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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Paixão Assombrada


 A belíssima Jane Seymour já havia vivenciado um romance de lances mirabolantes no dramático “Em Algum Lugar do Passado”, no entanto, se naquele filme o aspecto fantástico envolvendo viagem no tempo servia aos propósitos da história de amor, nesta realização de 1983 –portanto, três anos depois –esses elementos comparecem dando ao filme uma densa concepção de gênero: Este é, pois, um filme de terror com todas as letras.

A partir do momento em que a premissa encontra a resolução bolada pelos realizadores “Paixão Assombrada” muda de tom, torcendo para que isso configure uma reviravolta surpreendente ao público.

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno: Não chega, nem sob um decreto, a surpreender, embora também não comprometa seu resultado final, já que tal manobra lhe valoriza a trama e termina –veja só! –aproximando o filme um pouco mais de “Em Algum Lugar do Passado” e “Ghost-Do Outro Lado da Vida”, bem como de alguns outros exemplares mais contemporâneos do terror (em particular, algumas obras assinadas por Guilermo Del Toro), nos quais os fantasmas, os mortos, ainda que amedrontadores, não representam a ameaça maior, mas, sim, os vivos.

Prova de que muitas facetas do cinema moderno já existiam em obras de outrora –camufladas tão somente pela obscuridade que assolou muitas delas –este “Paixão Assombrada” até envolve com seu clima soturno, com o carisma pontual e funcional de Jane Seymour, embora não alcance notas maiúsculas enquanto filme de terror e nem chegue a profundezas verdadeiramente tocantes enquanto história de amor.

sábado, 25 de abril de 2020

Disparo Para Matar

No fim da década de 1960, o faroeste produzido nos EUA seguia por um caminho diferente do faroeste produzido na Itália (o ‘western spaghetti’): Enquanto os italianos exploravam a grandiosidade épica, os duelos mortais e estilizados e a relevância cinematográfica dos valores de produção em suas realizações, os americanos usavam o gênero como uma forma de reflexão interior (um tanto quanto inspirados pela postura da contracultura), num diálogo oposto ao que Hollywood fizera no passado. O chamado faroeste revisionista.
Com efeito, somente produtores de filmes B e realizadores jovens se arriscavam a contribuir para o gênero.
Financiado por Roger Corman, o diretor Monte Hellman entregou naqueles anos de 1966 e 67 alguns títulos que se fizeram marcantes devido à parceria com o futuro astro Jack Nicholson –que ocasionalmente atuava também como produtor e roteirista.
“Disparo Para Matar” é a primeira e pra lá de auspiciosa dessas produções (logo seguido por “A Vingança de Um Pistoleiro”, naquele mesmo ano).
Nele, Warren Oates surge fabuloso como Will Gashade, um minerador que regressa depois de um tempo para a mina na qual nutre uma sociedade com dois companheiros, Coley e Leland.
Ao chegar lá, Gashade encontra o túmulo de Leland –alguém o matou –e apenas Coley (Will Hutchins) se acha lá contando uma história das mais mal esclarecidas: Segundo ele, um outro conhecido, Coigne, apareceu por lá, fugindo, pois ao que tudo indica fez o que não devia.
Após muita conversa levou um cavalo e uma arma debaixo do nariz do ingênuo Coley. Não muito tempo depois um tiro, vindo não se sabe de onde, disparado por não se sabe quem, alvejou Leland.
Sob a sensação de insegurança, Gashade e Coley esperam até que são surpreendidos com a aparição de uma mulher misteriosa (Millie Perkins, de “A Bruxa Que Veio do Mar”).
Sem dizer seu nome e mantendo uma constante desconfiança, ela contrata os dois para rastrear alguém que ela almeja muito perseguir, por motivos que não faz questão alguma de revelar.
O dinheiro convence Gashade a aceitar enquanto que Coley o faz puramente pelo fato de poder estar na presença de uma mulher –ainda que arredia ao extremo.
Esses personagens seguem o rastro amparados nessa premissa bastante básica mas que, por sua ausência de explicações aprofundadas, torna-se terreno fértil para o suspense. Afinal, quais são os objetivos da mulher? E que atitude tomará Gashade em relação à tudo isso quando a hora chegar?
A atmosfera esquenta consideravelmente quando descobrimos que a mulher tem um aliado que os acompanha a distância, o ameaçador Billy Spears (Jack Nicholson, sempre magnífico).
Pistoleiro hábil e matador profissional –coisa que os outros dois não são –Spears acrescenta novas tensões à dinâmica mantida durante a perseguição: Ele é sinistro, claramente hostil e pouco confiável, e mesmo que em situação desvantajosa, Gashade e Coley sabem que precisam encontrar um meio de livrar-se  daquela encrenca em que se meteram.
Filmado com a economia necessária para esse tipo de produção, o filme de Hellman se permite tirar proveito justamente de suas simplicidades e limitações, usando do que dispõe em tela para dilatar o tempo e a expectativa –nesse sentido, o aproveitamento e consequente desconstrução do diretor em relação aos códigos do faroeste é exemplar (repare no modo como a personagem de Millie Perkins incorpora uma versão feminina do ‘pistoleiro sem nome’ popularizado por Clint Eastwood), inclusive com belíssimas panorâmicas a explorar a geografia natural do ambiente para fins de tensão e suspense tal e qual o fariam John Ford e Anthony Mann.
Contudo, o que remete “Disparo Para Matar” a uma maior contemporaneidade à que pertence é mesmo seu desfecho carregado de ambiguidade, simbolismo e alegoria –e enigmático o suficiente para deixar o expectador bastante intrigado com o que se passou, muito tempo depois do filme ter terminado.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Bruxa Que Veio do Mar

