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quinta-feira, 16 de março de 2023

007 - Sem Tempo Para Morrer


 Na última vez em que vimos o James Bond de Daniel Graig, em “007 Contra Spectre”, sua trajetória sinalizava uma espécie de desfecho para o personagem: A despeito disso jamais ter acontecido em qualquer outra versão, seja cinematográfica, seja literária, e mesmo que contra todas as probabilidades e até contra, digamos, o perfil do personagem, James Bond encontrava sua alma gêmea nas formas da forçadamente cativante Madeleine Swann (Lea Seydoux), abandonava o MI6 e partia em direção a um improvável final feliz de uma vida em família. Nesta nova produção, com intenções ainda mais contundentes de ser o capítulo derradeiro da Fase Daniel Craig, aquela pasmaceira familiar é descartada já no prólogo, uma longa cena de ação e perseguição na Itália (onde estaria o túmulo de Vesper, a bondgirl nº 1, morta em “Cassino Royale”), na qual Bond termina sentindo na pele os dissabores de se confiar demais e ser traído –ele deixa Madeleine (que julga tê-lo traído) numa estação de trem e garante à ela que nunca mais saberá dele. Entram os créditos iniciais, característicos e sensacionais desde o primeiro filme, com Sean Connery, e então “Sem Tempo Para Morrer” começa de verdade, com seu roteiro correndo contra o prejuízo e criando expedientes hábeis (uns muito bem bolados, outros nem tanto) para tentar trazer James Bond de volta ao seu status quo do qual algumas escolhas equivocadas do filme anterior ameaçaram removê-lo. Assim, passam-se cinco anos (!) e Bond, não mais um agente a serviço secreto de Vossa Majestade, é recrutado não pelo MI6, mas por seu grande amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, que pede a Bond um favor: Recapturar um cientista russo sem escrúpulos, criador de um vírus a pedido do próprio MI6, que foi tirado de um laboratório secreto por um grupo obscuro que aparentemente é a Spectre.

A inusitada missão leva Bond à Cuba, na qual tem por ajudante a entusiasmada e divertida Paloma (a maravilhosa Ana de Armas, estabelecendo com Graig uma parceria um pouco diferente da que fizeram em “Entre Facas e Segredos”), talvez, a mais interessante e vívida personagem de todo o filme. Uma pena ela aparecer por tão pouco tempo...

O roteiro de “Sem Tempo Para Morrer” –assinado pelo diretor Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge, Scott Z. Burns, Neal Purvis e Robert Wade, os dois últimos, roteiristas que, entre uma e outra colaboração, seguiram firme na franquia 007 desde os tempos de Pierce Brosnan, ou seja, conhecem (ou deveriam conhecer) toda a mitologia do personagem de cabo a rabo –lança mão de subterfúgios bastante sofisticados e expedientes objetivos de filmes de espionagem para desvencilhar-se da irrelevância e fazer-se surpreendente numa época em que expectadores não se surpreendem nem com reviravoltas-surpresas no melhor estilo M. Night Shyamalan. Não só isso, a produção também encara o desafio –inerente à todo filme de James Bond desde o fim dos anos 1980 –de fazer um personagem nascido das circunstâncias da Guerra Fria soar pertinente na atualidade, além de procurar se impor como uma válida obra cinematográfica tendo como objeto de comparação o fabuloso “007-Operação Skyfall”, com grande unanimidade tido como o melhor filme de Bond feito até hoje, e buscando fugir da proximidade qualitativa de obras que envergonharam a série, como “007 Contra O Foguete da Morte”.

São muitos, portanto, os desafios com os quais o diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada da série “True Detective”) se defronta aqui, e embora a crítica tenha sido muito rabugenta com seu trabalho (em certos quesitos até com alguma razão), ele consegue entregar um entretenimento válido, distante da sensação de desperdício que infelizmente contaminou “007 Contra Spectre”, ainda que longe de igualar a qualidade dos títulos mais honoráveis. Mesmo assim, “Sem Tempo Para Morrer” segue envolvente, eletrizante e reconhecível como um genuíno filme de 007.

Curioso, entretanto, é quando descobrimos, ao lado do próprio James Bond, que ele não é mais 007 (?!); seu codinome foi transferido, quando deixou o MI6, para outra agente, interpretada por Lashana Lynch (de “Capitã Marvel”). Contudo, será ao lado dela que Bond terá de trabalhar quando descobrir que, ao contrário do que acreditava, os planos malignos em gestação não são da Spectre (cujo líder, Blofeld, vivido por Christoph Waltz, está em uma prisão de segurança máxima), e sim de outro vilão megalomaníaco (vivido, por sua vez, por Rami Malek, recém-saído do Oscar de Melhor Ator por “Bohemian Rapsody”) dotado de planos intrincados que reintroduzem Madeleine Swann (personagem melhor desenvolvida aqui que no filme anterior) de volta à vida de Bond.

