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quarta-feira, 11 de junho de 2025

O Eternauta


 Em princípio, esta formidável série da Netflix parece guardar elementos das ficções científicas dos anos 1950 cujas narrativas se muniam de teorias da conspiração, cenários pós-apocalípticos, invasões alienígenas e muita paranóia, mas isso ocorre porque a história em quadrinhos aqui adaptada, escrita por Hector Oesterheld e desenhada por Francisco Solano López, de fato, É dos anos 1950 –publicada na Argentina, mais especificamente, entre 1957 e 1959 –e tida como a mais importante obra em quadrinhos daquele país.

Transposto para a atualidade, o enredo (cujas alegorias em muito evocavam a repressão sofrida pela Argentina nos anos de ditadura que perpassaram o Século XX) abandona alguns tópicos, lança mão de novos personagens, compreende toda uma nova e urgente reflexão a ser realizada, mas termina honrando, e muito bem, o espírito do trabalho de Oesterheld. No que parece ser uma noite comum em Buenos Aires, os amigos Juan Salvo (Ricardo Darín), Lucas (Marcelo Subiotto), Polsky (Claudio Martínez Bel) e Omar (Ariel Staltari) se reúnem para jogar truco na casa de Alfredo Favalli (César Troncoso, do cult “O Banheiro do Papa”) quando são surpreendidos por um fenômeno inesperado: A um misterioso pulso eletromagnético (que desabilita todas as máquinas de função elétrica no país, talvez no continente inteiro!) segue-se uma nevasca poderosamente tóxica (pessoas em contato com os flocos que caem do céu morrem instantaneamente!). Por estarem fechados por acaso dentro da casa, Juan Salvo e seus amigos, mais Ana (Andrea Pietra), esposa de Favalli, escapam de morrer como tantos que eles testemunham perecer pelas janelas. Junta-se a eles a entregadora Inga (Orianna Cárdenas) que, na última hora, conseguiu se refugir na garagem do mesmo prédio.

Contudo, Salvo possui uma filha adolescente, Clara (Mora Fisz), cujos apuros são mostrados, em parte, no prólogo do primeiro episódio, e uma ex-esposa, Elena (Clara Peterson). Temendo pela vida delas, ele se equipa com o uniforme e a máscara que o isolam do perigo tóxico –e que tão bem ilustram o visual memorável do personagem, seja na HQ, seja na série –e sai a pé pela cidade na tentativa de encontrá-las (momentos onde a série faz lembrar a maestria das cenas desoladoras vistas em “Eu Sou A Lenda”). Pelo menos os primeiros três episódios se desdobram nesse objetivo, enquanto Salvo vai encontrando pela frente outros núcleos de personagens sobreviventes às voltas com as novas circunstâncias de um mundo cujo apocalypse virou as antigas percepções de pernas para o ar –não mais podendo contar com a conveniência social, as pessoas organizam grupos armados, dispostos a se proteger daqueles saqueadores que imediatamente adotam a lei da selva.

Entre o terceiro e o quarto episódio, após muitas idas e vindas (que vão consolidando Salvo, sua ex-esposa e os amigos liderados por Favalli num grupo unido no objetivo de sobreviver), Salvo corre atrás de uma pista do paradeiro de Clara que aponta para o centro populoso da capital, onde ele e Favalli encontram um grupo reunido numa igreja protegendo-se de outra grande ameaça: Caídos do céu, como meteoros, criaturas de uma espécie de besouro gigante carnívoro vem vitimando os seres humanos que escaparam com vida da nevasca tóxica. Os dois últimos e sensacionais episódios, levam os personagens a partirem de seu refúgio até então seguro, quando são surpreendidos pela súbita e inexplicada interrupção da nevasca, e acabam indo parar no Campo de Maio, uma fortaleza erguida com recursos militares. Lá, Favalli (por seu conhecimento como engenheiro elétrico) e Salvo (por sua comprovada habilidade com armas de fogo, adquirida na juventude durante a Guerra das Malvinas) são recrutados para uma audaciosa missão, invadir do centro de Buenos Aires a bordo de um trem e enviar via rádio uma mensagem de socorro pela torre principal –é quando os personagens se defrontam com novos perigos e, talvez, com algumas respostas.

