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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Karatê Kid


 Em algum momento, na onda saudosista que tomou de assalto o cinema norte-americano em determinado ponto da última década –e que levou estúdios a revisitar, sem escrúpulos, as criações bem-sucedidas dos anos 1980 –os executivos voltaram sua atenção para o clássico “Karate Kid”. De um apelo irresistível para seu público, bem como de uma premissa tão certeira e objetiva que, a sua maneira, influenciou um sem-fim de obras a partir daquele período, “Karate Kid”, os produtores logo perceberam, oferecia oportunidades maravilhosas para que seu enredo fosse repaginado aos valores atuais –começava-se a falar sobre o bullying e muitas campanhas politicamente corretas contra essa cultura movimentavam os fóruns de discussão –além disso, na sua conjunção já clássica de jornada de amadurecimento com odisséia de artes marciais, ele também proporcionava o emprego de coreografia de lutas arrojadas, tão em moda no cinema comercial depois da revolução trazida por “Matrix” e “O Tigre e O Dragão”. Em suma, um clássico com inúmeras possibilidades para ser refeito nos dias atuais.

E os produtores em questão, que notaram tudo isso, foram os atores Will Smith e Jada Pinkett-Smith, casados na vida real e, pais corujas nas horas vagas, que não pestanejaram em escalar o próprio filho, Jaden Smith, para o papel protagonista de Dre Parker, o pretenso Daniel Larusso de toda uma nova geração.

A trama segue muito do “Karate Kid” original, modificando elementos cruciais –o que curiosamente lhe altera muito da essência: Dre e sua mãe Sherry (a maravilhosa Taraji P. Henson) precisam se mudar para a China em função da profissão dela.

Estranho numa terra estranha, Dre encontra dificuldade de adaptar-se à nova escola, não apenas pelo novo idioma, pela nova cultura e por sua visível distinção de todas as pessoas que o cercam –uma circunstância propositadamente muito mais contundente do que a de Daniel Larusso no filme original –mas, também porque Dre não tarda a ser perseguidos pelos garotos locais, o incontornável grupo dos valentões que lhe descem porrada ao melhor estilo kung fu.

Trata-se aí de um dos elementos que mais incomodaram os fãs puristas do original: O primeiro “Karate Kid” e, bem, suas continuações também, abordava a cultura japonesa, de onde, afinal, vem o karatê, enquanto que este novo filme, troca o Japão pela China –estudou-se inclusive a possibilidade de mudar o título para “Kung Fu Kid” –num reflexo involuntário do costume bem norte-americano de nivelar as culturas estrangeiras num único e redundante nicho de concepção. A explicação mercadológica é que as artes marciais oriundas da China sempre estiveram mais em voga desde que obras produzidas com coreografias de luta à cargo de mestres como Lee Wu Ping caíram nas graças do público. Isso também vem a justificar a presença mais ilustre do longa, o astro chinês jackie Chan (um representante vivo desse tresloucado e inquieto estilo cinematográfico de luta) no papel do Sr. Han, substituto do Sr. Miyagi, imortalizado anteriormente por Pat Morita.

É com o Sr. Han que Dre se depara numa das usuais surras que costumava tomar depois de se tornar alvo dos garotos intolerantes do lugar. Ele o protege, ostentando um estilo impressionante de luta e Dre logo interessa-se em aprender a defender-se da mesma maneira. O que se segue é, no mínimo, previsível, diante do fato de que o “Karate Kid” original se tornou um clássico da “sessão da tarde” e seu argumento, um objeto de homenagem e referência: No decurso de seu treinamento, Dre aprende que as artes marciais não são sobre força e o exercício do poder, mas sobre contemplação, serenidade e, acima de tudo, respeito.

O filme dirigido por Harald Zwart, numa escolha até contraditória, no entanto, privilegia os momentos de alta voltagem cinética, onde as lutas surgem edificantes, eletrizantes e empolgantes. Em resumo, o que se vê, na prática, em tela, vai na contramão do que se diz, em teoria, no roteiro. E tal inclinação para o mero embate físico em detrimento da ênfase na lição de moral –lição que nem o filme original, nem suas sequências, jamais esqueciam –é tamanha que essas passagens, esticadas e potencializadas além da conta, levam o filme a ultrapassar as duas horas de duração e, por conta disso, testar a paciência do público.