É fácil enxergar os elementos de “Sem Tempo Para Morrer” que desagradaram os puristas – a representatividade (um fator sempre redundante e secundário em encarnações anteriores do personagem) é poderosamente exercida no roteiro com a adição de uma mulher negra que detêm, durante boa parte do tempo, o título de 007 que antes pertencia ao herói, além das lembranças constantes da presumida irrelevância de James Bond, seja como um truculento agente de campo numa época dominada por tecnologia, sejam suas atitudes rotuladas machistas, e tudo isso sem contar a manobra final que certamente deixou descontente a maioria esmagadora de sua legião de fãs. Ainda assim, há que se notar também as qualidades do filme: A Fase Daniel Craig como um todo –e alguns de seus exemplares com mais evidência –foi a primeira a aproveitar integralmente todo o potencial cinematográfico que se poderia atingir nas obras de James Bond, não obstante o brilho nostálgico e a pulsante inovação da Fase Sean Connery, o divertimento irrestrito, ainda que ocasionalmente tolo, da Fase Roger Moore, a seriedade genérica da Fase TimothyDalton e o sopro de renovação técnica e artística da Fase Pierce Brosnan. Aqui, Cary Joji Fukunaga reitera muito do que funcionou antes, para potencializar o grande intérprete que Bond encontrou em Daniel Craig (embora sempre tenha sido notória a relação ‘amor e ódio’ que o ator sempre alimentou pelo personagem), cercando-o de formidáveis reafirmações da mitologia à qual pertenceu. É uma despedida digna, exuberante e adequada, imperfeita nas suas escolhas, razoável em relação à época a que pertence, enunciando certamente um recomeço no futuro, com outro ator, outra abordagem, e outra tentativa de se equiparar a tudo que veio antes.

Talvez o maior desafio seja encontrar um ator que se imponha no papel com a eficiência instintiva que Daniel Craig soube depositar em toda sua bela, ainda que oscilante, trajetória de cinco filmes.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O Teorema Zero


 Um dos últimos trabalhos a nascer da mente fervilhante e inquieta do diretor Terry Gilliam, “O Teorema Zero” pode ser enxergado como uma tentativa de reedição de sua obra “Brazil-O Filme”, no qual ele também contemplava um protagonista às voltas com as imponderabilidades da vida, da mente e da existência, inserido num futuro fútil, esquisito e alegórico.

Escrito por Pat Rushin, o roteiro tem uma assombrosa identificação com os conceitos de abstração, loucura e escatologia metafísica que Gilliam se permitiu revelar em seus projetos mais audazes e autoriais. Mais até: “O Teorema Zero” é, possivelmente, a obra na qual Gilliam mergulha com mais afinco nas inquietações insolúveis e inacreditáveis que lhe orientavam como artista; em grande medida, isso significa que tentar encontrar um sentido em toda a anarquia que se manifesta na tela pode ser um esforço vão.

Também produtor, o ator Christoph Watz vive o protagonista Qohen Leth; com a cabeça (e as sobrancelhas!) toda raspada, e morador de uma igreja abandonada convertida em apartamento (!), Qohen é o típico personagem alienado, com um pé na loucura e outro na esquizofrenia, que Gilliam tanto aprecia; o maluco que expressa a maluquice do mundo ao seu redor, num ato de rompimento com o sistema ao atrever-se a adquirir um mínimo de lucidez.

Qohen trabalha numa empresa de nome Mancon, controlada pelo aparentemente onisciente Gerente (Matt Damon, em uma ponta de luxo), na qual sua função é, como ele mesmo diz, “processar entidades” (!?).

O que vemos Qohen realmente fazer é trabalhar arduamente na tela de um computador tentando completar uma espécie de quebra-cabeças 3D que é também uma equação matemática –parece ser a solução visual de Gilliam para o tal ‘teorema zero’, uma espécie de enigma para o mistério da vida, do qual o protagonista se incumbe, e cuja tentativa de ressolução ocupa cada hora de seus dias.

Qohen padece de todos os tipos de fobia –como fica patente nas conversas destrambelhadas com sua psiquiatra online (Tilda Swinton) –e não deseja ter de ir até a empresa trabalhar, preferindo fazê-lo recluso dentro de sua casa, o que deixa seu supervisor (David Thewlis, de “Cruzada” e “Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban”) de ânimos acirrados. Numa festa na casa desse mesmo supervisor, à qual ele comparece meio que forçadamente, Qohen tem um encontro com a descontraída e sexy Bainsley (a deliciosa Mélanie Thierry, de “A Lenda do Pianista do Mar”) que, sem mais nem menos, passa a frequentar sua casa, na forma de uma fantasia erótica que se torna real.

Qohen ganha também a companhia de Bob (Lucas Hedge, de “Boy Erased”), o jovem filho do gerente tornado estagiário da empresa que, pouco a pouco, se torna seu amigo.

Durante esses percalços –que vão se estendendo ao longo de anos –Qohen aguarda obstinadamente por uma ligação que recebeu numa madrugada, e a qual, por descuido, acabou perdendo a conexão. Essa ligação, ele acredita piamente, trará uma voz feminina e transcendental, que lhe dirá, por fim, o sentido de sua própria vida, fazendo toda a tristeza, desesperança e angústia pelo qual passou ter um significado.

Em meio à essa trama amalucada que simula um certo despertar do personagem principal, o diretor Terry Gilliam dispõe pistas acerca da reflexão que ele quer levantar, entretanto, seja de propósito ou de desleixo, essa reflexão nunca fica clara: Seria uma dissertação sobre o nosso vazio existencial? Um conto sobre o tempo que desperdiçamos com questionamentos que jamais nos preencherão por completo? Ou uma angustiada (ainda que ocasionalmente humorada) observação da eterna ausência de respostas para nossas dúvidas metafísicas?

As referências de Terry Gilliam aos seus trabalhos passados são manifestas –além do já citado “Brazil-O Filme” temos a oposição entre medo e amor de “O Pescador de Ilusões”, a percepção alucinatória que engole protagonista e coadjuvantes em “Medo e Delírio em Las Vegas”, a busca idealizada por uma ilusão em “Os Doze Macacos”, e a devoção a uma rotina sem sentido de “Contraponto” –e em seu ressonante significado junto à filmografia tão incomum desse realizador, elas apontam um compêndio e um testamento de loucuras megalomaníacas, desvarios convertidos em imagens e um tratado visual onde o cinema não conhece e não deve conhecer limites.

