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domingo, 9 de junho de 2024

Uma Secretária de Futuro


 O saudoso diretor Mike Nichols sempre teve uma versatilidade desigual, essa capacidade, somada ao talento para sintonizar as sutilezas da atuação (oriundo de sua formação teatral) ajudou a moldar inúmeros projetos singulares que compõem a sua filmografia. Nela, há de tudo um pouco. Das raras comédias a concorrer à prestigiada estatueta de Melhor Filme na cerimônia do Oscar 1989 (prática que infelizmente perdura até hoje), “Uma Secretária de Futuro” é um título que se destaca: Por sua simpatia perene junto ao público que tornou-o um sucesso de bilheteria; pela escolha espetacular, primorosa e espirituosa de intérpretes, todos perfeitos (algo no qual Nichols era craque); e pela junção adequada, funcional e certeira de elementos, tais como um bom roteiro, boas atuações e uma ótima direção.

Interpretada com fulgor fora do comum por Melanie Griffith (uma atriz com algo de alternativo que, na época, dificilmente seria uma escolha convencional para um papel como este), Tess McGill é uma das muitas assalariadas que luta por ter lugar ao sol na disputada (e machista) Nova York da década de 1980. Todos os dias, ela pega a balsa que a leva da suburbana Nova Jersey –onde tenta levar uma vida doméstica, pacata e pretensamente estabelecida ao lado do noivo (Alec Baldwin) –para a competitiva e inclemente Manhattan, onde estão os tubarões corporativistas da bolsa de valores que normalmente atuam como seus patrões; Tess é secretária.

Um deles (Oliver Platt) não tarda a lhe preparar uma armadilha: Julgando ser uma entrevista de emprego para um cargo melhor, Tess acaba na limusine de um executivo disposto à seduzí-la –uma ponta de um ainda desconhecido Kevin Spacey, da época em que atuava mais como comediante. Como pedir demissão na situação financeira de classe média-baixa em que vive é um risco e tanto, Tess tem consciência da urgência em arrumar outro ganha-pão. E ela julga que sua sorte pode finalmente mudar quando começa a trabalhar para a empoderada e discursivamente encorajadora Katharine Parker (Sigourney Weaver, afiadíssima) –afinal, com uma mulher como chefe, imagina Tess, as chances de crescer profissionalmente se tornam reais, longe da indulgência tipicamente masculina, não é mesmo?

Contudo, não é exatamente isso que acontece: Ao sugerir uma ideia bastante original e arguta que teve para Katharine –a de investir, não em emissoras de TV, no ramo de propaganda, mas em emissoras de rádio, por conta dos valores e das complexidades de negociações serem infinitamente mais razoáveis –Tess descobre que Katharine tentou lhe passar a perna. Durante uma tumultuada semana em que Katharine sofre uma fratura andando de esqui, Tess fica sabendo que ela lhe roubou a ideia e iniciou negociações preliminares com um tal de Jack Trasker (Harrison Ford, no auge de sua fase galã). Ao aproveitar-se da ausência de Katharine para passar-se por uma das acionistas a fim de conduzir a negociação, Tess inicia uma relação profissional promissora ao lado de Jack, que acaba progredindo para uma relação mais íntima também –e em ambos os casos, Tess sabe que terá a competição acirrada e desleal de Katharine.

A narrativa que Mike Nichols constrói em “Uma Secretária de Futuro” é, até hoje, pra lá de saborosa: Não apenas ele faz uso imodesto dos elementos de comédia romântica presentes na trama (os encontros e desencontros entre Tess e Jack são simultaneamente deliciosos de se acompanhar) como também se vale de um expediente muito comum em obras graciosas dos anos 1980, onde um, ou uma, protagonista finge, por razões até que nobres, guardadas as proporções, ser aquilo que não é, e cria toda uma farsa a um só tempo divertida e tensa com data de validade para terminar (pois, mentira, apesar dos pesares, ainda tem perna curta!), premissa que funcionou para as mais diversificadas produções como “Tootsie”, “Quase Igual Aos Outros”, “Um Príncipe Em Nova York”, “Tocaia” e tantas outras, aliado a isso, ele ainda elabora uma observação contundente, envolvente e cheia de propriedade, do competitivo mercado de trabalho yuppie dos anos 1980, amparada numa personagem principal cheia de iniciativa, pioneira das personagens femininas a se posicionar com independência e auto-afirmação perante os homens em um universo predominantemente masculino.

