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sábado, 27 de janeiro de 2024

Saltburn


 Vaza maldade pelos poros neste novo trabalho da diretora e roteirista Emerald Fennell (do brilhante e cáustico “Bela Vingança”); maldade que os personagens de modo geral ostentam sem discriminação, às vezes, até inconscientes do quão estão sendo maus, e esse é um dos tantos elementos que o torna alarmante.

“Saltburn” começa num turbilhão de cenas (que me remeteram o prólogo de “Persona”, de Bergman, provavelmente não mais que uma impressão...) que, logo notamos, são espécies de flashbacks indicativos de instantes que dentro em breve virão. A trama se normaliza até compreendermos que tudo é uma lembrança de seu protagonista, Oliver Quick, vivido com empenho singular pelo excelente Barry Keoghan (de “Os Banshees de Inisherin” e “Eternos”). Oliver é, em princípio, um verdadeiro peixe-fora-d’água: Um bolsista estudando na prestigiada Universidade de Oxford. Excluído da maioria pela evidência de sua classe social inferior, Oliver primeiro alimenta certo interesse pelo abastado Felix Catton (Jacob Elordi, da série “Euphoria”) e depois se torna seu amigo inseparável. A ponto de Felix, durante as férias de verão, convidar Oliver para a suntuosa propriedade particular de sua família, Saltburn, onde passarão alguns meses.

Lá, Oliver terá contato com a estranha e perniciosa família de Felix: Ricos, mimados, hedonistas e inconsequentes, todos se revelam parasitas da comiseração alheia; Elspeth (Rosamund Pike), a mãe, é uma matriarca minimalista, fútil e obcecada por detalhes; Sir James (o veterano Richard E. Grant, de “Star Wars-A Ascensão Skywalker”), o pai, é um homem completamente crédulo de que o dinheiro compra (e, ocasionalmente, repele) tudo o que ele quiser; Venetia (Alison Oliver), a irmã, é uma mulher auto-destrutiva fascinada na própria capacidade para sabotar as pessoas ao seu redor; Farleigh (Archie Madekwe, de “Midsommar” e “Viajantes-Instinto e Desejo”), o primo, é um sangue-suga oportunista tendo prontamente identificado um outro sangue-suga oportunista (o próprio Oliver) e disposto a tudo para hostilizá-lo; e Pamela (Carey Mulligan) é a amiga trágica, desorientada e non-sense que, até um certo ponto, abastece a sanha por degradação humana de toda essa gente.

Nas mãos deles, curiosamente, Oliver não se torna uma vítima indefesa: Ele identifica os gatilhos viciosos de cada um –não sem deixar de ceder, vez ou outra, ao crescente desejo homossexual por Felix, ou cair nas mesquinhas armadilhas morais engendradas pelo imaturo e inseguro Farleigh –e, aos poucos, passa a manipular a todos, conduzindo a um desfecho inesperado.

Em suma, não resta um único ser humano que não seja torpe nesta amoral e escatológica ciranda de intrigas pós-modernas elaborada por Emerald Fennell. Poderia ser uma obra desagradável, uma exposição nauseante da sordidez humana em seu estado mais puro e impune, não fosse a habilidade brilhante de sua realizadora em conferir ao filme uma condução envolvente e fluida, e o talento do elenco ao compor personagens sem qualquer concepção de escrúpulo aos quais se é possível acompanhar devido ao humor bem administrado e à fascinante humanidade ocasionalmente evidenciada.

A partir de determinado ponto de sua narrativa, “Saltburn” lança mão de reviravoltas tão abusrdistas quanto radicais em sua natureza insólita, das quais quanto menos se souber, mais saboroso será ao expectador descobri-las –e também isso é um indicativo notável da capacidade de Emerald Fennell, como diretora e como escritora, para vislumbrar o mal sem jamais se infectar com ele.