Dirigido por Bruno Stagnaro e produzido pela KyS Films (produtora do elogiado “Relatos Selvagens”), “O Eternauta” ostenta, ao longo de todos os seus fenomenais seis episódios toda a qualidade insuspeita que o cinema argentino sempre exibiu, trazendo um entendimento instintivo dos tópicos que faziam dos quadrinhos de Oesterheld um trabalho tão antológico. A um só tempo fiel e diferenciadamente travessa em relação à sua fonte original, esta série da Netflix é um testemunho da competência à toda prova dos artesões argentinos, na manutenção habilidosa, minuciosa e criteriosa de um roteiro equilibradíssimo, na condução de um elenco fantástico (com o sempre magnífico Ricardo Darín à frente) e numa direção brilhante seja nas cenas mais intimistas, seja nas de ação.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Elefante Branco


 O longo prólogo que antecede o título original do filme é um exemplo da audácia técnica dos realizadores argentinos; quase destituído de diálogos e amparado em planos cuidadosamente relacionáveis, ele lembra as sequências cinematograficamente densas construídas por Paul Thomas Anderson em seus trabalhos. O diretor Pablo Trapero, em sua técnica minimalista, não lhe fica nada a dever.

“Elefante Branco” retrata uma realidade que, para nós brasileiros, se mostra próxima e extremamente passível de identificação, aqui, entretanto, sob o prisma desigual de um cinema arrojado e potente. Os protagonistas do filme são dois homens diante de sua jornada; ainda não sabemos, mas, para um, tal jornada está para se encerrar, e para outro, ele está só começando. São eles, o Padre Julián (Ricardo Darín, magnífico) e o Padre Nicolás (Jéremie Renier, de “O Amante Duplo”). O caminho dos dois se cruza quando Julián resgata Nicolás, um missionário europeu, de um dos eventuais perigos mortais nas selvas sul-americanas, apinhadas de dissidentes políticos e executores cruéis –esse trecho, aliás, se sucede no prólogo mencionado. Das garras da morte –da qual não escapou sem alguns traumas emocionais e morais severos –Nicolás vai para o centro urbano da Argentina onde o Padre Julián toca sua paróquia fixada no coração nervoso de uma favela em polvorosa.

Lá há criminalidade e rixas frequentemente mortais entre as facções da vez. Lá, há também o auxílio altruísta da assistente social Luciana (Martina Gusman, que fez par com Darín em “Abutres”, dirigido também por Trapero, de quem é esposa), e lá há o assim chamado Elefante Branco –um prédio descomunal cuja construção interrompida diversas vezes, jamais foi concluída. Um lamentável fato que converteu o prédio, ao longo das décadas, numa espécie de refúgio para toda sorte de párias, desabrigados, viciados e marginais.

O papel do Padre Julián é equilibrar-se como pode entre as disputas territoriais das quadrilhas locais, que aliciam meninos da favela o tempo todo, e tentar prestar assistência aos moradores necessitados, enquanto procura obter recursos do governo, em parte para a continuidade das obras que poderão transformar o Elefante Branco num complexo de moradia para todos –um sonho distante que a árdua, perigosa e cruel realidade torna cada vez mais distante.

Mais do que apenas exercer seu papel de sacerdote a zelar por todos, de pacificador a reger uma tênue e instável trégua na comunidade, de figura paterna a instruir os meninos para que não cedam ao vício fácil que os instiga a cada esquina, o Padre Julián sonha também em instruir o Padre Nicolás para, quem sabe, substituí-lo algum dia, afrente da paróquia –o Padre Julián tem uma doença terminal –mas, o Padre Nicolás tem seus próprios problemas, entre eles, a convicção facilmente abalada de seu ofício, que sofre um forte questionamento quando seus sentimentos por Luciana começam a ficar mais profundos.