Realizado inadvertidamente sobre uma miríade de inesperados subtextos –a xenofobia norte-americana; as influências culturais assimiladas com desleixo pela cultura pop; o conteúdo em conflito com a estética que resulta em obras potencialmente questionáveis –este novo “Karate Kid” traz, como o mais pungente e incômodo deles o fato de ser um disfuncional “projeto em família”: Os produtores, Will e Jada, submetem seu pimpolho, Jaden, a uma situação de protagonismo que transparece as altas expectativas e exigências cobradas do jovem ator, resultando numa atuação fragilizada onde seu desamparo se sobrepõe ao seu carisma.

Tudo isso, no final, depõe contra a realização: “Karate Kid”, apesar do esmero em seu drama, irrita ao invés de cativar, apesar da ação construída com certezas presunçosas, é enfadonho ao invés de ser eletrizante, e sua suposta mensagem positiva percebe-se em meio à todas essas confusões de conceito.

A real essência de “Karate Kid” só foi mesmo resgatada, da maneira certa, anos mais tarde, quando a série televisiva “Cobra Kai” foi realizada, trazendo de volta os mesmos personagens, e os mesmos intérpretes dos filmes originais, numa dinâmica que compreendia, continuava e ampliava as emoções e considerações presentes naquela obra.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Arrebentando Em Nova York

Pode soar improvável afirmar isso hoje em dia, mas durante um bom tempo, enquanto era um grande astro na China, Jackie Chan era consideravelmente desconhecido no Ocidente.
Isso começou a mudar em 1995, depois de “Arrebentando Em Nova York”.
Não tanto por sua realização (a rigor, ele é similar a tantos outros exemplos da arrojada técnica dele), mas pela avidez de seu lançamento comercial: A campanha de divulgação de “Arrebentando Em Nova York” foi particularmente focada na distribuição ao redor do mundo –o que incluiu a opção já inicial de ambientar a trama na famosa metrópole norte-americana; antes disso, Jackie Chan já havia tentado emplacar em Hollywood em 1980, com “O Grande Lutador” e em 1985, com “A Fúria do Protetor”, dois fracassos de bilheteria.
Dono de um estilo inconfundível de luta –uma junção orgânica e visualmente surpreendente de coreografia de luta, improviso cênico e Le Parkour –Jackie Chan, como em todo o caso de um desempenho que exige muito fisicamente, é tão melhor em seu resultado quanto mais jovem ele produziu o filme. No caso deste filme, Jackie tinha 41 anos na época; pode-se argumentar que na década de 1980 (ou seja, quando mais jovem), ele foi capaz de proezas físicas ainda mais espetaculares (e filmes como “O Mestre Invencível”, “Police Story” e “Operação China”, não deixam mentir), no entanto, ele estava em seu auge –desempenho que, por incrível que pareça, ele manteria ainda por muitos anos até começar a sossegar com filmes mais amenos –e “Arrebentando Em Nova York” beneficia-se completamente disso: Não há como negar que as grandes vedetes da produção são as cenas de luta e as sequências de ação e pancadaria que além de filmadas com o traquejo natural que os estetas de Hong Kong possuíam para cenas de ritmo acelerado (o diretor é o tarimbado Stanley Tong), não obstante as limitações de seu orçamento, tinham no vigor físico e na agilidade fascinante de Jackie Chan sua estrela principal.
Ele vive Keung, perito em artes marciais que chega à Nova York para visitar um tio que se estabeleceu nos EUA há trinta anos. O tio está de casamento marcado e, após partir para lua-de-mel, fecha a venda de seu mercadinho para um conterrânea, Elaine (Anita Mui), a quem Keung se prontifica de ajudar enquanto está na casa do tio.
Como o mercado se localiza no Bronx, não tardam a aparecer gangues de desordeiros –retratados, em geral, como os marginais de “Desejo de Matar 1, 2 e 3” –que obrigam Keung a mostrar toda sua perícia em kung fu.
Isso, no entanto, atrai ainda mais a atenção dos bandidos que passam a persegui-lo; eles inclusive o atraem para um beco sem saída usando a aparentemente inocente Nancy (Françoise Yip) como isca, e quase o matam jogando garrafas de vidro em seu corpo.
A própria Nancy se revela, mais tarde, a irmã de Danny (Morgan Lam), um garotinho cadeirante que se tornou melhor amigo de Keung, e com isso, ele trata de afastá-la das más companhias e iniciar assim um romance. Entretanto, quando achamos que a premissa do filme já está estabelecida, com o herói e seus antagonistas bem definidos, eis que um ligeiro plot-twist se opera: Um atentado envolvendo um carro onde estava sendo feita uma negociação de diamantes introduz um grupo de mafiosos na trama.
No tumulto, os tais diamantes são extraviados e acabam indo parar escondidos na cadeira de rodas de Danny –e o responsável por isso é um dos integrantes da gang que perseguia Keung.
Agora, acuados por criminosos de verdade e muito mais perigosos que eles, o grupo de arruaceiros, liderados por Tony (o falecido Marc Akerstream), ex-namorado de Nancy, precisa da ajuda de Keung para sair dessa encrenca.
Divisor de águas na carreira de Jackie Chan justamente pela forma com que repercutiu no mundo inteiro, revelando a sagacidade singular de seu astro, “Arrebentando Em Nova York” é, acima de tudo, um produto que cumpriu seu papel –numa avaliação mais criteriosa, passadas décadas de seu lançamento, ele visivelmente envelheceu: Especialmente seu roteiro, seus personagens e as relações estabelecidas entre eles são trabalhadas de maneira tão rudimentar que ocasionalmente beira o constrangedor.
No que importa ao seu público alvo e a todos os seus envolvidos, porém, o filme permanece certeiro: As sequências divertidas, vertiginosas e bem elaboradas de ação que neste e em uma sucessão de outros filmes antes e depois dele, sagraram Jackie Chan como um verdadeiro mestre do gênero.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Operação Dragão

