Mostrando postagens com marcador Christian Slatter. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Christian Slatter. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de outubro de 2023

Bobby


 Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2006 –tendo perdido para “Babel” de Alejandro Gonzáles Iñarritu –“Bobby” é uma obra que reúne um elenco numeroso e respeitável, todos esses atores e atrizes dando vida a personagens periféricos em torno da figura maior, sobre a qual pairam as maiores reflexões que este trabalho almeja suscitar: O então candidato à presidência dos EUA, Bobby Kennedy, irmão do mesmo John F. Kennedy, morto à tiros em Dallas cinco anos antes, que, naqueles idos de 1968, era uma esperança para a América –os EUA começavam a enxergar com contestação a Guerra do Vietnam, e os conflitos raciais (o assassinato de Martin Luther King havia sido recente) geravam turbulência em todos os cantos do país. Idealista, jovem e carismático –e representante de uma estirpe política vista com ingênua adoração pelo povo americano –Bobby era um raro caso onde tinha a seu favor a simpatia de todas as classes sociais norte-americanas. Seus discursos enalteciam a união do povo, sua verve era inteligente, polida e esperançosa. Bobby, em suma, era a última esperança para os EUA que adentravam o período mais conturbado de sua História recente.

Todavia, Bobby Kennedy foi alvejado à tiros –um exemplo macabro que parecia repercutir, de alguma forma, a tragédia de seu irmão –ao sair de um discurso, em plena cozinha do Hotel Ambassador, onde foi para comemorar a vitória de sua candidatura para presidente, em eleições a serem disputadas contra Richard Nixon no ano seguinte. O filme surpreendentemente dirigido pelo ator Emilio Estevez (cujo pai, Martin Sheen, também se encontra no filme) não cede à tentação de escalar um ator para interpretar Bobby e converter este num recorte de suas últimas horas –ao invés disso, “Bobby” usa da tragédia notória deflagrada em seu cerne para observar os seres humanos que orbitavam Bobby  naquele momento, e quais teriam sido suas expectativas, e de que maneira seus futuros foram arremessados num turbilhão de perplexidade que, à sua maneira, resumiu o subconsciente norte-americano nas décadas seguintes.

A começar a trama naquele 6 de junho de 1968, temos o gerente do hotel, Paul (William H. Macy) ocupado em administrar todos os afazeres dos inúmeros funcionários para a recepção das comemorações do Partido Democrata, o que inclui a apresentação da cantora Virginia Fallon (Demi Moore) que traz à tira-colo seu marido Tim (o próprio diretor Emilio Estevez) e todos os problemas que seu alcoolismo vem acarretando ao seu casamento. De outro lado, há o porteiro John Casey (Anthony Hopkins), viúvo e aposentado, cuja solidão o leva a enxergar o Ambassador como seu segundo lar. Ele tem a ocasional companhia do igualmente desiludido e solitário Nelson (Harry Belafonte, de “O Diabo, A Carne e O Mundo”), junto de quem tece intermináveis conversas sobre o avanço da idade regadas à muito uísque. No staff de funcionários do Ambassador, o filme concebe um pequeno microcosmos da América: Na cozinha, regida pelo insensível Timmons (Christian Slater), o jovem imigrante José (Freddy Rodriguez, de “Garotas Sem Rumo”) se ressente da folga que lhe foi negada naquela noite, embora encontre relativo alento na serenidade contagiante do cozinheiro-chefe, Edward (Laurence Fishburne, extraordinário). No salão de beleza do lugar, a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) tem de se desdobrar enquanto atende os caprichos de Virginia Fallon ao mesmo tempo em que prepara a jovem noiva Diane (Lindsay Lohan), disposta a casar com o jovem William (Elijah Wood) para livrá-lo do compromisso com o exército, e ainda descobre um inesperado adultério de seu marido –o gerente Paul, à propósito –com uma das telefonistas do hotel (Heather Graham). Entre os hóspedes, o casal Jack (Martin Sheen) e Samantha (Helen Hunt) se vê às voltas com a compulsão de compras (dela) e um resíduo de depressão (dele) enquanto lidam com as expectativas ao seu redor. E, em meio às deliberações do Partido Democrata, cujos delegados se encontram no hotel, os jovens estagiários Jimmy (Shia LaBeouf) e Cooper (Brian Geraghty) escapam de suas responsabilidades para descobrir os efeitos do LSD junto do fornecedor de drogas local (uma ponta de Ashton Kutcher).

