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sábado, 22 de julho de 2023

Flash


 Falar sobre filmes de superheróis, hoje, é evocar todo um contexto no qual estão inseridos como o universo provavelmente compartilhado que eles habitam do lado de lá das telas, e também, a situação, periclitante ou não, que a produção vivencia do lado de cá. Em “Flash” há muito o que se falar nos dois casos, e nenhum é uma história muito curta: Primeiramente, temos o herói velocista vivido por Ezra Miller (de quem este é o primeiro filme solo), finalmente alçado ao status de protagonista numa trama em que almeja usar de sua supervelocidade para voltar no tempo e impedir o assassinato da sua mãe (a maravilhosa Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também”), crime do qual seu inocente pai (Ron Livingston, de “Band Of Brothers” e “Como Enlouquecer Seu Chefe”, substituindo Billy Crudup dos outros filmes) é acusado.

No entanto, como bem sabem todos os expectadores de “De Volta Para O Futuro”, mexer com o tempo acarreta pesadas repercussões no presente, e é aí que o filme dirigido com notável habilidade por Andy Muschetti começa a se complicar um pouco: “Flash” faz parte do Universo DC nos cinemas, perpetrado por Zack Snyder em seus três primeiros filmes: Esboçado em “Homem de Aço”, ampliado com algum desleixo em “Batman Vs Superman” e bastante comprometido com as turbulências ocasionadas na produção de “Liga da Justiça” –a Liga da Justiça, inclusive, da qual o Flash faz parte, comparece, na bombástica cena de abertura –logo, viajar no tempo, no contexto da sua narrativa, significa revisitar eventos ocorridos nos filmes anteriores, neste caso específico, a chegada do General Zod (Michael Shannon) à Terra, episódio que proporcionou a revelação do Superman (Henry Cavill, que aqui nem aparece) ao mundo, como visto em “Homem de Aço”. Mas, a intervenção de Flash, ou melhor, Barry Allen, no continuum espaço-tempo provocou uma espécie de efeito-borboleta: A maioria dos membros da Liga da Justiça não parece existir nesse mundo, incluindo Superman, assim, aliado a uma versão sua daquela realidade (o ator Ezra Miller faz um incrível trabalho desempenhando com credibilidade duas versões distintas do mesmo personagem), Barry vai à Mansão Wayne tentar encontrar o Batman e, quem ele encontra, ao invés do personagem vivido por Ben Affleck, é o Bruce Wayne interpretado por Michael Keaton, o Batman de 1989, do filme que praticamente deu o estopim para as tentativas de adaptações de histórias em quadrinhos dos últimos trinta e quatro anos!

Ao tentarem juntos descobrir o paradeiro do Superman, os dois Flashs e o veterano Batman descobrem que, nesta nova realidade, quem terminou vindo para a Terra foi sua prima, Kara Jor-El (Sasha Calle, pouco aproveitada) que se encontra, por sua vez, presa na União Soviética como objeto de estudo daqueles militares.

Não há dúvidas de que, para os fãs mais crescidos e nostálgicos, a visão de Michael Keaton retomando seu papel de Batman é um deleite e tanto –ainda mais quando este ótimo ator vale-se de cada instante de filme para roubar completamente a cena e provar que guardadas algumas proporções e distinções, ele é, sim, um dos melhores intérpretes de Batman. No entanto, há um grave problema enfrentado por “Flash”, o filme, e que se reflete na pífia bilheteria que esta superprodução amargou: A despeito de um ou outro momento genuinamente divertido (e de ser, no cômputo geral, um bom filme) “Flash” não passa a sensação de euforia e entusiasmo que se esperaria de um trabalho com essa proposta –a Marvel Studios, valendo-se de mote muito semelhante em “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” levou plateias à vibrarem nas salas de cinema.

Em parte porque desde o primeiro momento de filme, estamos cientes de que “Flash” se passa num universo já moribundo; meses antes de seu lançamento, já sabíamos que a Warner havia contratado James Gunn para reformular todo o Universo DC, recomeçando tudo do zero com novos atores. Ou seja, “Flash”, de Andy Muschetti, representa então os estertores finais, o último suspiro de um mundo com seus minutos contados. Ter consciência disso tira toda a satisfação que, por ventura poderia existir em momentos descontraídos como os esforços a la Marty McFly de Barry Allen em refazer sua realidade como era antes (e não ajuda nada as cenas profusas de efeitos visuais serem adornadas por gráficos que parecem visivelmente mal acabados), nem nas aparições-surpresa que surgem na tela durante o clímax (e que poderiam ser o ponto alto do filme, mas não o são porque os realizadores não sabem explorar o potencial da mitologia que manejam com a mesma habilidade que a Marvel Studios) ou na cena pós-créditos, construída para ser divertida mas que, por razões óbvias, termina sendo completamente vazia. Não haverá uma continuidade em relação a qualquer coisa que se vê aqui, logo, não há qualquer peso nas consequências sugeridas no roteiro, para o bem e para o mal. E o filme de Andy Muschetti, a despeito de todas as suas boas intenções, não se sustenta sozinho para ser, no fim das contas, um projeto válido e digno, mesmo que mal-fadado.

domingo, 25 de junho de 2023

Liga da Justiça de Zack Snyder


 As turbulências do Universo DC nos cinemas já são conhecidas, e todos sabem que a maioria delas culminou no irregular “Liga da Justiça” de 2017 que, embora tivesse o nome de Zack Snyder em seus créditos, era fruto do trabalho de Joss Whedon, chamado pelos executivos da Warner Bros. para finalizar o vasto material deixado por Snyder antes de seu afastamento em decorrência do trágico suicídio da filha. Havia algumas intenções bem nítidas no recrutamento de Joss Whedon que, é bom lembrar, dirigiu também “Os Vingadores” para a Marvel Studios cerca de seis anos antes: Harmonizar as muitas ideias ainda inacabadas (algumas bastante ambiciosas) que Zack Snyder deixara para “Liga da Justiça”, e dar um aspecto mais, digamos, semelhante às obras da Marvel para as ainda tão lúgubres realizações da DC –público e crítica pareciam concordar que “Batman Vs Superman” padecia, entre tantas outras coisas, de um tom sombrio que por vezes exacerbava e soava inadequado a um filme de superheróis.