Como um microcosmos alegórico sobre as pulsões muito reais à contaminar a psiquê humana, “Saltburn” é uma obra que exala um divertimento ácido, atrevido e desafiador.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2024


 Mal nos acostumamos com a ideia de que o frenesi de 2023 entrou em sua reta final, e já temos entre nós a lista dos indicados ao Globo de Ouro do ano que vem! O que já confirma algumas previsões para uma certa estatueta dourada; e aponta para algumas surpresas também. Eis, portanto, os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

Elementos

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Suzume

Wish

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Folhas de Outono (Finlândia)

Io Capitano (Itália)

Vidas Passadas (Estados Unidos)

Society of the Snow (Espanha)

Zona de Interesse (Reino Unido/Estados Unidos)

MELHOR FILME DE DRAMA

Anatomia de Uma Queda

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Zona de Interesse

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Air

American Fiction

Barbie

The Holdovers

Segredos de um Escândalo

Pobres Criaturas

A categoria de animação tem, em “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, seu maior favorito, com a boa repercussão de “Super Mario Bros” e o fascínio recente provocado por “Suzume” colocando-os logo atrás. Na categoria dos estrangeiros, curiosamente, dois filmes produzidos (e, portanto, representando) os EUA concorrem a Melhor Filme em Língua Não Inglesa, tratam-se de “Vidas Passadas”, produzido pela A4 e falado, em sua maior parte no idioma sul-coreano, e o britânico “Zona de Interesse”, dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), cuja trama é toda falada em alemão. Além disso, esses dois e mais o francês “Anatomia de Uma Queda” concorrem também na categoria maior de Melhor Filme de Drama. Contudo, nessas categorias principais, apesar da presença intimidadora da grande obra de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, quem reina supremo são “Oppenheimer” (em Drama, com 8 indicações) e “Barbie” (em Comédia e Musical, com 9, o recordista!), mostrando que a dobradinha nos cinemas ocorrida no meio do ano ainda está a fascinar público e crítica. Interessante será vermos para qual deles a predileção do Oscar irá pender, uma que vez que lá os filmes concorrerão todos numa só categoria.

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Bradley Cooper (Maestro)

Leonardo DiCaprio (Assassinos da Lua das Flores)

Colman Domingo (Rustin)

Barry Keoghan (Saltburn)

Cillian Murphy (Oppenheimer)

Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Annette Bening (NYAD)

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)

Greta Lee (Vidas Passadas)

Carey Mulligan (Maestro)

Cailee Spaeny (Priscilla)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Nicolas Cage (Dream Scenario)

Timothée Chalamet (Wonka)

Matt Damon (Air)

Paul Giamatti (The Holdovers)

Joaquin Phoenix (Beau Tem Medo)

Jeffrey Wright (American Fiction)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Fantasia Barrino (A Cor Púrpura)

Jennifer Lawrence (Que Horas Eu Te Pego?)

Natalie Portman (Segredos de um Escândalo)

Alma Pöysti (Folhas de Outono)

Margot Robbie (Barbie)

Emma Stone (Pobres Criaturas)

Entre os atores, até agora ninguém parece mais relacionado ao prêmio do que o irlandês Cillian Murphy, embora Cooper e Dicaprio tenham chances de crescer ao longo da temporada. Na categoria de intérprete cômico, em meio à nomes de grande estatura como o sempre amado pelo público Nicolas Cage, o ótimo Timothée Chalamet e os sempre competentes Paul Giamatti e Matt Damon, além de Joaquim Phoenix, surpreendentemente indicado pelo terror “Beau Tem Medo” (há quem lamente ele não concorrer em Ator Dramático por “Napoleão”, eu certamente não sou uma dessas pessoas), o favoritismo acabou indo para Jeffrey Wright por seu trabalho em “American Fiction”, premiado no Festival de Toronto e, recentemente, no People’s Choice Awards.

Entre as atrizes, muitos torcem por uma vitória da excelente Lily Gladstone na categoria de drama, ela que é uma das forças maiores do filme de Scorsese, a despeito da forte concorrência de Annette Bening; na categoria de comédia, podemos perceber que Jennifer Lawrence, nem fazendo uma comédia chula e vulgar consegue perder a predileção do público e da crítica (embora o seu filme também seja realmente bom), mas ela tem de enfrentar a franca favorita ao prêmio, Margot Robbie, a Barbie em pessoa!

