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sábado, 2 de novembro de 2024

A Ilha dos Prazeres Proibidos


 Em 1979 havia um certo equilíbrio entre a produção cinematográfica brasileira de então com seu apelo popular invariavelmente voltado para a exploração do erotismo (uma tendência que curiosamente acompanhava o exploitation desenfreado ocorrido em outras partes do mundo) e as circunstâncias políticas, sociais e culturais do nosso país que moldavam um cinema por vezes popularesco, malicioso e malandro, feito primeiramente com a cristalina intenção de lucrar, mas que, vez ou outra, atrevia-se a demonstrar alguma pretensão mais artística de seus realizadores. Houveram momentos, devido ao formato incontornável e rudimentar do subgênero da pornochanchada, em que essas pretensões artísticas soavam até absurdas e sem cabimento. No entanto, haviam, sim, ocasiões em que algo mais notável aflorava em meio à seara de prevaricações constantes que eram produzidas –e cuja falta de pudor crescia à medida que a censura vigente se enfraquecia, mas essa é outra história... –um desses casos vem a ser “A Ilha dos Prazeres Proibidos”.

Num Brasil ainda oprimido pela Ditadura Militar, Ana (a maravilhosa Neide Ribeiro, de “Palácio de Vênus”), uma repórter do jornal Estado de São Paulo –veículo de imprensa que foi notoriamente apoiador da extrema direita –almeja realizar uma reportagem muito especial: Entrevistar líderes dissidentes que se refugiaram para fora do país, num local lendário conhecido como Ilha dos Prazeres Proibidos. Lá, como rege os conceitos liberais, tudo é permito e, reza a lenda, o sexo corre solto entre todos os habitantes.

No entanto, Ana não é exatamente uma jornalista comum; ela, na verdade, esconde a identidade de uma assassina profissional, e sua missão de fato é encontrar essa ilha, sob a justificativa de uma mera entrevista, para dar cabo desses artistas revolucionários, entre eles os notórios Nilo Baleeiro (Fernando Benini, de “Filme Demência”) e William Solanas (Carlos Cassan, de “Mulher, Mulher”). O contato que Ana obtém para descobrir a localização e o meio de acesso para a ilha é o despachado Sérgio (Roberto Miranda, de “Alma Corsária” e “A Mulher Que Inventou O Amor”) que, na primeira cena em que aparece, surge à beira da praia com a namorada (Teca Klauss) em inevitável interlúdio sexual. Já nesse início, Ana percebe as suspeitas intuitivas da namorada de Sérgio e, antes de partirem, elimina ela sem Sérgio notar.

Para chegarem à tal ilha, Ana e Sérgio devem atravessar uma ‘fronteira’ cujos guardas são instruídos a lhes revistarem por inteiro –até intimamente! –e depois de um período numa cidadezinha intermediária (tempo durante o qual uma atração física considerável vai surgindo entre Ana e Sérgio), eles partem pelo mar até chegar à tal ilha.

O lugar em questão até não difere de qualquer cidadezinha pitoresca e paisagística do Brasil, porém, quando Sérgio conduz Ana até os locais de refúgio de Nilo e Solanas as coisas começam a mudar. Nilo é um homem erudito, indomado e até certo ponto sem uns parafusos na cabeça (!), vive à beira-mar, numa barraquinha improvisada na praia, junto de duas jovens (Zilda Mayo e Fátima Porto) deliciosas e desinibidas, junto das quais sexo é um hábito corriqueiro (!) –ao parecer por lá, Sérgio logo se inclui com animação nessa rotina, e não tarda para Ana aderir a ela também! Já, Solanas –provavelmente o alvo mais visado de Ana –mora numa casa reclusa com a esposa, a fogosa Lúcia (Meyri Vieira, do antológico “Histórias Que Nossas Babás Não Contavam”). Solanas surpreende Ana por revelar-se uma pessoa perspicaz, conciliadora e aberta –ele tem consciência, inclusive, do amor de Sérgio por Lúcia e, apesar da presença um tanto destoante de Ana no momento, está disposto a proporcionar à ele e à própria esposa o tempo que quiserem para se entenderem e para transarem (!).

Escrito e roteirizado por Carlos Reichenbach, “A Ilha dos Prazeres Proibidos” é um filme surpreendentemente politizado, profundamente referencial para com o período que o país experimentava, e chega a ser impressionante que ele seja tão incisivo e reflexivo em relação a esse contexto abordado, numa época em que as expressões de arte sofriam severo crivo dos censores –no entanto, é uma certeza que a versão original imaginada por Reichenbach trazia muito mais menções, observações e apontamentos críticos e reflexivos sobre o estado das coisas, do que esta que temos à disposição.