Primoroso em inúmeros aspectos técnicos e artísticos, “Elefante Branco” é um retrato  pulsante, periclitante, e prodigiosamente cinematográfico de celeumas sociais nada estranhas no nosso Brasil, composto de manejos narrativos dignos de Primeiro Mundo. É urgente e magistral como “Cidade de Deus”, alarmante e poético como “Pixote-A Lei do Mais Fraco” e ainda dá-se ao luxo de expor elementos originais em conjunção com sua bem-acabada dramaturgia como as sequências tensas e extenuantes onde são evidenciados os efeitos terríveis da combinação caótica entre políticas sociais ineficazes, desabrigados em desespero e truculência policial sem freios morais.

Um grande trabalho de sublime excelência e pertinente drama humano.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Abutres


 Mais uma obra magnífica do cinema argentino, “Abutres” extrai a brilhante trama que alberga seu minucioso roteiro das estatísticas alarmantes que envolvem o número de mortos em acidentes automobilísticos na América do Sul em geral e na Argentina em particular. O número de vítimas, afirmam os créditos iniciais, atinge a casa dos milhões por ano, e com o tempo, o sistema corrupto propiciou o nascimento de toda uma máfia organizada em torno das indenizações milionários cobradas às seguradoras.

Funciona assim: As vítimas têm seus danos físicos e morais ressarcidos em juízo, por firmas oportunistas de advogados. As indenizações são pagas aos familiares ou aos próprios acidentados, quando sobrevivem, mas numa quantia irrisória em relação ao valor real negociado em tribunal; na maioria desses casos, os advogados embolsam 95% do dinheiro.

Entretanto, tudo começa mesmo no momento do acidente, quando o sangue e a morte se fazem presente dando o estopim a essa prática criminosa.

Um desses advogados é Hector Sosa, vivido com a verve estupenda de sempre por Ricardo Darín –ele é um dos ‘abutres’; ronda os mortos mutilados e/ou acidentados, mal esperando o corpo esfriar para entrar com suas propostas judiciais. Às vezes –como ocorre numa das cenas iniciais –ele está presente no momento do acidente!

É quando ele conhece a paramédica Luján (Martina Gusman, também produtora executiva do filme). Em meio aos encontros e desencontros do ofício –ele está sempre orbitando acidentes e postos emergenciais, ela sempre atendendo aos chamados –eles descobrem uma atração e tentam esboçar um relacionamento, que não deixa de logo colidir com as diferentes posturas de ambos.

Este é basicamente o esteio moral que define do ponto de partida do filme de Pablo Trapero: Sosa não é de todo corrupto e mau-caráter, seus empregadores é que são, mas ele também faz vista grossa à insensibilidade para com a perda de vidas humanas. Luján, como outros de seu meio, sente relativo desdém pelos burocratas que rondam hospitais em busca desses casos de indenização, e tem seus valores aos quais seguir.

Sosa almeja sair desse ciclo vicioso, desse ambiente sórdido de paulatino desprezo e indiferença. Como advogado licenciado, ele possui planos para deixar aquela máfia de indenizações –que se estende desde os advogados de médio-porte, como ele, passa por policiais comprados com propina e vai até os medalhões com contatos nos tribunais –conhecida como ‘Fundação’. Contudo, Sosa conhece Luján, e as frequentes situações que o levam a cruzar-se com ela o fazem protelar sua partida.

A mulher que ele ama é abertamente contra os princípios que ele emprega nesse trabalho, mas é a presença dela que o leva a continuar nele.