O roteiro, escrito pelo próprio Emilio Estevez, une personagens reais e (muitos) fictícios para elaborar uma espécie de afresco que ganharia muito mais propriedade nas mãos de um diretor como Robert Altman –na verdade, parece ser o trabalho e o estilo dele que, em muitos momentos, “Bobby” busca emular, sem no entanto escapar de uma ligeira superficialidade. Felizmente, Emilio Estevez soube escolher realmente um elenco primoroso para honrar seus vários personagens (os embates interpretativos entre Sharon Stone e Demi Moore e entre Anthony Hopkins e Harry Belafonte são particular sensacionais de se assistir) e sua mescla de trama real com ficção dramatúrgica –bem como as emendas documentais com o filme propriamente dito –são executadas com primor e profissionalismo inquestionáveis.

São acertos assim que tornam “Bobby” um filme válido, e ampliam de fato a percepção dramática presente na reflexão em torno da tragédia que se sucede no desfecho –já com um considerável distanciamento de tempo em relação aos eventos traumáticos para o povo americano que reconstitui, o filme de Emilio Estevez vislumbra, sem muito ratificar, as possibilidades perdidas, os sonhos devastados e a esperanças à mingua que acontecimentos como aquele legaram ao país. No final, sua pouca inclinação ao sutil acaba tem um saldo positivo: Apesar dos pesares, não é um filme que confronta o expectador com a desesperança e a tristeza inerentes à sua época.

Se fosse Robert Altman, o papo seria outro.

sábado, 18 de julho de 2020

Amor À Queima-Roupa

“True Romance” é aquele tipo de filme que conquistou com honras o direito de ser chamado cult movie: Reúne características intrínsecas do cinema (e de toda cultura pop, por que não) realizado nos anos 1990 (e, com isso, evoca também algo dos anos 1980...), traz uma sucessão de maravilhosos achados em suas sequências, em sua trama e em seu elenco, reúne duas forças criativas atrás das câmeras que numa primeira impressão parecem incompatíveis (o aqui roteirista Quentin Tarantino e o diretor Tony Scott) e, além de saboroso e envolvente consegue, com frequência, ser memorável.
Em meados de 1993, Tarantino ainda estava prestes a se sagrar como um dos grandes abalos sísmicos do cinema; embora “Cães de Aluguel” já estivesse causando burburinho, “Pulp Fiction” só seria lançado no ano seguinte, e a fama de Tarantino, em Hollywood, corria mais como a de um roteirista tremendamente descolado e talentoso –muito se falava de seu controverso roteiro para “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone.
Foi então que o diretor Tony Scott, um artesão que sempre cultivou o hábito de oscilar entre o cinema indiscutivelmente comercial de estúdio (“Top Gun”) e as audazes experimentações possibilitadas por um cinema mais autoral (“Fome de Viver”), resolveu dirigir um roteiro que Tarantino havia escrito na época em que ainda trabalhava de balconista numa videolocadora e nele derramou todo seu apreço por filmes de gangster, linguagem cinematográfico, referências culturais, diálogos afiados e altas doses de violência urbana.
Sua trama é algo formidável que se constrói alimentada por clichês (eu diria até por improbabilidades típicas da ficção!), mas cuja esperta percepção do roteirista consegue enxergar os meandros por meio dos quais esses clichês podem ajudar a trama, bem como o momento de subvertê-los para que não a prejudiquem.
Tomemos por exemplo o início, onde vemos o protagonista, Clarence Worley (Christian Slater) num cinema furreca vendo filmes de Sonny Chiba –uma lenda com quem Tarantino trabalhou em “Kill Bill” –e é subitamente abordado pela linda e maravilhosa Alabama (Patricia Arquette, um espetáculo!). Tudo soa tão improvável quanto um garoto que imagina uma fantasia erótica e o roteiro de Tarantino faz disso a grande brincadeira no ponto de partida: Ela (deliciosa que só) puxa conversa. Os dois descobrem afinidades. Resolvem sair juntos para um lanchonete. E logo estão na cama para os finalmentes (!).
Aí então que, acometida de uma espécie de pesar de consciência, Alabama confessa a Clarence que é garota de programa (!) e que foi paga por amigos seus para lhe proporcionar uma noite dos sonhos. Entretanto, agora, Alabama e Clarence estão apaixonados.
E seu amor é, por assim dizer, o estopim que coloca fogo no filme inteiro!
Instigado pelo espírito de Elvis Presley, com quem volta e meia conversa (uma ponta algo ostensiva de Val Kilmer, cujo rosto nunca aparece diretamente), o quê já indica que não é lá muito bom da cabeça, Clarence vai até o cafetão de Alabama para negociar a saída dela daquela vida. Tal cafetão (uma ponta efusiva e eletrizante de Gary Oldman), envolvido até o pescoço com crime e tráfico de drogas, não recebe a notícia com passividade e tudo descamba para a violência, que termina com Clarence fazendo uma chacina no lugar.
A surpresa fica por conta dele, sem querer, levar para casa um mala cheia de cocaína (ao invés de uma mala com as roupas dela!), justamente o que estavam ali negociando.
Clarence e Alabama têm assim um plano: Partir da cinzenta Detroit onde estão para a radiante Los Angeles e lá vender a droga que lhes caiu em cima do colo para com ela financiar sua lua-de-mel e, se possível, viver de brisa para o resto da vida.
Contudo, Clarence não contava com o fato do gangster dono da droga (Christopher Walken) estar em seu encalço e num breve diálogo com seu pai (Dennis Hopper) acabar descobrindo seu paradeiro –a cena do diálogo entre Walken e Hopper é um daqueles momentos antológicos que somente o cinema consegue entregar, graças à atores em ponto de bala como os dois que duelam aqui.
Em Los Angeles, Clarence entra em contato com o amigo Dick Ritchie (Michael Rapaport, de “Poderosa Afrodite”), cujo apartamento ele divide com o maconheiro Floyd (Brad Pitt; já deu para perceber o elenco absurdamente estelar que foi reunido para este filme, não?!).
Dick consegue negociar a droga em posse de Clarence com um figurão de Hollywood (vivido por Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”), mas, então tudo começa a dar tremendamente errado: Os mafiosos (encabeçados por James Gandolfini e por Victor Argo) chegam à cidade atrás deles; o próprio contato de Dick acaba sendo preso, e entrega para dois policiais (interpretados por Chris Penn, de “Os Chefões” e Tom Sizemore, de “Falcão Negro Em Perigo”) a hora e o local da transação e todos eles –bandidos violentos e vingativos, policiais truculentos e sem noção –se encontram debaixo do mesmo e instável teto, quando Clarence e Alabama tentam vender a mala de drogas, naquele que é um dos desfechos mais apoteóticos do cinema nos anos 1990.
Há fortes momentos que registram o estilo publicitário do diretor Tony Scott em ação (a iluminação estourada na luz difusa; os enquadramentos refinados; o tratamento dramático, quase lírico, dado às cenas), contudo, tão marcante é a personalidade de Quentin Tarantino e seu gosto apurado de cinema que, apesar da função de roteirista, é seu estilo que acaba pesando muito mais em “True Romance”: A verborragia inteligente e minimalista nos diálogos, as guinadas irônicas e auto-conscientes da trama, os embates físicos que fazem referências, ora a Sam Peckinpah (a cena em que Patricia Arquette é atacada por James Gandolfini no motel), ora à John Woo (certamente o grande homenageado no tiroteio final), e a habilidade singular para amarrar todos esses elementos aparentemente tão improváveis e inusitados num todo harmonioso, equilibrado e eficaz.
E, neste caso em questão, vibrante como pouquíssimos filmes da década de 1990 foram capaz de ser.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Conspiração

