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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa


 Spoilers são um fenômeno curioso. Há quem odeie recebê-los, preferindo a surpresa de descobrir tudo o que o filme tem a oferecer... bem, durante o próprio filme! Há quem não se importe com eles. Há aqueles que têm tanto prazer em dar spoilers aos outros que o ato de assistir ao filme acaba sendo uma satisfação secundária; eles gostam mesmo é de poder, depois, contar os segredos do filme a quem ainda não o viu. No cinema moderno, com narrativas como as de M. Night Shyamalan e seus finais-surpresa e a acessibilidade de informação da internet, os spoilers se tornaram um perigo para quem almeja uma experiência cinematográfica absolutamente pura, despida de interferências.

No caso de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, aqueles expectadores que não forem conferir o filme em seus primeiros dias de exibição nos cinemas (na verdade, até mesmo eles!) correm o risco de receber uma avalanche de spoilers. Terceiro longa-metragem da trilogia solo do Homem-Aranha desde que ele passou a ser interpretado por Tom Holland e a integrar o Universo Marvel Cinematográfico –além da participação em outros filmes –“Sem Volta Para Casa” chega tão carregado de novidades espantosas e eletrizantes, tão repleto de momentos planejados com o objetivo de serem inesquecíveis e, ao mesmo tempo, tão sensacional e embriagante em seu ineditismo e empolgação que representa um desafio para qualquer um chegar  às salas sem saber nada sobre ele.

Iniciando arrojadamente na cena pós-créditos com a qual encerrou (sem muito encerrar...) a trama de “Homem-Aranha Longe de Casa”, “Sem Volta Para Casa” segue seu protagonista Homem-Aranha\Peter Parker (Tom Holland) no momento em que foi revelada, em cadeia nacional pelo próprio J. Jonah Jameson em pessoa (J.K. Simmons), a identidade secreta do herói. Sendo esta a terceira personificação do personagem nos cinemas (as anteriores foram vividas por Tobey Maguire e por Andrew Garfield), por vezes o diretor Jon Watts se viu obrigado a adaptar arcos narrativos diferenciados dos quadrinhos a fim de não se repetir. No primeiro (“De Volta Ao Lar”), sob forte referência dos longas de John Hugues, ele acompanhou a rotina escolar de Peter e sua fase no ensino médio, lutando para desvencilhar-se das obviedades de uma trama (já contada) de origem. No segundo (o já citado “Longe de Casa”), ele contou uma aventura descompromissada a girar em torno de férias na Europa. Nos dois casos, a Marvel Studios enfrentou críticas justamente por fugir das características que definiam o Homem-Aranha enquanto personagem e que o atrelavam em demasia à heróis como o Homem-de-Ferro tirando-lhe certa individualidade –a despeito da ótima atuação de Tom Holland.

“Sem Volta Para Casa” vem para rebater cada um desses protestos: Ele é tão original, tão ágil e incisivo, tão consciente dos elementos icônicos que manuseia que provavelmente não tardará a se sagrar como um dos melhores (ou O melhor) filmes em live-action do Homem-Aranha –e Tom Holland, seu intérprete mais consistente e definitivo.

O fio narrativo que conduz a esse enredo tão cheio de surpresas começa quando Peter, farto de ver seus amigos, M.J. (a cada vez mais maravilhosa Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) sofrerem por terem contato com o Homem-Aranha, resolve procurar a intervenção mística do Doutor Estranho (Benedict Cumberbath) para que, com um feitiço, ele apague da memória de todo o mundo que Peter é o Homem-Aranha. Contudo, algo dá errado, e o feitiço mexe com o conceito que, encerrada a Saga de Thanos com o magnífico “Vingadores-Ultimato”, deve nortear a próxima saga a conectar os filmes da Marvel: O Multiverso –já abordado na minissérie “Loki”, da plataforma Disney Plus. Resumindo: Agora, os vilões vindos de outras realidades alternativas –como Dr. Octopus e Duende Verde, vividos magistralmente por Alfred Molina e Willen Dafoe dos mesmos filmes com Tobey Maguire –aparecem na realidade do Universo Marvel, complicando a vida do herói e ameaçando vidas. São um total de cinco (já vistos nos trailers): Além de Dr. Octopus e Duende, também o Electro (Jamie Foxx, num personagem melhor desenvolvido do que foi em “O Espetacular Homem-Aranha 2”), o Lagarto (Rhys Ifans) e o Homem-Areia (Thomas Aden Church).