É uma obra que se traveste dos elementos até vulgares do cinema popular brasileiro de então para esconder dos mais distraídos sua inteligência e sua perspicácia –um mérito com o qual Reichenbach ao longo da carreira soube manusear com insuspeita perícia as obras com as quais presenteou o público.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Filme Demência

A obra mais pessoal de Carlos Reichenbach é uma engajada versão de “Fausto”, poema gótico no qual Goethe ilustra um protagonista que vende a alma ao Diabo.
Com efeito, é esse o nome do personagem interpretado por Ênio Gonçalves, um homem atormentado pela falência em todos os âmbitos de sua vida –desde a fábrica de cigarros herdada do próprio pai, até o relacionamento em frangalhos com a esposa (Imara Reis).
Quando Fausto busca uma compensação carnal para os infortúnios de seu dia-a-dia –expondo a nudez esplendorosa da mulher ao cortar sua camisola com uma lâmina de barbear –a esposa, amargurada por horas e horas de negligência matrimonial o rejeita. Indignado, o protagonista sai pela noite paulista afora certo de que, de alguma maneira, cometerá algum excesso: Ele leva consigo uma arma em punho.
Nesse decurso –no qual se vê ocasionalmente acompanhado do satânico Mefistófeles (Emílio Di Biasi) aparecendo aqui e ali, transfigurado em diferentes personas, porém, sempre presente, como uma mosca a farejar a decomposição de sua vida –Fausto singra os becos decadentes de São Paulo, a Boca do Lixo, o centro (onde a desigualdade prevalece), os prostíbulos, as boates de striptease, os inferninhos. Lá, ele encontra a fauna imoral e dantesca que essa realidade amarga atrai e cria; traficantes, prostitutas, viciados, desiludidos.
Um vez ou outra, Fausto encontra conhecidos, amigos que, na narrativa que Reinchenbach organiza, nada mais são do que espelhos que refletem a decadência dele próprio, e que, numa compensação fugidia e final, lhe fornecem ouvidos para declamar sua injúria.
Em algum momento, o delirante protagonista identifica alívio e alento em sua via sacra de martírio e degradação, na forma de imagens onde o cenário vil e seus habitantes deturpados são contrapostos pela visão de uma menina numa praia paradisíaca.
Quem é essa menina? E que praia é essa? Onde ela fica? O que significam?
São perguntas cuja resposta, subitamente, passa a nortear a vida já sem um norte de Fausto.
Alegoria deprimente e opressiva sobre a derrocada da vilania, o filme de Reichenbach só não se sai melhor em sua audaciosa ilustração metafórica porque no surrealismo da trajetória que relata ele termina por abraçar os elementos mais deploráveis e despojados de seu minguado orçamento, de sua limitada equipe técnica e dos recursos insuficientes para a empreitada pretensiosa que vislumbra seu simbólico roteiro.
Ao seu modo, “Filme Demência” –cujo título é um anagrama para o termo ‘filme de cinema’ –pode ser visto como um compêndio da carreira de Reichenbach, da mesma forma que, guardadas as devidas proporções, “Persona” também vinha a ser um compêndio da carreira de Bergman: Fausto, seu protagonista, passeia pela Boca do Lixo –onde Reichenbach iniciou sua carreira cinematográfica realizando exemplares da pornochanchada (como “A Ilha dos Prazeres Proibidos”, “Império do Desejo” ou “Extremos do Prazer” e outros) –e encontrou um meio de introduzir em suas obras, mesmo as de cunho essencialmente popularesco, um elemento questionador, reflexivo para com suas circunstâncias sociais, políticas e culturais. Aos poucos, em trabalhos como “Anjos do Arrabalde” e “Amor, Palavra Prostituta”, ele foi dominando um cinema proletário, de intensa observação moral, com frequência lançando um olhar particular sobre os desdobramentos machistas na relação homem-mulher (dinâmica essa que dá o estopim à premissa de “Filme Demência”). Também existem reflexos pessoais na abordagem ou mesmo na menção à falência financeira dos negócios familiares: O próprio Reichenbach viveu tal experiência com sua família que teve de enfrentar um processo de falência.
Por essa execução personalíssima, Reichenbach colheu os louros da premiação como Melhor Direção, Melhor Montagem, Melhor Ator Coadjuvante (para Emílio Di Biasi), Melhor Atriz Coadjuvante (para Imara Reis) e o Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1986, além de vencer Melhor Ator (Ênio Gonçalves) e Melhor Trilha Sonora no Rio Cine Festival de 1987 e o Prêmio de Inovação no Festival de Rotterdan.