Entretanto, Joss Whedon não revelou-se a escolha ideal para a tarefa: Além de simplificar todo o material de Snyder a fim de acomodá-lo numa duração curta de mais apelo comercial (tirando assim toda a relevância de muitas cenas), Whedon acrescentou cenas que só introduziam piadinhas desnecessárias (um elemento da Marvel do qual a DC não precisava), deixando a clara e desconfortável diferença de estilo visual e narrativo entre ele e Snyder (transformando o filme numa colcha de retalhos) e finalizou todo o material com um desleixo ainda mais incômodo: Ficou famosa (ou seria infame?), por exemplo, a boca em CGI de Henry Cavill, acrescentada para apagar o bigode que ele deixara crescer para as filmagens de “Missão Impossível-Efeito Fallout”.

Então, veio a pandemia em 2020 e os índices baixos (ou seria melhor inexistentes?) de bilheterias cinematográficas fez os executivos do estúdio voltarem sua atenção para sua plataforma de streaming, o HBO Max, e para as redes sociais, onde ganhava força um movimento chamado #snydercut no qual fãs fizeram petições pedindo pelo lançamento da versão de Zack Snyder de “Liga da Justiça” certamente melhor do que a lançada no cinema em 2017 –até porque, seria difícil conseguir fazer algo pior...

Eis que, uma vez mais tendo acesso às cenas gravadas, e com todo o arsenal de efeitos computadorizados para finalizar o filme à sua maneira, Zack Snyder pôde enfim satisfazer seus fãs e entregar sua própria versão de “Liga da Justiça” a ostentar a nada modesta metragem de quatro horas de duração (!).

Após os eventos dramáticos de “Batman Vs Superman” –revistos sobre outro e estilizado ângulo nas cenas iniciais –um novo desafio aos heróis, Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) surge no horizonte: Sem o vasto poder de Superman para proteger a Terra, as preciosas ‘caixas maternas’ despertam sua energia, atraindo invasores alienígenas.

Outrora pivô de uma invasão alienígena ocorrida em tempos imemoriais, as ‘caixas maternas’ –divididas em três –ficaram na Terra, sob a proteção dos humanos, dos atlantes (o povo de Aquaman) e das amazonas (o povo de Diana, a Mulher-Maravilha). Agora, o conquistador tirânico Darkseid (Ray Porter) pretende recuperá-las e, para isso, envia seu mais poderoso lacaio, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds, um vilão muito mais elaborado esteticamente e melhor escrito do que no outro filme), desesperado por saciar a fome de conquista de seu senhor e assim, saldar a dívida que tem com ele, e voltar para seu mundo-natal.

A medida que se deparam com o poder incomensurável do Lobo da Estepe, Bruce Wayne (o Batman, caso alguém não saiba...) dá sequência ao seu plano de reunir os seres mais poderosos da Terra numa única equipe a fim de protegê-la. Com Diana ao seu lado –devidamente alertada do roubo da ‘caixa materna’ em poder das amazonas por sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) –ele vai atrás do atlante Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), do velocista Barry Allen, o Flash (Ezra Miller) e do indivíduo cibernético Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher), este, aliás, criado a partir de uma das ‘caixas maternas’.

No entanto, logo fica claro que, para fazer frente a esse poderoso inimigo, eles devem encontrar um meio de trazer de volta Kal-El, o Superman (Henry Cavill).

Para aqueles que viram o “Liga da Justiça” de Joss Whedon, este novo filme não terá uma trama das mais diferentes do que se viu naquele, ainda assim, devido ao tratamento muito mais épico e ambicioso planejado por Snyder, a sensação de acompanhar os mesmos acontecimentos é a de se assistir a um filme completamente novo. Muita coisa muda –sai completamente a abertura ao som de “Everybody Knows”, por exemplo –mas, curiosamente, muita coisa permanece a mesma nesta nova versão; consequência do fato claro de  que foi Snyder quem realmente filmou a maior parte de “Liga da Justiça”, a grande diferença foi que Joss Whedon enxugou, e muito o material, a fim de acomodá-lo em módicas duas horas, criando, aqui e ali, cenas que emendavam alguns blocos. Todavia, como é visível ao assistirmos as duas versões, Whedon prefere menções aos quadrinhos que remetem mais leveza, enquanto que Snyder enfatiza um certo peso dramático embutido naturalmente nessa mitologia. Preferir um ou outro é, deveras, uma questão de gosto, mas é bem nítido qual das duas versões é superior: Pela amplitude da trama preservada e concebida, a versão de Snyder é infinitamente mais concisa, satisfatória e coerente que o filme francamente falho de Whedon. As mesmas cenas, na concepção de Snyder, ganham uma duração maior, privilegiam mais a atmosfera e os pequenos detalhes (não somente a câmera lenta como muitos detratores quiseram alardear), aprofundam as relações e motivações de praticamente todos os personagens (alguns, como o Cyborg, são genuinamente melhorados) e conferem ao filme uma contundência que faz toda a diferença na última parte do filme, um clímax muito mais tenso, eficaz e vibrante.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Lembranças de Um Amor Eterno

A primeira cena do filme é cheia de intimidade. Ainda não sabemos, mas é a única cena de todo o filme na qual veremos juntos o casal apaixonado vivido por Jeremy Irons e por Olga Kurylenko.
Ela é Amy Ryan. Ele é Ed Phoerum. Ela é uma estudante de astrologia que trabalha ocasionalmente como dublê em cenas perigosas de filmes mirabolantes. Ele é um renomado astrólogo, casado, pai de família, muito mais velho que ela.
E, no breve vislumbre do relacionamento entre eles que temos, podemos perceber que um dos estímulos para o romance entre os dois é a constante capacidade dele em antecipar as atitudes dela, e surpreende-la assim com surpresas românticas.
A surpresa maior, no entanto, chega como um baque: Quando vai assistir uma palestra de Ed após cerca de três meses sem se verem, Amy recebe a notícia de que ele faleceu –a despeito do fato intrigante de ter continuado a receber e-mails dele mesmo depois da data do óbito (!).
Incrédula quanto à situação, ela tenta de todas as maneiras descobrir o que de fato está se passando –vai à casa da família dele em Londres, tenta rastrear seu jazigo, etc.
Nesse ponto, em que a narrativa econômica do diretor Giuseppe Tornatore omite maiores informações na pretensão jocosa de intrigar o público, seu filme chega quase a lembrar o enigmático “Amor Maior Que A Vida”, com Jennifer Connelly, no entanto, essa auspiciosidade é fugaz: Quando os esclarecimentos não tardam a se acomodar na narrativa percebemos que esta é mesmo uma réplica europeizada e supostamente elitista, intelectual e refinada do meloso “P/S Eu Te Amo” –como naquele outro filme, o indivíduo apaixonado deu-se ao trabalho de montar mensagens infindáveis para a mulher amada, às quais ela recebe, aqui, na forma de messengers em seu celular, videos gravados em computador ou câmeras, ou mesmo cartas. Todas essas mensagens obedecendo um planejamento específico e detalhado –e, por vezes, inverossímil –onde ele determina com noção profética todos os passos dela.
Se o filme norte-americano já era uma overdose de sacarose difícil de engolir, este trabalho europeu –mas, falado em inglês e estrelado por um casal de atores consideravelmente conhecidos e reconhecidos –encontra seu grande pecado nos exageros passionais de seu diretor italiano: A condução de Tornatore se excede em seu pedantismo e em seu romance deslavado; a trilha sonora de Ennio Morricone, por exemplo, chega a ser intrusiva de tão onipresente; e os dois personagens principais, apesar do esforço dos atores que os interpretam não conseguem envolver o público.
Essas características sabotam as intenções de fazer deste um desigual e emotivo estudo do luto e da perda em oposição ao egocentrismo de esperar que uma pessoa viva (ela) mantenha-se sentimentalmente presa a uma pessoa morta (ele), compensado somente com a graça e a delicadeza da bela ucraniana Olga Kurylenko que se sai muito bem como protagonista –contrapondo a presença nem sempre adequada do veterano Jeremy Irons.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Cruzada