Em tempo: Já a adentrar os anos 1990, algum executivo da NBC teve a ideia de criar uma série de TV inspirada em “Uma Secretária de Futuro” –ou “Working Girl”, seu título original –e a atriz que interpretou Tess McGill nos oito episódios que essa série pouquíssimo lembrada durou foi uma ainda desconhecida Sandra Bullock!

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Roar


 O cinema, volta e meia, testemunha um evento desastroso no qual –como reza a famigerada Lei de Murphy –tudo o que poderia acontecer de errado realmente DÁ errado.

Às catástrofes espetaculares do cinema como “O Portal do Paraíso” e “Waterworld” junta-se este um tanto quanto curioso “Roar”.

A razão para “Roar” ser o filme confuso, inconstante e incoerente que naufragou completamente nas bilheterias em meados de 1981 foi a iniciativa um bocado experimental da parte de seu realizador, o produtor Noel Marshall (que acumulou as funções de produtor, diretor, ator principal e co-roteirista), então colhendo os louros pelo êxito de “O Exorcista”. Casado com a estrela Tippi Hedren (de “Os Pássaros”), Marshall logrou fazer um filme audacioso sobre uma família de naturalistas às voltas com perigosos felinos num esquema quase de filme caseiro: Filmado todo na propriedade da família, protagonizado por sua esposa (Hedren) e coadjuvado pela filha dos dois (uma ainda jovem Melanie Griffith).

A audácia de sua ideia estava no fato de usarem leões e tigres reais para interagir com o elenco: Cerca de cinco anos antes das câmeras começarem a rodar, Marshall e sua família (Tippi Hedren era conhecida como uma ferrenha defensora dos direitos dos animais) passaram a cuidar de uma prole de filhotes de leões e tigres que cresceram junto deles e da equipe técnica, acostumados a terem humanos por perto.

Quando o projeto iniciou as filmagens, porém, uma complicação inesperada se sucedeu na prática: Embora fossem mansos, os leões ficavam confusos quando os atores humanos próximos a eles interpretavam medo toda vez que as câmeras começavam a funcionar; e com isso, os animais ficavam agressivos, atacando quem estivesse por perto e expondo todos os envolvidos do filme a um perigo real.

O resultado foi uma série de acidentes quase fatais envolvendo os bichos ao longo dos meses de filmagem; contabiliza-se setenta membros da equipe e do elenco feridos!

Indefinido em seu gênero (a trama é desenvolvida sem uma noção muito clara ou harmoniosa de suspense, aventura, drama ou filme-família), estourado no seu cronograma (afinal, foram cinco anos!!!) e no seu orçamento (os gastos com emergências médicas e os funcionários constantemente substituindo aqueles que sofreram ataques de animais, o que fez deste o ‘filme mais perigoso de todos os tempos’), e acometido de filmagens absolutamente caóticas, “Roar” chegou aos cinemas concebido de maneira desleixada e abrupta, incapaz de recuperar nas bilheterias todo o investimento a ele dedicado.

O passar dos anos transformou “Roar”, por um tempo, numa produção assídua na “Sessão da Tarde” embora naquela época, o dado intrigante de seus pra lá de turbulentos bastidores não fosse de conhecimento do público –o que tirava assim o sentido da realização rudimentar que se testemunhava –levando a produção de Noel Marshall a cair num esquecimento que, sob muitos aspectos, perdura até hoje. A despeito de tudo isso e da qualidade de fato oscilante de seu resultado final, “Roar” pode ser visto como um testemunho à predisposição humana para encarar desafios por vezes tidos como insanos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Quero Dizer Que Te Amo


 Vencedor do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro, por “Sedução”, o diretor espanhol Fernando Trueba fez sua estréia norte-americana por meio de caminhos comercialmente viáveis –saiu-se já de cara com uma comédia –e trouxe a tiracolo um astro latino (Antonio Banderas) com o qual provavelmente teria mais compatibilidade durante a produção do que um ator americano.