A obra de Terry Gilliam é assim, cheia de beleza, inconstância e possibilidades irrestritas, tal e qual a arte em sua forma mais pura.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Alita - Anjo de Combate

O diretor mexicano Robert Rodriguez sobe adaptar sua personalidade e seu ímpeto criativo às mais diversas parcerias ao longo de sua carreira: Ele realizou um belo exemplar de terror e ficção científica para adolescentes nos anos 1990 junto do roteirista Kevin Williamson (“Prova Final”); fez uma adaptação de histórias em quadrinhos revolucionária em termos visuais e narrativos ao lado de Frank Miller (“Sin City-A Cidade da Pecado”); ele moldou, com Quentin Tarantino, uma das mais desiguais tentativas em formato cinematográfico de peitar o mainstream hollywoodiano (“Projeto Grindhoude”).
Aqui, desta vez, Rodriguez trabalha sob a produção de James Cameron, e o resultado do encontro entre dois notáveis estilo de se fazer cinema é um filme arrojado, cheio de humanidade e uma certa acidez para com os rumos convencionais que assombram sua trama.
Desde os anos 1990, a adaptação dos quadrinhos japoneses, “Alita”, de autoria de Yukito Kishiro, vinha sendo o projeto acarinhado por James Cameron –ele chegou até mesmo a criar a série de TV “Dark Angel” (que revelou Jessica Alba) para testar vários conceitos que seriam manejados em “Alita”.
O tempo passou e o período cada vez maior de produção e pós-produção adotado por Cameron entre seus projetos inviabilizou a possibilidade dele dirigir “Alita” –no momento, Cameron trabalha a onze anos (!) nas continuações de seu sucesso “Avatar” –o que o levou a assumir a produção e deixar a direção do projeto a cargo de Robert Rodriguez.
Não obstante a experiência de Rodriguez com produções de baixo orçamento –em contraponto, à Cameron cujas produções sempre são hiperlativas –“Alita” exigia um certo desembaraço na lida com os efeitos digitais: Uma das razões pelo longo tempo de maturação do projeto foi a espera para que a tecnologia fosse capaz de materializar em cena a protagonista do modo com que ela é no mangá –Alita é uma síntese entre humano e máquina, e essa característica está em seu designer desafiador no qual ela é expressiva e vívida sugerindo ao mesmo tempo uma, digamos, artificialidade sintética em seu aspecto.
Estamos no futuro, mais necessariamente no ano de 2563. A gigantesca e futurista cidade de Zalem flutua muito acima da superfície. Nela há uma espécie de ralo por onde caem dejetos de tecnologia descartados. Todos vão parar no aterro da Cidade de Ferro, uma gigantesca favela high-tech surgida à sombra de Zalem povoada de pessoas que alimentam a vã esperança de um dia subir à cidade voadora.
Em meio a esses escombros, o cientista Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz) encontra a carcaça de uma andróide de uma tecnologia avançada e perdida. Ele a repara, dando-lhe próteses cibernéticas e batizando-a de Alita (nome de sua filha que morreu).
Inteligência cibernética extremamente avançada dotada de um cérebro humano, Alita (vivida por meio de captura de performance pela jovem Rosa Salazar, de “Maze Runner”) não retém as lembranças de quem um dia foi; ela é, em vez disso, uma criança: Absorve e aprende com assombro e inocência tudo o que se passa a sua volta.
Contudo, ela aprende rápido: Logo descobre que seu pai, um benevolente e caridoso consertador de ciborgues defeituosos de dia, é um dos muitos caçadores de recompensas que patrulham as ruas à noite, a procura de perigosos bandidos com a cabeça à prêmio.
Ao descobrir isso –e no processo descobrir também a formidável aptidão que possui para lutar –Alita almeja ser uma caçadora de recompensas também, mas, isso não dura muito; convencido pelo namoradinho Hugo (Keean Johnson), ela resolve se tornar uma jogadora de Motorball, um esporte violento e brutal, no qual os campeões estão entre os raros indivíduos agraciados com a chance de ascender para Zalen.
No decurso de descoberta de suas origens e de se firmar nesse admirável novo mundo, Alita chama a atenção de alguns homens poderosos e influentes nesse mundo tecnológico a que ela pertence, como é o caso de Vector (o fantástico Mahershala Ali), financiador do Motorball, e o misterioso Nova, provavelmente grande vilão do filme e até mesmo das vindouras continuações, se elas chegarem a serem produzidas...
De fato, são muitos os elementos em comum entre “Alita” e as inúmeras obras marcantes de filmografia de James Cameron: Uma protagonista feminina extraordinariamente carismática, uma visão espetacular do futuro rica em textura e minimalismo; uma premissa que, a sua maneira, coloca a personagem central no cerne de um embate que pode mudar os rumos do mundo; um arranjo emocional e humano para dar algum tempero; e uma conjugação perfeita e impactante entre o espetáculo da ação e o arrojo dos efeitos visuais.
A esse sedutor cardápio de escapismo hollywoodiano, o diretor Robert Rodriguez acrescenta seu próprio e instigante estilo e reserva espaço para deixar o material bastante fiel à sua fonte, uma história tipicamente cyberpunk, como é habitual em realizações oriundas de mangás como “Akira” ou “Ghost In The Shell”.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Pequena Grande Vida


