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quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

As Aventuras de Buckaroo Banzai


 “Através da 8ª Dimensão” é o subtítulo que sucede o título desta obra oitentista, vítima de extrema incompreensão à época de seu lançamento em 1984, mas redescoberta ao longo dos anos como um entretenimento peculiar e curioso.

Muito se discorre sobre as alegorias embutidas no conceito amalucado de “Buckaroo Banzai”, como se o grupo Monty Python tentasse criar uma história com ecos de 007 e de adaptações de histórias em quadrinhos, e nela depositasse observações sobre a cultura pop e sobre a maleabilidade dos sentimentos, apoiada nas mais inusitadas referências possíveis.

O personagem título, Buckaroo Banzai (interpretado por Peter Weller, ator de “Robocop” e “Mistérios e Paixões”, estreando no cinema) é a um só tempo neurocirurgião, piloto de testes e dono de uma banda de rock (!?) e seu objetivo de vida é, ao lado de sua trupe de amigos, nomeados Hong Kong Cavaliers (que reúne caras como Lewis Smith, Jeff Goldblum, Clancy Brown e Pepe Serna), experimentar ao máximo de aventuras.

Uma delas tem início quando, tão logo deixa uma mesa de operação, ele quebra a barreira do som a bordo de um carro de corridas turbinado. Não apenas a barreira do som, Buckaroo rompe também, por breves momentos, o fino tecido da realidade, indo parar em um lugar que seu pai (que, por sinal, é cientista) chama de 8ª Dimensão!

O feito de Buckaroo desperta a atenção de um certo Dr. Emilio Lizardo (John Lithgow, perfeito em sua insanidade), cuja tentativa de realizar a mesma experiência décadas antes o levou a ser possuído por um alienígena vindo dessa tal 8ª Dimensão –situação que, desde então, o confinou numa espécie de sanatório. Escapando de lá, e reunindo outros comparsas, também eles, alienígenas disfarçados entre pessoas comuns (entre os quais, Christopher Loyd, Vincent Schiavelli e Dan Hedaya), o Dr. Lizardo se apressa em roubar da equipe de Buckaroo os artefatos necessários para repetir a experiência e voltar para casa.

Contudo, nada é tão simples: Os alienígenas, malvados ainda que ineptos, querem também achar um jeito de dominar o mundo, e em sua periculosidade, são vigiados do espaço sideral por outros de sua mesma raça, mais austeros, que estão prontos para fulminar a Rússia com um raio caso esses bandidos escapem até o pôr-do-sol, criando um impasse que levará a uma guerra nuclear, e a Terra à destruição. Assim, Buckaroo Banzai –que se vê envolvido na súbita descoberta de uma sósia (ou seria irmã gêmea?) de sua esposa falecida, vivida em ambos os casos por Ellen Barkin –acaba se tornando, ao lado dos Hong Kong Cavaliers, um improvável herói predestinado a salvar o planeta.

Essa explicação, no entanto, não chega a ilustrar com satisfação o que o filme dirigido por W.D. Richter (e roteirizado por Earl Mac Rauch a partir de uma ideia dele) chega a ser: Inspirado pelos filmes de matinê que Richter, e diversos outros autores da época conferiram em sua infância, “Buckaroo Banzai” é uma miscelânea bizarra, lisérgica e algumas vezes sem sentido entre aventura, ficção científica e delírio autoral. Seu enredo não se acomoda em nenhum gênero e sua cenas exalam um certo inconformismo bizarro, carregadas de informações, adornos e referências constantes plantadas nos mínimos detalhes e, ainda assim, ostentando um ritmo desigual, que parece ficar lento justamente nas cenas de ação (!), o que leva o expectador a uma curiosa sensação de desconforto em relação ao material, e pode ser fruto, talvez, da inexperiência do diretor Richter em construir uma narrativa –afinal, este foi seu primeiro trabalho.

Entretanto, se a estranheza é o charme de “As Aventuras de Buckaroo banzai”, ela é também uma característica quase involuntária diante da execução intuitiva de seu projeto.