“Quero Dizer Que Te Amo” deleita-se com a situação de farsa que predomina nesse subgênero específico das comédias, de “Quanto Mais Quente Melhor” até “Tootsie”; no entanto, o que se sucede em cena não é um protagonista se travestindo, mas sim se multiplicando em dois (!).

Art Dodge, personagem de Banderas, é dono de uma galeria de arte em Miami. Sua técnica é ir até velórios e explicar, com a cara mais lavada do mundo, que o falecido comprou-lhe um quadro na semana anterior, levando os familiares a pagar-lhe o valor da obra a partir do benefício da dúvida. Nota-se aí, a predisposição ao embuste de Art.

Todavia, ele mete-se em maus lençóis quando o falecido em questão, no golpe que decide aplicar, é pai de um gangster pouco avesso à amenidades, o colérico Gene (Danny Aiello). Para escapar da encrenca com a pele intacta, Art termina de carona no carro de Betty (Melanie Griffith), ex-esposa de Gene, com quem Art acaba tendo um affair passageiro. Ou, ao menos, ele julgava que seria passageiro: De um dia para o outro, a impulsiva e inconsequente (e à propósito rica...) Betty decide que vai se casar com Art, sem lá muito perguntar a opinião deste. Mas, Art conhece a irmã dela, Liz (Daryl Hannah), completamente diferente, mais centrada e mais ajuizada que a outra, e por ela se apaixona.

Como, porém, conseguir almejar algum romance real com a iminente cunhada proibida, se ela, ainda por cima, não o suporta e o enxerga como um aproveitador barato?

A saída é inventar um irmão gêmeo fictício, Bart (!), e embora o truque se resuma a Art soltar os cabelos presos por rabo-de-cavalo e colocar um par de óculos, a manobra dá surpreendentemente certo, chegando a quase convencer até mesmo seu pai (!) meio senil, Sheldon (vivido com graça e descontração pelo veterano Eli Wallach).

No papel de Bart, o protagonista consegue assim conquistar o coração da até então inacessível Liz, desempenhando o papel de artista engajado que corresponde a ela –na verdade, o próprio Art era um artista frustrado que adotou a malandragem diante de suas desventuras.

O grande problema de Art, no entanto, é a autenticidade de seus sentimentos: Ele se apaixona de fato por Liz, ainda que a data de seu casamento com a irmã avoada, Betty, vá rapidamente se aproximando –e o truculento Gene, ainda apaixonado por Betty e disposto a fazê-la feliz de qualquer maneira, não aceitará ver Art dando o fora nela sem fazer com que pague muito caro por isso!

Herdeiro a um só tempo das comédias italianas (e européias em geral), e das ágeis screwball norte-americanas (todas inspirações para esta obra, não há dúvidas), o filme de Trueba prioriza o humor ao romance, a despeito do cerne ser, o tempo todo, seu triângulo amoroso; para tanto, há espaço de sobra para que brilhem os atores coadjuvantes magistrais (como a secretária vivida pela sempre sensacional Joan Cusack, que esteve com Melanie em –veja só! –“Uma Secretária de Futuro”) e para que se note, em boa luz, o timing cômico impagável de Banderas, até então soterrado em projetos norte-americanos que buscaram vendê-lo como o estereótipo do amante latino no cinema.

Foi nesta produção charmosa e agradável –ainda que ocasionada por certa redundância corriqueira –que Banderas e Melanie se conheceram vindo a se casarem poucos meses depois. Com efeito, percebe-se nitidamente que a química dele com Melanie flui muito melhor do que com Daryl Hannah –o par romântico de fato –o que agrega ao filme um ligeiro desequilíbrio em sua condução e nas impressões passadas ao expectador.