terça-feira, 26 de março de 2019

Doce Delírio

Datado de 1983, o filme de Manoel Paiva (e fotografado por Carlos Reichenbach) é acometido de todas as tendências e inevitabilidades artísticas que regiam o cinema nacional de então, definido por circunstâncias precárias e maltratado pela crítica especializada. Seu elenco se amparava em presenças de destaque em novelas televisivas, como a exuberante Claudia Alencar, um símbolo sexual por conta de sua personagem na novela “Roda de Fogo”. Numa alternância que fazia o gosto do público da época, essas atrizes (e alguns atores, por que não) obtinham reconhecimento e visibilidade na TV para proporcionar aos fãs cenas de sexo e nudez nas pornochanchadas do cinema.
Ainda que “Doce Delírio” não seja exatamente uma pornochanchada com sua variação de drama romântico (e suspense) –algo nele se aproxima daquela abordagem intimista e feminina (e, no fim das contas, embustida) que fez tanto sucesso em “Bete Balanço” devido ao seu estreito diálogo com a juventude da época.
Razão primordial para uma conferida no filme, a deliciosa Claudia Alencar interpreta Eva, uma modelo fotográfica na esteira de neuroses comuns aos relacionamentos, entre brigas e reconciliações (mais brigas do que reconciliações) com seu namorado fotógrafo Cacá (Eduardo Tornaghi, da novela “A Gata Comeu”), a maior parte delas deflagradas depois que ela se vê obrigada a fazer um aborto.
Na sua busca por felicidade, Eva procura por outros parceiros na noite, tendo um encontro com um rapaz egocêntrico e arrogante (Paulo Cesar Grande) e um breve caso com um artista entusiasta de esquerda (Jonas Bloch).
Intercalando a trajetória de Eva está, com menos expressão, a da mãe dela, Júlia (Barbara Fazio) cuja rejeição velada do próprio marido (Mauro Mendonça) a leva também a encontrar um amante na noite paulista –Júlia, entretanto, não sabe lidar com seu novo lado livre, libertino e sensual, e num surto, mata o rapaz com quem dormiu (!), terminando internada numa clínica psiquiátrica.
É um olhar basicamente voltado para a angústia existencial dessas duas protagonistas femininas, em sua busca por uma identidade e uma autonomia emocional, culminando (para propósitos metafóricos, quem sabe) numa descabida cena (ainda que bastante sensual) em que Eva se besunta em mel para então se masturbar (!).
O desfecho revela que Eva voltou com o arrependido Cacá, e que Júlia saiu da clínica para voltar a cuidar do marido –as mulheres estão mais confiantes; mas, os homens, no viés machista da época, ainda que abalados, não tiveram qualquer prejuízo pela problemática que suas atitudes acarretaram, preservando o direito de serem imaturos e insensíveis como antes.
Ao fim, “Doce Delírio” talvez faça uma alusão dos relacionamentos modernos ao próprio ato sexual, que passa por tentativas imperfeitas, pelo frenesi e pelo auge do êxtase, para então minguar, trazer a realidade de volta à relação –e então recomeçar tudo de novo.
Pensando bem, risca isso: É reflexão demais para um filme tão insípido e descolado.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Anjos do Arrabalde

O diretor Carlos Reichembach, dos poucos cineastas brasileiros que deixava transparecer orgulhosamente em suas obras o seu apreço pelo cinema, tinha uma carreira conduzida com zelo e esperteza: Se por um lado ele mantinha uma atividade constante no nicho popular que abastecia o cinema nacional de então com recursos e expectadores (a pornochanchada que em seus áureos tempos levava multidões às salas), por outro, ele se permitia a realização de dramas contundentes que refletiam a vida comum nas grandes cidades.
Dessa louvável faceta, “Anjos do Arrabalde” é seu produto mais exemplar e admirável.
O filme se concentra em três protagonistas que têm em comum o fato de serem professoras primárias, e lecionar na Escola Municipal Luis Sergio Person (diretor de “São Paulo S/A”, homenageado numa das referências plantadas no filme).
Uma dessas protagonistas é Dália, vivida por Betty Faria. Em sua solteirice crônica, Dália vê sua vida servir para comentários alheios, nos quais os mais maldosos dão conta dela ser lésbica (!). Ela mora com Afonso (Ricardo Blat), seu irmão que, por sua vez, padece do vício em drogas.
Já, Carmo (Irene Stefânia) não tem a oportunidade exercer a profissão, uma vez que seu marido, um delegado de polícia com a mais retrógrada das mentalidades, obrigou-a a se demitir da escola pública, transformando-a numa dona de casa. Dessa forma, a única amizade que Carmo pode cultivar é com Ana (Vanessa Alves), uma manicure cujo namorado truculento e machista a estuprou.
A terceira protagonista do filme é Rosa (Clarisse Abujamra) cuja apatia e frigidez pelos objetivos pessoais não atingidos ela busca atenuar e contornar numa relação vazia e sem perspectiva com o diretor da escola, Soares (José de Abreu).
Ainda que nada econômico no que diz respeito à nudez e ao sexo –assim como ao escândalo também, uma vez que traz temas como assassinato, roubo, tráfico, estupro e incesto! –Reichembach fez uma obra de objetiva crítica social (ressaltando sua denúncia contundente dos comportamentos machistas registrados em quase todos os personagens masculinos do filme), além de um pertinente enaltecimento da figura feminina, em oposição a um obtuso tratamento como objeto sexual; essa união competente entre consciência, dramaturgia e entretenimento foi premiada no Festival de Gramado 1987 com os Kikitos de Melhor Atriz (Betty Faria) e Melhor Atriz Coadjuvante (Vanessa Alves); além de vários outros prêmios em outros festivais.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Falsa Loura


