, onde um desfecho de desventura lhes aguarda.
Dessa forma, o road movie que o casal apaixonado estrela se ocupa de mostrar, aqui e ali, personagens defeituosos e problemáticos, aos quais sempre falta algo –tal qual o Espantalho sem cérebro, o Homem de Lata sem coração e o Leão Covarde sem coragem.
Esses personagens surgem ora nas histórias mirabolantes que Saylor e Lula contam um ao outro (a ninfomaníaca que se recusava a fazer sexo oral; ou o primo de Lula, vivido por Crispin Glover, acometido de insana esquizofrenia); ora cruzando o caminho dos dois (o velhote de voz esganiçada que reflete sobre pombos, ou a antológica aparição de Willem Dafoe no papel do cafajeste Bobby Peru) –entretanto, não é dado a nenhum deles a oportunidade de preencher magicamente suas deficiências, assim como os próprios protagonistas não estão lutando para voltar ao lar, como Dorothy, mas, ao contrário, estão tentando fugir dele.
Narrado num tom caricatural que desperta certa suspeita ao expectador –sobretudo, àquele expectador acostumado aos enigmas quase indecifráveis de Lynch –“Coração Selvagem” encontra, nas manobras tortuosas de seu próprio retrato do mal, um final terno e feliz para seus personagens principais (proporcionado pela intervenção da Bruxa Boa, Glinda, aqui vivida por Sheryl Lee, a própria Laura Palmer!) quando estes se agarram à única âncora sólida e real naquele mundo corrupto e pernicioso: O amor que têm um pelo outro.
E o amor, na verve poética de Lynch, é o fogo que queima –o elemento, não por acaso, de maior força visual na narrativa.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Zandalee - Uma Mulher Para Dois

Ainda no embalo de uma espécie de reconhecimento alternativo que ele obteve por sua participação em “Coração Selvagem”, de David Lynch, o ator Nicolas Cage aparece aqui fazendo o que sempre foi sua especialidade: Um personagem surtado dos pés à cabeça.
Se Cage ainda viria a melhorar bastante como intérprete, aprimorar sua técnica (chegando até a ganhar um Oscar por “Despedida Em Las Vegas”), virar um astro a partir da metade dos anos 1990 e então entrar numa decadência tão vertiginosa quanto foi a sua ascensão, por outro lado, seu co-astro, Jugde Reinhold (de “Um Tira da Pesada”), coadjuvante relativamente assíduo nos anos 1980, fazia uma de suas últimas aparições relevantes no cinema.
Eles interpretam dois grandes amigos de infância: Johnny (Cage), um pintor de impulsos violentos e passionais, e Thierry (Reinhold), um poeta embriagado de seu próprio desdém pela sociedade.
Johnny reencontra Thierry após muitos anos em Nova Orleans –cidade cuja exotismo é empregado sem modéstia nos propósitos atmosféricos do filme –e, ao retomarem a amizade retomam também seu inconformismo com tudo e com todos.
Entretanto, Thierry é casado com a linda e insinuante Zandalee (Erika Anderson, tentadora) e embora seu desprezo, por vezes, se estenda até a esposa e o marasmo que ocasionalmente consome seu casamento (com a atenção de Thierry mais dedicada aos negócios da família do que à mulher), isso não ocorre com Johnny: Ele só enxerga em Zandalle erotismo e beleza –e, logo, ela se torna assim objeto de suas obsessões, e mote central de sua arte renascida.
Um triângulo amoroso se estabelece. Johnny e Thierry usam Zandalee como sua musa e combustível de sua criação artística ao mesmo tempo que assumem uma disputa por meio de deliberações que passeiam por concepções desconcertantes da vida e do mundo –há uma inteligência flagrante e de notável riqueza cultural nos diálogos –enquanto criam (e envolvem-se) em uma névoa própria dentro da qual atitudes, comportamentos e posturas distintas do mundo real –porém, não desprovidos de certa compostura –podem assim se expressar e encontrar um meio de se conciliar.
Dirigido por Sam Pillsbury (roteirista e produtor da ficção científica “Terra Tranquila”), “Zandalee” destaca-se por seu romantismo e excentricidade levados ao extremo e às últimas consequências, por sua desenvoltura ao afirmar-se sensual sem ceder (muito) ao vulgar, pela participação notável e exalando charme de Erika Anderson (que infelizmente, depois deste trabalho não participou de mais nenhum projeto relevante) e pela chance de ver Nicolas Cage e sua doideira interpretativa em estado bruto.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1996

