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quarta-feira, 13 de março de 2024

Ricky Stanicky


 Os amigos Dean (Zac Efron), J.T. (Andrew Santino, de “O Artista do Desastre”) e Wes (Jermaine Fowler, de “Judas e O Messias Negro”), como qualquer ser humano, desde criança alimentaram o hábito de cometerem, vez ou outra, alguma besteira. Contudo, numa noite de Halloween, quando sem querer colocando fogo inadvertidamente na casa de um vizinho antipático, os três têm uma ideia que definiria suas vidas a partir dali: A fim de livrarem-se das consequências inevitáveis das encrencas que arrumaram, eles bolaram um amigo fictício, um certo Ricky Stanicky que, por ser um bon-vivant, adepto de viver a vida ao máximo (segundo eles, foi ao mesmo tempo viciado em drogas, viajante contumaz e ativista ecológico!), termina sendo o personagem central de todas as presepadas nas quais os três se envolviam –desde a adolescência até a vida adulta, diga-se!

Mesmo depois de casados –e com, pelo menos, um deles, T.J., se tornado pai –eles ainda recorrem à Ricky Stanicky como forma de justificar pequenas escapulidas dos compromissos e responsabilidades.

Entretanto, durante a celebração do batismo judeu do filho recém-nascido de J.T., ele, Dean e Wes são pressionados por seus cônjuges e familiares a finalmente convidar Ricky Stanick a fim de que todos os conheçam; até porque, aqui e ali, já existem alguns que começam a suspeitar, de sua real existência.

Para Dean, o principal defensor da ilusão de Ricky Stanicky, a manutenção da mentira é essencial para terem sempre uma válvula de escape para suas vidas estressantes. E com isso, os três têm a ideia de contratar Rod Rimestead (John Cena, em perfeita sintonia com o humor grosseiro do filme), um ator decadente e cheio da lábia, especializado em apresentar-se com versões humorísticas (pra não dizer vexaminosas) de músicas famosas.

Sem muita alternativa –sua vida se resume a apresentações mambembes, bebedeiras e passar a perna em terceiros para não passar fome! –Rod topa o trabalho e, no dia da celebração, sua dedicação ao papel de Ricky Stanicky se revela tão esmerada que ele não só convence a todos, como provoca um verdadeiro abalo sísmico nas vidas de Dean, J.T. e Wes.

A comédia politicamente incorreta –que praticamente desapareceu das telas de cinema nos últimos anos –havia sido uma especialidade do diretor Peter Farrelly, quando ainda dirigia em parceria com seu irmão Bobby, em décadas passadas. Após alguns filmes de menor expressão na experimentação de gêneros mais distintos e de uma inesperada vitória do Oscar (com o elogiado “Green Book-O Guia”), Peter Farrelly ensaia este retorno às raízes que, se denota uma perda até natural da desenvoltura para comédia que antes ostentava, representa, sem sombra de dúvidas, um respiro de ar fresco em meio ao circuito comercial, numa época em que o público não se surpreende com absolutamente nada e se ofende com absolutamente tudo; assim como o foi “Que Horas Eu Te Pego?” no ano passado.

“Ricky Stanicky” passa longe de ser um filme perfeito –ele não está nem mesmo entre os melhores trabalhos dos Farrelly –e a insistência de Peter em piadas referentes à pênis e a masturbação (!) é, no mínimo, incômoda, mas, a construção relativamente esmerada na estrutura de seu enredo (ainda que essa minúcia possa passar despercebida em meio ao seu intenso humor chulo) e as presenças significativas de seu elenco (Zac Efron já havia trabalho com Peter em “Operação Cerveja”, e além de John Cena, com sua persona desesperada, patética e algo comovente, o veterano William H. Macy está particularmente sensacional) apontam um diretor sempre disposto a se manter acima da média.

Ao fim, apesar da incessante inclinação ao humor inconsequente (embora as piadas não sejam tão simultâneas nem tão certeiras quanto os Farrelly fizeram ser um dia), “Ricky Stanicky” traz até algumas lições de valores: A mentira, ele reafirma, é sempre um assunto pendente que retorna para cobrar sua dívida ao mentiroso.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Na Mira do Atirador