A união de todas essas pontas soltas é indicativa do brilhantismo do trabalho de Jon Watts que –se não agradou a gregos e troianos nos dois filmes anteriores –conseguiu superar-se neste daqui, entregando um trabalho onde honra seu personagem extinguindo qualquer margem para questionamentos quanto a sua fidelidade aos quadrinhos, fazendo deste terceiro filme o arco final onde, em retrospecto, podemos enxergar esta como uma ‘trilogia de origem’ do personagem, ao mesmo tempo que o coloca numa nova, inesperada e possivelmente promissora trajetória de vida adulta, sem evitar, desta vez, os momentos mais sombrios que coloquem à prova justamente sua fibra moral como super-herói.

É tentador, para qualquer resenhista deste filme, revelar as surpresas arrebatadoras que “Sem Volta Para Casa” entrega praticamente o tempo todo durante suas nada modestas duas horas e meia de duração (algumas ombreiam os momentos antológicos de “Ultimato”), entretanto, seria um pecado: Sua experiência é tão vívida, tão assombrosamente sensorial, emocional e mágica que todos merecem a chance que conferi-la nos cinemas livres de spoilers. No que depender de mim, está feito, no entanto, meu conselho é: Corra para vê-lo (e maravilhar-se) o quanto antes!

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

O grande problema de “Dois Irmãos” é a excelência notória de seu estúdio, a Pixar.
Explica-se: Tão habituado seu público cativo ficou, a esperar deles sempre uma obra-prima –de preferência, capaz de arrancar lágrimas insuspeitas do expectador como o fazem sem esforços os maravilhosos “Wall-E”, “Up-Altas Aventuras”, “Divertida Mente” e “Viva-A Vida É Uma Festa” –que quando essa qualidade estratosférica não chega a ser atingida, a impressão que fica é a de decepção, mesmo que até lá seja entregue um trabalho criativo, atrativo e interessante.
Embora traga o primor visual que a cada realização se mostra mais aperfeiçoado e detalhista, e seja em si um entretenimento pleno de diversão, emoção, criatividade e graça, “Dois Irmãos” fica num inédito meio-termo entre os exemplares da Pixar: Está, nos mais diversos quesitos, bem acima de seus títulos mais esquecíveis (como “O Bom Dinossauro”, “Vida de Inseto”, “Carros 1, 2 e 3”, “Universidade de Monstros” e “Procurando Dory”), mas não ombreia a magia de suas diversas obras mais aclamadas (caso de “Procurando Nemo”, “Os Incríveis 1 e 2”, “Monstros S.A.”, “Ratatoille”, “Valente”, todos os “Toy Story” e os mencionados mais acima).
O que não significa, sobremaneira, que não haja muito nele a se apreciar.
Ambientado num mundo de fantasia –como também o era “Monstros S.A.” –“Dois Irmãos” se passa no que seria a era moderna correspondente das histórias do gênero ‘espada & feitiçaria’: Nele existem unicórnios, feiticeiros, dragões, centauros, elfos e toda sorte de criaturas místicas.