Nada que comprometa esta diversão descompromissada, despretensiosa e rasteira.

sábado, 23 de maio de 2020

Cecil Bem Demente

Primeiro nome à frente das transgressões perpetradas pelo cinema americano independente nos anos 1970 e 80 (com obras trash e contraventoras como “Pink Flamingos”, de 1972, “Polyester”, de 1981 e “Hairspray-E Éramos Todos Jovens”, de 1988), o diretor John Walters se tornou ligeiramente moderado com a ascensão de realizadores de um cinema bem mais agressivos nas últimas décadas –e que, sob muitos aspectos, ele próprio ajudou a inspirar.
Lançado no ano 2000, “Cecil Bem Demente” é um trabalho que justapõe o estilo intencionalmente chocante de John Walters à uma espécie de redundância com a qual ele correu o risco de ser relacionado, moldando uma trama repleta de paralelos perceptíveis somente para aqueles que enxergarem além de sua muralha de non-sense.
Em Baltimore, a cidade-cenário de todos os filmes de Walters, uma improvável estréia de um blockbuster traz para o lugar a estrela da produção, Honey Whitlock (Melanie Griffith) que, no minimalismo de seu estereótipo, é uma celebridade toda gentil e amável com a massas, mas grosseira e rude com os indivíduos.
Aqui e ali, as câmeras de Walters vão flagrando outros personagens coadjuvantes ao redor dela, deixando bem claro que algum tipo de plano subversivo está em progresso.
Com efeito, durante seu discurso que antecipa a apresentação do filme, Honey é sequestrada num ato terrorista. Contudo, mais tarde, no cativeiro, ela descobre que seus sequestradores tem intenções inusitadas: São todos membros do elenco e da equipe liderada pelo insano diretor Cecil Bem Demente (Stephen Dorf) que, levando a expressão ‘filmagem de guerrilha’ ao pé da letra, resolve rodar seu filme –uma obra sobre a revolta armada contra o sistema dos estúdios hollywoodianos –tendo por protagonista sua estrela-refém, e com as cenas de seu roteiro executadas em locais reais.
Leia-se, o cinema (exibindo a comédia “Patch Adams”) que eles invadem e explodem é um cinema de verdade; os expectadores que eles afrontam, são pessoas que realmente estavam na plateia; os executivos de Hollywood que eles atacam durante uma conferência para uma superprodução, são produtores de estúdios de fato, representantes do cinema comercial que eles abertamente querem confrontar.
Com essa premissa contaminada por seu estilo caótico e caricato, Walters expõe os antagonismos histriônicos entre os extremos distintos do cinema –a arte e a indústria –convertendo todos os personagens no ápice da paródia a que se propõem, e encontrando nessa dinâmica tresloucada uma empatia que somente seu público específico será capaz de apreciar: Ao seu jeito, Walters vislumbra a redenção de seus intratáveis personagens, evidenciando a gradual metamorfose da própria Honey que, de refém coagida e forçada a atuar no filme de guerrilha, se torna uma adepta da ‘causa’.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O Artista do Desastre