Outrora especialista em crônicas da vida real sobre personagens absolutamente comuns, o diretor e roteirista Alexander Payne mergulha aqui na sua primeira premissa dotada de um viés de ficção científica. Aproveitando –como todo bom autor que andou pelo gênero –para fazer sua dissertação particular sobre a periclitante situação do meio ambiente e o imponderável destino da raça humana sob esse prisma, sem nunca abandonar, no entanto, o ponto de vista do homem comum.
Tal homem comum é Matt Damon que interpreta o terapeuta ocupacional Paul Safrânek. Desde sempre com a conta bancária no vermelho, Paul junto da esposa (Kristen Wiig) testemunham, no início como todo o mundo, por noticiários na TV, a criação de um método revolucionário para resolver o problema de superpopulação mundial: A miniaturização.
Pessoas são levadas em centros específicos e, por meio de um processo avançadíssimo (esmiuçado pelo roteiro com raro preciosismo), reduzidos a um tamanho de não mais que doze centímetros.
Essas pessoas passam a viver em comunidades montadas especificamente para sua proporção reduzida. O pulo do gato: Sendo muito menores, eles consomem menos comida, ocupam menos espaço e demandam uma quantidade muito menor de recursos –mesmo aqueles que representam uma vida de regalia –e, por consequência, gastam menos dinheiro.
Para Paul, a renda financeira de que dispõe relega ele e a mulher à uma vida suburbana, mas, uma vez reduzidos, esse valor lhes permite uma vida de luxo –um dado que, somado ao fato de um amigo (vivido por Jason Sudeikis) fazer uma exaltada propaganda positiva da miniaturização, o convence a tentar o procedimento.
Entretanto, como vem a ser tão sintomático quanto notável no cinema de Payne, as certezas só se expressam na teoria –na prática, elas esbarram na volatilidade humana: Quando Paul já passou pelo processo de miniaturização, eis que sua esposa lhe anuncia, num telefonema, ter se arrependido.
Assim, a dita nova vida, que Paul almejava com entusiasmo já começa com dolorosos transtornos imprevistos. Solteiro, ele acaba –num reflexo de crise de meia idade –no meio de uma festa promovida pelo vizinho e novo amigo, Dusan (Christoph Waltz), na qual ele acaba conhecendo a diarista Ngoc Lan (a notável Hong Chau), uma ex-ativista e imigrante vietnamita, outrora famosa por uma situação inusitada: No Vietnam, as autoridades passaram a usar a miniaturização para conter o excesso carcerário, reduzindo os prisioneiros, como Ngoc Lan, sem o seu consentimento.
Por isso, Paul descobre, ela entra num nicho desconhecido, que não estava previsto nas ostensivas propagandas: As pessoas pobres que terminam passando pela miniaturazação por inúmeras razões improváveis, e integram o grupo cada vez maior de pobres de classe baixa que passam a trabalhar para os hedonistas miniaturizados das classes superiores.
Ao conceber essa estranha utopia que logo ganha ares de distopia, Alexander Payne parece incapaz (e indiferente) de conter seu ímpeto natural de falar sobre impressões e sentimentos quase sempre muito íntimos e pouco evidentes –muito mais em foco do que o rumo que essa inusitada sociedade em miniatura toma (embora isso também faça parte dos desdobramentos da premissa) está a curiosa relação que se estabelece entre Paul e Ngoc Lan.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Deus da Carnificina


É notável o fôlego para com este teatro filmado que demonstra o veterano Roman Polanski.
Sua proposta não poderia ser mais árida e ele não tenta convencer o público do contrário: A primeira e a última cena (ambas captadas do mesmo enquadramento) serão a únicas tomadas externas do filme.
Tudo o mais se desenvolverá dentro de uma apartamento de Nova York onde se reúnem dois casais de aspectos respeitável e amigável.
Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster) são os moradores, e são também os pais do menino que aparece sendo atingido no rosto na primeira cena. Eles recebem em sua residência, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet), pais do garoto que cometeu a agressão.
Mestre do desconforto, Polanski já evidencia ali, no engatilhar da cena, que todos querem seguir seus devidos caminhos; os visitantes ensaiam sua saída, os moradores iniciam seus protocolos de despedida.
Todavia, como numa variação mais realista (porém, igualmente absurdista) de Buñuel em “O Anjo Exterminador”, toda a vez que Nancy e Alan parecem conseguir uma brecha para sair porta afora ocorre um incidente ou uma situação que os obriga a ficar um pouco mais –pequenos detalhes de civilização que nos atrelam à circunstâncias desagradáveis, como uma ligação no celular que ocupa a atenção de uma das pessoas (e leva as demais a ficar em suspense); um tópico da conversa que surge inesperadamente e leva a discussão por outro caminho; uma menção inesperada a um café (ou a um bolo, ou a um copo de uísque).
Incapazes de se desvencilhar dessa situação, os quatro personagens tão forçosamente adultos, responsáveis e educados vão aos poucos abandonando suas bases de civilização a medida que a encenação primorosa de Polanski os confronta com impressões primitivas de fato como a perda, o repúdio, o asco e o ultraje.
Uma amostra de como são frágeis os indicativos de civilização do ser humano, concebida por Polanski com uma curiosa proximidade temática e estilística com Michael Haneke: Tanto a cena do prólogo e do epílogo fazem lembrar o trabalho magnífico de composição de quadros em movimento que o mestre austríaco realizou em “Caché”, assim como a natureza do enredo embutido nesse debate tem muito a ver com obras como “A Fita Branca” ou “O Video de Benny”.
O resultado, embora inacessível para boa parte do público, prima pelo notável uso que Polanski faz do humor negro em suas mais profundas considerações.

sábado, 21 de outubro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2010

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
A cerimônia de 2010, a primeira a abraçar a nova regra de dez indicados na categoria principal ao invés dos cinco que vigoravam até o ano anterior, chegou polarizada pela disputa dos dois principais favoritos ao prêmio: O revolucionário “Avatar”, de James Cameron (um trabalho tão inovador que, a julgar pelo perfil das indicações e das premiações, o Oscar não soube muito bem o quê fazer com ele...), e o elogiadíssimo “Guerra AoTerror” (que terminou fazendo de Katrhyn Bigelow a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção na história do cinema).
O fato do segundo ter ganhado prioridade na premiação não chega a significar muita coisa: Exceto que o Oscar vem, ano a ano, perdendo deliberadamente a sua relevância.