Ao longo dos anos, muitos foram os que tentaram, sem sucesso, explicar os propósitos, intenções e objetivos por trás de “Buckaroo Banzai” –para uns, é um passatempo lisérgico sobre as ameaças metafísicas do universo transfigurado por um humor nonsense e deliberadamente inapropriado; para outros, um tratado alegórico sobre paranóia, sobre o estado de coisas alienado da década de 1980 e, ao mesmo tempo, um exercício estético e colaborativo sobre o caos e a anarquia –inclusive essa, digamos, esquizofrenia visual, que contamina muitas de suas passagens, pode ser explicada pela troca de diretores de fotografia, tendo o estiloso Jordan Cronenweth (de “Blade Runner”) sido substituído, no meio do filme, pelo mais convencional Fred Koenekamp.

A verdade é que, se o público demorou a perceber, em “Buckaroo Banzai” seus elementos desiguais, também seu realizadores ignoraram isso, supondo que ele fosse um  produto completamente comercial: Ele se encerra, inclusive com a promessa de uma segunda aventura (“”Buckaroo Banzai Contra a Liga Mundial do Crime”), esta jamais realizada, diante da indiferença quase temerosa que público e crítica demonstraram diante de obra tão estranha.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O Destino Bate À Sua Porta


 Uma cria da Nova Hollywood, o diretor Bob Rafelson, a exemplo dos Irmãos Coen com “Gosto de Sangue”, do mesmo período, almejou transpor uma narrativa de filme noir transfigurada para as ousadias mais possíveis e amplas de suas possibilidades sexuais e visuais para o cinema dos anos 1980, ao realizar este “O Destino Bate À Sua Porta”. Diferente dos Coen, entretanto, Rafelson refilmava o que havia sido um filme noir de fato –uma produção de 1946 dirigida por Tay Garnett –uma trama sobre adultério e homicídio premeditado.

O andarilho Frank (Jack Nicholson em sua quarta colaboração com o diretor depois de co-roteirizar “Os Monkees Estão À Solta” e estrelar “Cada Um Vive Como Quer” e “O Rei da Ilusão”) chega ao restaurante de beira de estrada conduzido pelo grego Nick Papadakis (John Colicos, de “A Troca”) e por sua sensual esposa Cora (a linda Jessica Lange). Nos códigos impregnados de propósito de sua narrativa liberadamente sensual, Rafelson expõe, nessa primeira parte, a disparidade entre o casal Nick e Cora: Ela, desejável e bela; ele, desmazelado e repulsivo.

Embora não seja nenhum vilão –retratado com a ambiguidade de uma vítima em potencial como toca ao bom cinema dramatúrgico –não demora o filme despertar o questionamento do expectador acerca da viabilidade desse matrimônio; e com isso fazendo o público cúmplice das obviedades que estão por vir: Frank, disponível, afoito e interessado, irá converter-se, sim, em amante de Cora –numa cena salpicada de audácia, onde fazem sexo sobre a mesa da cozinha!

Na esteira disso, a conclusão obscura e bastante inerente aos filmes noir: O crime (ou melhor, o assassinato) é o atalho mais curto para esposa e amante se livrarem do empecilho que representa ser o marido.

Embora se atenha com certa reverência à trama vinda do filme antigo, o trabalho de Rafelson na condução dessa narrativa nunca deixa de almejar a desmistificação: O próprio ato do homicídio em si, é despido das pulsões abruptas e de certa forma eloquentes do gênero. A morte surge num viés hediondo e fisiológico que a faz terrível e desagradável em qualquer ângulo. É notável também o modo como Rafelson sublinha o papel da mulher nessa execução em detrimento de um parceiro masculino inesperadamente falho e relutante.

Curioso em sua realização (sobretudo, pelo modo com que ressalta seu imprevisto erotismo), lento em sua narrativa (uma característica que Rafelson já demonstrara em outros trabalhos) e indefinido enquanto gênero (oscila entre um suspense de ares fatalista, um drama de obscuras predisposições criminais e, veja só, uma história de amor) “O Destino Bate À Sua Porta” parece deliberadamente ser um corpo estranho no formato e na estrutura  em que se concretiza, sensação potencializada pelo final um tanto arbitrário como forma de ratificar uma moral onipresente sobre o destino torpe de seus personagens.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Os 7 Suspeitos