Há uma justificativa plena para o título original, “The Wall”: Trata-se do cenário básico durante o qual todo este árido suspense de guerra irá se passar.
Diretor de “A Identidade Bourne”, o primeiro filme da série, Doug Liman nunca chegou a usufruir do reconhecimento de público e, sobretudo, de crítica experimentado por Paul Greengrass –diretor, por sua vez, das sequências, “A Supremacia Bourne” e “O Ultimato Bourne”.
Em comum, os dois diretores sempre tiveram uma disposição para retratar as condições sócio-políticas mundiais num prisma comercial de arrojadas obras de ação. Doug Liman, porém, diversificava a ponto de alguns de seus detratores duvidarem se ele tinha um estilo de fato ou se navegava a esmo em meio à gêneros que lhe caiam no colo.
Em “Na Mira do Atirador”, ele se mostra obcecado com realismo, evocando em seu filme uma situação-limite, não raro, centralizada num só personagem, que remete à “127 Horas”, de Danny Boyle, e “Enterrado Vivo”, de Rodrigo Garcia.
Há também ecos de “Guerra Ao Terror”, de Kathryn Bigelow, visto que esta obra também se ambienta na incursão norte-americana no Oriente Médio –as condições sócio-políticas mencionadas acima.
Isaac (Aaron Taylor Johnson) e Matthews (John Cena) são dois franco-atiradores do Exército Norte-Americano. Eles estão inspecionando, à cautelosa distância, o palco de uma chacina: Vários soldados foram mortos à tiros em céu aberto.
Por horas a fio eles observam o cenário. Vencido pela impaciência, Matthews decide averiguar mais de perto.
Será este o seu erro.
Alvejado, ele é seguido de Isaac que vem em seu socorro –e toma, também ele, um tiro; no joelho. Mal podendo se arrastar, com o companheiro agonizando em campo aberto, o rádio quase inoperante e sem maiores palpites de qual pode ser a localização do atirador, Isaac rasteja até um muro caindo aos pedaços –restos mortais de uma construção que antes fora uma escola.
E ali ele espera.
Espera por um possível erro de seu adversário (esse erro não vem, o atirador se revela formidável); por uma improvável chance de resgate (tais chances estão contra ele, além disso, o único com quem consegue comunicação via rádio é com o próprio atirador); ou por algum golpe de sorte que lhe permita escapar daquela enrascada (momentos que até surgem, aqui ou ali, explorados em minúcias espartanas pelo roteiro de Dwain Worrell, mas cujos desenlaces desafortunados só acabam enfatizando o drama).
Muito mais psicológico do que eletrizante –embora, por isso mesmo, sua tensão atinja níveis estratosféricos –“Na Mira do Atirador” revela a competência do ator Aaron Taylor Johnson e a versatilidade do diretor Doug Liman, os dois pilares sólidos sob os quais este contundente suspense se constrói.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Bumblebee

