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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Gladiador II


 Diretor de prestígio, Ridley Scott, ao longo da carreira conseguiu emplacar exatamente dois filmes na almejada cerimônia do Oscar na categoria principal –foram eles, “Gladiador”, em 2001, e “Perdido Em Marte”, em 2016; “Falcão Negro em Perigo” não conta pois concorreu somente na categoria de Melhor Direção. Desses, o único a levar o prêmio foi o épico “Gladiador”. Essa talvez seja uma das justificativas para Scott, passados vinte e três anos depois, retomar a trama de um filme cujo desfecho era redondinho, tornando desnecessária qualquer continuação.

Embora saibamos muito do que se sucederá no filme bem antes da informação –fruto de uma era digital onde informações de bastidores, guinadas de roteiro e até detalhes da sinopse de um filme chegam ao público muito antes do filme propriamente dito –quando “Gladiador II” começa, pouca coisa do filme original em princípio nos é mostrada (salvo um breve resumo da trama nos créditos iniciais). Os elementos do aclamado filme original vão surgindo aos poucos, indicativos do diretor à moda antiga que Ridley Scott é –predicado que o torna a pessoa certa realmente para capitanear este tipo de épico.

O protagonista é Hanno (Paul Mescal, num esforço sobre-humano para igualar a imponência de Russell Crowe) que, ao começar o filme, encontramos na cidade de Numídia, no Norte da África, prestes a ser invadida pelo Império Romano. Com a cidade tomada –mérito das tropas sob o comando do General Acacius, vivido por Pedro Pascal –Hanno feito prisioneiro e sua esposa morta, todos os sobreviventes são levados à Roma, caindo nas mãos do negociante Macrinus (Denzel Washington, fantástico), fornecedor de gladiadores para a capital, Roma. O império, então governado pelos gêmeos Geta (Joseph Quinn, de “Um Lugar Silencioso-Dia Um”) e Caracalla (Fred Hechinger, da série “The White Lotus”) está longe do sonho de liberdade e igualdade almejado por Marco Aurélio no filme original: A ambição dos gêmeos sobrecarrega os exércitos na ânsia de conquistar mais e mais terras, o senado chafurda em corrupção e o povo, negligenciado, ganha como distração a violência do Coliseu para não provocar uma insurreição nas ruas.

Ladino e ávido nas maquinações políticas, Macrinus fareja as oportunidades de poder nesse cenário de inconstância e, mais que isso, identifica a capacidade para cativar a plateia como gladiador em Hanno. Ele compreende também, na mal disfarçada sofisticação de seus modos e nos indícios de uma apurada educação que podem haver segredos inesperados nas origens daquele prisioneiro raivoso. Errado não está: Hanno é, na verdade, Lucius  Verus Aurelius (que, no filme original, foi interpretado por Spencer Treat Clarke, de “Vidro”), filho de Lucilla (Connie Nielsen) e neto de Marco Aurélio, afastado de Roma pela própria mãe justamente pelo perigo que sua procedência real representava à sua vida. Mais que isso, numa manobra narrativa não tão original assim e que, pelo menos em “Gladiador”, sequer é mencionada (embora até faça algum sentido), é revelado que Lucius –ou Hanno, como queira –é, na realidade, filho de Maximus Decimus Meridius, o herói de guerra que sacrificou-se na arena do Coliseu em nome do sonho de Marco Aurélio, matando o então imperador Commodus.

Agora as coisas mudaram, embora nem tanto: Ainda governada por hedonistas inescrupulosos, Roma se encontra à beira de uma guerra civil, e o principal apoiador desse levante (ao menos, nas sombras) é o próprio Acacius que, agora, é casado com a própria Lucilla. Contudo, é nas artimanhas astuciosas de Macrinus que repousam as manobras que realmente fazem “Gladiador II” avançar –ele ganha fama e prestígio junto ao senado e aos imperadores graças ao surpreendente desempenho de seu novo gladiador Hanno –que curiosamente (veja só!) demonstra a mesma iniciativa e o mesmo carisma que Maximus demonstrou na arena, dezesseis anos antes –e vai escalando sua influência nas esferas mais altas do Império, visando o poderoso cargo de cônsul, enquanto promete para Hanno a única coisa que ele realmente deseja: A cabeça do General Acacius, que ele responsabiliza pela morte de sua esposa.