Certamente, há muito daquela inclinação à psicologia algo elegante de Alfred Hitchcock na maneira com que se desenha o suspense neste filme italiano de baixo-orçamento inteiramente filmado em solo norte-americano.
Já iam os anos 1970, e o exploitation em voga permitia e realizadores menos brilhantes unir a competência criativa ensinada pelo mestre do suspense, a rompantes mais audaciosos de cenas expositivas e, em geral, vulgares. Para uma boa parte da platéia essa junção soava interessante o suficiente para que todo um filão fosse explorado naquelas décadas.
E “A Bruxa Que Veio Do Mar” se sai relativamente bem aproveitado-se de tais conceitos.
Não há aqui uma bruxa –não no sentido literal e sobrenatural do termo –e, certamente, ela também não vem do mar –que surge como um elemento imprescindível nas lembranças enevoadas e distorcidas da protagonista Molly (Millie Perkins, de “O Diário de Anne Frank”).
Moradora de Los Angeles, Molly trabalha num bar enquanto mora com a irmã (Vanessa Brown) e os dois sobrinhos que a adoram. Ela lhes conta histórias acerca do próprio pai –que ele teria se perdido no mar e que foi um grande aventureiro –embora logo fique claro que essas histórias só encobrem a real e aterradora verdade: Que Molly foi abusada pelo pai antes dele morrer.
Daí, a patologia de Molly que a impele a mutilar e matar os mesmos homens por quem se sente atraída, fazendo dela uma psicopata.
Escrito por Robert Thom (marido de Millie), o roteiro leva certo tempo até harmonizar os mistérios entre o modus operandi de Molly enquanto assassina fria, as imagens surreais que interferem na narrativa na forma de lembranças elípticas e as tentativas da irmã em elucidar toda a verdade para a protagonista, além da titubeante investigação da polícias em torno das mortes, extraindo disso o suspense que visa absorver o público para dentro da trama. E, na maior cara de pau, o roteiro de Thom prioriza Millie dando a ela uma quantidade farta de monólogos que a centralizam na história, enquanto os demais personagens são, quando muito, monossilábicos em sua presença –verdade seja dita, ele dá à ela várias cenas de nudez também,muitas delas limadas em outras versões do filme.
Do jeito como está, “A Bruxa...” é um interessante estudo psicológico sobre uma mente avariada com todos os lapsos de ingenuidade que se podia esperar das realizações do período.