MELHOR FILME
"Guerra Ao Terror"

MELHOR DIREÇÃO
"Guerra Ao Terror", Kathryn Bigelow

MELHOR ATRIZ
Sandra Bullock, "Um Sonho Possível"

MELHOR ATOR
Jeff Bridges, "Coração Louco"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mo’ Nique, "Preciosa"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christopher Waltz, "Bastardos Inglórios"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Avatar"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Cove"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Music By Prudence"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Guerra Ao Terror"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Avatar"

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"A Jovem Rainha Vitória"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Guerra Ao Terror"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Avatar"

MELHOR TRILHA SONORA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Weary Kind", de "Coração Louco"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Guerra Ao Terror"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Preciosa"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Up-Altas Aventuras"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Logorama"

MELHOR EDIÇÃO
"Guerra Ao Terror"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"The New Tenants”

sábado, 30 de setembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2013

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
Foi o ano da consagração de Ben Affleck. E que bom que ela veio por um filme digno, bem estruturado, caprichado e merecedor do enaltecimento, ficou só um gosto estranho na boca pelo fato da Academia sequer tê-lo indicado ao Oscar de Melhor Diretor, que acabou ficando com Ang Lee, por um trabalho que considero inferior ao que ele já fez no passado.
Todos adoraram a vitória da Jennifer Lawrence como Melhor Atriz –alguns, especialmente depois dela ter caído nas escadarias do palco –mas, ainda acho que quem merecia era mesmo Jessica Chastain por “AHora Mais Escura”.
De resto, foi muito bom testemunhar a aclamação sem precedentes à Daniel Day-Lewis por seu grande trabalho em “Lincoln”, para compensar o obviedade que foi ver Anne Hathaway e Christopher Waltz vencerem como Coadjuvantes por “Os Miseráveis” e “Django Livre”, respectivamente.

MELHOR FILME
"Argo"

MELHOR DIREÇÃO
Ang Lee, "As Aventuras de Pi"

MELHOR ATRIZ
Jennifer Lawrence, "O Lado Bom da Vida"

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, "Lincoln"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anne Hathaway, "Os Miseráveis"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christopher Waltz, “Django Livre”

MELHOR FOTOGRAFIA
"As Aventuras de Pi"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Searching For Sugar Man"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Inocente"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Amor" (Áustria)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Os Miseráveis"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"As Aventuras de Pi"

MELHOR MAQUIAGEM
"Os Miseráveis"

MELHOR FIGURINO
"Anna Karenina"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"A Hora Mais Escura" e “007-Operação Skyfall

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"Lincoln"

MELHOR TRILHA SONORA
“As Aventuras de Pi"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Skyfall", de "007-Operação Skyfall"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Django Livre"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Argo"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Valente"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR EDIÇÃO
"Argo"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Curfew”

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Django Livre

Em 2007, Quentin Tarantino recebeu com lisonja o convite de um grande ídolo seu, o cultuado diretor japonês Takashi Miike, para participar do elenco de um filme dele, uma espécie de delírio cinematográfico ao estilo faroeste intitulado “Sukiyaki Western Django” –inspirado, por sua vez, no antológico faroeste spaghetti de Sergio Corbucci, “Django”.
Nada me tira da cabeça que foi ali, inspirado pela iniciativa do próprio Takashi Miike, que Tarantino aproveitou a idéia e a premissa para fazer ele próprio o primeiro faroeste de sua carreira (já ela pontuada por constantes homenagens ao gênero): “Django Livre”.
O próprio título indica que Tarantino teve a idéia em conseqüência do projeto de Miike –que, para variar um pouco, nunca foi lançado no Brasil...
Sob inúmeros aspectos, Tarantino se vale da deixa do faroeste para promover uma série de debochadas reinvenções, a começar pela contundente crítica ao racismo e à escravidão, afinal, se antes o negro Django (Jamie Foxx herdando um personagem inicialmente destinado à Will Smith que evitou o projeto devido à alta violência) era mais um cativo do sul escravocrata, logo na cena inicial ele é feito homem livre pela intervenção do pistoleiro e caçador de recompensas Dr. King Schultz (o magnífico Christoph Waltz).
Um mercenário travestido de dentista, Schultz é um homem que não crê em rótulos –e sendo ele, por sua vez, um alemão (nacionalidade fadada a carregar o estigma do nazismo a partir do Século XX), este é também um comentário muito particular do realizador.
Acompanhado de Schultz, a quem eventualmente presta ajuda, Django adota a profissão de seu salvador e logo demonstra insuspeito talento no gatilho, matando brancos foras-da-lei pelo velho oeste afora –e, por vezes, chocando os desacostumados (e preconceituosos) transeuntes com a visão de um negro armado, imponente e livre.
Mas, Django tem para si uma missão pessoal: Voltar para os ermos do Mississipi, na propriedade conhecida como Candieland e de lá tirar sua esposa, Bronhilda (a linda Kerry Washington), das garras do senhor de escravos Calvin Candie (Leonardo Dicaprio, numa atuação temperada de sarcasmo e repulsa).
Num golpe de espirituosa genialidade da parte de Tarantino, Calvin Candie não é, necessariamente, o vilão da história: Ele é freqüentemente manipulado pelo verdadeiro vilão, o empregado negro –veja só! –Stephen vivido por Samuel L. Jackson (que, aqui, está particularmente magistral em sua asquerosa vilania) que se vale da condição de mordomo de longa data da família Candie para controlar a ingênua psicose de Calvin em seu favor, destilando seu ódio contra quase todos e seu racismo pessoal contra os indivíduos de sua própria raça (!).
O resultado de um roteiro tão inclinado à reformulações conceituais acaba sendo, como sempre, mais um trabalho antológico de Quentin Tarantino, finalmente aderindo a um gênero que já influenciava indireta e profundamente a sua carreira.