O personagem vivido por Bruce Lee se chama meramente Lee, e treina arduamente as artes marciais do templo Shaolin ao qual se dedica, e isso é basicamente tudo o que saberemos dele em toda trama.
Vá lá: Há também um breve interlúdio a respeito de uma irmã que ele perdeu para os vilões, mas isso certamente serve apenas para dar um reforço emocional à sua motivação.
Mas, quer saber? Não precisamos mesmo saber muito sobre o protagonista de “Operação Dragão” para, em pouquíssimo tempo, estarmos torcendo por ele: Tão primorosa e incomum era a mistura de carisma, veemência e autoridade em Bruce Lee que ela continua, ainda hoje, impressionante em cena.
E autêntica também: São do próprio Bruce Lee os méritos de cada um dos fabulosos desempenhos físicos de seu personagem nas cenas de luta e não de dublês.
Como filme de ação, “Operação Dragão” valia-se de um roteiro extraordinariamente original para a época em que foi feito –embora tanto tenha sido copiado que não se percebe isso atualmente –e escrito com uma peculiar inventividade. Aqueles que conhecem “Operação Dragão” meramente pelo culto criado em torno de Bruce Lee não devem saber que o filme tem, na realidade, três protagonistas (!).
São eles, Lee um expert em artes marciais enviado a serviço do que parece ser a Interpol para um torneio de luta em uma ilha; o bom de briga e bom de lábia Roper (John Saxon) que vai parar nessa mesma ilha a fim de obter dinheiro para saldar suas dívidas com a máfia; e Williams (Jim Kelly), amigo de longa data de Roper e, também ele, uma espécie de soldado da fortuna.
A tal ilha pertence a Han (Shih Kien), outrora discípulo dos mesmo templo Shaolin de Lee, mas que deturpou os ensinamentos usando-os para a ganância e o crime. Isolado em sua ilha, Han promove um torneio entre poderosos lutadores regado à prostituição ilegal e escravidão, e justamente pela exclusividade geográfica, a polícia não encontra provas para incriminá-lo –e esta vem a ser assim a missão de Lee no torneio.
Embora haja um esmero notável na criação desses elementos na sua premissa –tão esmerado que seu mote serviu de inspiração a infindáveis filmes de ação que se seguiram –a grande atração do filme são (e isso não é, de forma alguma camuflado) as seqüências de artes marciais. E nisso, Lee era um craque: A maneira ágil, vigorosa e firme com que ele se move, a sua elegância no desempenho de todas as lutas (em especial, a magnífica cena final numa sala de espelhos), até mesmo a forma convincente com a qual ele imprime um jeito particular de respirar –todos são maneirismos brilhantes e inimitáveis que fazem dele um astro único, a despeito daqueles que em vão tentaram recriá-lo nos anos que se seguiram, desde os mais válidos (Jet Li e Jackie Chan), aos mais truculentos (Chuck Norris e Jean Claude Van Damme).
A perda de Bruce Lee (que morreu em circunstâncias nebulosas em 1973, três semanas antes da estréia deste filme) foi uma triste conseqüência para o bom cinema comercial, como foram também as mortes de James Dean, de River Phoenix, ou de Heath Ledger: Grandes estrelas, todos eles donos de uma presença única e de uma capacidade inata de ocupar com plenitude a tela de cinema, e que, depois de partirem, jamais se encontrou quem preenchesse sua ausência.