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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Emergência Radioativa


 O produtor e roteirista Gustavo Lipztein já havia feito um bom trabalho na minissérie “Todo Dia A Mesma Noite”, sobre o incêndio na boate Kiss, entretanto, com esta outra minissérie (também ela dividida em cinco capítulos), focada nos assombrosos desdobramentos do caso do Césio 137 em Goiânia no ano de 1987, ele consegue um salto inacreditável de qualidade e sofisticação, e muito disso certamente se deve à direção de Fernando Coimbra (do impactante “O Lobo Atrás da Porta”) a frente de todos os episódios.

Setembro de 1987. Na cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás, dois catadores inadvertidamente invadem as ruínas de um hospital abandonado em busca de material para vender. Nas dependências do que havia sido a sala de radioterapia, eles encontram a cápsula de uma máquina de raio X deixada para trás, e logo decidem leva-la dali, desmontá-la e vender o precioso chumbo de sua constituição no Ferro-Velho local. Eles não fazem a menor ideia (nem tampouco os diversos outros indivíduos pelas mãos dos quais o material vai passando), mas, a cápsula carrega em seu interior Césio 137, um material radioativo altamente tóxico e letal para o organismo humano. Nos dias que se seguem, essas pessoas descobrem o curioso pó azul fosforescente no interior da cápsula e a mostram para parentes, vizinhos e amigos (!). Eles o compartilham; alguns levam dentro de caixas de fósforos para mostrar o fascinante efeito luminescente para seus filhos (!!).

Cerca de dez dias depois, Antônia (Ana Costa), a esposa do dono do Ferro-Velho (Bukassa Kabengele), decide levar a cápsula para a Vigilância Sanitária Municipal, já crente de que é seu conteúdo o responsável pelo mal-estar generalizado que contaminou a todos. A cápsula é entregue às autoridades (não sem antes circular à bordo de um ônibus coletivo por toda cidade de Goiânia!) e Antônia, junto do rapaz que a ajudou passam mal, e são logo encaminhados ao Pronto-Socorro.

É justamente o jovem médico residente quem nota algo de estranhamente suspeito: Não só a mulher e o rapaz se encontram em atendimento, como também os dois catadores do início – e todos apresentam sintomas de contaminação. Ele liga para um amigo dos tempos de escola, Márcio (o ótimo Johnny Massaro, de “O Filme da Minha Vida”), que havia se formado em Física Nuclear e morava em São Paulo, mas encontrava-se em Goiânia pela ocasião do aniversário do pai.

Márcio reluta em ir averiguar – ele e Bianca (Júlia Portes), sua esposa grávida, estavam prestes a partir de volta para São Paulo – mas, sob insistência, acaba indo. Um cintilômetro emprestado por ele das dependências da Universidade local indica níveis altíssimos e alarmantes de radiação quando enfim chegam no prédio da Vigilância Sanitária.

O Césio 137 é descoberto, e agora, todas as pessoas que tiveram contato com aquele material precisam ser colocadas em quarentena – não apenas isso, as autoridades, com o auxílio de Márcio e do especialista Dr. Orenstein (Paulo Gorgulho), têm que rastrear todos os focos de Césio 137 que se espalharam por Goiânia, das formas mais inacreditáveis possíveis; até mesmo em altares caseiros, dedicados à Nsa. Sra. Aparecida, são encontrados focos de Césio!

Realizado com uma primazia raras vezes vistas em produções nacionais (mas, um aspecto que felizmente vem se multiplicando) e certamente executada com estreita inspiração na minissérie norte-americana “Chernobyl”, uma das melhores já feitas para a TV em todos os tempos e um caso que, guardadas as devidas proporções, espelha bastante muito do que se sucedeu no Brasil naquele fatídico 1987, “Emergência Radioativa” é tensa, intensa, bem produzida, bem interpretada e bem escrita, ainda que os episódios finais se concentrem mais num drama hospitalar intimista do que nas eletrizantes atribulações na cidade de Goiânia – ainda assim, é em suas observações bastante brasileiras que reside o brilho que a faz original: No deslumbre bem típico do povo brasileiro e seus instantes de fascínio pelo pó azul fosforescente, na inocente predisposição para compartilhar uns com os outros algo que captura seu assombro, ainda que esse ‘algo’ seja, sem que eles saibam, o estopim de uma tragédia sem precedentes.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

O Livro dos Prazeres


 Existem autores difíceis –desafiadores até! –de serem vertidos para cinema. Certamente, a brasileira Clarice Lispector é um deles. Sua obra “Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres” é uma viagem existencialista ao âmago da angústia e da solidão, conduzida por uma personagem dilacerada pelo vazio de relacionamentos sem profundidade.