Em suas mãos, esta inusitada (e debochada) reflexão sobre os meandros da escravatura avança em tensão e intenção para converter-se num vigoroso conto de vingança, além de revelar-se nesse ínterim uma apaixonada homenagem à Sergio Corbucci, o cultuado diretor do “Django” original –por sinal, o intérprete de Django, o veterano Franco Nero tem, ele próprio, uma especialíssima participação.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A Lenda de Tarzan

Não deixa de ser admirável o fôlego que demonstra o diretor David Yates ao entregar dois projetos de considerável complexidade logística neste mesmo ano de 2016.
Um, o bem-sucedido derivado da série “Harry Potter” (da qual, aliás, os quatro últimos longa-metragens ele se encarregou), “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.
O outro, esta reinvenção da célebre história do homem criado entre os macacos, concebida por Edgar Rice Burroughs, e tema de infindáveis versões cinematográficas e televisivas.
A saída dos roteiristas para supostamente contar algo novo (afinal, a origem do personagem já foi esmiuçada inúmeras vezes) foi inserir Tarzan e Jane –dois personagens fictícios, é sempre bom lembrar –em um contexto histórico real, além de ser uma trama sobre o retorno do personagem à África (embora Yates não se furte de, também ele, contar uma breve origem, surgida em meio à lapsos narrativos que sinceramente, não precisavam estar lá), no qual um Tarzan já estabelecido regressa para o seu meio, e no processo reencontra suas características antológicas: Soa como uma manobra parecida com o quê Bryan Singer fez em “Superman-O Retorno”.
Vamos aos fatos: O ano é 1890, e o Congo, na África, em poder do rei Leopoldo, da Bélgica, é um lugar explorado pela escravidão. Lá, o mercenário estrategista Leon Rom (Christoph Waltz interpretando com certo relaxo o personagem real que teria inspirado Kurtz do livro “The Hearts Of Darkness, de Joseph Conrad) tem por objetivo encontrar diamantes raros, que só ficarão à sua disposição se ele levar Tarzan até o líder vingativo de uma tribo (o intenso Djimon Hounson, em breve participação).
Mas, Tarzan (interpretado por Alexander Skarsgaard, da série “True Blood”, também com um pouco de relaxo) assumiu, nos últimos oito anos, o título de Lorde Greystoke, bem como o nome de John Clayton III, e se encontra em Londres, casado e acomodado com Jane (Margot Robbie, bela ainda que deslocada). Aquele que providencialmente o levará de volta ao lugar onde foi criado será George Washington Williams (Samuel L. Jackson sempre esmerado), figura real, um americano que buscou ir ao Congo em busca de provas da atividade escravagista ilegal lá praticada.
O roteiro assim amarra (de maneira relapsa, é bem verdade) essas situações levando Jane a ser capturada por Rom, que conduz Tarzan selva adentro à procura dela, e no caminho, vai se despindo do homem civilizado que tentou ser, e volta a transformar-se no personagem que todos conhecem.
O grande problema de “A Lenda de Tarzan” foi provavelmente seu diretor ter se incumbido de dois projetos: Ao dedicar-se quase que simultaneamente à “Animais Fantásticos...” (que estreou nos cinemas cerca de três meses depois deste “Tarzan”), Yates negligenciou muito da pós-produção deste filme, e isso é perfeitamente visível na tela –um dos melhores exemplos é o uso demasiado e desleixado da computação gráfica, que materializa inúmeros bichos digitais, mas o faz sem maior propriedade, bem como as cenas que mostram Tarzan se balançando em cipós, tão irreais e forçosamente estilizadas que parecem até mais fantasiosas do que as acrobacias do Homem-Aranha!
Desde as batalhas que se desenvolvem em cena (que passam a incômoda sensação de terem sido feitas às pressas, com detalhes mal planejados) até amarras mais sutis entre as situações do roteiro (muitas delas até soando como certo amadorismo), a produção vai acumulando falhas e erros de condução, muitos deles tão óbvios, que leva pouco tempo para tornar-se uma experiência maçante.
Foi perdida uma bela oportunidade para se fazer uma nova e empolgante versão de um personagem tão fundamental da cultura pop. O melhor ainda é ficar com a maravilhosa versão animada dos estúdios Disney de 1999, ou qualquer um dos sensacionais filmes antigos estrelados por Johnny Weissmuller.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Bastardos Inglórios