Não havia como James Franco interpretar Tommy Wiseau nesta reconstituição apaixonante, apaixonada e heróica dos bastidores do filme “The Room” (hoje dono do infame título de pior filme de todos os tempos) se ele também não viesse a dirigir a produção. Como também não haveria como ele dirigir esta produção se não viesse também a interpretar, ele próprio, o seu protagonista: A personalidade de Wiseau (ou ao menos aquela inacreditável faceta que ele permitiu revelar ao mundo) é indissociável da fauna curiosa e, não raro, perplexa que ele reuniu ao seu redor, da iniciativa inconseqüente e destrambelhada de se lançar como cineasta e do filme absurdamente bizarro que disso tudo resultou.
O grande brilho deste trabalho é, portanto, a compreensão incondicional que James Franco possui dos estranhos impulsos de vaidade que acometeram seu protagonista e que foram interpretados pelo público em geral como cacoetes bisonhos de alguém sem noção. Da mesma forma que sua atuação emula uma admiração salutar, sua narrativa reconhece algo mais onde todo o resto enxergou só galhofa: Uma vontade genuína de expor seus sentimentos por meio da arte.
Do início ao fim os olhos da plateia –porque Wiseau é um personagem deveras singular para isso –o hesitante candidato a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James) só consegue superar suas inibições no palco graças ao incentivo um tanto estranho vindo do mais estranho ainda Tommy, que James Franco interpreta com o primor equilibrado e imersivo que lhe valeu o Globo de Ouro 2018 de Melhor Ator em Comédia ou Musical.
Esquisito num nível quase irreal, Tommy Wiseau é aquele tipo de personagem que seria completamente inacreditável se não existisse de fato: Fala com um sotaque bisonho e frequentemente indiscernível, tem um comportamento completamente fora da realidade e preserva um mistério em torno de si mesmo (e de como ele conseguiu ter tanto dinheiro) que torna tudo ainda mais intrigante –ele conta para todos que veio de Nova Orleans, crente de que alguém acredita nesse papo furado!
Justamente por conta dessa alienação extrema experimentada por ele, Wiseau transforma o melhor amigo Greg no foco central de seus planos de vida e juntos os dois vão morar em Los Angeles, tentar a sorte como atores profissionais.
Os primeiros anos –o filme se inicia no fim da década de 1990 –os confrontam com diversos infortúnios e rejeições e, sem conseguir emprego, eles têm a ideia de fazer, eles mesmos, um filme para que possam estrelar como atores.
Tommy, o dono afinal de todo o dinheiro que vai bancar a maluquice, escreve o roteiro que ele mesmo estrela, dirige e produz, com Greg como seu principal coadjuvante.
“O Artista do Desastre” se incumbe assim de todo o non-sense que rondou de ponta a ponta as filmagens de “The Room”, desde cenários desnecessariamente confeccionados em estúdio, até presepadas inacreditáveis (todas elas, claro, protagonizadas, por Wiseau), algumas inclusive que podem ser conferidas no próprio filme que acabou realizado, uma das obras mais absurdas e sem pé nem cabeça da história do cinema –e, por isso mesmo, um fenômeno cult como atestam os depoimentos reais no começo de Kevin Smith, J.J. Abrahams, Lizzy Caplan, Adam Scott e muitos outros..
Embora houvesse material para tanto, o que James Franco realiza não é uma comédia escrachada, mas um esforço conciliatório de chamar o público a compreender a quase sempre incompreensível personalidade de Wiseau, aproximar-se dele, vencer as barreiras de sua esquisitice e vê-lo como um pessoa de verdade.
Na interpretação minuciosa com a qual consegue replicar sem afetação os trejeitos de seu protagonista (e isso, em si, é quase um milagre) e na condução algo estóica do cinema independente em gestação que registra, o filme realizado por Franco pulsa de admiração e bem-querer, seguindo pelo caminho das pedras para ser nem tanto uma comédia de riso frouxo, mas, um belo trabalho sobre cinema e para cinema onde está em foco uma das mais fascinantes, patéticas e tocantes personalidades a aparecer nas telonas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Homens & Mulheres - Histórias de Sedução

Estruturado num hoje incomum formato episódico, este filme produzido pela TV inglesa no início da década de 1990 adapta três contos de renomados autores norte-americanos por três diferentes diretores (Frederic Raphael, roteirista de “Um Caminho Para Dois” e “De Olhos Bem Fechados”, de Kubrick; o imprevisível e frequentemente controverso Ken Russell; e o renomado Tony Richardson), todas as histórias são ambientadas nos anos 1920, e todas tratam da natureza comiserativa presente nos desenlaces (e desfechos) amorosos, acompanhadas por uma bela trilha sonora que serve de conexão entre os episódios, assinada por Marvin Hamlisch, esbanjando sensibilidade.
O primeiro, “Homem Na Camisa Brooks Brothers”, de Mary McCarthy, trata de um homem (Beau Bridges, irmão de Jeff Bridges) e uma mulher (Elizabeth McGovern) que veem a se conhecer durante uma viagem de trem. Embora ele seja completamente diferente do tipo de homem que ela almejava, o envolvimento acontece. Assinado por Frederic Raphael, em seu único crédito como diretor,  onde ele assume também sua especialidade: O roteiro.
Talvez por isso este segmento tenha tanta solidez e seja tão envolvente quanto niilista em relação aos sentimentos na comparação com o teor passional dos demais.

O segundo, “Penumbra Antes dos Fogos de Artifícios”, de Dorothy Parker (autora retratada em “O Círculo do Vício”, de Alan Rudolph), dirigido por Ken Russell, envolve uma jovem rica (Molly Ringwald) que, apesar de estar apaixonada não consegue acreditar na sinceridade do amor que seu namorado lhe dedica em razão de seu notório passado como conquistador.
Embora ostente a habilidade inconteste de Russell, este episódio sofre ligeiro prejuízo devido ao ator principal, Peter Weller (de “Robocop”, de Paul Verhoeven), cuja interpretação algo fria e distanciada impede a narrativa de atingir seus objetivos.