O filme, dirigido por Marcela Lordy, até busca, a sua maneira, ser algo parecido, lançando mão de subterfúgios hábeis do cinema brasileiro para contornar a abstração literária de sua narrativa a fim de pontuar com eventos mais sólidos a linguagem sensorial, poética e nebulosa presente nas páginas.

O resultado é uma obra cheia de personalidade no registro de uma melancolia onipresente, revelador da sensibilidade toda particular de uma diretora ao abordar o erotismo tão compulsório do cinema nacional (e o filme, para um longa-metragem lançado na década de 2020, tem até que várias cenas de nudez e sexo!), mas certamente insatisfatório no alcance de uma atmosfera e uma narrativa que fizessem jus ao texto de Lispector.

Contudo, “O Livro dos Prazeres” se impõe como um longa-metragem na descoberta de uma outra força imprevista: A atriz principal (e também produtora) Simone Spoladore (de “Lavoura Arcaica”), dona de uma expressividade tocante e peculiar, e uma beleza madura e envolvente.

Ela é Lori, uma professora de primeiro grau, incapaz de esconder a aflição que a consome mesmo de seus pequenos alunos em sala de aula: Lori submete as crianças à lições que visam despertar sua atenção para as desilusões da vida. Talvez porque, no arremedo de vida social que mantém, Lori é incapaz de se aprofundar em relacionamentos, estabelecendo conexões quando muito furtivas com os homens que sua beleza é capaz de atrair.

Em algum momento, ela conhece Ulisses (o argentino Javier Drolas com um sotaque que drena um pouco da veemência do personagem), um professor universitário de filosofia que vai gradualmente invadindo sua vida, com sua presença cada vez mais difícil de ser ignorada e com seus comentários, ora incipientes e circunspectos sobre quem ela é, ora reveladores de suas carências –e encontrar alguém tão capaz de expô-la sem os disfarces de sua calculada sexualidade é, para Lori, em princípio, um flagelo, mas, aos poucos também, uma redenção.

Esse é, pois, o caminho que a jornada da protagonista assim sedimentada nesta obra irá traçar, com perícia e cuidado artístico –características, felizmente, cada vez mais abundantes no cinema nacional –mas, vez ou outra, também com alguma falta de sutileza: As personagens Lori (de Lorelei, a sereia encantadora de homens das lendas) e de Ulisses (de “A Odisséia”, de Homero, que enfrenta toda sorte de contratempos e seres mitológicos a fim de regressar à Ítaca e à sua esposa) sugerem de fato uma contraposição entre os dois que dá certo charme reflexivo à circunstância romântica à cercá-los, mas não havia, deveras, a necessidade de explicitar isso em um dos diálogos mais expositivos do filme.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Boca


 Embora a produção “Boca”, de 1994, seja bastante desconhecida do público de hoje, há uma chance de alguns expectadores confundirem-na com esta produção de 2010: Se o filme dos anos 1990 era uma realização erótica de Zalman King filmada no Brasil (e que reaproveitava cenas extraídas da raríssima produção dirigida por Walter Avancini, adaptada de Nelson Rodrigues e estrelada por Tarcísio Meira, anos antes), a obra de 2010, dirigida por Flávio Frederico é, por sua vez, uma versão cinematográfica da autobiografia de Hiroito de Moraes que intitulou-se Rei da Boca do Lixo, nos anos 1960.

Seu protagonista, vivido com primoroso senso de astúcia e periculosidade pelo talentoso Daniel de Oliveira, surge na primeira cena na esteira dos vícios que o dominaram em sua trajetória, e que constituíram, em grande medida, sua derrocada.