O segundo trabalho do astro Mel Gibson na direção (o primeiro foi o drama “O Homem Sem Face”) tinha mesmo cara de filme premiável: Um épico histórico, suntuoso, grandiloqüente, romântico e solene. E de quebra, ainda era surpreendentemente bem dirigido.
Claro que muitos preferiam que o Oscar de Melhor Direção fosse para o chinês Ang Lee, pelo maravilhoso “Razão eSensibilidade” que nem estava entre os indicados –para compensar, o filme ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado para a atriz Emma Thompson.
Muito justa a vitória de Suzan Sarandon como Melhor Atriz, ainda que ela tivesse concorrentes espetaculares como Elizabeth Shue e a própria Emma Thompson, e também a de Nicolas Cage como Melhor Ator (uma lágrima para Massimo Troisi por sua indicação póstuma em “O Carteiro e OPoeta”).
O filme australiano “Babe-O PorquinhoAtrapalhado” surpreendeu tirando de “Apollo 13” o prêmio de Melhores Efeitos Especiais. Justo também.
Quanto ao Brasil, o mediano “O Quatrilho” perdeu o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro para o ótimo “A Excêntrica Família de Antonia”, o quê considero um grande acerto da Academia –a indicação para “O Quatrilho” já era, em si, um reconhecimento ao esforço da Retomada do Cinema Nacional.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Coração Valente", Mel Gibson

MELHOR ATRIZ

MELHOR ATOR
Nicolas Cage, "Despedida em Las Vegas"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mira Sorvino, "Poderosa Afrodite"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kevin Spacey, "Os Suspeitos"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Coração Valente"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Anne Frank Remembered"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Our Survivor Remembers"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Excêntrica Família de Antonia" (Holanda)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Coração Valente"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Babe-O Porquinho Atrapalhado"

MELHOR MAQUIAGEM
"Coração Valente"

MELHOR FIGURINO
"O Outro Lado da Nobreza"

MELHOR SOM
"Apollo 13"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Outro Lado da Nobreza"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
"O Carteiro e O Poeta"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
“Pocahontas"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Colors of The Wind", de "Pocahontas"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Os Suspeitos"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Razão e Sensibilidade"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"A Close Shave"

MELHOR MONTAGEM
"Apollo 13"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Lieberman In Love”