Entretanto, a magia ao que parece anda meio fora de moda, substituída pelo recurso mais conveniente da eletricidade (!); elfos e outras criaturas vivem assim numa sociedade onde usufruem de internet, aparelhos celulares e as mais diversas opções tecnológicas, tal e qual os seres humanos da atual vida real.
O protagonista Ian Lighfoot (voz de Tom Holland) é um elfo nascido nessas circunstâncias e, a exemplo de muitos jovens que cresceram rodeados das comodidades da modernidade, ele é inseguro, fato ressaltado por uma certa ausência do pai, que faleceu quando ainda era pequeno.
Dessa forma, sua família se resume ao irmão mais velho Barley (voz de Chris Pratt), um garotão imaturo cuja cabeça avoada está sempre nos jogos de magia e RPG, à sua carinhosa mãe (voz de Julia Louis-Dreyfuss) e, vá lá, seu padrasto, o centauro (!) Colt Bronco (voz de Mel Rodriguez).
No dia de seu aniversário de dezesseis anos, Ian recebe um presente de sua mãe: Uma instrução de seu pai para que pudessem, mesmo após sua morte, passar ao menos um dia inteiro com ele (!); trata-se de um cajado antigo, usado para magia.
Se na mão do irmão Barley, o cajado não surte efeito, na de Ian –que revela uma inesperada aptidão para magia herdada do pai –ele termina por produzir o feitiço que traz de volta o pai. Ao menos, em parte: Somente da cintura para baixo (!).
A ‘pedra-fênix’ usada para tal feitiço não havia sido o suficiente; para ter seu pai por inteiro, matar a saudade e (no caso de Ian) finalmente ter a carência de sua presença preenchida, os irmãos precisam obter uma outra ‘pedra-fênix’ em menos de 24 horas –pois o feitiço prevê apenas esse período para que possam ficar com ele.
Assim, Ian e Barley empreendem uma jornada –cujos avanços correspondem, em parte, aos jogos de tabuleiro e de aventura que parecem querer, muito ao seu jeito, homenagear –que é também uma aventura de descoberta (na qual os irmãos, tão diferentes entre si, perceberão o quanto são essenciais um para o outro) e de auto-afirmação (Ian adquire a coragem, a auto-confiança e a iniciativa que antes lhe faltavam).
É uma obra de apelo profundamente emocional, transcorrida no contexto de um ambiente mágico e fantástico, propício à imagens acachapantes, como só a Pixar sabe fazer; se o sabor que fica na boca ao final é de um prato que já foi melhor servido em outras ocasiões, isso muito se deve ao fato de grande parte de sua equipe técnica ter sido confiada a artesãos mais jovens das fileiras da Pixar, e não aos seus experientes gênios de praxe: O diretor é Dan Scanlon (que estreara na Pixar com “Universidade de Monstros”); a trilha sonora (incapaz de atingir os acordes comoventes de Michael Giachinno) é dos irmãos Mychael e Jeff Danna; o único nome mais gabaritado a surgir na linha de frente em meio aos realizadores desta animação é mesmo Pete Docter (diretor de “Up”), como produtor executivo.
No entanto, mesmo capitaneado por profissionais não tão habilidosos, mais vale um longa da Pixar na mão (ou na tela do cinema ou da TV), do que duas animações convencionais à disposição.

