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sábado, 26 de setembro de 2020

Romance

Normalmente adepto de comédias mais rasgadas –e de resultado frequentemente hilário –o diretor Guel Arraes investe aqui, como o próprio título já deixa bem evidente, no romance. Ainda que seu filme conserve também elementos do tino irreprimível para comédia que ele tem. Há também em “Romance” a química cativante de seu casal protagonista, Wagner Moura e Letícia Sabatella, um melhor que o outro, e um olhar cheio de peculiaridade, divertida acidez e conhecimento de causa sobre as diferentes impressões experimentadas pela arte e pelo artista quando se expressa em mídias distintas, de interesses distintos como o teatro e a TV (e, no fim das contas, o cinema).
“Romance” é, portanto, nos temas que reúne e na forma como os reúne, Guel Arraes dos pés à cabeça!
Nota-se assim uma certa evolução em seu estilo, quando identificamos uma seriedade, uma maior maturidade, ao acompanhar o princípio da história de amor entre Pedro (Moura) e Ana (Letícia), dois atores (ele é também diretor) unidos em cena para uma apresentação teatral da tragédia “Tristão & Isolda” –clássico este que se mostra fundamental ao filme.
Enquanto debatem a relevância sentimental da obra em questão, influenciadora de praticamente todas as histórias de romance que vieram depois, os dois intérpretes descobrem algo alardeadamente nada incomum de acontecer: O amor encenado nos palcos migrou para a vida real.
Pedro e Ana formam assim, um casal apaixonado.
Contudo, a despeito da alegria com que encaram os desafios corriqueiros, os obstáculos refletidos em “Tristão & Isolda” não tardam a aparecer em sua relação também: Ana chama a atenção de Danilo, um produtor de TV (José Wilker, afiadíssimo), que não tarda a contratá-la e a levá-la a uma rotina na qual tem de se dividir entre gravar novela no Rio e encenar a peça em São Paulo.
E logo, ter que dividir a mulher que ama passa a ser um tormento para Pedro.
Eles terminam e o filme, como quem não quer nada, avança três anos no tempo; Ana agora já é uma grande estrela na TV. Pedro segue com a postura de artista comprometido com sua arte que é a essência do teatro.
Um reencontro, porém, se esboça: Ana, assim como sua agente Fernanda (a ótima Andrea Beltrão) querem convencer Danilo a aprovar um especial de fim-de-ano estrelado por ela, mas, dirigido –olhe só –por Pedro!
E qual é a trama? Uma adaptação nordestina (e filmada em locação!) de “Tristão & Isolda”.
Por esse caminho, o que era um romance de idas e vindas complicadas começa a se tornar um triângulo amoroso, e depois um quadrilátero (!), com a adição do personagem de Orlando (Vladimir Brichta, cujo carisma e simpatia são tantos que ele torna apetecível e encantador um personagem que, nas mãos de outro ator, poderia conquistar a raiva do público).
Acontece que Pedro almeja um ator regional para viver Tristão e ser o par de Ana; Orlando quer essa chance e assim se faz passar por um nordestino legítimo, ganhando o papel.
Entretanto, como costuma ocorrer de maneira meio ambígua entre alguns intérpretes profundamente envolvidos com as emoções de seus personagens, Ana e Orlando têm um breve envolvimento durante as filmagens; mesmo que Orlando, às escondidas de todos, mantenha lá um certo romance com Fernanda.
Assim, o que antes era uma serena e introspectiva reflexão sobre o amor, a arte e a profissão restrita à duas pessoas, se torna um imbróglio: Pedro não esconde sua vontade de reatar com Ana; já, Ana se acha dividida entre o amor não resolvido com Pedro e a recente paixão com Orlando; este, por sua vez, está dividido entre Ana e Fernanda –embora seu ego o leve à uma ligeira preferência pela primeira (ainda que ele reafirme sempre o contrário para a segunda!).
É, portanto, um ciranda de amores, abastecida pelos diálogos ágeis, e pelos comentários sempre inspirados sobre as situações complicadas da vida, abrilhantado por um elenco que funciona como uma máquina bem azeitada.
De quebra, o belo trabalho de Guel Arraes oferece as pertinentes e inevitáveis referências não só a “Tristão & Isolda”, como também à “Cyrano de Bergerac”, e outros clássicos do romantismo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Um Homem Só