É muito provável que muito desse interessantíssimo arco narrativo do sensacional personagem de Denzel Washington tenha sido reaproveitado de ideias que Ridley Scott e os roteiristas puderam ter tido para o personagem de Oliver Reed no primeiro filme –Reed morreu de infarto durante as filmagens, faltando algumas semanas para terminar sua participação e é sabido, com isso, que a presença de seu personagem teve de ser improvisada (com modificações de roteiro e inserções de imagens digitalmente alteradas) , durante boa parte do último terço de filme.

Embora hajam mais personagens, e mais dinâmicas complexas a entrelaçá-los aqui do que no filme original, o roteiro de “Gladiador II” escrito por David Scarpa usa e abusa do fato de que todo o enredo estava estabelecido (e muito bem) já no primeiro filme, para em muitos aspectos ir direto ao ponto: São nas cenas de combate, predominantes a usar o Coliseu como palco, que todas as tramas e sub-tramas se desenrolam, entre elas, uma das primeiras, a cena da luta com o rinoceronte, incluída nesta continuação certamente por conta da lendária cena deletada do filme original em que haveria um rinoceronte também (essa cena deletada é um dos mais comentados easter-eggs da edição de colecionador do DVD de “Gladiador”) e a sequência onde uma batalha naval (!) é recriada em pleno Coliseu –ainda que o absurdo dessa reconstituição, com navios e a arena submersa em água, deixe dúvidas quanto à sua verossimilhança, esse tipo de batalha realmente foi encenada no Coliseu, reproduzindo o ambiente marítimo (!!).

Assim sendo, muito mais abertamente focado nesse senso de espetáculo (algo no qual Ridley Scott se tornou um especialista inquestionável), “Gladiador II” deixa um pouco de lado a relevância enquanto cinema e as reflexões de seriedade embutidas em seu filme original para se concentrar na satisfação comercial da plateia.

Resulta, com isso, numa obra envolvente, divertida e grandiosa, uma opção que certamente se revelava mais viável diante do desafio de dar continuidade à uma das mais reverenciadas produções cinematográficas do últimos trinta anos.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Mulher-Maravilha 1984


 O fato deste segundo filme da heroína da DC Comics ser radicalmente diferente, em proposta e atmosfera, à obra anterior parece ter gerado polêmica entre o público –uns adoraram; outros simplesmente repudiaram o resultado. A verdade é que, em tudo e por tudo, “Mulher Maravilha 1984” rema contra a corrente de austeridade apresentada no primeiro filme.

Se “Mulher Maravilha” era uma bem amarrada trama de origem (além de um satisfatório exemplar de qualidade a brotar em meio aos duvidosos títulos cinematográficos da DC), “1984” –ao menos, antes de seu lançamento –era visto como uma produção que poderia colocar nos trilhos a cronologia daquele universo de super-heróis: Recapitulando algo bastante confuso, já haviam os filmes solos do Superman, da Mulher-Maravilha, do Aquaman, do “Shazam!” e da Arlequina (o insano “Aves de Rapina”), além de “Batman Vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Liga da Justiça” –esses três últimos terrivelmente mal recebidos por público e crítica.

O sinal vermelho de fracasso comercial acendeu nos estúdios da Warner e algumas providências foram tomadas: Iniciou-se a produção de um novo filme do Batman, desta vez vivido por Robert Pattinson e não por Ben Affleck; James Gunn (de “Guardiões da Galáxia”, da Marvel) foi contratado para realizar o que parece ser um reboot de “Esquadrão Suicida”; e nesse ínterim, foi lançado (e aclamado) um filme do “Coringa” estrelado por Joaquim Phoenix (e não por Jared Leto, seu intérprete em “Esquadrão Suicida” e “Liga da Justiça”).