Perspicaz, adulto e primorosamente envolvente, o filme vai levando os personagens nessas circunstâncias sem nunca acomodar-se numa situação, nem tampouco acelerar seu ritmo a ponto de não poder observar os brilhantes meandros assim revelados. Do ponto de vista de seus notáveis protagonistas, e amparado no fio narrativo romântico de seu tumultuado envolvimento, “Abutres” explora a crueza tentacular das corrupções que envolvem o fluxo de dinheiro entre as vítimas, as seguradoras e os intermediários dessas negociações, compondo mais um título honorável dentre as mais relevantes obras de cinema realizadas na América Latina.

sábado, 27 de julho de 2019

A Dançarina e O Ladrão

Uma co-produção chilena e argentina, “A Dançarina e O Ladrão”, de Fernando Trueba, herda assim as características notáveis de ambas essas vertentes de cinema moldando uma história poderosa de drama humano e intrincados percalços do destino.
Ambientado no Chile, o filme tem seu princípio básico baseado em suas circunstâncias políticas frequentemente inusitadas: Devido a uma lei, segundo a qual os presidiários por crimes médios com dois terços de sua pena já cumpridos poderiam ser libertados, saem da cadeia, no mesmo dia, o famoso arrombador de cofres Nicolas Vergara Grey (Ricardo Darín) e o jovem Angel Santiago (Abel Ayala).
Desejoso de se reintegrar à sociedade, Nicolas procura por sua esposa e filho, no entanto, o seu reconhecimento como ladrão se reflete em vergonha para a família, e tanto a esposa quanto o filho já providenciaram um substituto de classe média alta para colocar em seu lugar nesses cinco anos em que ficou encarcerado.
Também o dinheiro que supostamente havia ficado sob o cuidado de um amigo já não existe mais: Desvaneceu-se em negócios mal-sucedidos e hipotecas desvantajosas.
Angel, por outro lado, não tinha maiores ligações com o crime –havia sido preso por tentar roubar um cavalo, pelo qual nutria um apego especial. Entretanto, um assunto pendente com o diretor do presídio (uma questão que se mantém sempre nebulosa) coloca em seu encalço uma espécie de assassino de aluguel.
No percurso dos acontecimentos, as duas linhas narrativas encontram um jeito de se encontrar. Angel se apaixona por Victoria (Miranda Bodenhöfer), um bailarina muda –devido ao trauma de ver, quando criança, os pais serem assassinados pelas milícias de Pinochet –talentosa, porém, à beira da mendicância, e passa a almejar uma vida melhor, não apenas para si próprio, mas agora para ela também.
Nicolas busca um afastamento de sua especialidade no crime, mas quanto mais tenta se apoiar em outras esperanças, mais a fragilidade delas o empurra de volta ao que era antes.
E Angel tem um plano.
Já havia saído da cadeia com ele: Um companheiro de cela, um anão, compartilhara com ele o plano, cheio de astúcia, no qual Nicolas Vergara Grey é imprescindível, e do qual sairiam todos milionários, desde que fossem hábeis o bastante para se esquivarem dos perigos.
Como é habitual no cinema chileno e no argentino, o roteiro constrói com minúcia habilidosa grandes personagens, temperando a narrativa com a satisfação de ve-los interagir: Embora as dinâmicas mais sensacionais e envolventes sejam as do trio central (Nicolas, Angel e Victoria), existem outros personagens como Wilson (Mario Guerra), o chofer de taxi, fã inveterado do ladrão e que dele se torna um aliado; ou a ex-esposa de Nicolas, Teresa (Ariadna Gil), em cujos encontros se percebe um conflito entre amor e desconfiança.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Sétimo