Caso não tivesse ficado bem claro no comentário sardônico da trilha sonora de John Morris, logo no início, a sucessão de cenas de pura galhofa já deixaria bem claro que o filme dirigido por Jonathan Lynn (o mesmo de “Meu Primo Vinny”) é uma comédia disfarçada de suspense –ou seria um suspense disfarçado de comédia?
Nada nele se leva a sério, e isso se confirma quando compreendemos que esta é uma tentativa descontraída de Lynn e seu co-roteirista, o também diretor John Landis, em adaptar para cima o jogo “Detetive”, amparado na atmosfera dos contos de Agatha Christie.
O ótimo Tim Curry é, ou aparenta ser, o mordomo de uma mansão onde um jantar há de ser realizado numa noite chuvosa.
Quando os convidados começam a chegar, descobrimos que a presença de todos ali obedece um procedimento muito particular: Para simplificar, todos ali estão presentes usando pseudônimos a fim de proteger suas identidades; e todos foram levados àquele lugar porque o mesmo chantagista lhes extorquia dinheiro.
É assim que, além de Wadsworth, o mordomo, conhecemos também Coronel Mustard (Martin Mull), Mrs. Peacock (Eileen Brennan, de “A Última Sessão de Cinema”), Miss Scarlet (Lesley Ann Warren, de “O Estranho”), Prof. Plum (Christopher Loyd), Mrs. White (Madeline Kahn, de “Lua de Papel”) e Mr. Green (Michael McKean, de “1941-Uma Guerra Muito Louca”).
À eles, soma-se também um certo Mr. Boddy –Sr. Corpo (morto) prova de que os roteiristas não tiveram um pingo de sutileza na hora de nomear os personagens –interpretado por Lee Ving que revela-se o próprio chantagista em pessoa. Na sequência da revelação, dentro de uma sala fechada, as luzes se apagam e... um assassinato acontece!
Mr. Boddy é morto, e apenas Wadsworth e os outros seis se encontravam no recinto.
Além deles estão na mansão também a sexy empregada Yvette (Colleen Camp, de “Death Game”) e a cozinheira (Kellye Nakahara). E a certeza de que o assassino é um deles –e deve ser descoberto antes da chegada iminente da polícia.
Assim se desenha a premissa um tanto abilolada desta paródia de suspenses investigativos que, em sua ânsia de fazer graça, não presta muita atenção às motivações bem sedimentadas dos personagens, nem à coerência que poderia nortear suas ações e muito menos à plausibilidade dos acontecimentos que vão ocorrendo: Ao longo da noite, novas mortes se sucedem –Yvette e a cozinheira; um desavisado que bateu à porta à procura de um telefone (Jeffrey Kramer, de “Tubarão”); um policial que também bateu à porta (Bill Henderson, de “Murphy’s Law”); e, por fim, uma improvável moça levando um ‘telegrama falante’ (Jane Wiedlin) (!) –fazendo com que restem, de fato, apenas os sete suspeitos entre as únicas alternativas possíveis para se chegar ao culpado.
Todavia, tão rocambolesco é o corre-corre no roteiro de Lynn e Landis (que nele privilegiam sua especialidade, o humor), tão intensa é sua vontade de surpreender o expectador à qualquer custo e tão absurdas são as guinadas de sua trama de um ponto em diante que o encadeamento das pistas, os objetivos e pretextos sugeridos neste ou naquele personagem já não fazem o menor sentido, e qualquer explicação acabaria esbarrando no inverossímil.
Essa confusão, ao que parece, já estava prevista na gênese da produção, e os realizadores a justificam como a razão de ser do próprio projeto –no qual os atores realmente se comportam com frenético histrionismo.
Em sua versão em DVD, este “Os 7 Suspeitos” tem pelo menos três diferentes finais alternativos; uma prova de que, até o fim, ninguém sabia muito bem aonde toda aquela confusão iria chegar.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Piranha 2