Foi durante essa indefinição que “WW 1984” foi realizado. E pelo fato do filme surgir em meio à essa incerteza quanto à cronologia canônica desse universo, aliado ao fato dele não se ambientar no presente, mas na década de 1980, muito se especulou que seria ele quem daria o pontapé inicial a uma reformulação na cronologia DC, apagando tudo o que deu errado e dando origem às novas linhas narrativas que seguiriam a partir daqui (como o novo Batman e o novo Esquadrão Suicida), o que gerou uma certa expectativa ao projeto.

E muita expectativa, como se sabe, não faz bem a um filme. Especialmente quando o que se entrega é uma obra que não corresponde, em nada, aos anseios de seu público.

Inciando, como o título já diz, em 1984 –esqueça qualquer referência à “1984 de Orwell” –o novo filme protagonizado por Gal Gadot (de longe, a melhor coisa do filme, léguas a frente de todo o resto) mostra Diana Prince vivendo em meio à humanidade com bastante discrição, buscando ocultar seus poderes prodigiosos e o fato de que ela é praticamente uma imortal.

Aqui e ali, Diana comete alguns atos de heroísmo enquanto ainda lamenta a morte de seu amado Steve Trevor (Chris Pine) ocorrida no filme anterior, na época da Primeira Guerra Mundial.

Surge então, no museu em que Diana trabalha –ao lado da desengonçada Dr. Minerva (Kristen Wiig) –uma pedra misteriosa imbuída do poder dos deuses, capaz de realizar qualquer desejo, cobrando um preço sempre traiçoeiro por tal pedido.

Para Diana, ela realiza o desejo de ter seu amado Steve de volta –levando-o a assumir o corpo de um desconhecido (!?) –para Minerva, ela atende ao pedido de tornar-se tão hábil, poderosa e forte quanto Diana; e para cada vontade realizada, há um porém: Diana, em troca de seu amor, vai perdendo seus poderes, Minerva, por sua vez, perde sua humanidade, convertendo-se cada vez mais na vilanesca Mulher Leopardo.

As coisas esquentam, porém, quando entra em cena Maxwell Lord (interpretado com destreza por Pedro Pascal) cujo desejo é, nada mais nada menos, ter os poderes da própria pedra! Ou seja: Ele é capaz de realizar os desejos de qualquer um, e definir o que vai deles tomar para benefício próprio. Cheio de lábia, Lord ainda consegue manipular as pessoas que encontra, levando-os a desejar aquilo que ele próprio almeja de antemão.

E nesse aspecto –nos antagonistas desenhados com propriedade –“WW 1984” encontra o único quesito no qual supera o filme anterior e sua insatisfatória caracterização do vilão Ares. Em tudo o mais, “1984” soa tão incrivelmente desleixado que parece até inacreditável que seja a mesma e competente Patty Jenkins a capitaneá-lo: Embora hajam diversos elementos interessantes que poderiam ter rendido um filme inteligente e vibrante –a forma como a premissa afunila suas problemáticas ao mostrar o caos quando todos têm seus desejos mais profundos realizados é um achado –a trama é contada com irrelevância, gastando um tempo desnecessário com sequências banais, como aquelas em que Steve Trevor tenta se inteirar do período futurista (para ele) em que acabou reencarnando.

Na verdade, eis o grande problema que Patty Jenkins adquiriu com este trabalho (e que ela precisa aprender a controlar em suas realizações futuras): Os vícios de linguagem por meio dos quais uma cena, ou um aspecto do roteiro, acaba ganhando demasiada e enervante elaboração, passando do ponto –em alguns momentos esse estilo que ela adotou (e que talvez tivesse a intenção de refletir a afetação da década de 1980) lembra muito os exageros de Michael Bay, cuja falta de noção e percepção entre momentos de clímax e baixa voltagem representa uma das maiores auto-sabotagens em sua obra.

