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sábado, 6 de junho de 2020

Os Brutos Também Amam

O pistoleiro Shane chega ao vale deixando um passado sangrento para trás. Tal passado, no cinema rústico e ainda em intuitiva descoberta de suas nuances da linguagem onde está inserida a obra de George Stevens, nunca é realmente mostrado (como o seria em um flashback por meio da convenção de diversos títulos que vieram depois), em vez disso, ele é mencionado, sugerido em olhares e expressões do ator Alan Aladd como a sombra da qual ele almeja fugir, e da qual jamais esboça intenção de falar. Mas, é também o mal que ele traz dentro de si que, em última instância, será o trunfo que ele usará para dar aos bandidos de fato a retribuição que eles merecem.
Tudo em “O Brutos Também Amam” tem ressonante significado para a mitologia americana que a narrativa evoca. No vale, Shane encontra uma família que o abriga e o faz sentir-se em casa. A esposa (Jean Arthur) prepara uma torta de maçã como nas mais inebriantes fantasias de lar aconchegante; o marido (Van Heflin) compartilha com ele a camaradagem e a dignidade de aceitar ajuda nos trabalhos braçais da casa; e o pequeno Joey (Brandon De Wilde) dedica a Shane toda admiração salutar que só uma criança consegue expressar sem cinismo.
Quando descobre que esse quadro idílico que tão gentilmente o acolheu está sendo ameaçado –pelos capangas incisivos do mal-feitor Jack Wilson (Jack Palance, memorável) –Shane então sabe muito bem o que fazer: Como numa fábula regida por entidades superiores, as peças em “Os Brutos Também Amam” se encaixam de tal maneira exata que o termo clássico pode lhe pesar até em demasia aos olhos das plateias de hoje, tão acostumadas aos exemplares mais distintos que o próprio filme inspirou, como a ficção científica oitentista “Crepúsculo de Aço”, o cult “Drive” ou a elogiada adaptação de quadrinhos “Logan”.
Justamente por isso, muitos expectadores mais jovens talvez não consigam enxergar a dramaturgia sólida que o diretor George Stevens foi capaz de orquestrar com tanta perícia.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O Diabo e A Mulher

Aquele desavisado expectador que presumir que as comédias atuais são tematicamente mais elaboradas, ácidas, vívidas e inteligentes que as de outrora não poderia estar mais enganado.
Entre tantos exemplos de esplêndida relevância, “O Diabo e A Mulher”, de Sam Wood, surge como prova cabal desse argumento.
Já no início, na introdução de seu título, o filme esbanja criatividade e humor corrosivo justapondo os dois personagens principais e seus aspectos antagônicos –que serão explorados, no filme que se segue, de uma forma bem diferente do que o expectador menos informado pode imaginar –seguido por um prefácio hilário.
Seu roteiro absolutamente brilhante versa inicialmente em torno do egocentrismo experimentado pelo temido dono de uma loja de departamentos de Nova York, o milionário Sr. J.P. Merrick (Charles Coburn, tão sensacional quanto todos os outros deste prodigioso elenco).
Em meio ao temor de seus executivos subordinados com seus acessos de ira, o que o incomoda não é tanto o fato dos empregados moverem uma espécie de levante contra seu sistema de trabalho, mas sim eles enforcarem um boneco simbólico dele próprio como sinal de protesto.
Com orgulho ferido, o recluso patrão (que se vangloria de não ser visto nem reconhecido por jornalistas, empregados e cidadãos comuns a algumas décadas) toma a decisão de rastrear os líderes desse movimento e demiti-los. Como o detetive particular que contratou para o trabalho se tornou subitamente indisponível, o próprio Sr. Merrick –agora assumindo a identidade de Thomas Higgins, a mesma do detetive ausente –resolve dar uma de espião (!): Ele se faz passar como um dos pobres funcionários recém-contratados, para espiar a situação dentro de uma de suas lojas e, a partir dali, identificar os mais inconformados dentre seus funcionários e que atuam como agente agitadores dos demais.
Todavia, a realidade com que se depara é outra: Ele faz amizade com a jovem Mary Jones (Jean Arthur, inebriante), uma solicita vendedora de sapatos; e faz inimizade com o intratável Sr. Hooper (Edmund Gwenn), gerente do local cujo hábito é menosprezar seus subordinados.
A ironia é que Mary vem a ser namorada e aliada do líder das revoltas trabalhistas que têm se sucedido na loja, o inconformista e eloquente Joe (Robert Cummings).
Embora vá dando prosseguimento ao seu plano (e, no processo, envolvendo-se em diversas situações das mais divertidas), Merrick (ou Higgins!) se vê cada vez mais abalado pela amizade e admiração que passa a nutrir por Joe e pelo carinho que descobre ter por Mary, o que conduz os protagonistas a um dilema; Merrick irá revelar que é, na verdade, o tirano empregador e partir os corações daqueles que aprendeu a gostar? Ou encontrará um meio de fazer prevalecer a justiça?
Afinal, como em todo e qualquer filme que trata de uma farsa, a verdade mais cedo ou mais tarde terá de emergir –e, embora o filme maravilhoso que Sam Wood molda, seja genial na construção adorável desse conflito de interesses (concebendo com isso uma narrativa extremamente envolvente), a solução surge até breve e abrupta, quase uma elipse.
Curioso é que o filme também evita uma estrutura previsível de comédia romântica com notável propriedade: Na visível diferença de idade entre seus dois personagens principais (Coburn e Arthur), o roteiro constrói entre eles uma relação de pai e filha, deixando a questão amorosa (que surge por sua vez entre Coburn e a personagem de Spring Byington) ligeiramente de lado.
Realizado com sagacidade e assombrosa astúcia, “O Diabo e A Mulher” oferece, em meio aos aparentemente inocentes anos 1940, uma fábula moral digna de cinco estrelas sobre a luta de classes, os rancores trabalhistas, o comportamento humano e a descoberta da solidariedade.
Em tempo: O título original deste clássico indiscutível (“The Devil And Miss Jones”) serviu de inspiração para o título de um dos mais cultuados filmes pornôs de todos os tempos, “O Diabo Na Carne de Miss Jones” (“The Devil In Miss Jones”), a sua maneira, outro clássico indiscutível.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Do Mundo Nada Se Leva