O diretor Carlos Reichenbach parece, com este filme, revisitar a figura da prostituta ingênua e de bom coração –se é que isso existe –de filmes tão díspares como “As Noites de Cabíria”, de Fellini, ou “UmaLinda Mulher”, de Garry Marshall; ao qual até há uma desengonçada referência na cena em que a protagonista e uma amiga tomam um banho de loja ao som de uma trilha sonora que reproduz os acordes da canção “Pretty Woman”, de Roy Orbison.
Não que a personagem principal, Silmara, interpretada pela pra lá de sensacional Rosanne Mulholland, seja uma prostituta. Silmara é uma das muitas protagonistas proletárias de classe média baixa e cultura suburbana que tanto interessam a Reichenbach, vide “As Garotas do ABC”, uma de suas obras anteriores com a qual este filme estabelece um relativamente estreito diálogo, sobretudo, na primeira parte, onde a rotina operária de Silmara, ao lado de suas amigas, é melhor explorada.
Silmara trabalha numa fábrica. A relação com suas colegas de trabalho oscila entre o áspero e o amigável; embora tente esconder sua empatia por trás de uma máscara de implicância e impaciência, Silmara importa-se com todas elas, tanto que não tarda a assumir uma atitude maternal com uma colega após desdenhar da intenção dela em ir numa danceteria popular.
São as cenas de Silmara nessa danceteria e os momentos flagrados dentro de casa ao lado do pai (cujo rosto foi queimado num acidente) que revelam a caracterização destituída de concessões que Reichenbach faz do universo brasileiro e suburbano onde o brega predomina em todas as estampas e texturas.
Como toda moça de classe média baixa, Silmara nutre sonhos com seus ídolos musicais, o vocalista de uma banda (Cauã Reymond) e um badalado cantor romântico (Mauricio Mattar).
E o filme de Reichenbach leva por caminhos tortuosos, Silmara a se cruzar com ambos –numa forma que converter o retrato tragicômico da juventude cafona e iludida num drama contundente sobre desesperança e decepção.
O primeiro (personagem de Cauã) tem um breve interlúdio com ela que se apresenta de maneira elíptica na narrativa; na sequência, uma viagem tornará ainda mais contundente seu envolvimento, assim como levará Silmara a uma invariável desventura.
E isso a conduzirá, por fim, ao segundo (o personagem de Mauricio Mattar) que ela conhecerá por meio de uma agenciadora de encontros para acompanhantes, quando então sua trajetória aparentemente já a terá empurrado para um mundo (o da prostituição) que ela buscava evitar.
No segmento mais inspirado e bem realizado do filme, Silmara é recebida numa chácara onde experimenta a fugaz realização de um sonho para, logo em seguida, no que parece ser uma referência apaixonada à Walter Hugo Khouri, descobrir os reais interesses do novo cliente.
Tendo uma série de escolhas específicas da parte do diretor apontadas como deficiências (como o final abrupto e aberto; e a atividade clandestina do pai de Silmara como uma espécie de incendiário, nunca devidamente esclarecida), “Falsa Loura” é um trabalho de caracterização e reflexão onde os objetivos da obra como um todo aparecem, no seu devido tempo, conjugados com suas próprias imperfeições, revelando o talento absolutamente salutar e precioso de Carlos Reichenbach e, acima de tudo, a força interpretativa inquestionável da lindíssima e competente Rosanne Mulholland.