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (Pobres Criaturas)

Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

Ryan Gosling (Barbie)

Charles Melton (Segredos de um Escândalo)

Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt (Oppenheimer)

Danielle Brooks (A Cor Púrpura)

Jodie Foster (NYAD)

Julianne Moore (Segredos de um Escândalo)

Rosamund Pike (Saltburn)

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

MELHOR DIREÇÃO

Bradley Cooper (Maestro)

Greta Gerwig (Barbie)

Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

MELHOR ROTEIRO

Greta Gerwig & Noah Baumbach (Barbie)

Tony McNamara (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Eric Roth & Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

Seria esta a grande chance de Robert Downey Jr. (inclusive para chegar ao Oscar como forte favorito)? É o que, até aqui, está parecendo. Entre as coadjuvantes mulheres, Jodie Foster parece destacar-se soberana, entretanto, os trabalhos de Julianne Moore e Da’Vine Joy Randolph (de “Cidade Perdida”) têm tempo para crescerem até a premiação.

Na categoria de diretores, temos a disputa que parece monopolizar as atenções entre Christopher Nolan e Greta Gerwig (com ligeira vantagem para Nolan em vista da natureza mais séria de seu filme), com Martin Scorsese correndo, por enquanto, por fora. É de se supor que a Imprensa Estrangeira compense, entre Nolan e Gerwig, aquele que perder em Direção com o prêmio de Roteiro.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Jerskin Fendrix (Pobres Criaturas)

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

Joe Hisaishi (The Boy and The Heron)

Mica Levi (Zona de Interesse)

Daniel Pemberton (Homem-Aranha Através do Aranhaverso)

Robbie Robertson (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Addicted to Romance, Bruce Springsteen (She Came to Me)

"Dance the Night", Mark Ronson, Andrew Wyatt, Dua Lipa, Caroline Ailin (Barbie)

"I'm Just Ken", Mark Ronson, Andrew Wyatt (Barbie)

"Peaches", Jack Black, Aaron Horvath, Michael Jelenic, Eric Osmond, John Spiker (Super Mario Bros)

"Road to Freedom", Lenny Kravitz (Rustin)

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Guardiões da Galáxia Vol. 3

John Wick 4

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Oppenheimer

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Taylor Swift: The Eras Tour

A categoria Conquista Cinematográfica e de Bilheteria é uma das duas novas categorias criadas pelo Globo de Ouro para esta nova edição –e franca favorita para deixar de existir já no ano que vem... –aparentemente feita para premiar o desempenho na bilheteria de projetos que levam o público às salas nesses tempos de streaming (o que justifica a presença, entre os indicados, do show de Taylor Swift). Nesse sentido, nenhum deles merece mais a ovação do que “Barbie”, a grande bilheteria de 2023.

A entrega dos prêmios e revelação dos ganhadores será realizada no domingo, dia 7 de janeiro de 2024.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Bela Vingança


 “Promising Young Woman” foi o grande vencedor do Oscar 2021 de Melhor Roteiro Original conferido à Emerald Fennell, também ela a diretora do longa. Produzido pela estrela Margot Robbie, “Promising Young Woman” é uma engenhosa trama sobre vingança que, ao seu jeito, alberga certas predisposições em voga nos tempos atuais e que sempre merecem um debate para o discernimento do que é certo e errado: A relativização do estupro; o empoderamento feminino; a masculinidade tóxica; a misoginia institucionalizada e latente.

Numa atuação tão intuitiva quanto primorosa, Carey Mulligan é Cassie Thomas, ex-estudante de medicina que, num determinado ponto da vida, largou o futuro auspicioso que tinha para trabalhar como garçonete num café. Sua rotina consiste de uma inicialmente estranha obsessão: Durante a noite, Cassie finge estar bêbada em bares e boates da cidade, até inevitavelmente chamar a atenção de algum aproveitador. Na hora H, ela sempre termina revelando seu fingimento e intimidando seus covardes algozes.

Não chega a ser uma retalhação violenta a um ato molestador, mas, a direção sugestiva, elíptica e inteligente de Fennell, somada à atuação intensa e contundente de Mulligan fazem parecer, no início, que é: Cassie é elevada, na narrativa que a acompanha, a uma espécie de justiceira.

Notável é perceber a eficiência com que o filme estabelece essas características, sem maiores elementos e até mesmo sem mais informações que elucidem um certo mistério que cerca a protagonista –o do porque ela se comporta de tal forma.

Escrito com brilhantismo singular, o roteiro sabe o momento certo para omitir e para fornecer informações ao público, na medida em que isso ajuda a revitalizar o suspense.