“WW 1984” poderia ser relevante, emocionante e festivo, mas ao invés disso, é acomodado, cansativo e insosso. Graças a Deus que Gal Gadot está lá para com seu encanto fora do comum disfarçar boa parte desses imbróglios.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Violação de Conduta

Tão bons atores eles são que esquecemos o fato de John Travolta e Samuel L. Jackson terem antes dividido a cena no altamente consagrado “Pulp Fiction-Tempo de Violência”, de Quentin Tarantino, inclusive também porque eram personagens completamente diferentes dos que eles vivem aqui, neste suspense particularmente eficiente e atrativamente enigmático do diretor John McTiernam. Ainda que os dois astros quase não dividam a cena juntos.
Samuel L. Jackson vive o Sargento West, um treinador linha-dura numa base norte-americana do Panamá –ambiente peculiar introduzido no prólogo da narrativa ao som irônico do “Bolero de Ravel”.
West parte com seis recrutas armados de munição real para um exercício militar debaixo de uma forte chuva torrencial na tarde do dia 1º de novembro.
No dia 2 de novembro, cerca de dezessete horas depois, algo terrível acontece e a capitã Osborne (Connie Nielsen) é designada para elucidar o caso: Durante o resgate de helicóptero dos soldados, apenas dois deles voltaram vivos –um alvejado a tiros, o outro ainda tendo conseguido matar um terceiro com o qual trocava tiros! –e o Sgt. West foi morto.
Como, ainda ninguém sabe.
O Coronel Styles (Tim Daily, de “O Ano do Cometa”), antes que o caso extremamente complicado escape de suas mãos, requisita a ajuda de um ex-integrante da mesma base –e que teve, também ele, instruções com o severo West –o melhor interrogador que ele já conheceu: O atual agente do DEA, o Departamente Anti-Drogas dos EUA, Tom Hardy (John Travolta).
As circunstâncias são desfavoráveis, a tarefa que ele e Osborne precisam executar é árdua e extraoficial, e as testemunhas sobreviventes, os recrutas Dunbar (Brian Van Holt, de “Falcão Negro em Perigo” e “Livre”) e Kendall (Giovanni Ribisi, de “O Resgate do Soldado Ryan” e “Encontros e Desencontros”), aquele que foi alvejado, não colaboram.
Pior que isso: Quando o talento verdadeiramente prodigioso de Hardy para extrair de seus interrogados a verdade finalmente os leva a falar, seus depoimentos são incompatíveis, revelando versões completamente distintas da mesma ocasião –num lance onde o roteiro de James Vanderbilt aproveita para evocar com modernismos de filme de ação as facetas dúbias da narrativa subjetiva proposta em “Rashomon”, do mestre Akira Kurosawa.
West partiu para a selva com seis recrutas –além de Dunbar e Kendall, haviam Pike (Taye Diggs, de “Chicago”), a única mulher Nunez (Roselyn Sánchez, quase uma duplicata de Sandra Bullock), Castro (Cristián de La Fuente) e Mueller (Dash Mihok, de “O Sono da Morte” e “Além da Linha Vermelha”) –em algum momento, quando o exercício é comprometido pela transformação da tempestade em um furacão, o grupo testemunha uma explosão, provavelmente deflagrada pela granada de um deles. O Sgt. West aparece morto, e enquanto se refugiam numa casamata, os seis, segundo os relatos, lidam de diferentes formas com o corrido: Para Dunbar, o culpado era Pike, o mais maltratado pelo Sgt. West dos recrutas, e o que tinha mais motivos para matá-lo.
Para Kendall, o culpado foi o próprio Dunbar –que em sua versão surge taciturno e implacável.
Paralelo a esses flashbacks, os interrogadores, Hardy e Osborne tentam usar de diferentes estratégias e de certa malandragem (característica que John Travolta sempre soube expressar muito bem em seus personagens) para tentar descobrir a verdade por trás de tudo isso –o que pode acabar esbarrando em atividades ilícitas que vão muito além de uma mera vingança em campo aberto e podem comprometer alguns figurões da base militar.
Já foi dito que o diretor John McTiernam é brilhante quando ele tem todos os elementos a seu favor –um roteiro bem esculpido, um elenco capaz e inspirado, um orçamento condizente com os recursos exigidos pela história –e aqui ele dá uma bela prova desse argumento. O roteiro de Vanderbilt frequentemente abusa de suas guinadas e reviravoltas pontuais, mas o diretor harmoniza a narrativa tornando-a urgente e febril tanto nos aflitivos momentos na selva (onde o trabalho de câmera lembra o mesmo resultado obtido por McTiernam em “O Predador”, só que à noite e sob chuva) quanto nos tensos embates verbais durante os sucessivos interrogatórios.
O filme exige certa boa vontade do expectador no seu desfecho quando se sai com uma reviravolta derradeira tão mirabolante que quase soa implausível, entretanto, tal manobra corresponde à nota de ironia com a qual McTiernam começou e com a qual também quer terminar este seu entusiasmado conto investigativo de múltiplos pontos de vista; e também ela, veja só, vem ao som de “Bolero de Ravel”.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