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cães Selvagens

Roteirista do excepcional “Táxi Driver”, de Martin Scorsese, Paul Schrader ganhou, com o tempo, uma fama de cineasta maldito ficando à margem do mainstream hollywoodiano –e aparentando preferir assim.
Títulos como “Hardcore-No Submundo do Sexo”, “Gigolô Americano” “A Marca da Pantera” e “Mishima-Uma Vida Em Quatro Tempos”, “O Dono da Noite” e “Temporada de Caça”, indicam uma predisposição à colocar os parias marginalizados no centro das atenções e uma simpatia irreprimível pelo estilo inquieto e autoral que predominou entre os realizadores da Nova Hollywood (entre os quais, diga-se, Schrader estava!).
Beneficia-se, de fato, dessa espécie de acidez antiquada e suburbana a história dos três amigos, Troy (Nicolas Cage, longe de seus melhores dias), Mad Dog (Willem Dafoe, fantástico) e Diesel (Christopher Matthew Cook) que saíram da prisão onde estiveram por um bom tempo e partilharam da descoberta de que, sob muitos aspectos, não conseguem lidar com o mundo que encontram do lado de fora dos muros.
A cena que abre o filme já estabelece a postura que o diretor assumirá até o fim (ou até quase o fim...): O personagem de Dafoe procura refúgio, muito ao seu jeito surtado e sem noção, na residência de uma antiga amante, contudo, tão intransigente e psicótica é sua personalidade e tão sobrecarregado de heroína está ele, que Mad Dog termina assassinando a própria amante assim como a filha adolescente desta, numa cena que poderia ser ainda mais pesada e perturbadora do que já é, não fosse o registro de um inacreditável humor que a narrativa impõe –muito se deve, também, à genialidade de Willem Dafoe na composição desse personagem.
Juntos, ele e os outros dois protagonistas obtêm dinheiro realizando, mais tarde, as atividades ilícitas de praxe –roubando dinheiro e drogas de traficantes menores, por exemplo –a maioria delas à serviço de Grecco (o próprio Paul Shrader). É ele quem providencia a incumbência seguinte: Seqüestrar o filho de um ano de idade de um estelionatário endividado com um dos sócios de Grecco.
É o golpe durante o qual, os três acreditam, irão endireitar suas vidas, tamanha será a recompensa que ganharão por ele.
Ou, encerrá-las de uma vez por todas, já que mergulham nessa missão dispostos à cumpri-la ou morrer tentando –“Como samurai!” reiteram em determinado momento.
Como toca a lógica de tramas transcorridas em meio à criminalidade, tudo tende a dar errado e certamente os três irão encontrar os mais inesperados contratempos.
Nessa trajetória em direção ao mais amargo fim chama a atenção o modo constante e insistente com que Schrader equilibra ironia, comicidade e crueldade, numa forma de estipular um estilo específico e diferenciado para narrar a história de três sociopatas incapazes de viver em sociedade –como atesta uma cena anterior onde cada um deles tem um encontro diferente com uma mulher: Troy divide um quarto com uma garota de programa (a linda Nicky Whelan) e, alheio à natureza da relação que ela estabelece com ele, lhe propõe até uma inapropriada viagem à França (carência da qual ela logo trata de tirar proveito); Mad Dog se mostra mais pragmático –paga uma massagista asiática para que o masturbe (!) –mas, igualmente desprovido de bom senso: Basta que a mulher saque de seu celular para conferir algumas mensagens e ele tem uma explosão de fúria; Diesel parecia, dentre todos, o mais bem situado –encontrou uma bela acompanhante no bar do hotel e com ela foi para o quarto. Bastou, porém, que o diálogo dos dois caminhasse para perguntas pessoais que ele não queria responder e Diesel revela a ela sua índole bipolar, violenta e perigosa.
Desde seu início, portanto, o diretor trabalha com os elementos que levarão seus personagens à derrocada final (e o final propriamente dito é uma cena que, em seu estranhamento, emula o ídolo do protagonista Troy, Humphrey Borgat, ao mesmo tempo que ilustra simbolicamente sua psicopatia), embora Schrader não tenha obtido uma obra plenamente satisfatória com essa intenção.
Legal mesmo é conferir o reencontro de Willem Dafoe com Nicolas Cage, depois de duas ótimas parcerias: “Coração Selvagem”, de David Lynch, em 1990, no qual Dafoe era um mero coadjuvante de Cage (ainda que memorável!), e “A Sombra do Vampiro”, de E. Elias Merhige, de 2001, protagonizado por Dafoe e produzido por Nicolas Cage.

sábado, 13 de maio de 2017

A Sombra do Vampiro

Em todos os ângulos possíveis, este trata-se de um projeto dos mais desiguais. Nascido da mente propensa a esquisitices do produtor Nicolas Cage que vislumbrou um filme de metalinguagem que partisse de um argumento cheio de ironia e curiosidade, e que ainda beneficiava-se por orbitar em torno de uma das mais lendárias produções do cinema: E se o diretor Friedrich Wilhelm Murnau, ao conceber sua obra-prima “Nosferatu”, nos primórdios do cinema (1922), tivesse recorrido, a fim de obter realismo técnico para além das limitações da época, a um vampiro de verdade?
Dando corpo narrativo a um folclore que já cercava a produção de Murnau –afinal, seu filme é tão antigo e lendário que a falta de informações sobre ele e seu elenco conduzia a esses preenchimentos de imaginação –o filme mostra o ator Max Schreck (uma atuação extraordinária de Willen Dafoe, que incorporou o personagem a ponto de não se despir dele nem mesmo nos intervalos das gravações) como uma criatura da noite autêntica, requisitada pelo diretor Murnau (John Malkovich, veemente) em troca de alguns membros mais obsoletos da equipe técnica –que vão desaparecendo ao longo das filmagens –e, com o fim da produção, o sangue da própria atriz principal Greta Schroeder (interpretada como uma viciada quase sorumbática pela bela Catherine McCormack, de “Coração Valente”).
Como se já não fosse essa uma premissa bastante incomum, Nicolas Cage, como produtor, fã do perturbador, audaz e experimental, “Begotten”, requisitou para a tarefa da direção o mesmo realizador daquela obra, E. Elias Merhige, que se recusou a dar ao filme um aspecto de comédia –que seria a abordagem escolhida por nove entre dez realizadores para essa trama. Ao invés disso, Merhige pontua esse conto metalingüístico com dramaticidade, muito fatalismo, pormenores macabros e uma convulsiva seriedade, o quê confere a sua obra um clima estranho e indigesto a expectadores de gosto comercial, mas que caiu nas graças da critica no ano 2000, época de seu lançamento: O filme foi indicado aos Oscars de Melhor Ator Coadjuvante (que Willen Dafoe perdeu para o favoritíssimo Benicio Del Toro, por “Traffic”) e Melhor Maquiagem (vencido por “O Grinch”).
Hoje, já um tanto esquecido apesar de seu caráter bastante cult, “A Sombra do Vampiro” persiste como uma das menos usuais homenagens já feitas ao cinema.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Despedida Em Las Vegas