A manutenção desse hábito parece roubar a capacidade de interação social de Cassie –como bem percebem seus preocupados pais, vividos por Jennifer Coolidge (de “Napoleão Dynamite”) e Clancy Brown (de “Highlander” e “Um Sonho de Liberdade”), talvez, os únicos personagens razoáveis em sua profundidade de todo o filme. Tudo parece ter relação com um incidente do passado de Cassie, durante a faculdade, e que tem relação com sua melhor amiga, Nina –uma personagem nunca vista, mais essencial ao plot.

Quando Cassie se encontra com o jovem pediatra Ryan (Bo Burnham),  ela começa a trilhar dois caminhos bastante distintos, e que aparentemente a obrigarão, em algum momento, à uma escolha: De um lado, aceitar o relacionamento saudável e carinhoso que desenvolve com ele; e do outro, o estreitamento incontornável do momento em que sua tão alardeada vingança se sucederá contra o responsável por tudo o que aconteceu, o almofadinha Al Monroe (Chris Lowell, de “Histórias Cruzadas”).

Até mesmo nisso, porém,  o roteiro de Fennell subverte as certezas do público –na crença de que, ao estabelecer duas linhas de ação antagônicas, ela fará da opção entre uma ou outra a materialização da redenção da protagonista. Ledo engano, “Promising Young Woman” faz esses dois tópicos se complementarem com ainda novas e surpreendentes adições nas nebulosas informações que vinha fornecendo ao expectador.

Construído com economia de recursos factuais, mas, sem a menor economia de inteligência, o filme de Fennell cria sequências absolutamente geniais na forma intrincada, mas sempre inteligível, com que os estratagemas de Cassie transcorrem ao longo da trama. Exemplo disso –e possivelmente, a espinha dorsal de toda a história –são os quatro alvos da vingança que, à exemplo de “Kill Bill”, de Tarantino (quem sabe, uma referência) se sucedem de forma episódica: O primeiro, uma colega dos tempos de escola (Alisson Brie) destinada a pagar muito caro por sua conivência; o segundo, uma reitora (Connie Britton) cuja falta de empatia, Cassie vai tratar de (num plano brilhante) voltar contra ela própria; o terceiro, trata-se de um advogado (ponta soberba de Alfred Molina) corroído pela culpa: e o quarto... bem, o quarto alvo de Cassie, e os desdobramentos de sua vingança, representam uma das mais formidáveis guinadas do filme, quiçá de todo o ano de 2020!

É pena que, em sua excelência, “Promising Young Woman” não permite uma elucidação mais específica de suas qualidades: A construção e a execução de todas as facetas de sua premissa estão diretamente relacionadas às surpresas que efetivamente não devem ser reveladas para que a apreciação desta obra fenomenal não se comprometa.

terça-feira, 21 de março de 2017

Educação

O começo de “Educação” é magnificamente promissor: Os créditos iniciais se apresentam expressivos e dinâmicos, sugerindo ritmo e inventividade à narrativa, os primeiros takes até ensaiam uma premissa em torno do universo estudantil (o quê, mais tarde, não se confirma...) e a música sensacional de Paul Englishby estabelece de pronto um espírito de descontração e alegria que não se vê com freqüência no cinema independente norte-americano.
Tão logo sua trama se inicia, contudo, muito dessa impressão se dissolve, ainda que o filme da diretora Lone Scherfig (de “Italiano Para Principiantes”) preserve o tempo todo um interesse satisfatório em acompanhá-lo.
Se há algo que corresponde à expectativa do início, é o trabalho extraordinário da atriz Carey Mulligan. Ela interpreta uma garota adolescente moradora do subúrbio de Londres nos anos 1960, prestes a se formar e a prestar exames na concorrida universidade de Oxford.
Quando ela conhece um playboy com o dobro da sua idade (Peter Sarsgaard, muito bem), aos poucos iniciando com ele um relacionamento, a jovem é introduzida num mundo fascinante de festas, cultura e arte que parece ser, para ela, uma alternativa de bem-estar e diversão ao trabalhoso e enfadonho caminho universitário que lhe foi traçado.
Escrito pelo romancista (e expert em cultura pop) Nick Hornby, este notável drama inglês vem carregado de alto-astral, em grande parte graças à atuação sensível, profunda e descontraída de sua atriz principal, o quê contribui para sua salutar capacidade de alcance ao gosto do expectador.
Aos poucos o filme ensaia uma curiosa análise da complexa condição da mulher moderna nos anos 1960 de então.