Numa comparação que não chega a dizer muita coisa, o ex-crítico de cinema Rob Lurie estréia auspiciosamente na direção tal e qual muitos críticos do ‘Cariers de Cinema’ –Jean Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette –o fizeram nos anos 1960, originando a nouvelle vague francesa.
As orientações de Lurie, contudo, são muito diferentes do que essa analogia leva a supor: Seu filme é um raro espécime dos thrillers políticos, obras que se dedicam à reconstituição de intrigas de gabinete, plenos de verborragia, vocabulário pouco usual e detalhes que ao mesmo tempo soam elitistas ao público e parecem sugerir todo um clima dentro da proposta.
Após um estranho imbróglio seguido de um atentado, o Vice-Presidente dos EUA, tirado de ação é substituído.
O próprio Presidente (Jeff Bridges) indica seu favorito ao cargo: Uma séria e competente senadora (a formidável Joan Allen repetindo a parceria em cena com Bridges e com o coadjuvante Christian Slater depois de “Tucker-Um Homem e Seu Sonho”, nos anos 1980).
Mas, às vésperas da posse ocorrer com tranquilidade, surge um escândalo envolvendo a senadora num sex-tape durante sua juventude, o que é declarado aos quatro ventos por um ardiloso senador (Gary Oldman), particularmente interessado em desacreditá-la e minar a decisão do Presidente.
A batalha jurídica que se segue envolve liberdade de expressão, direitos individuais do cidadão, feminismo e integridade.
Se termina aparentando firme indiferença quanto ao desinteresse que seu tema excessivamente político pode gerar, se demonstra inquietação quanto ao desenvolvimento de sua premissa, e na chance de que o conceito moral em torno do qual trabalha possa despertar certo tédio no expectador, o diretor Lurie compensa essas intransigências com atores extraordinários dirigidos com excelência (em especial Joan Allen) e uma condução sempre absorvente que, embora se desdobre em cenas de paladar desafiador, nunca deixa de soar notável.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Tucker - Um Homem e Seu Sonho