Na cena-prólogo que transcorre (e que antecipa com audácia todos os créditos iniciais) o primeiro take já é desconcertante: Nicolas Cage anda, descontraído, por um supermercado a empurrar um carrinho de compras.
Um movimento quase corriqueiro de câmera é, contudo, razão de imediato consternamento: Ao mostrar o conteúdo do carrinho, tudo o que o expectador vê são garrafas e mais garrafas de bebidas alcoólicas.
E aquilo que há um segundo atrás parecia descontração, logo o personagem de Nicolas Cage e as cenas demolidoras que se seguirão tratarão de deixar bem claro que é a mais implacável das dependências.
É assim, cheio de ironia (inclusive para com o drama de seu próprio protagonista) que começa “Despedida Em Las Vegas”, onde o diretor Mike Figis, em nome da decisão louvável de evitar sentimentalismo barato, empresta variadas técnicas de um registro mais neo-realista (e naturalista) para contar a via crusis de seu personagem: Roteirista alcoólatra e fracassado (Cage, em brilhante atuação) após perder o emprego e ser abandonado pela mulher tem uma decisão radical; Vender todos os bens e rumar para Las Vegas, com a única intenção de beber até morrer. Não estava em seus planos, porém lá conhecer, e de certa forma se apaixonar, por uma prostituta (Elisabeth Shue, também ela primorosa).
Nos moldes das personagens prostitutas de Fellini, ela revela-se uma mulher de bom coração, e se dispõe a acompanhá-lo em sua deterioração pessoal e física, em parte pela sua própria falta de perspectiva.
Percebe-se, de maneira bastante imediata, então, a inclinação do sensível diretor Mike Figis em absorver preciosas lições do cinema europeu, e ignorar as tendências burocráticas do cinema americano a que pertence: Tal demonstração de ímpeto e personalidade foi recompensada no Oscar 1995 com significativas indicações –a dele, para Melhor Diretor, a de Elisabeth, para Melhor Atriz –e uma, mais significativa ainda, vitória –a de Nicolas Cage, como Melhor Ator.
Foi depois desta conquista que Nicolas Cage tornou-se um dos maiores astros de Hollywood em meados da década de 1990, até afundar a própria carreira em dívidas financeiras e projetos discutíveis.
Uma prova, irônica e cruel, de que ele compreendeu, na vida real, as vicissitudes do auge e da decadência experimentadas por seu trágico personagem.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Kick Ass - Quebrando Tudo