E o terceiro, “As Colinas Como Elefantes Brancos”, de Ernest Hemingway, realizado por Tony Richardson, acompanha um diálogo entre um escritor (James Woods) e uma jovem rica (Melanie Griffith, absurdamente maravilhosa). Eles são amantes. Ela está grávida dele. Numa parada de trem em plena Espanha, os dois deliberam a possibilidade dela praticar ou não um aborto.
Dentre todos é o episódio que escancara com mais propriedade as dores do coração.
Como é normal em um compêndio de caráter, estilos e realizadores alternados –ainda que amparados no rigor de um mesmo tema –a sucessão de contos é irregular, evidenciando a superioridade de uns e os equívocos de outros, no entanto, são três obras que, cada qual ao seu jeito, valem a conferida.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Tempestade de Paixões


Bons diretores possuem uma técnica tão notável e envolvente que são capazes de tornar atrativo até mesmo um enredo pontuado por eventos banais. É o que o inglês Mike Figgis faz aqui ao registrar alguns personagens de caráter quase marginal em suas linhas particulares de causa e efeito sendo entrecruzadas por ocorrências, na maior parte das vezes, corriqueiras, e ainda assim impondo à condução disso tudo um charme noir.
“Tempestade de Paixões” –que no Brasil também recebeu o título de “Dia Fatal” –conta com a inebriante presença de Melanie Griffith, então em estado de graça (naquele mesmo ano, 1988, ela estrelou o melhor trabalho de sua carreira, “Uma Secretária de Futuro”), vivendo com encanto, sensualidade e primor a jovem norte-americana Kate obrigada a se revezar entre o trabalho árduo de garçonete e o de eventual acompanhante para políticos sob orientação do influente Cosmo (Tommy Lee Jones) que almeja tornar-se a figura mais poderosa em uma cidadezinha portuária da Inglaterra –um ciclo vicioso da qual ela não consegue sair.
Também há Sean Bean, ainda bem jovem, como Brendan, um rapaz irlandês que obtêm trabalho com Sr. Finney (o cantor Sting), o dono de um clube prestigiado daquelas redondezas, para quem passa a fazer serviços diversos como servir de motorista para músicos eventualmente contratados –até um lance inesperado torna-lo cada vez mais importante e leal aos olhos do patrão.
Em algum momento, Kate e Brendan terão seus caminhos cruzados (primeiro numa constrangedora trombada em um shopping, depois, no restaurante em que ela trabalha), no que o amor encontrará seus atalhos para se expressar em meio ao pessimismo e à desilusão.
Também terão caminhos cruzados o Sr. Cosmo e o Sr. Finney, os quais a narrativa irá mostrar como similares em termos de obsessão por controle, e opostos no que pretendem no final das contas: O primeiro, um americano empreendedor cuja aparência afável e o discurso liberal escondem uma avidez de poder e uma disposição inescrupulosa para atingi-lo; o segundo, um empresário no domínio de seu território, absolutamente avesso à novidades externas, e hostil feito fera acuada em relação à tudo que perturba a harmonia de seu lugarejo.
Aos poucos vamos percebendo que Cosmo é essa perturbação.
No entanto, o diretor (e também roteirista) Figgis não conduz esse antagonismo em direção a um embate explosivo –ele prefere adotar o ponto de vista de Kate e Brendan, o mais próximo de pessoas normais na trama, e observa detalhadamente o caminho tortuoso que ambos percorrem, em meio ao fogo cruzado de duas personalidades poderosas, para ficarem juntos.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cherry 2000