Em meados dos anos 1980, o diretor Francis Ford Coppola deixou-se fascinar pela trajetória de Preston Tucker, o criador do Tucker Torpedo, um automóvel que, nos anos 1940, ostentava inovações técnicas tão a frente de seu tempo que encontrou diversos empecilhos circunstanciais que, por anos, impediram seu criador de ser reconhecido por seus méritos.
Coppola certamente enxergou ali um reflexo de si mesmo: O artista sem saber o que fazer diante do resultado fenomenal (e frequentemente incompreendido) de sua própria criação.
O diretor vinha de uma década de 1970 onde entregou “O Poderoso Chefão Parte I e Parte II” e “Apocalypse Now”, obras que provocaram um abalo sísmico no panorama no cinema mundial –e permanecem influentes até hoje –mas, viu-se um tanto quanto intimidado, ao adentrar a década de 1980, com a pressão de manter o mesmo nível altíssimo de qualidade criativa.
Sua ideia para o filme –que já datava dos anos 1970 –envolvia experimentalismos narrativos e até mesmo a possibilidade de realizar um musical (obsessão que Coppola saciou com “O Fundo do Coração”), no entanto, muitas dessas aspirações foram por terra quando o estúdio de Coppola, a American Zoetrope, faliu.
Retomado em 1988 graças à colaboração do amigo (e, aqui, produtor) George Lucas, o projeto adquiriu assim uma nova orientação –se antes (leia-se com sua própria produtora) Coppola podia conceber a maluquice cinematográfica que tivesse em mente, agora as coisas eram diferentes. “Tucker” migrou, de uma realização cheia de liberdades poéticas e expedientes inovadores para um trabalho financiado, com necessidade prática de se fazer comercial e, portanto, assolado por algum convencionalismo.
Preston Tucker é, assim, vivido por Jeff Bridges com uma série magistral de trejeitos planejados, e nas mãos dele, acaba sendo um protagonista cujo ímpeto de invenção lhe parece irreprimível.
Após um prólogo de virtuoso fôlego narrativo –onde Coppola imula elementos do marketing da época –ao contar a juventude de Tucker, onde seu espírito inventivo de inovação não passava despercebido, acompanhamos o personagem principal a partir dos anos 1940, quando a ideia de um automóvel inovador lhe ocorre; “O carro do futuro!” como ele costumava dizer.
Contudo, o pioneirismo é uma faca de dois gumes e a mesma característica que fazia o projeto de Tucker ser tão a frente de seu tempo também assustava seus financiadores, representados, de um modo geral, pelo pessimista Abe Karatz (Martin Landau).
A saída também lhe é peculiar: Tucker coloca um anúncio numa revista e, diante da enorme procura pelo automóvel ali divulgado, os financiadores resolvem investir em sua ideia.
Mas, como ele e Karatz descobrem mais a frente, fabricar um carro –ou toda uma linha de carros –não é tarefa simples. E, por mais irônico que possa parecer, tal dificuldade não diz respeito à logística complicada do desenho de produção, nem ao dinheiro necessário à demanda ou mesmo à disponibilidade da matéria-prima principal, o aço –questão resolvida com a inesperada intervenção do excêntrico e lendário Howard Hugues (Dean Stockwell, inspirado) –a maior dificuldade corresponde aos empecilhos em todos os campos possíveis (técnicos, judiciais e até políticos) plantados pelas três grandes produtoras de automóveis da época (a Ford, a Crysler e a General Motors, jamais diretamente mencionadas), para que o carro de Tucker não visse a luz do dia –ou, em última instância, para que seu criador tivesse tão pouca credibilidade junto à opinião pública que seus carros, verdadeiramente fabricados, não chegassem ao conhecimento do povo americano.
A verdade era que o carro de Tucker era simplesmente bom demais para as “Três Grandes” permitirem sua criação.
Acusado de fraude e de um sem fim de outros delitos, Tucker vai ao tribunal –no julgamento que ocupa os últimos vinte minutos de filme –basicamente incriminado de apropriar-se de dinheiro público e não construir carro algum com ele. Detalhe: Os cinquenta perfeitos exemplares do Tucker Torpedo que sua fábrica conseguiu produzir (antes de ser confiscada pelo governo para produzir casas pré-fabricadas) estavam estacionados do lado de fora do tribunal; bastava que qualquer um fosse até a janela para olhá-los e comprovar sua existência.
Nem isso o promotor e o juiz quiseram permitir (!).
Narrado num envolvente ritmo de jazz, e decupado numa execução primorosa e diferenciada de iluminação, “Tucker” não é uma obra maiúscula como aquelas pelas quais Coppola é reconhecido, mas é um trabalho de um diretor visionário, espirituoso para com as engrenagens que impulsionam a realização cinematográfica, fluido, bonito e agradável.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