Característico do cinema brasileiro profundamente autoral da última década (não despido, porém, de intenções notadamente comerciais), “Boca” é abstrato na trama factual que relata: A ascensão e queda de Hiroito, iniciada nos anos 1950, ainda jovem, a descobrir suas irreprimíveis aptidões, primeiro a prostituição –o que o leva a tornar-se um gigolô, e dono de um prostíbulo no bairro da boemia paulistana chamado Boca do Lixo –e depois, o vício –em bebidas alcoólicas, depois cocaína –e, sem dúvida, sua sanha irreprimível por violência –que logo o tornaria um dos homens mais temidos do local.

Ao redor deste personagem principal tornado tão catalisador pela narrativa –a despeito dos flagras de psicopatia, de irredutibilidade e de narcisismo constantes –estão os coadjuvantes que sedimentam seu caminho: A esposa, ex-prostituta, com quem constrói um relacionamento ardente (Hermila Guedes), fadado a desbotar; o melhor amigo, pivô de mesquinhas traições futuras (Milhem Cortaz, sempre ótimo); o aliado inicial no tráfico de drogas (Jefferson Brasil) mais tarde convertido em feroz oponente; o garotinho órfão que Hiroito adota (Ryan Gabriel), em oposição aos seus instintos carrascos; o delegado de polícia corrupto (o lendário Paulo César Peréio), ora parceiro em armações, ora inimigo declarado; a mescla de prostituta e pistoleira (Leandra Leal) que lhe auxilia em suas vinganças; e o jovem motorista (Maxwell Nascimento) a aparecer providencialmente para oferecer ajuda e subserviência.

Evocando facetas nem sempre harmoniosas de cinema, “Boca” remete aos épicos intimistas nacionais (“Cidadede Deus”, “Madame Satã”) tendenciosamente inclinados a romantizar o crime e o tráfico, bem como os filmes gangsteres hollywoodianos (na postura desafiadora e prepotente do protagonista sempre de arma em punho) e ao admirável nível qualitativo cinematográfico ao qual o Brasil chegou na última década, com obras, como esta, a ostentar excelência técnica e artística em suas mais diversas frentes.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Bingo - O Rei das Manhãs