Se o “Piranha” anterior contava com Richard Dreyfuss para abrir sua narrativa numa participação especial cheia de referência, este segundo –bem mais modesto –trás Gary Busey. O que não chega a ser um detalhe muito digno de nota.
Se o primeiro filme refez no exagero apelativo que corresponde ao gosto das plateias de hoje o “Piranha” original de Joe Dante, a sua continuação por conseguinte refilmaria o segundo, “Piranha 2-Assassinas Voadoras”, dirigido –pasmem –por James Cameron, e dono do famigerado de título de um dos piores filmes de todos os tempos.
Na ânsia de perseguir um mínimo de qualidade, optou-se por seguir uma trama nova, sem referências ao clássico maldito dos anos 1980.
E nessa nova trama, as piranhas anabolizadas e pré-históricas que promoveram o banho de sangue do primeiro filme se acham distantes dos sobressaltados seres humanos graças ao lago subterrâneo onde ficaram por tanto tempo escondidas.
Desta vez, elas encontram um canal que as leva em outra direção: Um parque aquático cujo novo proprietário (David Koechner, uma presença deliberadamente canastrona), viúvo da proprietária anterior, comete o erro de extrair água de um lençol d’água subterrâneo a fim de satisfazer seus banhistas –e há, nesse tipo de filme, sempre um personagem destinado a cometer a presepada suprema por meio da qual toda a desgraça irá se deflagrar.
Claro que as piranhas irão achar o canal para chegar ao parque aquático e assim honrar o filme com os litros de sangue e cenas de mutilação que seu público há de esperar.
Nesse ínterim, personagens jovens e sem muita noção irão preencher a ação com suas histórias desinteressantes. A principal delas é Maddy (Danielle Panabaker), herdeira do tal parque a ostentar sempre uma irritante expressão de responsabilidade para com seus amigos que só querem transar (dois deles não passam dos primeiros vinte minutos) e para com seu padrasto.
Há um triângulo amoroso muito mal construído envolvendo ela, um gente boa, porém insosso, funcionário do parque (Matt Bush) e um ridiculamente arrogante policial (Chris Zilka), isso pelo menos, até as piranhas –únicas e reais estrelas deste filme –surgirem para fazer a festa, trazendo de certa forma à reboque, duas participações oriundas do filme anterior –e que são também as melhores presenças do filme: O cientista com um parafuso a menos interpretado por Christopher Loyd e o ex-policial, agora em recuperação, vivido por Ving Rhames.
Na direção rudimentar de John Gulager, cujos momentos mais inspirados se ocupam de replicar o trabalho de Alexandre Aja no filme anterior, esta sequência se presta à mesma profusão de sanguinolência, galhofa e nudez gratuita.
Não fosse a bizarra participação de David Hasselhoff (interpretando o que esperamos que seja uma versão caricata, amoral e megalomaníaca de si mesmo), a introduzir um humor quase anárquico na narrativa, este seria só mais um filme esquecível.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Piranha


Na cena que abre “Piranha”, o diretor Alexandre Aja já eleva suas pretensões mirando numa referência não ao clássico B de Joe Dante que ele aqui refilma, mas no clássico genuíno que o próprio filme de Dante emulava –“Tubarão”, de Steven Spielberg –ao colocar em cena o ator Richard Dreyfuss (membro do elenco daquele filme) num personagem muito similar (e com figurinos similares!) só para morrer minutos depois.
Integrante de uma expressiva leva de jovens realizadores franceses que fizeram notáveis obras de terror na década de 2000, Alexander Aja (que também dirigiu a refilmagem de “Quadrilha de Sádicos”, o estilizado “Viagem Maldita”) parece compreender os elementos que compõe a diversão do cinema bagaceira –ao qual “Piranha” sempre orgulhosamente se incluiu –e os potencializa aqui; leia-se, sangue, violência e nudez em doses cavalares para o público adolescente.
Vindo de um lago subterrâneo que um terremoto deu acesso à superfície, um cardume de piranhas pré-históricas ganha um verdadeiro banquete: Acabam libertadas quando a cidadezinha de Victoria Lake vive seu auge turístico das férias de primavera –uma putaria generalizada que os americanos costumam chamar de ‘spring break’ –e seus lagos se encontram apinhado de jovens de biquíni, para desespero da xerife do lugar, vivida por Elisabeth Shue.
Seu pesadelo, aliás, é duplo: Além dos banhistas que não tardam a virar comida de peixe, seu filho mais velho Jake (Steve R. McQueen), ao invés de cuidar dos caçulas, envereda num tour pelos lagos da região ao lado da espevitada Kelly (Jessica Szohr), ciceroneando o cineasta pornô Derrick Jones (Jerry O’ Connell, de “Conta Comigo”, num apropriado histrionismo) e duas beldades espetaculares, atrizes pornô em potencial (uma delas a absurdamente deliciosa Kelly Brook). O grupo logo é cercado pelas implacáveis piranhas cuja sanha de sangue e vísceras o filme não tem pudor em escancarar.
Não verdade, esse teor apelativo e sensacionalista acaba se mostrando sua grande diversão. Paradoxalmente, o filme de Aja derrapa mesmo nos momentos em que tenta se levar a sério: No romance de convenção entre Jake e Kelly; na tensão por assim dizer que cerca os personagens adultos e numa série de desnecessários subterfúgios científicos para justificar a natureza das piranhas –que se mantém inverossímil no final das contas.