A Lenda de Billie Jean

Pela sua maleabilidade moral, pelos estatutos ainda indefinidos sobre direitos juvenis e pela atitude politicamente incorreta de algumas produções do período, a década de 1980 foi uma época perfeita para o surgimento de alguns justiceiros adolescentes na ficção; embora o cinema já tivesse experimentado anteriormente, de forma magnífica, com essa ideia em “Bonnie & Clyde”, de Arthur Penn, e “Terra de Ninguém”, de Terence Malick.
É à esses títulos que se une, com bem menos ambição, o descontraído “A Lenda de Billie Jean”.
Moradores de um trailer numa cidade do centro-sul americano, a personagem-título Billie Jean e seu irmão mais novo Binx (interpretados pelos irmãos na vida real Helen e Christian Slater) se envolvem numa confusão que galga para um caso policial que compromete a segurança dos dois jovens: Num inocente passeio ao lago, eles são importunados pelos valentões locais. Binx tem sua lambreta roubada e, mais tarde, devolvida em cacos.
Billie Jean –que chegou a recorrer à polícia em vão ao denunciá-los ao Tenente Ringwald (Peter Coyote) –procura pelo pai de um dos jovens, o negociante Sr. Pyatt (Richard Bradford), desejosa de justiça e de que sejam ressarcidos os 608 dólares do conserto da lambreta.
Porém, tudo o que a jovem consegue é sofrer uma tentativa de estupro, interrompida pelo seu irmão que, sem querer, acerta um tiro no ombro do Sr. Pyatt.
Está, portanto, armada a confusão. Acusados de roubo e tentativa de homicídio pelos vilões de fato, e perseguidos pela polícia (os agentes da Lei, neste filme estão entre os mais obtusos e palermas do cinema!), Billie Jean e Binx unem-se às amigas Ophelia (Martha Gehman) e Putter (Yeardley Smith) para juntos fugirem pelas estradas.
Quase alheio à esses jovens, no entanto, surge um culto em torno de Billie Jean e sua gangue: Em grande parte incitado pela ganância do próprio Sr. Pyatt, que passa a vender fotos, camisetas e toda sorte de produtos relacionados à Billie Jean, ela passa a ser reconhecida como uma ‘Robin Hood’ moderna, a quem passam a ser atrelados crimes que ela nem mesmo cometeu –e apesar da fama crescente de fora-da-lei e da insistência de uma imagem publicitária onde exibe uma pistola, a protagonista não empunha uma arma em nenhum momento do filme.
Um pertinente olhar sobre a ainda perene idolatria aos marginalizados e perseguidos que vez ou outra comove a mídia (ainda que travestido de saborosa aventura juvenil), “A Lenda de Billie Jean” funciona até os dias de hoje pela postura perspicaz que adota diante da própria premissa. Nesse sentido, é particularmente notável a cena em que Billie Jean, após assistir ao filme “Joana D’Arc” (aquele com Ingrid Bergman) e identificar-se plenamente com as circunstâncias de sua heroína, decide cortar suas longas madeixas e gravar, com o auxílio de um inesperado aliado cinegrafista (Keith Gordon, que depois virou diretor de cinema), um vídeo expondo sua indignação e as convicções justas, e até bem modestas, de sua cruzada pessoal.
Eis uma reflexão sobre inconformismo um bocado certeira, tocante e surpreendente para um filme de entretenimento dos anos 1980.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ninfomaníaca