sábado, 13 de junho de 2020

A Hora do Espanto

Falando agora de filmes de vampiro de verdade, o auge mercadológico do gênero se deu nos anos 1950 e 60; lá foram estabelecidas as características que definiram o conceito de filme moderno de vampiro –sobretudo, pelas produções da Hammer, com Christopher Lee no papel de Drácula –entretanto, como tudo o mais, a fórmula, algum tempo depois, lá pelos anos 1970, se defasou. Quando chegou a década de 1980, os vampiros hà tempos já não tinham a mesma popularidade de outrora.
Foi quando um filme despretensioso, de baixo orçamento e diretor desconhecido (além de estreante) surgiu no mapa unindo os elementos clássicos dos filmes da Hammer ao escapismo comercial que definiu o cinema de entretenimento daquele período. Tal filme era “A Hora do Espanto”, e seu apelo revelou-se tão certeiro e irresistível que, sem cerimônias, ele fez ressurgir um interesse renovado do público e dos estúdios pelos famosos chupadores de sangue, trazendo em seu rastro novas e hoje cultuadas produções como “Quando Chega A Escuridão” e “Garotos Perdidos” –anterior a ele, naquele década, só mesmo o artístico e elitista “Fome de Viver”.
Contudo, “A Hora do Espanto” continua sendo aquele que provavelmente melhor traduz a dicotomia entre sustos e divertimento que esse sub-gênero instiga ao público.
Seu diretor, Tom Holland (não, este não é o jovem ator de “O Impossível” e que faz o Homem-Aranha da Marvel Studios!), soube escrever no roteiro e dele enfatizar o manejo equilibrado entre terror e galhofa –lições também deixadas pelo sempre imprescindível mestre Alfred Hitchcock –assim como as alusões pontuais e espertas às obras canônicas de vampiros já engendradas e a forma com que elas tangenciavam uma repaginação oitentista e charmosa ao mito dos chupadores de sangue.
Morador de um bairro norte-americano de classe média, Charley Webster (William Ragsdale) é um adolescente normal com pulsões um pouco exageradas de curiosidade –na primeira cena do filme, ele desperdiça a chance de dormir com a namoradinha Amy (a deliciosa Amanda Bearse) ao dedicar demasiada atenção às atividades noturnas do novo vizinho que ele vê, junto de outro comparsa, carregando um caixão para dentro do porão da casa.
Algumas noites depois, Charley flagra –no melhor estilo “Janela Indiscreta” –seu vizinho seduzindo uma jovem (com direito à cena de nudez gratuita!) e preparando-se para morder sua garganta: Ele é, pois, um vampiro.
Um vampiro que come maçãs e assobia “Strangers In The Night”...
O jovem protagonista, assim, equaciona o crescente número de pessoas surgindo mortas na região com a chegada desse novo vizinho cujas janelas da casa estão sempre fechadas e que nunca é visto ao dia.
Claro que ninguém acredita nele. Nem Amy, nem seu estranho amigo, Evil Ed (o adequadamente irrequieto Stephen Geoffreys), nem sua mãe, que chega ao cúmulo de convidar o vampiro –que à propósito, chama-se Jerry Dandrige (e é vivido por Chris Sarandon, de “A Sentinela dos Malditos”) –para fazer uma visita em sua casa; quebrando assim a proteção de Charley que estaria seguro do vampiro desde que este não fosse convidado a entrar dentro de sua casa.
Só resta, portanto, uma saída para Charley, apelar para o único especialista no assunto que conhece: O caçador de vampiros Peter Vincent (Roddy McDowall, impagável) que nada mais é do que o apresentador do programa de TV “A Hora do Espanto”, dedicado a exibir filmes de terror.
Incrédulo e cínico, Vincent nada quer com a aflição do garoto, contudo, Amy o convence a encenar uma intervenção com a presença do próprio Jerry Dandrige pagando-lhe algum dinheiro.
É combinado que Vincent daria um frasco de água benta –na verdade, água normal –para que Jerry bebesse na frente de Charley provando não ser vampiro. Contudo, Vincent enxerga (ou melhor, NÃO enxerga!) o reflexo de Jerry num espelho, descobrindo que ele realmente é um vampiro, o que coloca os quatro –Vincent, Charley, Amy e Evil Ed –na mira da criatura.
Na mesma noite, Jerry coage Evil Ed, transformando-o em vampiro e trazendo-o para seu lado, e parece descobrir, nas feições de Amy, algum tipo de interesse amoroso do passado, tal qual em “Drácula de Bram Stoker” –elemento sugerido numa breve cena, mas pouco explorado em prol da aventura vertiginosa de terror que se segue.
Assim, com Amy capturada e levada para a mansão do vilão, Charley precisa convencer o assustado Peter Vincent a agir como um caçador de vampiros de verdade e entrar, junto com ele, na fortaleza do monstro para salvar a mocinha.
Notável êxito entre o público jovem de sua época, não apenas por conta de sua condução bem ajustada, envolvente e precisa, mas também pelo carisma irresistível dos personagens principais, Charley e Peter Vincent (cujos atores também soam como escolhas perfeitas, em especial, Roddy McDowall), “A Hora do Espanto” é um trabalho extraordinariamente hábil no crescendo de tensão, ritmo e ameaças sobrenaturais que entrega com descontração e perícia ao expectador –seus efeitos de maquiagem, por sinal, extremamente gráficos, são primorosamente ostensivos, entregando os vampiros mais assustadores e impressionantes em muito tempo nas telas de cinema.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Homem-Aranha - Longe de Casa