Embora seja encarado, na opulenta filmografia do diretor Ridley Scott, como uma obra menor, o épico “Cruzada” é um belo exemplo das amplas capacidades dele como realizador; é, também, um exemplo de como se construir um épico de maneira satisfatória: Sua narrativa é tensa, intensa, romântica, grandiosa, lírica e violenta. E razoavelmente pontuada por referências históricas pertinentes.
Seguindo o mesmo procedimento criativo adotado por ele e por seus roteiristas ao criar “Gladiador”, Scott se detêm sobre um momento notável da História Antiga –neste caso, a transição entre a segunda e a terceira Cruzada de Jerusalém –criando um roteiro hábil em pairar sobre os eventos fundamentais daquele momento, centralizando tudo isso em torno de um protagonista fictício –talvez, o único personagem que não é real na trama.
Esse personagem vem a ser Ballian de Ibelin (papel que Orlando Bloom agarra com unhas e dentes a fim de se livrar da imagem de Legolas em “O Senhor dos Anéis”), viúvo e renegado ferreiro francês na aldeia em que vive devido ao suicídio da esposa.
Ballian junta-se ao grupo de cavaleiros templários de seu recém-conhecido pai (Liam Neeson) que o conduz até Jerusalém, então um pólo de interesses religiosos e intrigas palacianas por conta da tomada dos árabes, o que pode ser breve, pois Saladino (o ótimo Ghassan Massoud), o líder militar dos muçulmanos espia a frágil trégua mantida a duras penas pelo leproso rei de Israel (Edward Norton, irreconhecível atrás de bandagens e maquiagem).
O possível sucessor do rei, Guy de Lousigniam (Marton Csokas), é um homem selvagem e hostil que anseia por uma guerra contra os muçulmanos. É essa oportunidade que Saladino espera para arremessar suas tropas sobre a cidade e retomar Jerusalém. Nessa cruzada, o papel de Ballian poderá ser fundamental.
Ainda que ocupe um ingrato lugar intermediário e transitório na filmografia de Ridley Scott (não atinge o auge qualitativo e artístico que ele demonstrou, em mais que uma vez, que é plenamente capaz de alcançar; mas, está longe de ser uma de suas obras inferiores), “Cruzada” é um épico belíssimo com magníficas e bem realizadas cenas de batalha, além de um notável e variado elenco; acima de tudo, uma demonstração da técnica sólida e admirável de um especialista no gênero.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Operação Red Sparrow


Quando foi lançado nos cinemas, “Operação Red Sparrow” sofreu inevitáveis comparações com “Atômica”, mas, embora a premissa de espionagem européia centrada numa notável protagonista tenha similaridades, as suas diferenças são mais contundentes –sobretudo, na postura da direção que em “Atômica” aponta para um filme de ação e em “Red Sparrow” para um suspense erótico.
A trama, sobre uma jovem engolida por um mundo de segredos e meias-verdades, tem mais relação com “Nikita”, de Luc Besson, e o recente (e brilhante) “A Vilã”.
Dominika Egorova (Jennifer Lawrence, sem qual o filme não seria nem uma sombra do que é) tem seus sonhos como bailarina prestigiada do Balé Bolshoi destruídos num acidente que lhe quebra a perna, deixando-a incapaz de cuidar da mãe debilitada (Joely Richardson).
Seu tio, membro do Departamento de Defesa Russo (Matthias Schoenaerts, de “Ferrugem & Osso”) surge com uma insidiosa alternativa: Participar de uma operação que culmina na morte de um traidor do governo russo.
Sem opção –já que testemunhou uma ação da mais alta confidenciabilidade –Dominika tem de integrar um pesado treinamento de agentes russos conhecidos como sparrows: Jovens treinados para seduzir com sua beleza, e desestabilizar psicologicamente com sua astúcia os alvos escolhidos.
Dominika se destaca no treinamento a ponto de ser recrutada para uma invasão de suma importância: Seduzir o agente americano Nate Nash (Joel Edgerton) e obter dele a identidade do misterioso Mable, o informante soviético que tem fornecido segredos aos EUA.
Bastante feliz em recriar o clima de ambiguidade moral que cercas as ações da heroína presente no livro de Jason Matthews, o filme é realizado pelo mesmo Francis Lawrence que dirigiu Jennifer nas três ótimas sequências de “Jogos Vorazes”. É muito impressionante da parte dela, enquanto estrela famosa e premiada, o quanto ela continua ousando na escolha de seus projetos; intercalando o magnífico e polêmico “Mãe!” com este thriller de espionagem que, se não atinge os mesmos picos de qualidade cinematográfica, exige dela as cenas de nudez e sexo mais ousadas e intensas de sua carreira até então.
Haverá quem diga que, em sua linguagem convencional, seu drama bucólico e sua tensão genérica, “Operação red Sparrow” vale exclusivamente por causa disso.

sábado, 3 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1991

Na noite em que a Academia de Artes Cinematográficas optou por celebrar os 100 anos de cinema (no resto do mundo essa data foi comemorada em 1994 por questões de concordância histórica), fazendo desta uma das mais belas cerimônias do Oscar de todos os tempos, o ator e diretor Kevin Costner viu sua consagração ao ter seu épico “Dança Com Lobos” premiado com sete estatuetas, vencendo concorrentes de renome como “O PoderosoChefão-Parte III” e, pelo menos, um francamente superior, “Os BonsCompanheiros”, de Martin Scorsese –agraciado somente com o prêmio de Ator Coadjuvante para Joe Pesci.
O prêmio de Melhor Ator foi vencido por Jeremy Irons por “O Reverso da Fortuna”, numa quase unânime constatação de que ele deveria tê-lo levado por “Gêmeos-Mórbida Semelhança”, de David Cronenberg,
O de Melhor Atriz foi conquistado por Kathy Bates, num gesto inesperado da Academia ao premiar um filme do gênero terror, “Louca Obsessão”.
E o de Atriz Coadjuvante foi uma barbada para Whoopi Goldberg vencendo um dos dois únicos prêmios para o festejado “Ghost-DoOutro Lado da Vida”.