Dentre os intérpretes escolhidos para dar vida aos personagens heróicos da DC Comics, Gal Gadot mostrou-se com folga, a mais perfeita.
Melhor que Henry Cavill como Superman e melhor que Ben Affleck como Batman, ela já conseguiu mostrar a que veio numa aparição de uns dez minutos, porém arrasadora, como Mulher-Maravilha em “Batman Vs Superman”.
De lá pra cá, após os críticos torcerem o nariz para o logo posterior “Esquadrão Suicida”, o filme solo de sua personagem tornou-se a grande esperança para que o universo de heróis da DC Comics, transposto dos quadrinhos para o cinema a exemplo do Universo Marvel, viesse a dar certo.
Mais do que isso: Falou-se, e muito (na maioria das vezes, com receio da parte dos estúdios) a respeito desta ser a primeira produção estrelada por uma heroína –e, de quebra, também ela, dirigida por uma mulher, no caso, Patty Jenkins, de “Monster-Desejo Assassino”.
Foi um passo tão duro e hesitante de ser dado pela cultura pop, mas quando foi feito –agora, com o lançamento de “Mulher-Maravilha” –revelou-se então certeiro, necessário e, muito provavelmente, determinante dos rumos que não só a DC Comics seguirá daqui por diante, mas, da postura da própria indústria: “Mulher-Maravilha” funciona brilhantemente, revelando-se tão ou mais sensacional do que se tivesse um homem à frente ou atrás das câmeras.
A Mulher-Maravilha de Gal Gadot já tinha se mostrado a melhor coisa em “Batman Vs Superman” –e, é bem possível que venha a ser a melhor coisa no ainda vindouro “Liga da Justiça” –levando a crer que seu filme solo seria magnífico.
Ela não fez por menos: Como protagonista, Gal Gadot confirma o magnetismo singular que demonstrou naqueles inebriantes minutos no outro filme, mostra-se habilmente capaz de abranger, com todo o talento necessário a uma atriz, o arco dramático objetivo, criterioso e eficaz dado aqui a sua personagem, e ostenta, nas cenas de ação, uma mistura nunca menos que apaixonante de graça, beleza, energia e força cinética.
Em outras palavras: Perfeita no papel.
A sutileza embutida em sua atuação já se percebe desde o começo, quando ela é mostrada despida da seriedade e da desilusão para com o mundo que se podia ver em seu semblante no filme anterior (que, é bom lembrar, passa-se, depois desta história). Quando começamos a acompanhar o início de sua jornada, por volta de 1918 –período, portanto da Primeira Guerra Mundial –Diana é uma jovem ávida pela oportunidade de se provar ao mundo e dele fazer um lugar melhor, ainda que o registro da atriz e a condução da diretora nunca a deixem cair em qualquer clichê possível.
A ilha de Themyscira, onde ela vive isolada e protegida do mundo junto com todas as outras amazonas, recebe então um inesperado visitante: O Capitão Steve Trevor (Chris Pine, um austero e generoso coadjuvante), espião do exército inglês, fugindo dos inimigos alemães.
A guerra –“para acabar com todas as guerras” como ele diz –chega então a Themyscira, o quê obriga Diana a tomar uma decisão: Partir para o mundo dos homens ao lado de Trevor, tentar por um fim ao conflito insano que coloca os homens uns contra os outros e, à propósito, confrontar o deus da guerra, Ares, que, em sua pureza e ingenuidade, Diana tem certeza ser o responsável pela selvageria que consome os homens.
O processo de descoberta de Diana –do mundo injusto e, não raro, incompreensível dos homens e do dever que cabe a si própria –é a grande jornada elaborada aqui por Patty Jenkins, e ela, em momento algum, foge desse princípio: Tudo em seu filme, vilões, cenas íntimas e grandiosas, personagens maiores e menores, manobras de roteiro, cenas de ação e efeitos especiais, menções e situações, tudo está a serviço dessa história e da possibilidade de engrandecê-la e à sua radiante protagonista.
Numa época tão incrivelmente tomada por heróis mundanos, anti-heróis plenos de cinismo e a insistente ênfase nas características defeituosas de seus protagonistas –algumas delas,  ilustradas pela própria DC Comics em seus filmes anteriores –“Mulher-Maravilha” vem para restaurar os valores como eles deveriam ser; tão absurdamente pertinente se faz essa narrativa de Patty Jenkins que nem mesmo a pecha de “à moda antiga” cabe em seu filme: Ele é sim, poderosamente atual,moralmente necessário e profundamente emocional.
Um misto de eficácia narrativa, brilhantismo cinematográfico (artístico, inclusive) com a escolha certeira de uma protagonista tão cativante, forte e hipnótica que não se via no cinema desde... oras, desde “Superman-O Filme”, com Christopher Reeve!
Vai se tornar um chavão, mas “Mulher-Maravilha” é o filme que parece finalmente colocar o Universo Cinematográfica da DC nos trilhos. E é a pura verdade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Advogado do Diabo

“Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula.”
É deliciosamente sarcástica a forma como o diabo, interpretado enfaticamente por Al Pacino, ironiza e desdenha as supostas regras criadas por Deus e impostas ao homem.
Essa auto-consciência divertida presente em sua caricata interpretação –a despeito da seriedade ostentada por todos os outros atores –é o salva-vidas ao qual o expectador deve se agarrar no objetivo de melhor aproveitar o interessante filme do diretor Taylor Hackford, um misto quase conceitual, ainda que cheio de charme e elementos interessantes, de “O Bebê de Rosemary” com “Wall Street-Poder e Cobiça”.
Da obra de Polanski, o diretor extrai o equilíbrio curioso obtido da junção entre um clima francamente tétrico de filme de terror com um senso de humor perverso, inerente à narrativa. Da obra de Oliver Stone, ele tira sua ambientação (ainda que estejamos falando, aqui, de advocacia e não de executivos empresariais), com homens de terno para todos os lados; tira também a percepção de luxo e requinte que seduz os incautos e, sobretudo, a figura soberana e incontornavelmente corruptível elevada às raias literais da perniciosidade.
Há, nele também uma característica com a qual muitos filmes comerciais dos anos 1990 trabalhavam seu apelo popular: A união, em cena, de um ator consagrado com um jovem astro promissor.
O jovem promissor em questão é Keanu Reeves (recém-saído do sucesso “Velocidade Máxima”, mas ainda alguns anos antes de “Matrix”) cujo registro titubeante e engajado da perplexidade ajuda na composição de seu personagem, um advogado ambicioso contratado por importante firma nova-iorquina, após inocentar, contra todas as previsões, um réu acusado de pedofilia.
O chefe de tal firma (Pacino, que une graça e supremacia numa quase paródia do Gordon Gekko de Michael Douglas em “Wall Street”), poderosíssimo e cheio de segundas intenções, acompanha atenciosamente a ascensão de seu novo advogado que, ingênuo, ignora o fato de estar trabalhando para o capeta em pessoa.
Esse misto curioso de terror e filme de advocacia, que felizmente parece jamais se levar a sério, guarda ainda vestígios pertinentes da visão cristã do diretor Hackford sobre as pulsões humanas e seus sete pecados capitais transfigurados em cenas particulares: Há sobretudo a cobiça (quando o protagonista negligencia a própria esposa –uma jovem Charlize Theron, linda, frágil e angelical –em prol de um caso), a luxuria (materalizada especialmente nas curvas de uma espetacularmente sexy Connie Nielsen –que tem até cenas de nudez!), a vaidade (representada pelo golpe final do capeta, na última e emblemática cena), a ira (uma enérgica participação do sumido Graig Nelson, que fez “Poltergeist-O Fenômeno”, no papel de um cliente nem um pouco inocente) e outros.
Talvez o produtor, Arnold Coppelson não estivesse totalmente livre dessa obsessão tendo ele produzido a obra-prima “Seven-Os Sete Crimes Capitais” alguns anos antes para o diretor David Fincher.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Gladiador