Apesar do jovem Tom Holland ser o intérprete que melhor reuniu as características de Peter Parker/Homem-Aranha no cinema, muitos foram os que torceram o nariz para a versão do personagem inserida no Universo Marvel Cinematográfico, sob a alegação de que ele foi descaracterizado, perdendo muito de sua essência ao ser atrelado ao Homem de Ferro de Tony Stark, o que deixou de lado certos elementos seus tidos por determinantes.
Há um pouco de razão nisso; e tais reclamações tendem a se intensificar ainda mais com este “Homem-Aranha Longe de Casa”.
Vindo de uma esteira de mais de vinte filmes, e dando continuidade a um dos mais impactantes dentre eles (o absolutamente espetacular “Vingadores-Ultimato”), o novo filme do Homem-Aranha padece de um problema semelhante ao que acarretou em “Homem de Ferro 2”: Os realizadores, conscientes de que sua narrativa particular integra todo um universo rico, vasto e compartilhado, por vezes se esquecem de focar em seu protagonista e em sua história afundando com frequência num mar de referências sobre acontecimentos que já se sucederam –ou que ainda haverão de se suceder.
É difícil, por exemplo, abordar “Longe de Casa” como uma narrativa independente –coisa que ele não é, e os críticos mais vorazes terão de aceitar o fato que daqui para frente será assim –ele se inicia meses após os acontecimentos de “Ultimato”, ou seja, depois de todas as pessoas dizimadas pelo estalar de dedos de Thanos (fenômeno nomeado aqui como ‘Blip’) serem novamente trazidas à vida –o que inclui o protagonista Peter Parker (Tom Holland, mais adequado ao papel do que nunca) e quase todo seu séquito de coadjuvantes; sua bela Tia May (Marisa Tomei), seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon), seu interesse amoroso M.J. (Zendaya), seu rival Flash Thompson (Tony Revolori) e alguns outros.
Aqui, todo o núcleo estudantil daquele elenco arruma as malas para um tour pela Europa –o que confere ao filme as belas ambientações do Velho Continente como Veneza, Praga e Paris. Porém, é claro que os planos de Peter –de conseguir se declarar em grande estilo à garota que ama –serão frustrados por Nick Fury (Samuel L. jackson) que irá requisitar as habilidades de sua identidade super-heróica; um dos poucos disponíveis após as inúmeras baixas e desistências ocorridas em “Ultimato” (algumas delas mostradas em um clip intencionalmente dramático, mas involuntariamente cômico, visto no início).
Fury precisa do auxílio de Peter, ou melhor, do Homem-Aranha, porque gigantescas criaturas desconhecidas, os Elementais, apareceram no mundo criando caos e destruição. O único a se opor a elas vem a ser Quentin Beck (Jake Gyllehhaal, ótimo), segundo o próprio, um superherói vindo de uma realidade paralela ostentando poderes que fazem dele o único salvador à mão –Peter seria assim uma espécie de ajudante.
Até quase a metade de sua duração, “Longe de Casa” divide-se assim entre as tentativas algo atrapalhadas de Peter em ser um adolescente normal –tentando flertar com M.J., inventando estratagemas elaborados para encobrir sua vida dupla ou simplesmente buscando se desvencilhar das exigências de Fury –e seus esforços para conter a ameaça dos Elementais ao lado de Quentin Beck.
No entanto, não é surpresa para ninguém que tenha lido quadrinhos ou tenha um mínimo de conhecimento da mitologia do Homem-Aranha que Quentin Beck é, na verdade, o vilão ilusionista Mysterio –e essa revelação não tarda a ocorrer dando uma guinada até previsível, mas bastante interessante à trama; tão mais interessante pela maneira orgânica com que os roteiristas souberam enraiza-la no contexto do Universo Marvel dando, inclusive, ao Mysterio toda uma funcionalidade cinematográfica que chega a nos fazer perguntar por que esse antagonista não havia sido aproveitado antes.
Como pano de fundo, as paisagens européias de cartão-postal.
Há outro pano de fundo também: A ressonar como um dos empuxos morais e sentimentais da trama está o tempo todo a lembrança de que Tony Stark, o mentor de Peter Parker, não vive mais; e o peso (um tanto quanto grande para o jovem rapaz) de que é ele quem deve herdar agora esse legado.
Eis aí, portanto, um dos motivos para a maior grita dos fãs mais devotados do Aranha: A de que Tony Stark ocupa aqui o papel existencial que seria de direito e de fato do Tio Ben nesta nova versão do herói –o exemplo de sacrifício, heroísmo e responsabilidade que o empurra para frente e o motiva a continuar sendo o Homem-Aranha.
Da forma como é concebido, o filme paga um tributo desmedido ao herói tombado e, na opinião de alguns, descaracteriza seu protagonista real: “Longe de Casa” segue os tópicos narrativos dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro (dirigidos por Jon Favreau que aliás tem aqui um papel também ele fundamental), com tamanha preservação de referências e analogias que Peter quase deixa de ser o Homem-Aranha para ser uma espécie de Homem de Ferro Jr.(!)
Quase. Porque uma série de elementos genuínos do herói ainda estão lá. Porque Tom Holland é encantador e inescapavelmente certeiro em sua personificação. E porque o diretor Jon Watts compreende aqui de maneira ainda melhor que em “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” que aquilo que define o herói é sua condição perene e periclitante de um ser humano falho passível de se meter em enrascadas mais do que em escapar delas, e com todos esses atributos a lhe pesar ainda tenta salvar o dia e seus entes queridos.
A lição primordial –e à época inovadora –deixada pelo criador Stan Lee, que o Homem-Aranha incorpora como nenhum outro e que a Marvel Studios (mais que qualquer outra produtora) compreende como ninguém.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha - De Volta Ao Lar