A brincadeira que o advogado Sebastian (o sempre fabuloso Ricardo Darin) trava com seu casal de filhos pequenos é das mais inocentes: Moradores do sétimo andar do edifício onde está sua mãe –Sebastian e ela são divorciados –os pequenos apostam com o pai, toda vez que este vai leva-los na escola, que chegam ao andar térreo pelas escadas antes que ele chegue pelo elevador. Delia, a mãe (interpretada pela espanhola Belén Rueda) já o alertou sobre essa brincadeira, mas, no princípio do filme ele cede aos pequenos e permite que eles façam uma vez mais.
É aí que o pesadelo hitchcockiano habilmente concebido pelo diretor Patxi Amezcua irá se operar.
No térreo, a aguardar pelas crianças, Sebastian se alarma ao ver que eles não chegam: Sumiram –ou melhor, foram sequestrados! –em algum ponto entre o 1° e o 7° andar.
Como? Por que? E por quem?
Envolvido num julgamento notório cujos desdobramentos definitivos ocorreriam numa audiência marcada para aquele mesmo dia, Sebastian está convencido de que foram criminosos a mando do réu que sumiram com seus filhos a fim de impedi-lo de aparecer no tribunal.
Mas, nada, absolutamente nada fica claro neste magistral e enxuto suspense argentino –nem mesmo o desaparecimento de fato das crianças: Durante um tempo considerável a direção e o roteiro jogam com a incerteza do expectador e do personagem principal negando, até a medida do possível, a confirmação de que o que ocorreu realmente foi um sequestro.
É nesse princípio que reside um dos brilhos maiores de “Sétimo”: Na certeza de que, no que diz respeito ao suspense, menos é mais, e justamente por isso, na condução cadenciada, calibrada, e por fim, alarmante que o filhe ganha, as resoluções de suas dúvidas chegam sempre no momento certo –quando o expectador já está afundado na cadeira de apreensão.
Uma lição e tanto, assimilada com uma maestria que normalmente só cinema argentino costuma exercer.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Um Conto Chinês


Brilhante, como é habitual no cinema argentino, este trabalho formidável do diretor Sebastian Borensztein se beneficia, antes de qualquer coisa, de uma interpretação primordial de Ricardo Darin que emprega seu talento na construção zelosa e criteriosa de um personagem tão difícil e desafiador quando o de Jack Nicholson em “Melhor É Impossível”.
Roberto é ranzinza, reclamão e intratável. E tem plena consciência de ser assim.
Dono de uma loja de ferragens, ele é capaz de contar um a um os parafusos feitos numa encomenda para conferir se correspondem ao número discriminado na embalagem.
Um de seus hábitos mais obsessivos –um dos muitos que ele cultiva desde que regressou brutalizado e abalado pela Guerra das Malvinas –é o de colecionar notícias absurdas recortadas de jornais aleatórios ao redor do mundo (incluindo a da vaca que cai do céu sobre um casal de noivos num lago; cena que abre o filme).
Esse pragmatismo irascível também o relega a solidão; Roberto sabe ser incapaz de suportar uma companheira por muito tempo tanto quanto sabe ser incapaz de fazer com que ela o suporte.
Como manda as ironias inevitáveis de qualquer premissa, é justamente um tipo como esse quem irá encontrar, certo dia, um chinês completamente perdido (Huang Sheng Huang, o protagonista, por sinal, do episódio com a vaca), com quem Roberto é incapaz de se comunicar, já que um não fala o idioma do outro.
Ainda assim, ele o acolhe para tentar ajudá-lo a encontrar o único parente que parece ter-lhe restado, iniciando um processo que pode tirá-lo do isolamento existencial no qual todas as suas neuroses o colocaram.
Uma primorosa e divertida reflexão moral sobre as coincidências que nos conectam uns aos outros, “Um Conto Chinês” serve não só como palco para o maior ator argentino em atividade criar seu personagem com zelo e minúcia, prendendo o expectador à sua história que trafega com desenvoltura do drama à comédia, mas também para demonstrar a perspicácia com a qual o roteiro se constrói nunca deixando de enfatizar o fator humano fundamental a esta história de relações que se erguem e se descobrem em meio às entrecruzadas linhas de causa e efeito que compõem o destino.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Neve Negra