As melhores histórias de amor nascem do antagonismo. Shakespeare sabia disso ao criar “Romeu & Julieta”. Na esteira desse ímpeto criativo, as mais variadas histórias de amor foram contadas no cinema: “Casablanca” (onde os amantes eram separados pelas circunstâncias da guerra), “Titanic” (ele, pobre; ela, rica; e mais tarde, um naufrágio monumental acirra a situação), “Asas do Desejo” (ele, um anjo; ela, uma humana, entre eles, todo um mundo metafísico), “O Segredo de Brokeback Mountain” (dois homens que se amam e são separados pela imposição da sociedade).
E não haveria de ser Frank Capra –o diretor que definiu o encanto no cinema americano –que deixaria de fazer essa lição de casa. Nesta adaptação cheia de energia, perspicácia e observação da peça teatral de George S. Kaufman e Moss Hart –e ganhadora do Pulitzer –os empecilhos para o amor dos dois jovens apaixonados Alice e Tony (Jean Arthur e James Stewart) vêem a se revelar tão complicados que se desdobram no filme como um todo.
Ele é filho de um empresário (Edward Arnold) cuja ambição mira um plano para adquirir todos os terrenos de um quarteirão onde construirá uma colossal e promissora fábrica de armas.
Ela é filha do patriarca (Lionel Barrymore) da amalucada e amorosa família que reside no único terreno que ainda não foi comprado –e que não desejam vender!
Desse enlace de coincidências que por vezes só o cinema é capaz, Capra urge um gracioso conflito que move a narrativa. Sim, gracioso, pois no cinema de Frank Capra, os vilões não são tão maus que um empurrão não os torne também adoráveis, e os protagonistas oscilam com graça entre o humor e o drama (mais humor do que drama!).
A vida, afinal, naqueles idos de 1937 –quando realizou este e outros filmes –era já muito cheia de crueza e desilusão acarretada pela Grande Depressão para que os filmes tivessem isso também.
Capra acompanha assim, com toda comicidade e galhofa, a maneira como o desejo de Alice e Tony em oficializar seu matrimônio vira de pernas para o ar a dinâmica de suas famílias.
Neste simpático e singelo vencedor do Oscar (Melhor Filme e Melhor Diretor), o casal formado por James Stewart e Jean Arthur funciona de tal maneira que o próprio Capra tornou a reuni-los, desta vez, em “A Mulher Faz O Homem”.