Ninfomaníaca-Volume 1
Lars Von Trier sempre foi um diretor incomum.
Suas narrativas nunca fizeram questão de se mostrar aprazíveis ao expectador, e seus temas imbricavam por celeumas desconcertantes revelando um autor quase obcecado por pulsões de ordem sexual que revelavam a disfunção em comportamentos originados da opressão.
Sob essa condição, ele concebeu obras que, uma a uma, chocaram e desestabilizaram o público, que passou a saber exatamente o quê esperar dele: “Ondas do Destino”, “Os Idiotas”, “Dogville”, “Melancolia”, Manderlay”, “O Anti-Cristo”.
Ao mesmo tempo em que seus trabalhos faziam referências a grandes artistas transgressores do passado (como Píer Paolo Passolini e Andrei Tarkovski), Von Trier demonstrava certos fascínios específicos.
Nessa evolução, percebia-se, era questão de tempo até que um de seus filmes flertasse abertamente com o sexo explícito –deixando de lado alguns rumores que afirmam que isso já ocorria nas cenas de “O Anti-Cristo”.
“Ninfomaníaca” era, portanto, o auge de muitos temas perseguidos por Von Trier ao longo de seus trabalhos.
Nele, testemunhamos um solteirão solitário (Stelan Skarsgaard) encontrando, certo dia, uma mulher (Charlotte Gainsbourg, ambos presenças freqüentes nas obras de Von Trier) agredida e estirada num beco próximo ao seu apartamento.
Ele lhe oferece ajuda e um ouvido confidente para escutar a história que ela tem a relatar: a de como, ainda muito jovem (agora interpretada de maneira corajosa pela jovem Stacy Martin), descobriu-se ninfomaníaca, e ao longo de toda sua juventude e vida adulta, buscou suprir essa compulsão, pouco importando-se com as vidas que eventualmente destruía no processo.
Esta primeira parte (que responde por cerca de cento e dezessete minutos de um projeto que totaliza pouco mais de três horas, mas inicialmente previsto para uma duração de cinco horas!!!) enfoca a juventude da protagonista, em especial, os encontros e desencontros vividos com o homem que ela pensava amar, o reticente Jerome (interpretado pelo polêmico Shia LaBeouf).
O final é um gancho provocativo, melancólico e –em se tratando de Lars Von Trier –bastante, condizente para o segundo volume.

Ninfomaníaca-Volume 2
Dando continuidade ao relato de sua tumultuada vida sexual para o casto e interessado Seligman (Skarsgaard), a vitimizada Joe (Gainsbourg) chega ao ponto de sua narrativa em que junto de Jerome (LaBeouf), seu amor da juventude, tem um filho. É também quando ela estranhamente perde a sensibilidade de sua vagina, o quê a levará a passar quase o restante da vida tentando recuperar sua capacidade de sentir prazer.
Lars Von Trier prossegue com sua saga sexual convertida em dois volumes, na qual inclusive, logrou a concepção de “um novo gênero cinematográfico” segundo suas próprias palavras.
De acordo com o diretor, tal gênero, o “digresismo” seria um filme que corresponde à experiência sensorial de se ler um livro.
De fato, há toda uma empolgação da parte de Von Trier (talvez, mais perceptível na primeira parte) em detalhar as mais distintas impressões da narrativa, ainda que nesse sentido –e na escolha escandalosa de seu tema –essas opções aparecem em segundo plano. Há inclusive uma seqüência de auto-referência (ela remete à mais memorável cena de “O Anti-Cristo”) que pode soar pedante para alguns, genial para outros.
Esta segunda parte trás finalmente a introdução de Charlotte Gainsbourg (atriz predileta do diretor) como a protagonista Joe em sua fase adulta, e intensifica os percalços e dilemas sexuais, levando a um desfecho impiedoso que pode incomodar muitos expectadores, bem ao gosto de seu realizador.
Por isso, uma vez mais, Von Trier vale-se de seu talento, minúcia e erudição para chocar o expectador através de um tema que parece perseguí-lo: o sexo e seus desdobramentos mais cruéis visto por uma ótica feminina.
Impressionam (mas, estranhamente não excitam) as cenas de sexo explícito realizadas pelo elenco famoso.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amor À Queima - Roupa