Em face do clássico moderno (e atemporal) que este brilhante trabalho do diretor Ridley Scott se transformou, é um pouco difícil enxergar, hoje, um de seus mais notáveis méritos.
Em meados do ano 2000, era algo muito improvável ver passando nas telas de cinema um épico sobre a Roma Antiga, especialmente materializado pelos arrojados recursos de efeitos visuais da atualidade.
Já faziam décadas desde os últimos exemplares de tal gênero, outrora tão popular na Antiga Hollywood –sendo, talvez, o épico “Spartacus”, de Stanley Kubrick, o últimos de seus grandes exemplares.
Coube ao gênio criativo e à incisiva concepção estética de Scott a tarefa de recriar todo esse gênero nesta superprodução cheia de personalidade e fôlego.
Durante o império romano, Marco Aurélio (Richard Harris), o imperador, declara a seu filho e sucessor Commodus (Joaquim Phoenix) sua intenção de passar  seus poderes de comando a seu primeiro general Maximus (Russell Crowe), dando os primeiros passos em direção à dissolução do império e à restauração da república. Mas Commodus, ambicioso, assassina o próprio pai e assume seu império, fazendo com que Maximus após quase ser morto, tenha que fugir como escravo. Vendido a Proximo, um treinador de gladiadores (Oliver Reed, falecido durante as filmagens), Maximus aos poucos arquiteta seu retorno a Roma, como mais um dos gladiadores a entreter a plebe nas areias do Coliseu. Nada o impedirá de vingar-se de Commodus, e fazer justiça a Marco Aurélio.
Tão sensacional em sua audácia técnica quanto o foi “Blade Runner”, nos anos 1980, “Gladiador” representa um marco sem igual na carreira de Ridley Scott –o diretor cujo trabalho de maior expressão havia sido o premiado “Thelma & Louise”, num longínquo 1991, vinha de um período periclitante, onde contava quase uma década sem entregar um grande trabalho.

Com “Gladiador” ele provou que, ao contrário do que alguns detratores alardeavam, seu ímpeto narrativo tinha muito ainda a oferecer ao cinema: Este épico majestoso, empolgante e formidável foi o primeiro exemplar de uma nova fase magnífica, talvez a melhor de sua carreira, onde Scott entregou sucessivos trabalhos que , se não eram todos completamente espetaculares, pelo menos muitos deles vinha providos de ocasional brilhantismo e excelência, como “Falcão Negro em Perigo”, “Cruzada”, “O Gângster”, “Perdido Em Marte” e outros.