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segunda-feira, 4 de abril de 2016

A Dupla Vida de Véronique

Podem as vidas serem reflexos umas das outras? É possível esquecer o passado para concentrar-se no futuro? Até que ponto estamos conectados uns aos outros e às nossas inquietações?
Tais questões –que a bem da verdade povoam todos os filmes do grande Kieslowski –surgem com enorme força em “A Dupla Vida de Véronique”.
O filme nos leva a indagar até que ponto a personagem de Irene Jacob (linda e emotiva na medida certa) se desdobra e se divide, para originar essas duas mulheres, Véronique e Weronika, cujas vidas parecem entrelaçadas por sensações, por sentimentos e pela música, mas continuam sempre distintas e distantes.

Como tudo o mais que, por vezes, brota da mente de Kieslowski, seu conto humanista e poético serve também como uma alegoria para a própria Europa, seu povo, e sobretudo, seu subconsciente, as esperanças e anseios que os definem e que os conduzem e à sua história ao longo dos anos. Na maestria de seu intimismo, Kieslowski ousa, portanto, sondar as angústia de sua terra.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A Fraternidade É Vermelha

O terceiro, e possivelmente melhor filme da “Trilogia das Cores” é uma interessante surpresa em muitos aspectos. 
Para mim, o quê mais me chama atenção é a forma como Krzysztof Kieslowski finalmente se permite falar de questões espirituais e sobrenaturais (embora também existisse esse subtexto do extraordinário “A Dupla Vida de Veronique” –e penso que, por isso mesmo, a presença da mesma Irene Jacob tem um propósito que vai muito além da mera predileção do diretor). Talvez, o fato desse tema atravessar e impregnar o filme indique já uma certa consciência de Kieslowski de um fim iminente –ele viria a falecer pouco depois, sendo este seu último trabalho. 
A trama corre o risco de soar enganosamente banal: Uma modelo fotográfica atropela um cão na rua, e resolve cuidar do animal que, logo ela descobrirá, pertence à um juiz aposentado e anti-social cuja solidão o leva a cultivar uma série de hábitos inusitados, como espionar os diálogos entre seus próprios vizinhos. Paralelo à essas duas jornadas tão diferentes, Kieslowski contrapõe as lembranças, fundidas aos momentos do cotidiano (e algumas, aos mais atentos, repetem-se nos outros filmes da trilogia), umas acabam se esclarecendo, outras, confundindo ainda mais, especialmente porque Kieslowski não faz questão de distinguir as cenas para o nosso entendimento didático, fazendo desta uma experiência sensorial, onde o passado provado e o futuro provável co-existem de modo poético.
Não à toa, a direção de fotografia (de Piotr Sobocinski), com seus tons lindos de vermelho que emolduram a beleza de Irene, é a mais bem resolvida de todos os três filmes (o quê não é pouco para se dizer em uma trilogia onde um dos pontos fortes é justamente o primor visual).
Há um sabor de redenção a ocupar os acontecimentos de "A Fraternidade..." marcado, sobretudo, durante os encontros entre a modelo e o juiz (brilhantemente personificado por Jean-Lois Trintignant). 
Kieslowski encerra este filme (e por consequência, toda a sua trilogia) com um desfecho circular, um entravo enigmático que nos persegue nos dias seguintes com uma vontade de rever tudo de novo.
Por sorte, ele faz com que esse ato seja, também, um prazer.

A Igualdade É Branca

É bastante curioso o fato de Krzysztof Kieslowski, um diretor polonês, ter realizado essa “Trilogia das Cores” em homenagem às cores da bandeira francesa, a pedido do produtor Marin Karmitz, quando pensamos que os franceses sempre tão orgulhosos e tradicionalistas, deveriam escolher um francês para honrar os preceitos de sua pátria. 
É este o episódio que talvez melhor explica isso. 
Nele, um imigrante polonês deixa a França, e por conseqüência sua esposa francesa, amargurada pela estagnação do casamento (cuja culpa ela põe em sua impotência). De volta à Polônia, ele inicia um negócio com o qual prospera, o quê pode lhe proporcionar uma gaiata redenção. 
Em tom de comédia (o quê é muito bem vindo diante da angústia tão pungente do filme anterior), e banhado em uma luz branca e profunda que emana dos campos cobertos por neve sem fim da Polônia, a aventura do protagonista o coloca em justaposição a todos os revezes que enfrentou, e se possível, a todos eles tentar prevalecer. 
É claro que, diante das relevâncias emotivas e narrativas, é o assunto pendente com a esposa francesa que ganha destaque. E para abrilhantá-lo, Kieslowski ainda recrutou mais uma atriz francesa sensacional (Julie Delpy, de "Antes do Amanhecer", então uma revelação dos anos 1990). 
Grande diretor, ele parece saber muito bem do que está falando, e visto que este é seu filme onde mais se encontra pontos de identificação em seu autor, essa não é uma conclusão equivocada. Talvez seja isso que Kieslowski pede, aqui, aos seus pares: uma visão de maior igualdade. 
E tamanha é sua grandeza de espírito, que ele deixa um pouco de lado o drama dilacerante, para junto com sua mensagem, fazê-los rir um pouquinho.

A Liberdade É Azul

Para Krzysztof Kieslowski, a liberdade é de uma abstração tal que perdê-la (ou mesmo recuperá-la) depende quase que exclusivamente de um estado de espírito. Daí, talvez o fato de que este é, dentre os exemplares da ‘trilogia das cores’, o mais intimista. 
Em tons azuis onipresentes, de sussurro em sussurro, testemunhamos um acidente de carro, e a longa, lenta e dolorida recuperação da única sobrevivente: a personagem de Juliette Binoche. Logo, vamos descobrir que ela, assim como o falecido marido, é uma musicista. E que o projeto incompleto dele (uma composição em homenagem à Unificação Européia) ao parece, é uma incumbência que cabe somente a ela terminar. 
É, portanto, o processo de desvencilhar-se de todas as prisões do luto a grande questão do filme. Justamente por isso pode ser um pouco frustrante, para cinéfilos mais objetivos e desavisados, procurar por um sentido relativo ao título (em português): A liberdade, por assim dizer, não é um elemento que surge de forma literal na narrativa de Kieslowski. 
Ela também não é a única. 
Todos os princípios abordados ao longo da trilogia aparecem nos filmes sem distinção. Ou seja, liberdade, igualdade e fraternidade são questões discutidas nos três filmes. Mas, é claro que a liberdade ganha um outro enfoque aqui. Os personagens, conduzidos por Kieslowski, deixam-se distrair pelas banalidades cotidianas  enquanto marginalizam os momentos de significado, como o garoto no início, que ao ocupar-se com um brinquedo, acaba vendo o acidente só depois que aconteceu. Ou o torrão de açúcar, que captura de tal forma a atenção de Juliette, que todo o resto ao redor lhe perde a importância. 
Se há um fator de destaque, é a música (e não poderia ser mesmo diferente num filme em que a protagonista exerce a música como arte e como vocação), e isso abre espaço para Kieslowski trabalhar a trilha sonora, fundindo-a com a música que surge em cena, em composições que os personagens executam, ouvem, ou mesmo que idealizam em sua própria mente ao ler uma partitura. 
O mais triste dos exemplares de sua trilogia, “A Liberdade é Azul” iniciou com pompa esse projeto que Kieslowski abraçou nos anos 1990, e que terminou por marcar sua época.