sábado, 19 de agosto de 2017

Uma Cilada Para Roger Rabbit

A idéia de uma fusão entre animação e live-action sempre foi um objetivo dos Estúdios Disney –Quem não lembra das cenas de “A Canção do Sul”, de 1946, ou a seqüência envolvendo os pingüins animados em “Mary Poppins”? –mas, havia todo um empecilho técnico limitando esse intento: A animação destoava da realidade simplesmente porque haviam barreiras evidentes que separavam as duas linguagens; e dizer isso soa antiquado nos dias de hoje, quando a computação gráfica oferece a cada ano novas inovações em forma de longas animados.
Poucas inovações técnicas, contudo, tiveram uma ressonância tão poderosa quanto “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, de 1988, que prometeu (e cumpriu!) uma união sem precedentes de atores reais e personagens animados em cena.
Isso só foi possível graças à junção da Disney com o produtor Steven Spielberg, detentor de vastos recursos no campo dos efeitos visuais, graças a sua amizade de longa data com George Lucas, o dono da Industrial Light & Magic, a empresa responsável pela magia que se testemunha na tela.
Para dirigir essa junção entre desenho e filme (e ciente de que tal junção precisaria ter a especificação de uma narrativa que englobasse o dinamismo natural das animações à encenação real) Spielberg chamou seu apadrinhado, Robert Zemeckis (que tinha dirigido para o próprio Spielberg o sucesso “De Volta Para O Futuro” e teve de adiar em três anos as filmagens das duas continuações para concretizar este projeto).
Zemeckis deu a condução narrativa e a percepção ideal para que os efeitos visuais complexos que colocavam desenhos e atores lado a lado transcorressem com naturalidade em cena. A história, também ela, contribuía para essa experiência sensorial: Numa brilhante sacada de metalinguagem, Hollywood, nos anos 1930, é uma indústria que produz desenhos animados (os chamados cartoons) da mesma forma que produzia filmes; os personagens animados são astros que se comportam longe das câmeras que maneira quase sempre distinta do que são em frente à elas –e esse retrato fantasioso mas não despido de lógica e observação aproveita para lançar mão de pontas luxuosas de verdadeiros astros animados como Pateta, Betty Boop (numa cena em que relata ao protagonista seu problema de desemprego, já que é um desenho em preto & branco, e agora eles só eram feitos à cores), Pato Donald e, numa cena considerada histórica, um encontro entre Mickey Mouse e o Coelho Pernalonga (cedido pela Warner sob a condição de que aparecesse durante o mesmo tempo de cena que o Mickey!).