   Em obras de argumento mais raso, o gatilho narrativo que impulsiona a trama e a leva a acontecer se dá por meio de ímpetos nem sempre justificados da parte de seus personagens, todavia, neste belo trabalho, o gatilho narrativo que leva um nerd adolescente a honrar os heróis de quadrinhos que tanto admira tornando-se um deles, é impecável, cortesia do antenado e coerente roteirista Mark Millar que, assinando um punhado de obras um bocado originais, deu um sopro de renovação aos quadrinhos.
   É esse mesmo sopro que o perspicaz diretor Matthew Vaughn é particularmente feliz em recriar nesta sua frenética adaptação para cinema.
   Começando sua carreira com produtor dos filmes ingleses de Guy Ritchie –quando alguns já afirmavam, um pouco injustamente, ser ele o verdadeiro gênio da dupla –Vaughn migrou para a direção com o efusivo “Nem Tudo É O Que Parece” (um ágil trhiller gângster nos moldes de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamentes”), mas mostrou quais eram suas inclinações quando realizou a adaptação da HQ de Neil Gailman, “Stardust-O Mistério da Estrela”. Após realizar este ótimo “Kick Ass”, ele foi fazer o melhor filme dos X-Men até então, “X-Men Primeira Classe”.
   Não há dúvidas, contudo, que é “Kick Ass” que reúne de maneira bastante eficiente suas mais variadas características como contador de histórias.
   Estão lá a preocupação com a modernidade e a forma como suas ramificações afetam a consciência do “ser” um super-herói (inquietações plenamente compartilhadas com Mark Millar); assim como o registro refinado, violento e virulento, cheio de graça de virtuosismo cinematográfico da própria criminalidade, que ele realizou tão bem em “Nem Tudo É...” e nas obras que produziu, dirigidas por Ritchie. O gangster Damicco (magnificamente personificado por Mark Strong) é uma extensão desses personagens, trazendo os trejeitos e a cultura com a qual foram trabalhados nas obras anteriores de Vaughn –e todos possuem uma perceptível e declarada reverência –e referência! –à Martin Scorsese.
   Mas, ao contrário do que costuma acontecer, são os heróis o elemento mais admirável de “Kick Ass”: Não apenas o perplexo e encantadoramente humano protagonista vivido por Aaron Taylor-Johnson (com quem o roteiro é pródigo em levar o expectador a se identificar), mas principalmente os vigilantes uniformizados, Big Daddy (Nicolas Cage, em sua melhor aparição num bom filme em anos!) e a pequenina Hit Girl (Chloe Grace-Moretz, a personagem que rouba praticamente todo o filme).
  Eles representam o núcleo emocional do filme –quem acompanhamos e por quem torcemos. Num trabalho de caracterização e minúcia de um capricho e carinho desiguais; e é exatamente por isso que a opção gráfica do diretor Vaughn por uma violência acentuada acaba tendo um significado muito mais surpreendente e alarmante: Ainda que em registro deliciosamente cômico, a violência de “Kick Ass” é entregue num nível intenso, para se fazer pensar.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Asas do Desejo / Cidade dos Anjos

Concebido por Win Wenders, entre outras coisas, para ser um amálgama sentimental e alegórico dos conceitos metafísicos que fragmentavam a Europa, o filme original alemão (lançado em 1989), "Asas do Desejo" mostra dois anjos testemunhando a diversidade do destino ao contemplarem as inúmeras vidas a se cruzar em uma Berlim em preto e branco.
Para um deles (Bruno Ganz), a humanidade é uma fonte de fascínio menos pelos erros paulatinamente cometidos (e recordados sistematicamente pelo outro anjo) e mais por sua mesmerizante condição (na qual se submetem às emoções bárbaras de existência mundana).
Os anjos vêem o amor como a suprema emoção a definir essa vulnerabilidade humana e logo, o protagonista tem um interesse maior despertado por uma trapezista de circo, passando aos poucos a se perguntar acerca das sensibilidades terrenas –sentir um toque, ou um sabor, um cheiro, ou mesmo ser capaz de enxergar as cores –privilégios estes reservados aos humanos, e que os anjos não têm.
Há um meio de conseguir isso, e tornar-se humano; e como toda escolha de ordem tão radicalmente existencialista, ela vem atrelada a um dilema irreversível: Saborear a humanidade e tudo que com ela pode vir a arcar, seja bom ou mal, requer que ele tenha também que abrir mão de sua imortalidade.
E na narrativa de Wenders, não existe diálogo de natureza erudita (que os anjos trocam uns com os outros o tempo todo) capaz de sobrepujar o arrebatamento instintivo presente numa emoção passível de embriagar qualquer um.
Os tempos e os contratempos do amor são aqui vistos numa ótica distinta daqueles que por ventura estiverem habituados demais ao cinema americano: Não há inconstâncias e imaturidades, nem encontros e desencontros; e Wenders enxerga a relação a dois com o mesmo teor político que enxerga a vivência como um todo.
E essa profundidade acarreta um valor estupendo à "Asas do Desejo": É por amor que o anjo abdica de sua monocromática condição celestial para abraçar a colorida, finita e suja condição humana, mas, Wenders parece nos instigar a perguntar, como essa pode ser uma escolha justa (ou coerente) se este ser, o anjo, não tem ideia da miríade mutável e indefinida do amor?
No desfecho, é com essa questão que o anjo (agora, humano) precisa se defrontar: O amor que o levou à escolha mais irreversível de sua existência muda, não é mais o mesmo amor extasiante e intenso, mas, ele não muda mais...
Eis a verdade que nos fadamos a passar o resto da vida a ruminar...
Já a refilmagem norte-americana oferece uma série de concessões, num esforço para preservar a beleza etérea do filme original num corpo mais comercialmente apetecível.
Nicolas Cage é Seth, um anjo que vaga pela cidade de Los Angeles testemunhando as aflições e felicidades do cotidiano humano. Vez ou outra, seu toque lhes trás conforto enquanto busca entender aqueles seres que experimentam emoções extremas que ele é incapaz de sentir. Nas imediações de um hospital, Seth se apaixona por uma jovem médica cuja perda de um paciente a fez questionar suas escolhas de vida. Pela primeira vez, ele passa a almejar um meio de tornar-se humano e viver esse amor. Mas a vida irá lhe impor escolhas dolorosas. 
Em ambos seus protagonistas são confrontados com as variações inesperadas e idiossincráticas do amor. E é exatamente isso que os filmes são: Histórias de amor, ou de como o amor pode se mostrar impossível. 
No clássico de Win Wenders, talvez o mais amargo dos dois, temos uma visão menos idealizada da percepção do amor (também pudera, o filme não é americano!), e um final em aberto que pode ser, ou não, ainda mais devastador do que o desfecho do outro filme. 
Na refilmagem, há o sério risco de muitos cometerem o engano de tratar-se de uma comédia romântica, devido à presença de Meg Ryan, estrela prolixa desse gênero nos anos 1990.
Não é.
Na realidade, esta produção é espantosamente tão dotada de maestria e sensibilidade quanto o filme original, muito em parte graças às escolhas do diretor Brad Silberling, que dá a sua narrativa um belo tratamento de filme europeu, provavelmente intoxicado pelo inspirado trabalho de Wenders em “Asas do Desejo”, e pela belíssima presença de Nicolas Cage. 
Estes dois filmes são casos raríssimos de original e refilmagem no qual ambas são obras recompensadoras (a exemplo de “Os Sete Samurais” e “Sete Homens e Um Destino”), inclusive evitando a repetição da história: Embora traga suas similaridades, “Cidade dos Anjos” tem uma história diferente, com caminhos diferentes de “Asas do Desejo”. Os dois filmes, inclusive, têm o poder de deixar o expectador só e reflexivo, mas com um sorriso no rosto.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Coração Selvagem