Parece escapar à compreensão de alguns que o sucesso conquistado pela Marvel Studios com seu universo compartilhado ao longo de vários filmes não se deve somente pela excelência técnica (exercida, sobretudo, no quesito de efeitos visuais) ou pela competência artística: Ela se deve, acima de tudo, porque a Marvel tem o bom senso raro de compreender integralmente seus personagens.
Essa característica fica totalmente clara em “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –obra cujo protagonista a Marvel agora tem em mãos devido à um acordo (e a uma espécie de clamor popular, também) com os estúdios da Sony.
A dica já é dada no princípio do filme, quando surge escrito na tela, “Um Filme de Peter Parker” –embora a intenção seja uma galhofa (como muitas que o personagem protagonizará), ali há algo de verdadeiro: Este filme é, sim, sobre Peter Parker. O Homem-Aranha, a identidade que ele assume para combater o crime, impulsionado pela obtenção de seus poderes de aranha e por um entusiasmo característico da juventude, é um detalhe que determina a narrativa, mas seu cerne emocional e moral é, o tempo todo, Peter Parker, interpretado com vivacidade e profundidade por Tom Holland que, desde sua participação em “Capitão América-Guerra Civil”, ganhou não só a honra de viver o personagem agora oficialmente inserido no Universo Marvel Cinematográfico (e neste filme, tal aspecto é empregado numa infinidade de detalhes saborosos), mas também o direito de ser considerado até então a melhor personificação em cinema do personagem –que me perdoem as esforçadas tentativas de Tobey Maguire e Andrew Garfield...
Morador de classe média do Queens, em Nova York e estudante do ensino médio, o novo membro apadrinhado por Tony Stark (Robert Downey Jr. sempre fazendo sua participação valer a pena) do grupo dos Vingadores, tem a peculiaridade de ser um adolescente de quinze anos. Talvez, seja por isso que, apesar de sua imensa ansiedade, Peter não receba, ao longo de meses, nenhum telefonema de seu novo tutor para alguma missão além daquela em “Guerra Civil”, onde ele foi apresentado; e as cenas iniciais, que mostram os eventos daquela produção vistos por outra ótica já são um show à parte, e uma indicação das mais inspiradas do humor genuíno e irresistível do qual este filme vem dotado.
As coisas se complicam para o Homem-Aranha quando, em sua patrulha habitual como “herói do subúrbio”, ele descobre o esquema de Adrian Toomes (Michael Keaton, sensacional) que, desde os eventos mostrados em “Os Vingadores”, vem obtendo clandestinamente tecnologia alienígena e vendendo-a no mercado negro. A despeito dos alertas de Tony Stark e de seu braço direito Happy Hogan (Jon Favreau, de perfeito timing cômico) para que não se meta em encrencas, Peter decide ir a fundo na tentativa de desmantelar essa quadrilha, mas as atribulações dessa vida de vigilante mascarado vão colidir com a já agitada e caótica vida adolescente e estudantil de Peter que precisa equilibrar um romance relutante –com a bela Liz Allan (Laura Harrier), uma das meninas mais populares da escola –a amizade com o divertido Ned (Jacob Batalon), que acaba descobrindo seu segredo, e seus esforços atrapalhados para tentar ocultar isso tudo de sua Tia May vivida por uma deliciosa Marisa Tomei.
E sobram assim oportunidades (nenhuma delas desperdiçada) para que “De Volta Ao Lar” faça magníficas referências aos filmes de John Hugues, essenciais retratos desse tipo de dramaturgia adolescente; e a seqüência que emula um dos momentos antológicos de “Curtindo A Vida Adoidado” é nada menos que genial!
Está aí, pois, na variedade de cores e perplexidades da rotina de Peter Parker a grande sacada que faz da Marvel –e do universo ao qual ela dá corpo –algo tão especial: Os mesmos elementos que fazem e que fizeram o fascínio perene de gerações inteiras de leitores se vêem preservados e transpostos com brilho na tela do cinema.
No caso de Homem-Aranha/Peter Parker, são as irônicas exigências da vida heróica que insistem em intervir em suas tentativas de ser feliz numa vida normal, e o filme magistralmente dirigido pelo jovem Jon Watts utiliza desses expedientes com habilidade seja em seu humor, seja em seu drama.
Em meio à isso tudo, ele ainda insere cenas prodigiosas de ação e uma admirável construção de praticamente todos os personagens –as revelações a respeito de Adrian Toomes no terço final do filme são notáveis e surpreendentes: Precisa mais para que este seja o melhor filme do Homem-Aranha realizado até hoje?