Um dos grandes astros dos estúdios daquele período é o coelho Roger Rabbit.
Mas, como muitos astros de carne e osso daquele mesmo período, Roger tem um casamento cujas atribulações dão dor de cabeça aos produtores; sua esposa é, também ela, uma animação, no entanto, não há nada do histrionismo e da fanfarronice que sobra em Roger –trata-se da inacreditavelmente sexy Jessica Rabbit.
Sobra para o protagonista do filme, o detetive particular Eddie Valiant (o ótimo Bob Hoskin, se esbaldando com um divertido retrato de um herói de film noir e com a pantomina exigida pela sua interação com as dezenas de personagens animados) fazer assim um trabalhinho sujo: Tirar fotos que flagrem um instante de adultério de Jessica com um provável amante.
Contudo, o tal amante, dono das terras onde fica a tal cidade dos desenhos, Toontown, aparece morto e as circunstâncias tornam Roger Rabbit, que desapareceu, o suspeito número 1. Em sua mentalidade algo non-sense de cartoon, Roger procura pelo próprio Valiant para lhe ajudar: Já que foi ele quem o colocou nessa encrenca!
Na verdade, tudo é uma conspiração cheia de segredos e reviravoltas que podem impressionar quem espera um filme leve (embora ele o seja) com uma trama simplória: “Roger Rabbit” aposta alto na inteligência do público, mesmo aquele que assiste produções censura livre, e oferece muito o que ver à platéia adulta também –são inúmeras as referências ao cinema noir (grande homenageado do filme) e outras tantas aos desenhos da Era de Ouro de Hollywood, aqueles que os pequenos certamente não tinham idade para ter visto.
Tudo, porém, fica redundante diante do assombro que é a interação perfeita e espantosa dos cartoons com os atores reais: Um misto de arrojada animação com computação gráfica (que à época ainda era uma ferramenta bastante experimental) dá às imagens animadas um formato tridimensional que lhes confere textura e saliência, tal e qual os personagens de carne e osso; a partir daí, são incessantes as cenas sensacionais que o diretor Zemeckis entrega uma a uma.
“Roger Rabbit” não foi o primeiro filme a buscar tal efeito –os já mencionados “A Canção do Sul” e “Mary Poppins” são prova disso, além de inúmeras outras tentativas menos expressivas –e certamente não foi o último –a ele seguiu-se, nas décadas seguintes, os irregulares “Space Jam-O Jogo do Século” (que reunia o jogador de basquete Michael Jordan e o Pernalonga), “Looney Tunes-De Volta À Ação”, de Joe Dante, e até mesmo o italiano e malicioso “Volere, Volare”, de Maurizio Nichetti –mas a realização conjunta de Steven Spielberg e dos Estúdios Disney, capitaneada por Robert Zemeckis, entrou para a história do cinema como o mais perfeito exemplo de um efeito visual que hoje pode parecer antiquado, mas continua traduzindo brilhantemente a máxima de “sonho tornado realidade”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

De Volta Para O Futuro - Trilogia

Quem era criança ou adolescente por volta dos anos 1980, dificilmente deixa de incluir “De Volta Para O Futuro” –senão todos os três filmes, ao menos, o primeiro e mais sensacional deles –em sua lista de melhores filmes.
É uma daquelas obras que marcou toda uma geração.
Não à toa, há um apelo irresistível na história do jovem Marty McFly (Michael J. Fox, perfeito), um típico adolescente em pleno ano de 1985 que embarca por acaso numa máquina do tempo travestida de um carro modelo DeLorean, e acaba voltando vinte anos no tempo, em 1965, onde tem um encontro com seu pai (Crispin Glover) e sua mãe (Lea Thompson), então adolescentes como ele, e sem querer coloca em risco sua própria existência futura. Para colocar todas as coisas em seu devido lugar sem mudar o curso da história e ainda conseguir um meio de retornar para sua época ele conta com a ajuda do amalucado inventor da máquina do tempo, Dr. Emmett Brown (Christopher Loyd, impagável).
Produzida por Steven Spielberg e dirigida por Robert Zemeckis, esta inventiva aventura enfrentou inusitados contratempos até ganhar as telas: Seu protagonista, originalmente o ator Eric Stolz foi substituído por Michael J. Fox mesmo já tendo realizado quase metade das cenas; o roteiro era reescrito dia a dia, com as filmagens em curso, havendo um momento em que o formato imaginado para a máquina do tempo era, até mesmo, uma geladeira (!).
Nada disso impediu que o filme obtivesse larga aprovação de público que transformou ele, nos anos seguintes, numa das mais marcantes e queridas referências do cinema para histórias de viagem no tempo.