De um teor tão desigual que só poderia partir mesmo da década de 1980, esta mescla inusitada, curiosa e claudicante entre ficção científica ao estilo “Mad Max”, romance e drama erótico (!), se beneficia, acima de tudo, pela ótima presença de Melanie Griffith, numa personagem durona que chega a ser quase icônica, embora ela não seja a personagem-título.
Cherry 2000 é na verdade uma andróide que simula todas as características de um ser humano. Melhor: Ela simula todas as características de uma mulher perfeita. Bela, desejável, dócil, acessível e sempre no clima para transar (aspectos que a interpretação impessoal da bela Pámela Gidley parece ressaltar).
No futuro, ela é um produto que os usuários compram como um eletrodoméstico (e hoje, nos tempos politicamente corretos que vivemos, jamais caberia a concepção de uma premissa tão descaradamente machista, sexista e grosseira como a deste filme).
Seu proprietário em questão, Sam (o não muito eficaz David Andrews) se vê tão satisfeito em ter Cherry que sequer cogita relacionar-se com uma mulher de carne e osso. Mas, existem contratempos em apaixonar-se por uma máquina (e não estou falando das questões afetivas e metafísicas levantadas no mais recente e espirituoso “Ela”, de Spike Jonze): Ao molhar seus circuitos, Cherry entra em curto (!), e precisa ser substituída por uma réplica se Sam deseja que sua vida doméstica volte ao conto de fadas que era antes.
O problema é que um corpo andróide que tenha exatamente as mesmas características de sua preciosa Cherry não é tão fácil assim de achar: Sam precisa aventurar-se pela arenosa fronteira em busca das peças ideais e dos contatos certos entre os contrabandistas para não resvalar naqueles que representam perigo mortal (entre eles, um caricato e vilanesco Tim Thomerson, de “Trancers”). Para tanto, ele acaba contando com a ajuda de Edith Johnson (Melanie), uma mulher real habituada com a vida pouco civilizada nas imediações daquela terra sem lei.
O filme que já trazia elementos inesperados mesclados com uma percepção inusitada de humor, ao reunir esse incompatível casal protagonista fica ainda mais curioso: Avançando em ritmo de perseguição ao esboçar um mundo pós-apocalíptico que nunca ganha a mesma textura ou a mesma plausibilidade de um “Mad Max”, “Cherry 2000” se permite intercalar por elementos de comédia romântica (!), as únicas características com as quais relacionar os rompantes de imaturidade –sejam na questão do humor, da atração física ou do suspense –que cercam a relação atribulada entre Sam e Edith.
Prova do quão indiscriminado é esse seu abraço ao gênero, “Cherry 2000” até se permite, na meia hora final, todas as passagens clichês onde o protagonista volta atrás em busca da mulher que sempre amou, mas não sabia; aspectos que fazem dele um descerebrado passatempo dos anos 1980, caracterizado por concessões improváveis, por meio das quais os expectadores podem levar a namorada para assistir.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Uma Secretária de Futuro

Recordar é viver, não é? E hoje em dia, os filmes dos anos 1980 têm um sabor de nostalgia que, ouso dizer, época alguma é capaz de igualar.
São clássicos distintos. Há coisas boas e ruins daquele período, claro, mas a década de 1980 tem uma série de características (e não apenas no cinema, diga-se) que a fazem única.
Dito isso, vamos à história do filme:
Tess McGill (uma apaixonante e despojada Melanie Griffith) é uma obstinada moça de classe média norte-americana com ambições profissionais bem sólidas. Ela consegue emprego como secretária numa empresa gigantesca, e a chefe de seu departamento (Sigourney Weaver, ardilosa com seu humor peculiar) mostra-se receptiva, disposta a permitir que cresça profissionalmente, e até encoraja suas ideias, que vão além do âmbito que sua posição trabalhista poderia restringir.
Mas, por acaso, Tess descobre que as ideias que ela compartilha com tanta expectativa com sua chefe, estão sendo usadas por ela, para benefício próprio.
Assim, a secretária vale-se de uma semana na qual a chefe se obrigará a fazer uma ausência forçada do trabalho (ela quebrou a perna andando de esqui...), para de certa forma assumir seu lugar, passando-se por uma das executivas da empresa, e no processo obtendo a parceria e admiração (e até algo mais!) de um dos acionistas, Jack Trasker (interpretado com o charme de sempre por Harrison Ford, ainda que ocasionalmente ele pareça imprensado entre esses dois vulcões interpretativos).
Porém, como toda a farsa, a de Tess uma hora ou outra irá colidir com a verdade.
Lançado nos cinemas em 1988, e logo obtendo sucesso de público e crítica "Uma Secretária de Futuro" garantiu sua presença entre os indicados ao Oscar daquele período, concorrendo não só a Melhor Filme, como também à Melhor Atriz (para Melanie Griffith) e Melhor Atriz Coadjuvante (para Sigourney Weaver).
Melanie era uma escolha curiosa; já não era assim tão jovem para o papel, mas combinou como uma luva com a personagem: Sua presença no filme era desigual, e ela interpretava com notável desenvoltura e experiência, é o primeiro papel de sua carreira que ela encarava aproveitando o acúmulo de uma certa bagagem profissional e emocional. Prova de que o falecido diretor Mike Nichols soube usar isso maravilhosamente bem, é que ela nunca repetiu o mesmo êxito depois.
Sigourney Weaver também estava em estado de graça: Indicada no mesmo ano por sua performance espetacular em "Nas Montanhas dos Gorilas" (trabalho que considero um dos mais exemplares do cinema) ela mostrou, neste filme, todo seu timing cômico ao interpretar a vilã.
Outro que surpreende é Harrison Ford no papel do galã Jack Trasker: mostra o quanto poderia ter sido interessante se Ford tivesse investido mais em comédias em sua carreira.
Mas, de um modo geral, e não somente me atendo às qualidades do elenco (e num filme de Mike Nichols é preciso sempre fazer ressalvas quando ao elenco!), "Uma Secretária de Futuro" permanece como uma das mais deliciosas e inteligentes comédias dos anos 1980. Que não merece ser esquecida.
E como o público de hoje tem uma facilidade enorme para ir esquecendo os filmes lançados a mais de quinze anos atrás, fica aqui a minha dica, meu lembrete e minha recomendação.