MELHOR FILME
"Dança Com Lobos"

MELHOR DIREÇÃO
"Dança Com Lobos", Kevin Costner

MELHOR ATRIZ
Kathy Bates, "Louca Obsessão"

MELHOR ATOR
Jeremy Irons, "O Reverso da Fortuna"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Whoopi Goldberg, "Ghost-Do Outro Lado da Vida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Joe Pesci, "Os Bons Companheiros"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Dança Com Lobos"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Viagem da Esperança" (Suíça)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Cyrano de Bergerac"

MELHOR SOM
"Dança Com Lobos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Dick Tracy"

MELHOR TRILHA SONORA
"Dança Com Lobos"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Sooner or Later I Always Get My Man", de "Dick Tracy"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Ghost-Do Outro Lado da Vida"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Dança Com Lobos"

MELHOR MONTAGEM
"Dança Com Lobos"

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Reverso da Fortuna


No fascinante filme de Barbet Schroeder, o roteiro minimalista e hábil de Nicholas Kazan imbrica por uma dúvida insolúvel: Teria Claus Von Bullow realmente assassinado sua mulher?
Esta é uma indagação que, para efeitos de eficiência, o seu advogado, Alan Dershowitz (Ron Silver) não pode ter. É aos seus serviços que o milionário Claus Von Bullow (Jeremy Irons, numa sintonia fina entre um difícil humor inglês e a indiferença blasé da aristocracia) quando lhe cai uma suspeita inevitável da tentativa de assassinato da esposa Sunny Von Bullow (Glenn Close).
Inicialmente narrado pela própria falecida (num dos muitos espertos jogos de pontos de vista propostos pelo roteiro),quando descobrimos que nem mesmo ela sabe ao certo a conclusão de seu desfecho, somos apresentados ao modo de vida dos Von Bullow, sua opulência e seu distanciamento afetivo. Em algum momento, Sunny (que era diabética) é vitimada por uma dose letal de insulina, ficando em coma no hospital.
Ato contínuo numa situação em que o marido herdaria os milhões da esposa falecida, Claus se torna suspeito de tê-la envenenado aproveitando-se das circunstâncias matrimoniais favoráveis a tal plano. Os indícios, aos poucos, vão se tornando mais e mais incriminadores até que ele contata Alan, que por sua vez monta uma estratégia de defesa que não tarda a dar resultado e a virar o jogo.
Entretanto, estaria ele livrando um assassino da condenação?
A despeito da bem construída e verdadeiramente empolgante primeira parte, “O Reverso da Fortuna” deixa de lado seus charmosos ganchos narrativos a medida que avança para se concentrar nas especificações técnicas e jurídicas do julgamento, e se fechar no ponto de vista subjetivo de Claus; numa jogada inteligente, a condução não privilegia Claus Von Bullow, como personagem no sentido de salientar sua inocência: Pela condução imparcial e objetivamente minuciosa para com os detalhes da direção e do roteiro, e na atuação sublime de trejeitos dúbios de Jeremy Irons, o filme não ousa dar qualquer parecer sobre a notoriamente insolúvel conclusão do caso real –Von Bullow foi inocentado, mas a probabilidade de sua culpa nunca deixou de pesar sobre ele.
Uma síntese interessante, curiosa e envolvente entre drama, suspense e filme de tribunal.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

Pode-se afirmar que foi um verdadeiro parto conseguir este filme da “Liga da Justiça”.
Há muito tempo esperado e alardeado –antes mesmo da realização bem-sucedida de “Os Vingadores” pela Marvel Studios, o quê já foi há cinco anos –o projeto enfrentou, entre outras coisas, um cancelamento provocado pela então greve dos roteiristas em 2007, quando o plano ainda era que fosse dirigido por George Miller e com um elenco totalmente diferente.
De lá para cá, muita coisa mudou.
A Marvel estabeleceu um formato para que um universo de narrativas e personagens dos quadrinhos fosse transposto para o cinema, e a DC Comics, sua rival, naturalmente procurou seguir esse caminho. A jornada, entretanto, foi tortuosa: Sem o humor e a descontração de sua concorrente, a DC buscou um ponto de partida para o seu próprio universo numa reformulação de Superman, seu mais icônico personagem (“O Homem de Aço”), em seguida deu continuidade com um filme até hoje controverso que não agradou a crítica (“Batman Vs Superman” do qual sob muitos aspectos, este filme é uma continuação direta), e uma produção equivocada e problemática (“Esquadrão Suicida”), para finalmente acertar com o filme solo de sua principal heroína (“Mulher Maravilha”).
Diretor de “Batman Vs Superman”, Zack Snyder era inicialmente o diretor deste projeto –e ele de fato responde por pelo menos uns 80 % do material que se assiste no filme –mas, devido à uma tragédia pessoal, desligou-se da produção, dando lugar para Joss Whedon (diretor de “Os Vingadores”) terminar o trabalho.
Algumas coisas ficam claras desde o início: Os realizadores têm consciência de seus erros e os corrigem paulatinamente aqui –o tom sombrio (e tido diversas vezes como inadequado) foi equilibrado, agora a DC compreende que superheróis são motivo de celebração e não de introspecção (há espaço até para piadinhas!); a trama já não se dispersa em subterfúgios banais ou motivações pretensiosas, o roteiro é objetivo e busca ir direto ao ponto (prerrogativa principal para que um filme com tantos protagonistas funcione corretamente).
Como foi visto ao fim de “Batman Vs Superman”, o mundo está de luto pela morte do Superman. Contudo, como foi também visto lá, ameaças muito maiores do que as mundanas começam a contemplar o planeta Terra: O poderoso alienígena Lobo da Estepe (voz do ator Ciaran Hinds, o quê não quer dizer muito...) vem para o nosso planeta atrás de três ‘caixas maternas’ aqui deixadas. Quando reunidas elas despertarão uma entidade de nome ‘unidade’ que consumirá todo o nosso mundo.
Identificando com antecedência o perigo, o vigilante Batman (Ben Affleck, tão esmerado quanto no filme anterior, porém, menos sisudo) põe então em prática o plano com o qual já flertava antes: O de reunir, ao lado da poderosa Diana Prince, a Mulher Maravilha (Gal Gadot, que consegue ser, com facilidade, uma das melhores coisas do filme), os poucos superpoderosos identificados do mundo, que no caso seriam Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, da mal-fadada reformulação de “Conan-O Bárbaro”), Barry Allen, o Flash (o talentoso e divertido Ezra Miller) e Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher, o intérprete mais fraco do grupo).
Juntos, como a Liga da Justiça, eles buscarão se opor aos vilões que desejam a destruição. Não só eles, diga-se: Num daqueles casos tão óbvios que até uma criança de colo perceberia, é lógico que o Superman (vivido por Henry Cavill) haverá de ressuscitar para compor o time dos heróis no grande clímax –e apesar disso ser evidente, a narrativa parece tratar a manobra como um das grandes surpresas do roteiro!
No fim das contas, o aspecto que poderia prejudicar o filme –a substituição de diretor com as filmagens em andamento, e antes mesmo da pós-produção –acabou beneficiando-o: “Liga da Justiça” encontra uma harmonia agradável, fluida e plausível entre o estilo lúgubre, amargo até de Zack Snyder e o tom mais ameno, escapista e otimista do experiente Joss Whedon (que até mesmo já roteirizou histórias em quadrinhos).
Seus problemas acabam ficam assim à sombra de seus acertos, especialmente diante do fato de que, comparado ao inconstante “Batman Vs Superman”, este “Liga da Justiça” é um bem-vindo salto de equilíbrio e entendimento narrativo –ainda que ele fique um pouco aquém das qualidades do amplamente satisfatório “Mulher Maravilha”.
É bom saber que a DC Comics está no caminho certo.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Perdas e Danos