A idéia de Zemeckis e dos produtores era retomar o segundo filme tão logo foi terminado o primeiro (e no que diz respeito às cenas que intercalam os dois filmes isso realmente foi feito), mas logo após o sucesso do primeiro filme, o diretor Zemeckis foi convidado pelo mesmo produtor, Steven Spielberg, para capitanear um projeto de alto grau de ineditismo no cinema: A arrojada junção de desenho animado e filme chamada “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, o quê promoveu um intervalo de quase cinco anos entre o primeiro e o segundo (embora, eles tenham compensado isso filmando este e o terceiro simultaneamente).
A única baixa decorrente desse ocorrido foi a da bela atriz Claudia Wells, que interpretava a namoradinha do protagonista, e nas seqüências foi substituída por Elizabeth Shue (basta reparar como eles tiveram de refazer toda a cena que encerra “De Volta Para O Futuro 1” e inicia “De Volta Para O Futuro 2” só por causa da troca de atrizes).
Desta vez, Marty McFly, acompanha seu amigo, o Doutor Emmett Brown, numa viagem no tempo, em direção ao futuro. Mas lá, por alguns minutos a máquina do tempo lhes é roubada pelo vilanesco Biff. Quando retornam à sua época presente, o ano de 1985, tudo está transformado numa realidade alternativa onde Biff achou um meio de tornar-se milionário, e arruinou a vida não só da família de Marty, como de toda a cidade. Para corrigir as coisas eles terão de voltar ao ano de 1965, onde tudo parece ter começado. Sobre esta continuação eletrizante e rocambolesca de "De Volta Para O Futuro" uns dirão que é confuso no modo como se relaciona com o filme anterior, outros que é inegavelmente divertido.
Ambos os casos são verdade, embora a descontração contagiante que consegue suscitar no expectador deixe tais detalhes em segundo plano.

Após o final aberto do filme anterior, que deixou a trama praticamente engatilhada para o terceiro filme, lançado poucos meses depois (algo que, por incrível que possa parecer, o cinema comercial norte-americano só ousou fazer novamente em 2003, com as duas continuações de “Matrix”, “Reloaded e Revolutions”), reencontramos Marty McFly ainda preso no ano de 1965. Agora, ele deve encontrar a máquina do tempo e voltar para 1985, mas antes disso precisa voltar na época do Velho Oeste, por volta de 1885, onde seu amigo Emmett Brown se estabeleceu e, ao que tudo indica, está enfrentando problemas, devido à sua inesperada atração por uma graciosa professora (Mary Steenburgen, realmente encantadora), o que o leva a entrar em atrito com o fora-da-lei Mad Dog Morgan (Thomas F. Wilson, que fez também o papel do vilão Biff, nos dois filmes anteriores).
Essa mudança radical de atmosfera e ambientação pode ter contribuído para fazer deste o filme mais fraco da trilogia, ainda assim é uma aventura que esbanja bom humor e criatividade.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Um Estranho No Ninho

Muitos foram os habilidosos artistas estrangeiros trazidos para a América que levaram, através de seus filmes, um olhar incomum aos temas discorridos no cinema norte-americano. Nos anos 1970, um desses talentos foi Milos Forman.
Vindo de uma República Tcheca em convulsão política, ele deu continuidade, nos EUA, ao brilhante trabalho que ele já fazia em seu país natal, concebendo obras que tinham tudo a ver com o sentimento de uma agridoce contestação que predominava em sua obra.
“Procura Insaciável”, “Hair” e este “Um Estranho No Ninho” mostram, assim, uma progressão na qual ele avalia essa sua simpatia ao atrevimento ao mesmo tempo em que observava, de modo mais analítico, as engrenagens de poder que conduzem ao autoritarismo.
O micro-cosmos que serve à analogia de Milos Forman aqui é um hospital psiquiátrico onde os internos experimentam os mais diferenciados tipos de alienação social. Lá, tudo é controlado com rigor pela enfermeira-chefe (a intensa e introspectiva Louise Fletcher).
Até que um visitante, o instável McMurphy (interpretado com endiabrado entusiasmo por Jack Nicholson), questiona as normas vigentes por meio de seu comportamento indomável, e suas atitudes atrevidas. Isso inspira os outros pacientes a encontrar seu próprio inconformismo, ainda que por pouco tempo.
Não apenas Milos Forman e o grande Jack Nicholson estão inspirados neste trabalho: Há que se dar muito crédito a todo o restante do elenco (além de Louise Fletcher, lá estão Danny De Vito, Christopher Loyd e um jovem Brad Dourif), assim como ao fabuloso roteiro de Lawrence Hauben e Bo Goldman cuja verve encontra um tom inédito para ponderar sobre instituições, mecanismos de comando e, paralelamente, de rebeldia.
Uma formidável reunião de talentos, portanto, como volta e meia acontece no cinema, de um primor tal que foi agraciado com cinco Oscars principais em 1975.
E que encerramento magistral para a história é aquele, hein?