Um dos mais lineares trabalhos de David Lynch, o quê não quer dizer muito, já que esta também é uma obra desafiadora, e aberta a infindáveis interpretações. 
Os jovens Saylor e Lula (a efervescência de Nicolas Cage em contraponto à inesperada sensualidade de Laura Dern) se amam, o que não é visto com bons olhos pela maldosa mãe de Lula (já que Saylor conhece alguns segredos do passado que ela quer esconder da filha). Ela chega a contratar homens para dar cabo de Saylor, culminando em cenas de desconcertante violência gráfica.
Ele, ex-presidiário, leva Lula em seu conversível para juntos fugirem de todos em algum lugar dos confins norte-americanos. Mas, para onde quer que vão, os problemas têm a capacidade de achá-los. 
A sinopse não é capaz de dar a dimensão exata deste trabalho de Lynch. Com um clima doentio, como é habitual em seus filmes, ele cria um estranho paralelo entre esta história e o conto do “Mágico de Oz”, com a intervenção das fadas do bem e do mal em diversos momentos, e as cores do arco-íris aparecendo nas ousadas cenas de sexo entre Saylor e Lula (!). Sua obsessão pela luz também se faz presente: aqui, representada quase exclusivamente pelo fogo, registrado em closes extremos, sejam eles incêndios ou fósforos sendo riscados. Como se não bastasse, Lynch povoa o filme com criaturas absolutamente caricatas e surreais, que vão do casal protagonista (Saylor usa uma jaqueta de pele de cobra o filme todo, e é obcecado por Elvis Presley, enquanto Lula é de um incômodo histrionismo cartunesco) até os coadjuvantes como o bizarro Bobby Peru, de Willen Dafoe; e até mesmo a mãe de Lula (com rompantes assustadores da atriz Diane Ladd).
Na filmografia de Lynch, este parece ser mais um exercício de estilo do que um projeto de fato. Todavia, quando se fala de um gênio como David Lynch, isso não é demérito, e "Coração Selvagem" é uma obra das mais fascinantes.