Um olhar mais desavisado pode acabar levando à conclusão de que este é mais uma obra banal sobre os desdobramentos do adultério, entretanto, o bom cinéfilo identifica que ali, na direção, está o grande Louis Malle e, portanto, deve haver –como sempre há em seus filmes –uma ênfase muito distinta e inesperada das torpezas humanas.
O grande realizador francês elabora uma narrativa cheia de elegância e charme, fascinante em sua dramaturgia, intrigante em seu visual, e acima de tudo, perene em sua reflexão. “Perdas e Danos” acompanha Stephen (o indefectível Jeremy Irons), um diplomata inglês, pai de família e bem casado. Sua vida reflete, com freqüência, aquela fachada de exatidão e perfeição que tanto adora passar a classe elitista.
Sobre muitos aspectos, “Perdas e Danos” é sobre isso: Sobre a classe elitista e o quanto eles têm a perder a medida em que todas as facetas de suas vidas é pensada e planejada numa equação que exclui a imprevisibilidade da emoção.
E, deveras, quando é apresentado à jovem noiva francesa de seu filho, Anna (Juliete Binoche, soberba em sua dualidade moral), é com esse turbilhão inesperado que Stephen é confrontado: O desejo –mais que o amor –tão ardente que o faz ignorar os laços familiares iminentes que estão sendo estabelecidos com aquela moça.
Malle conduz esse crescendo operístico de obsessão e tragédia com uma sutileza que era –e ainda é –um artigo raro no cinema de circuito comercial que o publico conhece. Seu entendimento das faíscas passionais que sobrepujam a ética é certamente a grande força de seu filme: O envolvimento adúltero de Stephen com Anna tira dele a razão, ameaçando consumir com seu delicado trabalho, seu casamento e sua vida; não obstante certo anacronismo da trama, o encadeamento dos elementos que o diretor faz desse microcosmo –e que, exatamente por isso, proporciona uma desintegração tão brusca e irreversível quando tudo dá errado –é notável.
Para quem acompanhou seus trabalhos anteriores, é clara demais a percepção de mundo (e de valores humanos) agregados por Malle para não achar que tudo caminha inevitavelmente para a tragédia. Ainda que, em seu fascínio irrestrito por essas almas torturadas pela promessa um êxtase fugaz, ele seja hábil em fazer deles personagens cuja derrocada terminamos por lamentar. Malle já apresentou qualidade muito maior em trabalhos anteriores (e isso é absolutamente incontornável diante de uma filmografia que abarca títulos como “Trinta Anos Esta Noite”, “O Sopro do Coração”, “Adeus, Meninos” e “Atlantic City”), aqui, no entanto ele ratifica sua qualidade mantendo os eventos cadenciados por um ritmo todo particular, dando à composição das cenas uma espécie de névoa por meio da qual diversas ambigüidades terminam sendo trabalhadas, e conferindo um certo requinte na atuação do elenco, especialmente Miranda Richardson, sublime no papel da esposa traída.

sábado, 9 de setembro de 2017

Margin Call - O Dia Antes do Fim

O cinema de J.C. Chandlor propositadamente não se revela um cinema fácil. Os poucos, mas incisivamente relevantes títulos de sua filmografia são esforços talentosos e implacáveis de radiografar, em suas tintas mais antropológicas, os lampejos selvagens do homem civilizado quando confrontado com uma situação à beira do desespero.
Nesse contexto, “Margin Call”, o filme que o revelou, é o mais perfeito exemplo dessa postura.
Seus personagens transitam num mundo asséptico, frio, quase mecânico e, dentro desses parâmetros de impressão, supostamente imutável. É isso, contudo, que a premissa, tão interessante ao seu diretor, revelará que eles perderão.
É um firma de corretores de Manhatan, e os executivos engravatados disputam entre si pela supremacia profissional. São meados de 2008 e, como sabe o expectador bem informado, é iminente a quebra na bolsa de valores que chacoalhou o sistema econômico mundial.
Os personagens que integram a fauna de “Margin Call”, entretanto, ainda não sabem disso. Ou melhor: A maior parte deles ainda não sabe; executivo júnior, dos muitos pressionados a demonstrar capacidade e eficiência em seu trabalho, Peter Sullivan (o ótimo Zachary Quinto, o Spok da nova versão de “Star Trek”), descobre, durante um extra no expediente, que alguns números nas estatísticas apontam algo incomum. Ou eles estão improvavelmente errados, ou eles sinalizam uma catástrofe em andamento. Algo que, por enquanto, só foi percebido por acaso: Em 24 horas, as ações imobiliárias que no dia anterior tinham preço elevado não terão valor algum. É madrugada, faltam algumas horas para o dia começar e, portanto, para que se inicie a jornada profissional em meio à qual todo o resto do mundo descobrirá aquilo que Sullivan antecipou.
Uma vantagem terrível da qual o executivo sênior Sam Rogers (o grande Kevin Spacey) tem lá seus escrúpulos em tirar proveito. Mas, não o executivo de alto escalão John Tuld (Jeremy Irons, brilhante e ameaçador), para ele a utilidade de tal dádiva é bastante clara: Os corretores têm cerca de oito horas para se desfazer das ações antes que a bolha na economia estoure. Em resumo, eles irão vendar os próprios olhos para o prejuízo alheio e garantir que escapem incólume à catástrofe, agindo como os predadores que são; se essa catástrofe é uma força irreprimível da natureza, então, eles irão se valer dos recursos que lhe caem a mão para sobreviver da única forma que a escola da vida, e o sistema capitalista lhes mostrou possível: A seleção natural.
É pois como uma grande, circunspecta e impiedosa análise comportamental e antropológica que o grande filme de Chandlor então se sustenta.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Império dos Sonhos