sábado, 10 de outubro de 2015

Lolita

Se há um filme que desafia convenções, esse filme é "Lolita", de Adrian Lyne.
Não me atreverei a estabelecer uma comparação com o "Lolita" de Stanley Kubrick que muitos críticos tendenciosamente se apressam em dizer que é melhor. Essa é uma tarefa ingrata e pesada que ficará para outro dia.
"Lolita" conta a história de Humbert Humbert, erudito escritor europeu que ao mudar-se para a América, acaba fascinado pela filha de 14 anos da dona da pensão em que se hospeda, menina que embora adolescente, guarda traços de sensualidade insuspeita e pulsante, "uma ninfeta" como ele diz.
Ainda que suas investidas para enredar Lolita sejam atrapalhadas e pouco incisivas, o destino tratará de fazer com que a jovem fique sob sua guarda e como consequência, a disposição de seus anseios patológicos.
A questão é que "Lolita" de Adrian Lyne é um filme, em tudo e por tudo, incompreendido.
Até hoje, jamais foi lançado em DVD no Brasil, fruto certamente da forma sisuda e recriminada com que foi recebido à época de seu lançamento em 1997.
Seria o tema da pedofilia? Acho que não, há diversos filmes sobre isso por aí, e quanto mais polêmicos e escandalosos, mais suscitam o interesse do público.
Seria a memória subconsciente do filme de Kubrick fazendo com que gerações de cinéfilos repudiassem essa nova versão, como alguns dizem?
É até possível, mas pouco provável.
A verdade é que essa injustiçada obra de Adrian Lyne merece uma revisão. Seu trabalho tem o mesmo colorido presente na linguagem do livro de Vladimir Nabokov, e embora alguns digam que Lyne cometeu o erro de tornar o protagonista Humbert Humbert uma figura agradável na pele do ótimo Jeremy Irons (o quê o filme de Kubrick não faz, para efeitos morais mais retos e certos), ainda acredito que a narrativa do livro se encontra mais preservada em sua totalidade no filme de Adrian Lyne.
Embora possivelmente suas imbricações morais tenham se dissipado nesse exercício de estilo.
Talvez, a grande razão para a rejeição a este novo "Lolita" seja mesmo ironicamente a forma com que o diretor Lyne se aproximou mais do livro. Ao adotar uma narrativa cheia dos mesmos visuais e das minúcias que o livro contado em primeira pessoa, Lyne fez com que a história –seja proposital ou não –adquirisse os ares de um romance, uma história de amor fadada a jamais se realizar por inteiro, por um homem e uma menina, terminando por compadecer-se por seu protagonista, a despeito da natureza hedionda de seus atos.
Este, com certeza, foi seu grande pecado.