Os filmes de Quentin Tarantino, em geral, são verdadeiras dissertações acerca na natureza referencial da cultura pop cinematográfica. Numa espécie de aquecimento para seu mais recente trabalho, “Os Oito Odiados”, cabe aqui uma avaliação daquele que considero ainda seu melhor filme; O eletrizante, sarcástico e sensacional épico de guerra “Bastardos Inglórios”. 
Divido em capítulos, bem ao gosto pouco usual de seu autor, o filme começa no capítulo intitulado “Era Uma Vez na França Ocupada” (Esse seria, na realidade, o título do filme caso Tarantino não conseguisse a autorização para o título que ele usou, já que trata-se de uma referência, como tudo o mais, à um filme de guerra antigo que Tarantino assistiu). 
Na cena que abre o filme (e cujo primeiro frame emula a cena que abre “Os Imperdoáveis”), acompanhamos a aflição de um fazendeiro francês quando recebe a “visita” de um destacamento nazista. Seu líder é Hans Landa (o absurdamente brilhante Christoph Waltz) e, como toca as circunstâncias da Segunda Guerra Mundial, ele é um alemão à caça dos judeus por toda a Europa. Sua presença ali é rotineira, como ele muito cordialmente reafirma a todo o instante para seu anfitrião. Mas não há nada de rotineiro na tensão que ele consegue impor no ambiente, e a cena que se desenrola aí já é de caráter memorável: Tantas são as coisas e os detalhes que se desenrolam nesse primeiro momento, que ficamos a imaginar o quê nos reserva o restante do filme (Tarantino faz referência à uma cena de “Três Homens em Conflito” e ao primoroso emprego que Sergio Leone faz da trilha sonora nesse filme; e logo depois, uma auto-referência parece surgir sutilmente em cena, quando uma mariposa começa à pairar em meio ao tenso diálogo entre o alemão e o francês –à exemplo da borboleta digital que ele introduz em uma cena de “Pulp Fiction”). Esse primeiro trecho serve para introduzir dois personagens fundamentais: O caçador de judeus nazista, Hans Landa, claro, e a mocinha judia, Shoshanna. Mas, novos protagonistas surgirão logo depois: O grupo de soldados americanos intitulado "bastardos inglórios", liderados pelo alucinado tenente Aldo Raine (um inspirado Brad Pitt), e destacado para uma missão peculiar: matar nazistas implacavelmente pela Europa afora! Paralelamente, Shoshanna (a charmosa Melanie Laurent), a jovem judia sobrevivente do extermínio de sua família no primeiro capítulo, e herdeira de uma sala de cinema francesa, é coagida por nazistas a deixar seu cinema receber toda a cúpula de poder alemã para a estréia de um filme, "Orgulho da Nação". Esse fato desperta o interesse dos aliados que veêm uma chance de exterminar membros importantes do Fuhrer, e os "bastardos" terão importância fundamental nessa missão. 
“Bastardos Inglórios” potencializa tudo o que faz de Quentin Taratino um gênio; estão lá as referências infindáveis de cinema (num determinado momento da trama, ouvimos tocar uma música de David Bowie, extraída do filme “A Marca da Pantera”, é uma homenagem de Tarantino à atriz Nastassja Kinski que não pôde participar do filme no papel de Bridget Von Hammersmark, e foi substituída por Diane Kruger); a violência desmedida como um peculiar comentário da natureza humana; os espertos subterfúgios narrativos; e, claro, os diálogos, pulsantes de inventividade e de sacadas espirituosas. 
Por mais redundante que o comentário possa parecer, há algo de correspondente em “Bastardos Inglórios” e na obra de Tarantino que seguiu-se à este filme, “Django Livre”, e que provavelmente está na postura que Tarantino adota ao retratar personagens de segregada natureza (nazistas aqui, racista de maneira geral em “Django Livre”) e na catarse desconcertante que ele oferece ao expectador ao fazê-lo testemunhar, nesses dois trabalhos, esses arquétipos desprezíveis (e como tal retratados) sofrerem violentamente as conseqüências de se estar num filme de Quentin Tarantino.

domingo, 15 de novembro de 2015

007 Contra Spectre

Demorou um pouco, desde as minhas postagens da Maratona James Bond para finalmente conseguir assistir o último filme. Nesse meio tempo, não faltou gente dizendo que o filme era frustrante, que "Skyfall" era muito melhor e tal, de modo que minha expectativa estava bastante baixa.
Uma das críticas que mais ouvi foi que a produção ignorou o público e fez um filme para os fãs de Bond. Pois então, acho que isso me qualifica como fã de James Bond, pois gostei bastante do filme.
Que "007-Operação Skyfall" é um filme melhor, não chega a ser uma surpresa: O filme é nada menos do que a melhor aventura de toda a franquia 007, e manter (ou mesmo igualar) aquele nível altíssimo a que o diretor Sam Mendes conseguiu chegar era quase uma impossibilidade.
Em "007 Contra Spectre", contudo, é dos mais louváveis, o seu esforço em tentar.
A história (que desde o início é profundamente referencial em relação aos demais filmes de Daniel Craig) tem início com uma mensagem secreta recebida por Bond, que o coloca em rota de colisão com uma organização secreta -a Spectre -que teve envolvimento em todos os acontecimentos dos filmes anteriores, e que tem uma ligação com Bond muito mais profunda e pessoal.
Curioso notar que uma atriz bastante famosa como a italiana Monica Bellucci aparece numa quase ponta, muito rapidamente, ainda que seja essencial para a história.
Consequentemente, rostos conhecidos reaparecem. Exemplos: os vilões Le Chiffre, e Silva são muito mencionados ao longo da trama, assim como as falecidas M e Vesper Lynd.
Um dos mais importantes a reaparecer é o Sr. White (se bem que me parece que ele morre em "Quantun Of Solace" mas, enfim...) que acaba levando James até sua filha, Madeleine Swann (a pra lá de linda Léa Seydoux, de "Azul É A Cor Mais Quente"), por quem Bond, que nãp é nada bobo, logo se interessa.
Mas a grande questão do filme é o chefe da tal Spectre, interpretado por Christoph Waltz, e que, se você assistiu a todos os trailers que saíram, até já deve saber quem é.
Talvez seja esse o problema de "Spectre": Aliada à expectativa provocada pela excelência do filme anterior, a campanha de marketing não foi das mais inspiradas.
Isso não muda o fato de Sam Mendes ter criado uma aventura genial, plenamente digna do icônico personagem que representa, dona de algumas das mais belas cenas de ação do ano e carregada de imensas qualidades como cinema: Grande diretor, Sam Mendes faz lembrar, por exemplo, Michelangelo Antonioni e seu "Profissão Repórter" na cena em que Bond e Madeleine esperam por um rolls royce numa estação no deserto.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Algumas previsões para o Oscar 2016...