Quando olhamos “Império dos Sonhos” à luz do fato de ser o último filme para cinema de David Lynch –e que assim se manteve nos últimos anos –podemos assim enxergá-lo então como um compêndio e um inventário de toda sua carreira. E, numa primeira análise, não existem muitas maneiras lúcidas de se definir este trabalho de Lynch, que consegue ser ainda mais labiríntico, surreal, desafiador e indecifrável do que os extraordinários “Cidade dos Sonhos” e “A Estrada Perdida”.
Elaborar uma sinopse, então, significa caminhar num terreno pantanoso.
Após uma sucessão de cenas que beiram o incompreensível (em meio às quais aparecem até mesmo os personagens dos curtas, “Rabbits”, de Lynch, que surgirão aqui e ali ao longo deste filme), cuja única referência possível seria o prólogo igualmente desafiador de “Persona”, de Ingmar Bergman –e que, também ele, representava um inventário da obra pregressa do autor –somos apresentados à personagem vivida por Laura Dern. Uma atriz já estabelecida em Hollywood, mas cuja idade começa a tornar dificultosas as descobertas de bons papéis. Ela recebe a visita de uma mulher estranha (Grace Zabriskie) que lhe narra uma pequena fábula e lhe faz uma espécie de presságio. A fábula: “Um dia o menino quis ver o mundo e, ao sair pela porta, deixou para trás uma sombra. O mal então nasceu, e passou a perseguir o menino para sempre.”
O presságio: Ela obterá o papel que tanto deseja.
Tal papel, a atriz descobrirá mais tarde, é o de protagonista num filme onde seu parceiro de cena (Justin Theroux, de “Cidade dos Sonhos”) é famoso por se envolver com as atrizes com quem trabalha –o quê, eventualmente, vem a ocorrer. O diretor do filme (Jeremy Irons) tem então uma conversa com os dois para dar-lhes uma revelação: Tal filme é, na realidade, a refilmagem de um projeto polonês que jamais foi realmente concluído, pois os comentários diziam tratar-se de uma produção amaldiçoada.
Estaria também o filme que eles próprios estão fazendo amaldiçoado?
Sequer há tempo para se preocupar com essa alternativa: A partir daí, Lynch enreda o expectador e os personagens num pesadelo de duplas identidades e metalinguagem, onde ele visita as mais fragmentadas narrativas usando como fio condutor, quando muito, a perplexidade da personagem de Laura Dern que, aos poucos, vamos percebendo que se trata (ou deve se tratar...) de mais de uma única personagem interpretada pela mesma atriz; assim como também, convulsivamente, Lynch trás a mesma personagem vivida por atrizes diferentes (repare na jovem entristecida e inconsolável que surge no prólogo).
Em se tratando de David Lynch, é também possível estabelecer intermináveis relações entre o conto relatado pela estranha mulher (descrito acima) e a própria premissa oculta no filme.
Contado ao longo de três horas de duração (!) e pontuado por cenas aterrorizantes capazes de fazer qualquer um pular da cadeira (embora não seja um filme de terror no sentido convencional do termo), este trabalho segue inconclusivo, dúbio, desprovido de respostas e esclarecimentos. É um legado bem de acordo com a personalidade de seu realizador e da lembrança que ele pretendia deixar ao mundo: A de uma arte plena de fascínio e potencialmente capaz de desafiar o entendimento de gerações de cinéfilos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Último Entardecer

As câmeras do diretor Wayne Wang parecem dispostas e justapostas, prontas para tentar registrar o sentimento de urgência que dominava Hong-Kong, em 1996-7, quando se deu a transição de seu então domínio inglês (durante o qual tornou-se um pólo de atividade econômico-capitalista) de volta para suas raízes com a recuperação para a China.
Nessa intenção à uma fusão dos dois estilos quase antagônicos que Wang difundiu em seus mais reconhecidos trabalhos: A improvisação orgânica entre a câmeras e os atores, típica de “Cortina da Fumaça” e particularmente sua continuação, o filme-colagem “Sem Fôlego”; e o tom dramático de vibração clássica, mas de insuspeito charme sedutor, que se percebe em “O Clube da Felicidade e da Sorte”.
Como naquela obra, são as mulheres quem potencializam e catalizam toda atenção e interesse do expectador –e aqui elas são a deslumbrante Gong Li, e uma ainda jovem Maggie Cheung, que quase rouba o filme numa mal aproveitada trama paralela.
Mas, infelizmente, Wang nomeia como protagonista o jornalista inglês interpretado por Jeremy Irons –e começam aí alguns de seus problemas.
Parece ser pouco envolvente a trama que o coloca no centro de todas aquelas mudanças, e a fleuma de enfado britânico com a qual Irons usa na composição de seu personagem –e que ele soube modular com exemplar precisão em outras obras –não ajuda em nada neste caso.
Isso não se intensifica nem quando John, seu personagem, um correspondente inglês cobrindo os acontecimentos em Hong Kong, descobre sofrer de leucemia, o quê lhe tolherá a vida em poucos meses.      
Sua grande frustração é, portanto, não ter mais tempo para resolver seus assuntos pendentes, sobretudo, os afetivos, que dizem respeito diretamente à Vivian (Gong Li e sua beleza incontornável), imigrante chinesa e dona de um bar no centro da cidade, por quem o coração de John já está enredado, mas que o rejeita sistematicamente devido à pouca estabilidade que ele representa; ela, na realidade aguarda, numa vã esperança, o pedido de casamento de Chang (Michael Hui), seu amante e um homem de negócios ascendente em Hong Kong.
Vivian, então, simboliza Hong Kong cujas raízes históricas e culturais –e outras razões que na maioria das vezes, nem ela sabe dizer quais são –a impelem na direção de Chang (a China para a qual Hong Kong está prestes a voltar), e a afastam, traduzidas em forças poderosas do destino, cada vez mais do apaixonado John (a Inglaterra que, com todas as suas boas intenções, levou a própria Hong Kong e seu povo a experimentar os extremos violentos de seu sistema econômico).
Seria uma metáfora cheia de graça e primor não fossem algumas escolhas equivocadas. A pior delas: O absolutamente sem graça, sem sal e sem carisma Michael Hui que, como Chang, prejudica até a bem construída personagem de Gong Li –o expectador passa o filme inteiro a se perguntar o porque daquela bela mulher preferir aquele chinês desinteressante, tacanho e apático no lugar do sempre vistoso e elegante Jeremy Irons –mesmo que ele não esteja em seus melhores dias. Ou talvez, sendo esta uma obra feita para e pelo Ocidente, fosse essa mesma impressão o objetivo almejado.
Antes o objetivo fosse fazer um grande filme.