São hábeis as avaliações de tragédias embutidas em dinâmicas singulares no cinema argentino. No filme de Martin Hondara, essa questão já se torna clara em termos visuais antes mesmo de ser esmiuçada em termos dramáticos: O caminho de neve extenso e longínquo mostrado pela direção de fotografia nos confins da Patagônia só pode mesmo ser um depositório de segredos terríveis, tão simbolicamente afastado da civilização ele está.
É para lá que vai Marco (Leonardo Sbaraglia) levando Laura (Laia Costa), a esposa grávida a tiracolo, movido por um motivo não muito nobre, porém, disfarçado de boas intenções.
Lá mora Salvador (Ricardo Darin), seu irmão mais velho que de lá nunca saiu. Com a morte do pai de ambos (um homem extremamente cruel, particularmente com Salvador, como mostram os flashbacks), e com a incapacidade de Sabrina (Dolores Fonzi) a irmã dos dois, internada numa clínica psiquiátrica devido a terríveis surtos psicóticos, é incumbência de Marco honrar o último desejo do falecido: Deixar suas cinzas junto ao túmulo de Juan, o irmão caçula, morto num acidente de caça nebuloso que definiu toda a dolorosa dinâmica entre os membros da família. Entretanto, Marco quer é vender a propriedade e para isso o consentimento do arredio Salvador é fundamental.
Entre várias manobras inspiradas realizadas pelo diretor Hondara está a habilidade com que ele aos poucos transfere o eixo de todo o mistério que cerca a traumática convivência passada dos irmãos da figura intrigante e hostil de Salvador –um trabalho, como sempre, concebido com zelo e propriedade por Darin –para o hesitante Marco –que Sbaraglia interpreta com minúcia brilhantemente estudada.
Conduzindo essa trama de suspense com preciosa noção de ritmo, clima e quebra de expectativas –aspectos essenciais num bom filme oriundo do gênero –o diretor Hondara promove um mergulho nas facetas verdadeiramente sórdidas da alma. E revela, nos inesperados desdobramentos finais, que o mal pode se camuflar e espreitar nas formas mais improváveis, esperando somente a circunstância ideal para mostrar seu lado mais monstruoso.

domingo, 18 de outubro de 2015

O Segredo dos Seus Olhos

São poucos os filmes que podem se beneficiar da mescla tão apurada de gêneros distintos que o veterano e desenvolto diretor Juan Jose Campanella obtém aqui.
Ele relata a trama do oficial de justiça já aposentado que decide escrever um romance baseado em um caso investigativo do qual se incumbiu anos atrás, (um violento estupro seguido de homicídio) e que as leis burocráticas, as relações complexas entre seus colegas (incluindo seu único amigo, alcóolatra, e a jovem chefe de secretaria, por quem era secretamente apaixonado), e a própria furtividade do verdadeiro culpado insistiam em complicar.
Esse registro passeia pelo óbvio –o filme de suspense e policial investigativo –mas, trata também de surpreender o expectador com lances convincentes de romance (a química entre Ricardo Darín e Soledad Villamil –que já fizeram juntos “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva”, também de Campanella –é impecável) e de comédia; tudo isso constrói um filme de imenso poder de envolvimento, provido de personagens pulsantes e humanos, com os quais o expectador não tarda a se importar.
Como se não bastasse, o diretor ainda entrega uma obra de grande envergadura técnica com pelo menos uma cena (a perseguição ao assassino dentro de um estágio lotado) na qual o trabalho de edição (ou a ausência dele, já que a cena parece realizada toda ela sem cortes!) merece aplausos.
Vencedor do Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro (derrotando o favoritíssimo "A Fita Branca" da Áustria) é um magnífico drama policial, exemplo perfeito do austero e elegante cinema produzido atualmente na Argentina.
Belo também o trabalho do sempre excelente ator Ricardo Darín ("Nove Rainhas").