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Capitão América - Guerra Civil

A sequência de filmes que a Marvel Studios vem entregando desde 2008, não serve apenas e tão somente para quebrar recordes de bilheteria, felizmente, ela serve também para eles se aprimorem a cada produção. Melhorando. Superando cada filme para no seguinte fazer algo ainda mais instigante, mais aprofundado em relação aos seus heróis, e ao modo como percebem e são percebidos pelo mundo à sua volta.
Nem sempre funciona, como se pode conferir em “Vingadores-A Era de Ultron”, não um filme ruim, mas problemático.
Em seus acertos, porém (e eles são muito mais freqüentes que seus erros), a Marvel entrega obras vibrantes, que não só representam todo o conceito do que um filme comercial realmente deve ser, mas também demonstram um bom senso raro e requintado no tratamento dos personagens. Se “Capitão América-O Soldado Invernal” já era um dos títulos no qual isso se expressou com mais primor, então “Capitão América-Guerra Civil” orquestrado pelos mesmos diretores Anthony e Joe Russo faz jus ao alardeado título de “melhor filme da Marvel até aqui”.
Ele é, e com muito mais honras do que se pode imaginar.
Quando “Guerra Civil” começa, vemos que a formação dos Vingadores permaneceu a mesma desde o final de “A Era de Ultron” (e aí percebemos nos Irmãos Russo uma coerência que faltou no diretor e roteirista Joss Whedon naquele filme; a capacidade de manter-se conectado à lógica que norteia cada um dos filmes e que define os personagens, sem desvirtuá-los de uma produção para a outra).
Não tarda para que o Secretário de Defesa dos EUA, o General Ross (Willian Hurt, oriundo do filme “O Incrível Hulk”, lá de 2008), os confronte com um dilema: Após os acontecimentos catastróficos dos últimos filmes –e que têm à rigor, os Vingadores como protagonistas –a ONU cria um tratado que obriga os heróis uniformizados a prestar contas ao governo mediante suas ações. Ou seja, obedecer ordens, o quê implica salvar quem eles mandam salvar, e deixar de lado qualquer outra ação não autorizada.
O Capitão América (Chris Evans, em um ótimo trabalho) deseja ser guiado somente por seu altruísmo e não por interesses políticos, e por isso diz não. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr., mostrando valer cada centavo de seu cachê milionário) deseja espiar um pouco da culpa que lhe consome pelos atos do robô Ultron (que era, afinal de contas, criação sua) e por isso diz sim.
Uma ruptura então ocorre no Universo Marvel Cinematográfico como o conhecíamos, com cada herói indo para um lado da discussão.
Se há uma decisão genial em “Guerra Civil” é a de não santificar nem demonizar nenhum dos lados: ambos estão certos, e ambos estão errados. É a mesma premissa (porém empregada em um conceito diferente) que fez o maior sucesso nos quadrinhos da Marvel quando uma saga de mesmo nome foi publicada à pouco mais de uma década.
Até mesmo o vilão de fato deste filme espetacular, o Barão Zemo (aqui, coronel, interpretado por Daniel Bruhl) adquire motivações que o humanizam.
Em meio à tudo isso, os Russo ainda demonstram um controle elegante e apurado da imensa diversidade de personagens e poderes que têm em cena, num show de direção que até outro tempo era privilégio somente de Bryan Singer e seus X-Men: Além do Capitão América e do Homem de Ferro, há também a Viuva Negra (Scarlett Johansson, fantástica), o Pantera Negra (Chase Bosewick, surpreendente), o Falcão (Sam Wilson), o Soldado Invernal (Sebastian Stan), o Visão (Paul Betany), a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), o Máquina de Combate (DonCheadle), o Homem Formiga (Paul Rudd, hilário) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), cada um deles com um arco próprio e uma importância própria dentro da trama (e é necessário ressaltar aqui o modo engenhoso com que isso é feito com o Pantera Negra).
Há mais uma personagem além desses, e ele responde por um dos mais genuínos sorrisos de satisfação que o expectador dará no cinema em 2016: O Homem Aranha, interpretado com minúcia espantosa e brilhantismo flagrante por Tom Holland –que me perdoem os anteriores Tobey Maguire e Andrew Garfield, mas este jovem é a melhor versão cinematográfica do Homem Aranha de todos os tempos, e consegue fazer isso tudo em meros quinze minutos!

Por fim, pode-se registrar outro feito, também raro, que os Irmãos Russo e a Marvel Studios obtiveram de um filme comercial: O de conseguir fazer o expectador sair eufórico de dentro do cinema, e querendo muito mais, de um filme que excede duas horas de duração.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