domingo, 3 de abril de 2016

A Missão

Há uma ressonância dramática na trilha de Maurice Jarre que atravessa todo o filme. É um comentário imbuído de tristeza, cujo requinte épico ele deve ter aprendido com David Lean. E “A Missão” não deixa mesmo de ser isso: Um épico em tintas contemporâneas, que volta sua atenção para elementos até então inéditos, mas que começavam a ser notados: Os colonizadores e o exotismo das paisagens sul-americanas, também explorados em “A Floresta de Esmeraldas” e “Brincando Nos Campos do Senhor”, todos daquela mesma década. Também é um diferencial o senso de observação perspicaz do diretor Roland Joffé, que vinha de uma ampla experiência com documentários, por meio do qual ele insiste em texturas e percepções que agregam realismo à narrativa, ela própria prodigiosa no avanço poderoso e contido da trama.
Nela, acompanhamos o árduo processo de colonização na América do Sul em geral, e no Brasil em particular, em meados do Século XVI, onde as matas brasileiras se tornaram palco de um dramático conflito: De um lado, escravagistas espanhóis que desejam capturar os indígenas ilegalmente e levá-los para serem vendidos na Europa; do outro, os padres catequistas que desejam instalar nas imensas tribos locais suas missões, e doutrinar os nativos com sua religião católica. No final, ambos de qualquer maneira terminaram por esmagar sua cultura e crenças originárias.
É a trajetória de Rodrigo Mendonza (um luminoso Robert De Niro), inicialmente um mercador de escravos e, mais tarde, após uma tragédia pessoal, um voluntário jesuíta, que expõe as violentas implicações da tomada praticamente hostil dos europeus às regiões da América do Sul, bem como seu conflito de interesses, o que acaba trazendo-lhes a guerra.
Além da produção brilhante que é, “A Missão” permite conferir o auge artístico de Roland Joffé, um diretor que, no meio da década de 1980 prometia ser uma das grandes revelações do cinema, mas que, após dois belíssimos trabalhos (este e o também tocante “Os Gritos do Silêncio”) nunca mais foi o mesmo artesão.
É, portanto, seu legado, este filme longo, solene e lindo.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Batman Vs Superman - A Origem da Justiça

Então, estreou nos cinemas o filme com a qual a Warner Studios almeja construir um universo cinematográfico oriundo das páginas das HQs nos mesmos moldes (e de preferência com o mesmo sucesso de bilheteria) que a Marvel Studios fez.
"Batman Vs Superman" não é uma mera sequência de "O Homem de Aço", embora dê continuidade aos eventos mostrados naquele filme: Está mais para uma expansão.
Descobrimos, por exemplo, que a mitologia envolvendo o Superman era apenas mais uma em um universo carregado de complexidade, e que -como o título já deixa explícito -tudo é apenas o começo.
O verdadeiro protagonista é Ben Afleck, ou melhor Bruce Wayne, a identidade secreta de Batman, o vigilante mascarado que atua na cidade de Gotham. O diretor Zack Snyder registra as ações de Batman com uma proximidade muito grande, respeitosa e reverente, ao modo como ele foi caracterizado, com maestria, na "Trilogia do Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan. A diferença é que, para acomodar todo um universo de seres super-humanos, o realismo foi deixado um pouco de lado, mas certamente não o tom sombrio. Logo, são imediatamente identificáveis os elementos com os quais este novo "Universo DC" pretende se distinguir do já muito bem estabelecido "Universo Marvel".
Lex Luthor é o vilão, e na atuação histérica, excessiva de maneirismos de Jesse Eisenberg, seu personagem parece querer emular com certo desespero o Coringa de Heath Ledger (e por aí se vê o quanto o trabalho de Nolan interfere, orienta e oprime o filme de Snyder). Luthor vê um inimigo no Superman por quem nutre instantânea antipatia, e o filme se desdobra em suas maquinações, por meio das quais levará os dois heróis a um embate. Tudo o mais é enrolação. E Zack Snyder enrola que é uma beleza neste filme.
Dono de um estilo visual marcante, ele pontua cena após cena com uma narrativa caprichada, uma fotografia de primeira, e uma montagem minimalista, que não cansa em momento algum (ainda que, dentre todos os seus filmes, este é o que mais perto chegou de fazê-lo).
Disso sobram muitas coisas boas: O Batman de Ben Afleck é um acerto feliz, para silenciar os muitos que reclamaram sem parar pela sua escolha; mas, a presença mais empolgante e eletrizante é mesmo a de Gal Gadot como a Mulher Maravilha.
Mas também sobram algumas coisas ruins: O Superman de Henri Cavill, aqui mais do que no filme anterior é possível perceber, cai nas armadilhas da canastrice de seu intérprete em diversos momentos; e o roteiro de Chris Terio (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por "Argo") se excede em alguns momentos, exagera nas minúcias, para em seguida, revelar-se raso nas motivações de muitos dos personagens.
Mas, tudo isso é retórica. Os fãs de quadrinhos que irão ao cinema assistir esse filme provavelmente vão relevar a maioria dos lapsos, e focar-se no que o filme entrega de melhor: Uma experiência visual e sensorial vibrante e promissora para o universo que busca estabelecer, prodiga nas cenas de ação, vasta em detalhes, e carregada de sinergia e emoção.
E nisso, Zack Snyder continua muito bom.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Gêmeos - Mórbida Semelhança