A expressão “Destruiu a minha infância!” ganha um novo significado com este magistral trabalho de Daniel Rezende (montador de “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Árvore da Vida”) na direção.
As cenas de Vladimir Brichta (absolutamente magnífico) caracterizado como o palhaço Bingo à beira do surto enquanto tenta apresentar um programa infantil dos anos 1980 rivalizando em caráter antológico com as seqüências de treinamento do B.O.P.E. em “Tropa de Elite”, ou com o giro em 360° em torno de Busca-Pé, com o tempo retrocedendo, de “Cidade de Deus”. Ou seja: Este filme já está entre as melhores obras do cinema nacional de todos os tempos!
Rezende dedica-se à uma biografia mal-disfarçada (deliberadamente mal-disfarçada) de Arlindo Barreto, ator de pornochanchada que, em meados da década de 1980, imaginou ganhar a sorte grande ao ser escolhido para personificar o palhaço Bozo nas manhãs diárias do SBT. No filme, Vladimir Brichta interpreta Augusto Mendes e sua trajetória segue exatamente esse lastro: Ao tentar um teste para uma novela, e obter assim um sustento artístico que fosse menos constrangedor aos olhos do filho pequeno do que os filmes eróticos que fazia, Augusto por acaso resolve entrar na fila para a seleção daquele que viverá Bingo, uma atração que o SBT (aqui, batizado de TVP) exportou dos EUA.
Talentoso, inspirado e com freqüência sub-aproveitado, Augusto coloca nesse teste todo seu ímpeto criativo inesperado e travesso, e acaba obtendo o papel que faz dele o astro principal do programa exibido todas as manhãs em cadeia nacional na segunda maior emissora do país. Entretanto, em sua boa-venturança há um doloroso paradoxo: Por contrato, ele era completamente impedido de ter sua identidade revelada tornando-o assim o mais famoso ator anônimo do país.
De início, a narrativa estupenda de Rezende explora os meandros solares da situação pairando brilhantemente em gêneros distintos como a comédia –até pegar os macetes para ser um bom palhaço, ele faz uma espécie de estágio com um palhaço de verdade (vivido pelo grande e saudoso Domingos Montagner) –e até mesmo um certo suspense –as estatísticas de audiência que não sobem são freqüentes ameaças ao seu ganha-pão, e ele precisa recorrer a um jogo de cintura singular para incrementar o show sob a severa vigilância de sua diretora (Leandra Leal, maravilhosa como sempre).
Todavia, como bem diz sua mãe, também ela uma atriz, vivida por Ana Lúcia Torre: “Algumas pessoas são como formigas, outras são como cigarras, nós somos como mariposas! Precisamos da luz!”
É terrível para Augusto alavancar com seu talento o programa da emissora ao primeiro lugar da audiência para não receber qualquer reconhecimento do público por isso. Até mesmo quando ganha o troféu de Melhor Apresentador do Ano, ele é obrigado a comparecer à premiação vestido e maquiado de Bingo –e, portanto, impossível de ser reconhecido por qualquer um (inclusive, os seguranças da própria festa) quando coloca trajes normais.
Da incapacidade em aceitar tal injustiça, Augusto vai tirar sua derrocada: Ela começa quando ele busca nas drogas e no sexo a plenitude que não encontra na ovação do público, e vai se alastrar, na forma de cada vez mais pesados efeitos colaterais, na relação negligente com seus entes queridos, o filho pequeno Gabriel (Cauã Martins), que tanto ama, e a mãe, de quem herdou tanto a veia artística quanto a necessidade do aplauso.
O filme de Rezende sinaliza então como uma justiça poética: Arlindo Barreto, aqui Augusto Mendes, pode ter padecido do injusto anonimato durante o irônico período de sua consagração, mas neste trabalho extraordinário –de uma contundência cinematográfica rara de se achar em qualquer produção do mundo –ele encontra sua redenção ao protagonizar a mais sensacional obra do cinema brasileiro nos últimos anos.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Lobo Atrás da Porta

Livremente baseada na fatídica história que ficou conhecida como "A Fera da Penha" este filme de estréia de Fernando Coimbra é um poderoso conto policial de narrativa multifacetada no início, mas que aos poucos solidifica seu núcleo em torno dos personagens de Milhem Cortaz e Leandra Leal,  ele um homem casado e adúltero, pai de família classe média baixa; ela, a inicialmente inocente jovem que ele seduz e transforma em sua amante, para mais tarde tentar se desvencilhar da moça, despertando nela um instinto vingativo cujas consequências serão trágicas para todos os envolvidos.
Curioso notar que a postura do filme não chega a demonizar a moça, autora, afinal de contas, do terrível crime que aqui é registrado. A narrativa mostra os percalços de rejeição e frustração que ela enfrenta, e que vão indubitavelmente levando sua personalidade àquela condição em que, para muitos, o crime hediondo que perpetra pode até soar justificado, embora de fato não o seja.
Essa dubiedade fascinante a que o filme consegue chegar, assim como o primoroso trabalho da atmosfera de suspense se deve em grande pelo bom senso na direção de Coimbra, mas sobretudo, por um elenco inspirado e brilhante.
A espetacular Leandra Leal, mais assídua no cinema do que na TV, é quem entrega a atuação mais forte, mais corajosa, e certamente a que persiste mais na memória e no assombro do expectador.
Milhem Cortaz, contudo, não lhe fica atrás, com um estilo todo próprio para capturar maneirismos (que ele já aprimorou desde os dois fenomenais "Tropa de Elite"), ele dá uma composição magnífica de um homem comum, levado por desejos primitivos, e depois, acoado, em sua covardia e sua insignificância, por temores mais primitivos ainda.
Sem entregar a trama, que reserva diversas surpresas e detalhes desconcertantes, especialmente para aqueles não estiverem familiarizados com a história real, este é um trabalho vigoroso do nosso cinema, que merece um reconhecimento. E que venham novos filmes desse notável talento, Fernando Coimbra.