Por meio das cenas que abrem o trabalho da diretora e também roteirista Claudia Jouvin somos testemunhas das circunstâncias miseráveis e comiserativas da vida de Arnaldo (o sempre ótimo Vladimir Brichta). Casado com uma mulher que já nem tem mais certeza se um dia amou (Ingrid Guimarães, provando versatilidade num papel dramático) e amargando um emprego num escritório que exala mediocridade, Arnaldo vive uma deprimente rotina de classe média baixa cujas agruras ele só tem o melhor amigo Mascarenhas (Otávio Muller) para dividir.
Não é, portanto, à toa que ele se agarra à primeira oportunidade de mudar, ainda que de maneira bem mirabolante: ele houve à boca pequena, sussurrado no banheiro, uma história sobre uma clínica que produz cópias das outras pessoas (!). Uma duplicata para colocar em seu lugar e viver sua vida insatisfatória, enquanto o original aprovieta para cair no mundo e recomeçar.
Talvez inspirado por ter conhecido a encantadora e impulsiva Josie (Mariana Ximenes, de “O Invasor”) numa visita à um cemitério de animais (!), Arnaldo acaba encontrando a tal clínica e resolve se submeter ao procedimento.
Na hora H, contudo, se arrepende. Ele foge de lá correndo.
Para sua surpresa, porém, há realmente um outro Arnaldo morando com sua esposa quando ele volta para o apartamento.
O que significa que a cópia encomendada foi feita. Ou será ele próprio a cópia?
Num espirituoso esforço de encaixar uma premissa fantástica e absurda dentro do contexto brasileiro e nas circunstâncias técnicas e artísticas do cinema nacional, a diretora Claudia Jouvin faz uma variação particular do mito do duplo (ou Dölppenganger) tão caro à literatura de Dostoyevski ou à ácida filmografia do grande Andrzej Zulawski.
Aqui, Jouvin parece privilegiar menos os desdobramentos da trama (sequer há muito interesse na manutenção de algum mistério sobre quem é de fato a cópia, nem tampouco em surpresas no roteiro) e mais o clima (a trilha sonora, de Plínio Profeta, trabalha com canções e composições de efeito etéreo junto à narrativa).
Isso rende um filme simpático de atmosfera e visual de fábula, ocasionalmente esmagado por um estranho senso de fatalismo que torna pedante algumas de suas soluções.
Entretanto, no cômputo geral, é aquela produção na qual os acertos compensam largamente os erros.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Bingo - O Rei das Manhãs

A expressão “Destruiu a minha infância!” ganha um novo significado com este magistral trabalho de Daniel Rezende (montador de “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Árvore da Vida”) na direção.
As cenas de Vladimir Brichta (absolutamente magnífico) caracterizado como o palhaço Bingo à beira do surto enquanto tenta apresentar um programa infantil dos anos 1980 rivalizando em caráter antológico com as seqüências de treinamento do B.O.P.E. em “Tropa de Elite”, ou com o giro em 360° em torno de Busca-Pé, com o tempo retrocedendo, de “Cidade de Deus”. Ou seja: Este filme já está entre as melhores obras do cinema nacional de todos os tempos!
Rezende dedica-se à uma biografia mal-disfarçada (deliberadamente mal-disfarçada) de Arlindo Barreto, ator de pornochanchada que, em meados da década de 1980, imaginou ganhar a sorte grande ao ser escolhido para personificar o palhaço Bozo nas manhãs diárias do SBT. No filme, Vladimir Brichta interpreta Augusto Mendes e sua trajetória segue exatamente esse lastro: Ao tentar um teste para uma novela, e obter assim um sustento artístico que fosse menos constrangedor aos olhos do filho pequeno do que os filmes eróticos que fazia, Augusto por acaso resolve entrar na fila para a seleção daquele que viverá Bingo, uma atração que o SBT (aqui, batizado de TVP) exportou dos EUA.
Talentoso, inspirado e com freqüência sub-aproveitado, Augusto coloca nesse teste todo seu ímpeto criativo inesperado e travesso, e acaba obtendo o papel que faz dele o astro principal do programa exibido todas as manhãs em cadeia nacional na segunda maior emissora do país. Entretanto, em sua boa-venturança há um doloroso paradoxo: Por contrato, ele era completamente impedido de ter sua identidade revelada tornando-o assim o mais famoso ator anônimo do país.
De início, a narrativa estupenda de Rezende explora os meandros solares da situação pairando brilhantemente em gêneros distintos como a comédia –até pegar os macetes para ser um bom palhaço, ele faz uma espécie de estágio com um palhaço de verdade (vivido pelo grande e saudoso Domingos Montagner) –e até mesmo um certo suspense –as estatísticas de audiência que não sobem são freqüentes ameaças ao seu ganha-pão, e ele precisa recorrer a um jogo de cintura singular para incrementar o show sob a severa vigilância de sua diretora (Leandra Leal, maravilhosa como sempre).
Todavia, como bem diz sua mãe, também ela uma atriz, vivida por Ana Lúcia Torre: “Algumas pessoas são como formigas, outras são como cigarras, nós somos como mariposas! Precisamos da luz!”
É terrível para Augusto alavancar com seu talento o programa da emissora ao primeiro lugar da audiência para não receber qualquer reconhecimento do público por isso. Até mesmo quando ganha o troféu de Melhor Apresentador do Ano, ele é obrigado a comparecer à premiação vestido e maquiado de Bingo –e, portanto, impossível de ser reconhecido por qualquer um (inclusive, os seguranças da própria festa) quando coloca trajes normais.
Da incapacidade em aceitar tal injustiça, Augusto vai tirar sua derrocada: Ela começa quando ele busca nas drogas e no sexo a plenitude que não encontra na ovação do público, e vai se alastrar, na forma de cada vez mais pesados efeitos colaterais, na relação negligente com seus entes queridos, o filho pequeno Gabriel (Cauã Martins), que tanto ama, e a mãe, de quem herdou tanto a veia artística quanto a necessidade do aplauso.
O filme de Rezende sinaliza então como uma justiça poética: Arlindo Barreto, aqui Augusto Mendes, pode ter padecido do injusto anonimato durante o irônico período de sua consagração, mas neste trabalho extraordinário –de uma contundência cinematográfica rara de se achar em qualquer produção do mundo –ele encontra sua redenção ao protagonizar a mais sensacional obra do cinema brasileiro nos últimos anos.