O início da carreira cinematográfica de Quentin Tarantino teve muito mais expressão como roteirista do que como diretor. Roteiros assinados por ele –e que já traziam toda uma nova percepção pop do cinema –já transitavam pelos estúdios gerando burburinho (tais como “Assassinos Por Natureza”, “Maré Vermelha” e este “Amor À Queima-Roupa”), antes de seu reconhecimento também como diretor em “Cães de Aluguel”, ainda que, em se tratando de lançamento comercial, estes filmes tenham ganhado as salas de cinema quase ao mesmo tempo –e, em alguns casos, anos depois.
Tamanho é o peso do estilo e da personalidade de Tarantino como autor, que ele chega a influenciar “Amor À Queima-Roupa” até mais que seu próprio diretor, o falecido Tony Scott.
Contudo, Scott tratou de incorporar ao filme uma série de elementos notáveis que o fizeram rapidamente ganhar aspectos cult: E dentre estes, certamente, o elenco assombroso é um dos que chama imediatamente a atenção.
É até inconcebível, hoje, um filme de ares independentes, no qual Christian Slater é o protagonista e conta com coadjuvantes do quilate de Brad Pitt, Gary Oldman, Val Kilmer (embora ele não apareça, fazendo o papel do fantasma elíptico de Elvis Presley!), James Gandolfini, Dennis Hopper e Christopher Walken.
Tudo começa quando, dentro de uma sala de cinema, assistindo a um filme de artes marciais (uma das inúmeras e pontuais referências cinematográficas que Tarantino colocará na trama), o descolado Clarence Worley (Slater) é abordado casualmente por uma loira espetacular chamada Alabama Whitman (a maravilhosa Patrícia Arquette). Após ficarem juntos, e descobrir uma sintonia singular, ela lhe confidencia ser uma garota de programa. Os dois decidem fugir de tudo e de todos, assim que o rapaz resolver as pendências com o cafetão dela (Gary Oldman, na época bastante marcado por esses tipos surtados e belicosos).
Tudo dá errado e Clarence termina com um pacote de heroína nas mãos e um cadáver às suas costas.
Quando o casal apaixonado ganha a estrada então, uma fileira de policiais corruptos, gangsteres e personagens esquisitos estarão atrás deles.
O roteiro de Tarantino é hábil em tecer uma confusão das mais caprichadas, fazendo a narrativa culminar num tiroteio infernal e explosivo, e o diretor Scott faz sua parte, emoldurando tudo com um capricho visual característico –ainda que sua estética videoclip e sua iluminação estilizada soem estranhos a esse registro quase suburbano da criminalidade.

Esses fatores somados, ao invés de tornarem o filme indigesto, lhe conferem uma atmosfera pouco usual, intrigante até, que por vezes levou alguns cinéfilos a reassistí-lo (eu incluso) várias e várias vezes.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Entrevista Com O Vampiro

“Morte piedosa. Como ama sua preciosa culpa!”
Das tantas adaptações literárias que enfrentaram o crivo ferrenho dos fãs para encontrar um caminho adequado que as levasse para a tela grande, uma das que mais sofreu repercussões certamente foi a versão cinematográfica da primeira parte das “Crônicas do Vampiro”, de Anne Rice que na época (primeira metade da década de 1990) era uma das obras literárias mais populares e aclamadas de então.
Não importava se a direção ficaria a cargo do talentoso e conceituado Neil Jordan (diretor irlandês cuja presença já antevia uma aura desigual ao projeto), não importava se o personagem Lestat seria interpretado pelo normalmente dedicado Tom Cruise (um astro que, apesar de tudo, sempre demonstrou afinco nos filmes que recebiam sua atenção). Para os fãs e para a autora em pessoa, o projeto de “Entrevista Com O Vampiro” já nascia com uma névoa de frustração a cercá-lo, pelo simples fato de seu veredicto antecipado: O de ser o filme inferior ao livro.
Razões para o pessimismo nunca faltaram: O cinema dificilmente conseguiu igualar, em intensidade e detalhismo, as transposições de grandes e elogiados textos para a telona. Por que com uma das mais agraciadas revisões literárias do mito do vampiro isso seria diferente?
Mas, por incrível que possa parecer, o filme prova, paulatinamente, cena a cena, que isso não é uma verdade absoluta.
Do início ao fim, “Entrevista Com O Vampiro” pulsa de um preciosismo e de um esplendor visual que emolduram com indiscutível beleza a trama intrigante, apaixonada e reflexiva sobre as criaturas que atravessam a eternidade a lidar com os percalços de sua própria natureza imortal.
Tudo começa num quarto de hotel em São Francisco, no tempo presente –ou seja, 1994 –quando Louis (um adequado Brad Pitt) recebe um jovem repórter (Christian Slater, substituindo o ator River Phoenix, que veio a falecer) para a ele fazer uma revelação um tanto quanto estarrecedora: Ele é um vampiro cuja existência já se estende há longínquos 200 anos de idade!
Além disso, Louis também lhe conta toda a sua longa história, desde quando fora transformado pelo sanguinário Lestat (Tom Cruise, realmente sensacional no papel), passando pela dolorosa aceitação de sua condição de imortal criatura da noite, ao encontro com uma menina-vampira (Kirsten Dunst, estreando bem novinha no cinema, com uma personagem de sutilezas e complexidades bastante estremas para uma criança), culminando na sua estóica busca por outros de sua espécie e por respostas a suas tantas perguntas, terminando enfim no decorrer de dois séculos e no modo como aprendeu a assimilar uma nova época.
Um trabalho de inúmeras ramificações filosóficas, adaptado de maneira bela e esplendorosa, renovando o mito dos vampiros em seu registro cinematográfico da mesma forma que o best-seller de Anne Rice o fez décadas antes na literatura: Hoje, pode até constar, com justiça, em uma lista dos melhores filmes de vampiros do cinema.
A grande ironia é que a gritaria dos fãs e da autora soa ainda mais desmedida, injusta e desnecessária quando ficamos sabendo que uma continuação ‘bastarda’ deste filme foi realizada anos depois, sem Tom Cruise, sem Neil Jordan, e sem talento: Foi “A Rainha dos Condenados”, que trazia o apático Stuart Townsend no papel de Lestat, sequer estabelecendo maiores conexões com a trama pulsante deste filme.