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Relatos Selvagens

Sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes do ano, o argentino "Relatos Selvagens" é um trabalho tão riquíssimo do jovem roteirista e diretor Damian Szifron que suas seis pequenas histórias poderiam render um longa-metragem cada uma. Verdadeira aula de cinema.
Acompanhem comigo:
A bordo de um boing, passageiros descobrem, durante uma conversa casual, uma estranha -e preocupante -ligação entre todos (em meio à eles, o magnífico Darío Gandinetti, de "Fale Com Ela").
Um pequeno conto primoroso de suspense que prescinde de tempo de cena até mesmo para trabalhar seus personagens -todos são ferramentas narrativas arquetípicas que dão pontualidade à trama.
Tão enxuto que transcorre antes mesmo dos créditos iniciais!
Num restaurante à beira de estrada, em plena madrugada, uma jovem garçonete tem a chance de perpetrar uma cruel vingança contra o homem que prejudicou a sua família, sob a instrução convicta e implacável da misteriosa cozinheira do lugar.
Ironia, crueldade e o medo perene das consequências nesta sensacional e ágil parábola sobre os desdobramentos da vilania que, por vezes, faz lembrar os episódios da série "Breaking Bad".
Numa estrada deserta, um executivo (Leonardo Sbaraglia) e um mecânico, homens de classes distintas se envolvem numa rixa que progride violentamente para uma tragédia.
Um misto magistral de "Encurralado", de Steven Spielberg, com "A Morte Pede Carona", de Mark Hamon, agraciado com fina ironia e um sarcástico senso de observação.
Cidadão argentino (o extraordinário Ricardo Darín) vê sua vida sendo aos poucos destruída pelas circunstâncias do mau-funcionamento dos orgãos públicos.
O mais pertinente e crítico de todos os segmentos, ilustra com perfeição o olhar agudo e perspicaz do diretor Szifron sobre os meandros da burocracia.
Senhor de classe alta é explorado por todos à sua volta (do advogado particular, ao delegado responsável, passando pelo jardineiro!) quando tenta livrar seu filho das consequências de um delito grave.
A maestria de seu elenco é o principal destaque deste segmento abrilhantado com um humor negro refinado e irresistível.
O final é de um sarcasmo ímpar.
Uma cerimônia de casamento que começa normal, vai se transformando gradativamente num pesadelo, quando revelações sobre o noivo alteram o comportamento da noiva.
Magnífico, é evidentemente o mais longo dos episódios (a única ordem e lógica aparente entre eles é que começam pelo mais curto e vão ficando mais prolongados a cada história), e exemplifica muito bem a premissa moral do filme como um todo -a de que o ser humano, quando colocado numa situação de descontrole, deixa de lado suas amarras de civilização e se torna um animal selvagem.

sábado, 10 de outubro de 2015

O Mesmo Amor, A Mesma Chuva

Notável, este filme argentino, que reúne Ricardo Darín e Soledad Villamil sob a direção de Juan José Campanella anos antes do aclamado "O Segredo dos Seus Olhos".
A trama, até menos romântica do quê pode parecer, fala dos encontros e desencontros, ao longo de quase duas décadas, de um casal cuja paixão começa fulminante, mas aos poucos, cai numa rotina, atravessando diversos humores: Decepção, rancor, esperança...
Cheio de perspicácia, o roteiro faz pertinentes comentários sobre a transição política que a Argentina atravessou durante a década de 1980, o quê ressalta bem a desenvoltura e a competência dos realizadores de cinema daquele país, ao tratar de temas distintos que vão da intimidade de uma relação à dois às questões trabalhistas envolvendo a liberdade de imprensa daquele período.
Encantadora é a química entre Darín e Villamil, ela inclusive, belíssima. Ricardo é sempre competente, mas interessante notar o quanto o tempo lhe fez bem: Ele é um ator muito melhor conforme vai envelhecendo.
Deixo como lembrança do filme uma linda frase dita por ele:
" Amor, heroísmo, paixão. Quem me mandou escrever sobre coisas que nem conheço? Eu deveria escrever sobre o medo. Sou perito. Por medo, faço um trabalho que odeio. Por medo, perdi você. "