As inquietações que permeiam a filmografia de David Cornenberg surgem inusitadas em “Gêmeos-Mórbida Semelhança”. Não que o filme seja atípico para seu diretor. Pelo contrário: ele reafirma com potência todos os elementos que ele vinha carregando desde seus primeiros e viscerais trabalhos já nos anos 1970, imbuídos por vezes daquela transgressão característica dos jovens autores, e que o levaram a flertar, e muito, com o gênero de terror e ficção científica. Em algum ponto do fim da década de 1980, Cronenberg percebeu que podia ser, também, elegante. Surgiram assim obras fascinantes. Ele já havia chamado a atenção com o hoje clássico “A Mosca”, refilmagem original e desconcertante de “A Mosca da Cabeça Branca”. Com “Gêmeos”, ele adaptou o livro de Barrie Wood e Jack Geasland, baseado por sua vez em um trágico fato real. Um detalhe interessante nesses dois projetos é o modo intrínseco como Cronenberg parece adotar um projeto paralelo (o remake de outra obra e a adaptação do trabalho literário de outra pessoa) e dele fazer algo tão seu; repleto de suas próprias particularidades e, sobretudo, suas próprias observações acerca das angústias do ser humano.
Interpretados com latejante genialidade por Jeremy Irons, o gêmeos Elliot e Beverly Mantle atuam como ginecologistas, intrigados, desde muito jovens, pelas mutações internas do corpo humano em geral, e do corpo feminino em particular. Para o mais retraído, Beverly, esse fascínio irá se materializar na forma de Claire Nevoau, uma atriz que aparece em sua clínica e que descobrem portar uma rara anomalia uterina. Como todas as mulheres da vida dos gêmeos, Claire acaba dormindo com ambos sem perceber, mas ele exerce em Beverly um efeito mais desestabilizador, dando início a uma espécie de divisão de suas personalidades, até então profundamente dependentes e simbióticas.
Um das grandes obras de Cronenberg, “Gêmeos” é, em inúmeros aspectos, um trabalho brilhante de cinema. A começar pela atuação sem precedentes de Jeremy Irons, que incorpora dois indivíduos iguais e indistintos, mas dá a cada um, uma particularidade, um elemento de sutil percepção cênica que evidencia um do outro, sem jamais cair em armadilhas fáceis para esse tipo de trabalho. Há quem diga que o Oscar de Melhor Ator, conquistado por ele no ano seguinte por “O Reverso da Fortuna” foi uma forma da Academia premiá-lo por este trabalho, bem mais radical e controverso para os padrões comportados do Oscar (e ao assistir o desempenho assombroso de Irons, dá muito bem para acreditar nisso). Se existe no filme outro gênio, ele é sem dúvida seu diretor. Ao usar de seus planos milimetricamente escolhidos e pensados, Cronenberg cria desde o início, um mundo idealizado no qual Elliot e Beverly dividem sua existência, sem nunca descuidar da elaboração nas cenas (plenas de criatividade) em que Irons contracena com si mesmo.
São estranhamente assombrosos, por exemplo, os momentos em que vemos enfermeiros e cirurgiões, executarem operações onde todos os figurinos e objetos cênicos são vermelhos.
Como foi tornando-se comum a Cronenberg em relação a muitos de seus filmes que vieram depois, “Gêmeos” tem um tratamento formal, flagrante e frio em relação à seus personagens, o quê não diminui a carga poderosa de tristeza que esta obra consegue evocar.
Não faltam chances a Cronenberg para concretizar passagens escatológicas, como em princípio se esperaria dele, mas ele habilmente as evita, entregando uma narrativa formidável e sólida, embora não deixe de ficar na memória como uma das experiências mais tétricas do fim dos anos 1980.

sábado, 10 de outubro de 2015

Lolita

Se há um filme que desafia convenções, esse filme é "Lolita", de Adrian Lyne.
Não me atreverei a estabelecer uma comparação com o "Lolita" de Stanley Kubrick que muitos críticos tendenciosamente se apressam em dizer que é melhor. Essa é uma tarefa ingrata e pesada que ficará para outro dia.
"Lolita" conta a história de Humbert Humbert, erudito escritor europeu que ao mudar-se para a América, acaba fascinado pela filha de 14 anos da dona da pensão em que se hospeda, menina que embora adolescente, guarda traços de sensualidade insuspeita e pulsante, "uma ninfeta" como ele diz.
Ainda que suas investidas para enredar Lolita sejam atrapalhadas e pouco incisivas, o destino tratará de fazer com que a jovem fique sob sua guarda e como consequência, a disposição de seus anseios patológicos.
A questão é que "Lolita" de Adrian Lyne é um filme, em tudo e por tudo, incompreendido.
Até hoje, jamais foi lançado em DVD no Brasil, fruto certamente da forma sisuda e recriminada com que foi recebido à época de seu lançamento em 1997.
Seria o tema da pedofilia? Acho que não, há diversos filmes sobre isso por aí, e quanto mais polêmicos e escandalosos, mais suscitam o interesse do público.
Seria a memória subconsciente do filme de Kubrick fazendo com que gerações de cinéfilos repudiassem essa nova versão, como alguns dizem?
É até possível, mas pouco provável.
A verdade é que essa injustiçada obra de Adrian Lyne merece uma revisão. Seu trabalho tem o mesmo colorido presente na linguagem do livro de Vladimir Nabokov, e embora alguns digam que Lyne cometeu o erro de tornar o protagonista Humbert Humbert uma figura agradável na pele do ótimo Jeremy Irons (o quê o filme de Kubrick não faz, para efeitos morais mais retos e certos), ainda acredito que a narrativa do livro se encontra mais preservada em sua totalidade no filme de Adrian Lyne.
Embora possivelmente suas imbricações morais tenham se dissipado nesse exercício de estilo.
Talvez, a grande razão para a rejeição a este novo "Lolita" seja mesmo ironicamente a forma com que o diretor Lyne se aproximou mais do livro. Ao adotar uma narrativa cheia dos mesmos visuais e das minúcias que o livro contado em primeira pessoa, Lyne fez com que a história –seja proposital ou não –adquirisse os ares de um romance, uma história de amor fadada a jamais se realizar por inteiro, por um homem e uma menina, terminando por compadecer-se por seu protagonista, a despeito da natureza hedionda de seus atos.
Este, com certeza, foi seu grande pecado.