Curioso notar que, com sua alardeada previsibilidade, parece que faltam surpresas na cerimônia do Oscar. Quando o vencedor é anunciado é sempre em um clima de "já sabia...".
É curioso também notar que, horas antes do mesmo anúncio, não é tão fácil assim apontar os verdadeiros ganhadores (prova disso são os bolões de apostas que não são vencidos por todo mundo).
Pela minha experiência, nesta época do ano, nós provavelmente, já ouvimos falar do filme que sairá com a cobiçada estatueta em mãos: Nessa mesma época, em 2014, já se falava de "Birdman", assim como em 2013, já havia algum murmúrio sobre "12 Anos de Escravidão". Ninguém, porém, sabia que seriam exatamente ESSES filmes que ganhariam o Oscar...
Dessa forma, com esse espírito especulativo, vou falar de alguns filmes ainda vindouros, que têm algumas chances, na minha humilde opinião, de disputar o prêmio.
Selecionei cinco, embora hajam muitos mais:

The Hatefull Eight

Quentin Tarantino. Esse nome já explica muito do hipe que já se forma em torno desse filme.Não é pra menos. Os dois últimos trabalhos de Tarantino figuraram entre os indicados ao Oscar, e "Django Livre" venceu os de Ator Coadjuvante, para Christoph Watz, e de roteiro original! Aqui, Tarantino volta a fazer western, com uma trama que resgata muitos elementos de seu sensacional filme de estréia, "Cães de Aluguel". Na história, acompanhamos oito estranhos, isolados em uma cabana no meio de uma nevasca nas montanhas. Um deles, não é quem diz ser, e o caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russel não pretende deixar que esse traidor em potencial, colabore na fuga de sua prisioneira, interpretada com fúria por Jennifer Jason Leight.
O trailer, lançado na última semana, é pra animar qualquer um, e a data de lançamento (Natal deste ano) coloca o filme em um momento estratégico para ser lembrado pelos membros da Academia.

Divertida Mente

Já com presença garantida em toda e qualquer lista dos melhores filmes do ano por qualquer pessoa com bom senso, o novo e genial trabalho da Pixar é, talvez, a aposta mais garantida desta pequena lista.
Deve ganhar o Oscar de Melhor Longa de Animação, mas a exemplo dos sensacionais "Toy Story 3" e "Up - Altas Aventuras", deve figurar também entre os indicados a Melhor Filme.
O motivo para isso é bem simples: A Pixar, uma vez mais, conseguiu criar uma obra prima da animação com a magnífica história de uma garotinha, cuja mente é guiada por cinco distintas emoções (Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo) que ganham representações brilhantes. A própria geografia do cérebro humano criada na animação é algo digna, no mínimo, de aplausos.
Isso sem falar nas mais emocionantes sequências do ano, até agora.

A Travessia

Faz tempo desde que o diretor Robert Zemeckis ganhou seu Oscar (com "Forrest Gump" num já distante 1994!), de lá para cá, ele enveredou pela tecnologia de captura de perfomance, criando animações como "Expresso Polar", "A Lenda de Beowulf" e "Os Fantasmas de Scrooge" que não chegaram a causar muita celeuma. Seu retorno aos filmes com atores de verdade seu deu com o elogiado "O Vôo".
Este ano, Zemeckis surge com um projeto que parece ser certeiro: A história romanceada de Phillip Petit, equilibrista francês que, no fim dos anos 1970, início dos anos 1980, empreendeu uma tentativa clandestina de cruzar, numa corda bamba, o World Trade Center, na época, os edifícios mais altos do mundo.
A mesma história foi relatada no magistral documentário "O Equilibrista", que à propósito, ganhou o Oscar da categoria em 2008.
Ao lado do ator Joseph Gordon Levitt, como Petit (papel que pode ajudá-lo a emplacar sua primeira indicação), o diretor Zemeckis tem tudo para fazer uma obra espetacular com sua habilidade em manipular efeitos especiais em 3D.

Perdido em Marte

O mais arriscado dos meus palpites, "Perdido em Marte", ou "The Martian" é adaptado de um livro escrito por Andy Weir cuja história surpreende do início ao fim. Uma mistura muito bem urdida de "Gravidade", "Apollo 13" e "Náufrago", o filme conta a jornada até inacreditável, mas ancorada em verdades científicas perfeitamente plausíveis, de Mark Whatney (Matt Damon), que acidentalmente, é deixado para trás por seus companheiros, que o dão como morto, numa missão em Marte. Ao longo do tempo que se segue, o astronauta Mark deve usar de sua inventividade para fazer com que o oxigênio, a comida, a água e a energia que dispõe em quantias limitadas, não acabem antes de encontrar uma solução para seu apuro.
A direção desta trama fascinante ficou a cargo de Ridley Scott, que quando quer sempre entrega um filmaço, sobretudo quando cisca no terreno da ficção científica, vide seus seminais "Alien" e "Blade Runner".

Joy - O Nome do Sucesso 

Por último, mas não menos importante, uma das barbadas no próximo Oscar. Também com estréia agendada para o fim do ano, este filme trás, além da direção de David O' Russel (cujos três últimos trabalhos foram todos indicados ao Oscar!) a presença da fantástica Jennifer Lawrence (presença assídua nos filmes de O' Russel) como Joy Mangano, uma personagem real, cujo talento para invenção a tornou uma milionária, numa época em que as mulheres tinham de lutar ainda mais para conseguir seu espaço.
Não só o filme aparece como certo em muitas apostas do vindouro Oscar, como Jennifer Lawrence é dada como certa na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, que ela já ganhou, é bom lembrar, por "O Lado Bom da Vida", um filme também dirigido por O' Russel.