No Coração do Mar

É notável perceber a evolução de Ron Howard como diretor ao longo de sua carreira.
No início, em seus primeiros filmes nos anos 1970 e 1980, ele não parecia ser levado muito à sério, certamente por ser o típico ator que arriscava sentar na cadeira de diretor. Isso se reflete em filmes bastante comerciais, despretensiosos e leves como "Splash-Uma Sereia Em Minha Vida", "Fábrica de Loucuras" ou o épico romântico "Um Sonho Distante".
Contudo, desde dessa época é perceptível um tino muito afiado dos elementos que, no final das contas, fazem um bom filme.
Howard sempre teve um indelével instinto para filmar.
Nos anos 1990, seus trabalhos já exigiam um pouco mais de respeito por parte de público e crítica, sobretudo "Apollo 13" cuja esmerada reconstituição aliada à um aparato técnico espetacular rendeu um produto que concorreu à oito prêmios no Oscar de 1995 (o de Melhor Filme, só para constar, ele perdeu para "Coração Valente"). A partir daí, era como se Ron Howard tivesse sido enfim abalizado como cineasta: Ele fez, entre outros projetos, o bom "Ransom-O Preço de Um Resgate", ganhou o Oscar em 2001 por "Uma Mente Brilhante", encarregou-se do blockbuster "O Código Da Vinci", voltou ao Oscar em 2008 com o thriller político "Frost/Nixon".
É bem provável que seu melhor trabalho seja o mais recente "Rush-No Limite da Emoção", que reconstitui a obcecada e inacreditável rivalidade entre James Hunt e Nikki Lauda no GP de 1976.
No novo "No Coração do Mar", Howard reúne-se mais uma vez com o ator daquele filme (o sempre esforçado Chris Hemsworth) para relatar, em tons poderosamente épicos, o acontecimento real que levou à criação do livro "Moby Dick".
Tudo começa com o escritor Hellmann Melville em pessoa (interpretado por Ben Whishan, o Q dos filmes de 007 com Daniel Craig) à procura de um certo senhor que, ele crê, irá lhe relatar a história que poderá render material para o seu mais extraordinário trabalho: Um livro sobre a obsessão de um capitão de navio baleeiro em busca de uma descomunal baleia branca.
De início arredio, o velho (a última testemunha dos eventos, interpretado pelo grande Brendan Gleeson na idade adulta e pelo ótimo Tom Holland, quando jovem) revela a ele passo a passo a história que envolve as personalidades conflitantes de dois homens, o capitão Pollard e seu primeiro-imediato Chase (Hemsworth, uma boa presença), e como essa dinâmica entre os dois terminou conduzindo tripulação e embarcação pelos confins dos mares do Oceano Pacífico,onde cruzaram com uma baleia branca monstruosa, e enfrentaram percalços que marcaram a vida de todos os que sobreviveram.
Não é o melhor trabalho de Ron Howard nem por um decreto; não possui o equilíbrio de "Uma Mente Brilhante", nem a objetividade pulsante de "Rush", na verdade, sua narrativa muitas vezes peca pelo peso da tensão imposta em muitos momentos, tornando-o desgastante e longo.
Mas é nitidamente uma obra que pede por um diretor no absoluto controle de seu ofício, e isso, Howard o faz com evidente primor: A fotografia, com imodesto emprego do recurso 3D, funciona que é uma beleza, o elenco de um modo geral tem uma competência uníssona, e a julgar pela dificuldade que sempre se alardeia ser o fato de filmar em alto-mar, o resultado detalhado e rico que se vê na tela, seja em ritmo e continuidade, merece ser chamado de obra de arte.
"No Coração do Mar" pode não agradar tanto aqueles expectadores que se ressentem de um trabalho menos denso e dramático (como a grande maioria dos lançamentos que se espera para as férias de fim de ano), mas não deixa de ser um espetáculo de realização.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O Impossível

2004. Tailândia. Buscando viver a tranquilidade de suas férias de natal, a família Bennet acaba sendo uma das muitas colhidas numa catástrofe até então impensável: o tsunami do norte da Ásia, que tirou milhares de vidas e instantaneamente reduziu o lugar a escombros. Lutando para sobreviver, Maria e seu filho mais velho Lucas buscam vencer as limitações expostas pelos terríveis ferimentos, e encontrar seus demais familiares, Eric e os pequeninos Thomas e Simon, entre as tantas vítimas que atolam as ruas e hospitais. 
Nesta magistral reconstituição de um fato real, executada pelo ótimo diretor espanhol de "O Orfanato", J.A. Bayona, o silêncio revela-se tão assustador e pungente quando os sons ensurdecedores que irão encher de perplexidade a tela, sobretudo na avassaladora cena do tsunami. 
Matreiro conhecedor do cinema de terror que é, Bayona trabalha brilhantemente seus tempos e momentos palatáveis, em cenas de baixa voltagem, nas quais evidencia as primorosas atuações de Naomi Watts e do garoto Tom Holland, para construir, sem que o expectador perceba, a moldura perfeita para o pesadelo que materializará dentro em breve. 
O fato de ser baseado num acontecimento real é somente um detalhe que acrescenta ainda mais poder ao seu trabalho. Todos os detalhes estão ali para depor a favor do andamento da trama e seu avanço, até mesmo aqueles que não viemos a perceber. 
No primeiro ato, por exemplo, tudo faz lembrar o presságio nefasto da tragédia: O som ameaçador das ondas, o balão que se afasta estranhamente dos demais, a pausa incômoda que a montagem impõe entre uma cena e outra. 
Quando o filme mostra a quê veio, fica difícil citar um dado que o exemplifique: Tanta coisa acontece em cena, tantos são os sentimentos e as implicações sugeridas pela direção que o filme em si parece refletir o turbilhão que arrebata seus personagens, e a encenação que se constrói a partir dali é de um primor, e de um apuro visual que chega a sufocar o expectador. 
Há momentos em que essa perfeição corre o risco de ser comprometida, é verdade, quando Bayona deixa-se seduzir demasiado pela história que conta e abraça o melodrama. Nada disso, porém, impede “O Impossível” de ser o grande filme que é, de sagrar-se como uma experiência cinematográfica de inquestionável espanto e de incontornável emoção.