Os filmes dos Transformers resgataram para cinema o conceito dos robôs que se transformam em carros oriundo da famosa série animada dos anos 1980. E o fizeram com imenso sucesso de bilheteria, ainda que com qualidade cada vez mais questionável: Se o primeiro “Transformers” era de um primor escapista, o segundo “A Vingança dos Derrotados” era uma catástrofe que deixava em evidência as insuficiências artísticas abissais de seu diretor, Michael Bay, notoriamente avesso a narrativa profundas e intimistas, e muito adepto de decibéis e pirotecnia em níveis alarmantes. A saga –que resultou num total de cinco filmes –a partir daí, balbuciava entre as tentativas de Bay corresponder às críticas que faziam dele (sempre com largo êxito de público): O terceiro “O Lado Obscuro da Lua” era ao mesmo tempo uma continuação e quase uma contradição esquizofrênica do anterior; no quarto “A Era da Extinção”, Bay proporcionou uma reformulação no elenco humano (certo de que era o irritante Shia LaBeouf quem começava a saturar a plateia) e com isso uma espécie de recomeço (todavia, na prática, pouca coisa mudou de verdade); e o quinto “O Último Cavaleiro”, mais uma vez com Mark Wahlberg, um tratado insano e exorbitante de explosões, tiros e cacofonia representou uma pá de cal na tumultuada saga que assim se desenhou.
Com toda essa bagagem (e contando com Michael Bay como produtor, ao lado de Steven Spielberg), foi realizada esta primeira reformulação de fato que a um só tempo lança indícios de que pode seguir por uma linha narrativa alternativa, mostra-se um derivado concedendo protagonismo à um dos mais carismáticos personagens dos filmes anteriores (o pequeno robô Bumblebee), e retrocede no tempo (anos 1980, mais precisamente) a fim de aparentemente elucidar melhores detalhes no princípio da trama.
Com isso acompanhamos a trajetória de Bumblebee (cuja voz vem a ser do jovem astro Dylan O’ Brien, de “Maze Runner”), soldado integrante dos Autobots, enviado à Terra por seu líder, Optimus Prime, a fim de garantir uma sobrevida à sua resistência contra os Decepticons numa espécie de refúgio –toda essa primeira cena, ambientada no planeta Cybertron, é simplesmente de encher os olhos!
Já na chegada à Terra, Bumblebee tem seu dispositivo de voz destruído por um inimigo –e por pouco não perde a vida; tem, em vez disso, sua memória seriamente danificada.
Algum tempo depois, na forma inerte de um fusca (modelo que corresponde ao usado na série animada original, numa manobra nostálgica e genial dos realizadores), ele é encontrado pela jovem Charlie (a talentosa Hailee Steinfeld) que se torna sua amiga.
Logo, no entanto, o perigo virá não apenas na forma de alguns Decepticons que rastreiam Bumblebee até a Terra, mas também na de militares beligerantes que não fazem questão de discernir os bons dos maus (representados, sobretudo, no personagem de John Cena que entrega aqui uma atuação excelente, a despeito de sua fisionomia brucutu).
Assim sendo, o grande diferencial de “Bumblebee”, o filme, vem a ser o fato de ser o primeiro filme da franquia “Transformers” dirigido por outra pessoa que não Michael Bay –o escolhido aqui é o jovem Travis Knight.
E, se não chega a ser um gênio do cinema, Knight ostenta uma sensibilidade para a trama e os personagens que jamais se expressou nos cinco filmes da Era Michael Bay: “Bumblebee” concentra-se na delicada relação entre o robô que vira carro (e que expressa sentimentos num primoroso trabalho da equipe de efeitos especiais) e a garota que se torna sua amiga –aproveitando tal oportunidade para fazer um turbilhão de referências à hoje cultuada década de 1980, desde músicas famosas que preenchem de cabo a rabo a trilha sonora, até detalhes ínfimos e sutis, e as invariáveis citações cinematográficas (essencial para o tom do filme e do relacionamento que ele centraliza é, portanto, o filme “Clube dos Cinco”, de John Hugues, que aparece em algumas cenas). Esse senso de abordagem da narrativa, e da própria mitologia dos Transformers (e que se estende até seu registro visual) exercido pelo diretor Knight é corajosamente divergente do que Michael Bay fez, e isso é válido o suficiente para fazer deste o melhor filme realizado nessa franquia até então.
Se há nele um porém é a pouca experiência do próprio diretor que se manifesta com obviedade numa junção não tão harmoniosa entre as sequências mais intimistas e suas cenas de ação, ou algumas de suas inserções digitais –mesmo isso, contudo, são aspectos pequenos que não influem no ótimo resultado final deste filme que (diferente dos que o antecederam) aposta muito mais na empatia e na sensibilidade.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Descompensada

Espontaneidade é via de regra quando se faz comédia. E o diretor Judd Apatow compreende isso muito bem. O espaço capturado por sua câmera centraliza o ator, sempre, e dá-lhe ampla margem para o improviso. É a partir disso, desses lampejos de criatividade conjunta que Apatow e seu elenco terminam por criar o filme que assistimos. E quando temos Amy Schumer em cena (tão protagonista quanto roteirista do filme) a integridade existencial do texto está garantida.
E esta é, sim, uma comédia existencial, daquelas que chegam a irritar como narrativa, enquanto não encontram seu foco. Felizmente, com o talento de Amy e Apatow isso não demora muito a acontecer.
Escritora de uma revista de assuntos gerais, Amy vem a ser um efeito colateral em forma de mulher moderna: não é necessariamente carente, pois não lhe faltam conhecidos com os quais se relaciona bem mais além da questão da amizade. Não chega a ser uma mulher linda, mas não é feia, contudo, é desregrada com relação à bebida é à escolha de seus parceiros, e muitas vezes o faz de propósito, como se quisesse negligenciar o papel inevitável de mulher séria e certinha tão bem ocupado por sua irmã mais nova.
Ao fazer uma entrevista para uma matéria que assume a contragosto, Amy conhece um cirurgião esportivo (o divertido Bill Hader) e, aos trancos e barrancos, engata uma espécie de romance, que parece conduzí-la à mesma situação de todas as outras mulheres: um relacionamento sério.
A grande diferença da criação de Amy Schumer em relação ao arquétipo atual da mulher romanticamente enrolada (ou seja, Bridget Jones) é que Amy enxerga os relacionamentos de uma maneira ainda mais problematizada (e a cena inicial, hilária, já dá conta de esclarecer o porquê disso). Há uma outra diferença também, o tipo de humor: Enquanto “Bridget Jones”, tanto o filme quanto o livro, vinha abrilhantado com o típico humor britânico, este “Descompensada” carrega num humor muito mais norte-americano, de difícil execução é bem verdade, mas muito do agrado do diretor Apatow, o qual ele e Amy Schumer conseguem tirar de letra.