sábado, 23 de abril de 2016

Atração Mortal

Certos ótimos filmes são, por alguma razão, completamente desconhecidos do público. 
Não são clássicos, não foram sucessos de bilheteria e, apesar de serem sensacionais, foram esquecidos em algum momento. 
São tesouros escondidos. São os chamados cult-movies.
Um dos filmes mais legais que eu já vi foi “Atração Mortal”, ou “Heathers”, no título original. Nunca conversei com alguém que o tivesse assistido (embora ele deva ter seus fãs em algum lugar), mas trata-se de um trabalho fantástico, inteligente, sarcástico, irreverente, cheio de notáveis observações sobre a sociedade americana em particular e o universo estudantil em geral.
Na trama, acompanhamos a jornada de uma adolescente (a sumida Winona Ryder, belíssima naquele que deve ser seu melhor papel) cujo romance com um verdadeiro bad boy –pra não dizer psicopata! –(Christian Slatter, na época bastante louvado por sua estréia em “O Nome da Rosa”) acaba criando uma série de situações nas quais os alunos mais populares do colégio terminam mortos (!). 
Ao tentar encobrir os crimes, o casal forja cartas de suicídio para conseguir se livrar, mas o fato de serem alunos populares faz com que os demais alunos da escola os imitem, e uma série de suicídios tem início (!!).
É com crueldade e deboche, porém com poderosa perspicácia, que o diretor Michael Lehmann relata esses acontecimentos, plenamente surreais e alegóricos (a equipe técnica em peso é a mesma dos filmes de Tim Burton, daquele período), mas incontornavelmente imbuídos de reflexão e sinceridade.
“Atração Mortal” é inédito em DVD no Brasil -até onde eu sei -e mesmo na longínqua era do VHS, era pouco conhecido, mas é uma preciosidade que merece ser descoberta.

O Nome da Rosa

"Aqui jaz a raiz de todos os crimes."
Um dos filmes mais louvados dos anos 80 vem a ser também um dos livros mais louvados do século XX. Não é à toa.
Tudo neste fenomenal “O Nome da Rosa” é fascinante. Desde seu diretor (um Jean Jacques Annaud em estado de graça que cinco anos antes entregou o brilhante “A Guerra do Fogo”), passando por seu elenco extraordinário (onde destaca-se um Sean Connery inspiradíssimo, ainda que sua escolha tenha criado certa polêmica entre os adoradores do livro; mas temos também o sempre ótimo F. Murray Abrahams, e um surpreendente Roy Pearlman, colaborador até bastante habitual de Annaud), e sua ambientação a um só tempo desigual, enigmática e envolvente.
E sua história, então? Que narrativa! Uma síntese de suspense de investigação, história de terror, reflexão sobre a religião e reconstituição de época em meio a Inquisição da Idade Média.
Durante este período negro, acompanhamos o monge franciscano Guilherme de Baskerville (e a referência à Sherlock Holmes e às tramas detetivescas de Arthur Conan Doyle não é nem um pouco coincidente), junto de seu fiel aprendiz, Adso, quando chegam a uma abadia italiana. Lá, um crime sem muitas explicações foi perpetrado, e os padres do lugar anseiam por uma solução urgente para o temor que contamina a todos, afinal, uma reunião de diversos representantes de facções da Igreja Católica está para ser realizada por lá.
 Verdade seja dita que muito da fantástica história concebida pela mente genial de Umberto Eco precisou ficar de fora, sendo preservado o básico da trama investigativa, entretanto, o roteiro continua despertando inúmeras questões que persistem mesmo depois do filme ter se encerrado. Uma delas: qual é o significado de seu título?