sexta-feira, 18 de março de 2016

O Grande Gatsby

A suntuosa versão do diretor de “Moulin Rouge” para o clássico de F. Scott Fitzgerald foi um dos filmes mais aguardados de 2013. Seu forte, não há dúvidas, são os quesitos técnicos (sobretudo fotografia, figurino e direção de arte) que, de início, já dão um banho na versão setentista estrelada por Robert Redford e Mia Farrow. Aqui, Baz Luhrman foi felicíssimo na escolha do elenco: Seu chapa, Leonardo Dicaprio, está perfeito como Gatsby, dosando magnificamente o mistério com o necessário carisma do personagem. O mesmo vale para o sumido Tobey Maguire e para a ótima Carey Muligan, ambos se encaixam com tal perfeição em seus personagens que é preciso dar certo crédito à Luhrman.
 Aspirante a escritor, Nick Carraway (Maguire) instala-se nos arredores mais elitistas de Nova York, ao lado da propriedade de um certo Jay Gatsby, cujas festas que promove ganham repercussão por todo o lugar. Quando Nick finalmente o conhece, surpreende-se com a pessoa prestativa, afável e calorosa que conhece, e logo torna-se cumplice dele, em suas tentativas quase desesperadas de encontrar-se com a prima casada do próprio Nick, Daisy (Muligan). O quê leva Nick a suspeitar que ela e Gatsby tiveram algum envolvimento no passado.
É verdade que Baz Luhrman continua com seus excessos visuais e festivos que por vezes poluem a produção, beirando uma certa histeria, fatores que minaram o resultado final de seu último trabalho o épico ambicioso e profundamente falho “Austrália”.
Aqui, entretanto, esses deslumbres e extravagâncias estão a serviço de uma trama densa e poderosa, que acaba valorizando e compensando tal esforço.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum

Os Irmãos Coen são donos de um talento sem igual. Seus trabalhos são mergulhos indeléveis na complexidade humana dos personagens, desafortunados habitantes dos universos que abordam. Do sério ao caricato, do brutal ao gaiato, eles registram as peculiaridades de seus percalços com doses de ironia e simetria visual que poucos autores são capazes, hoje, de equiparar.
“Inside Llewyn Davis” é, dessa forma, um de seus flertes com o musical. Engana-se, porém, quem pensar tratar-se de uma sondagem ao estilo e prosa de “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, com suas coreografias, seu verniz de irrealidade e sua roupagem à moda dos anos 1950 da “Odisséia” de Ulisses. Em verdade, o tom adotado aqui aproxima-se um pouco (mas muito pouco) da profunda melancolia, e por que não, inevitabilidade que pulsa de “Um Homem Sério”, um trabalho que os Coen, em seu talento primoroso para a caracterização, transformaram numa das mais genuínas e deprimentes experiências do cinema.
Llewyn Davis é um cantor de música folk tentando conquistar um lugar ao sol em Nova York. Não lhe faltam talento, nem apego ao seu estilo musical. Como também não lhe faltam complicações e infortúnios que sempre o impedem de deixar de ser um ninguém para se tornar alguém. O fracasso é um fantasma que paira em sua história a cada momento.
Numa forma de diversificar essa desventura (e, no processo, fazê-la ainda mais agridoce), os Coen fazem com que cruzem seu caminho toda sorte de almas desiludidas, desamparadas e tituradas pela melancolia e ironia da vida: O casal infeliz no amor, mas realizado na música composto por Justin Timberlake e Carey Mulligan; o senhor intratável (John Goodman) que dá carona a Llewyn durante uma viagem, e cujo destino vem de encontro à dissolução moral que ele demonstrou em vida; o empresário obtuso e beligerante de F. Murray Abrahams; e tantos outros.

Assim como em “Um Homem Sério” é difícil definir se o quê mais interessa os Coen é o carinho que sentem por seu protagonista (o magnífico Oscar Isaac) ou os percalços cruéis que eles fazem questão de impor ao seu caminho.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Inimigos Públicos

A precisão de perceber uma época que se transforma é o retrato nunca menos que sublime que nos proporciona o diretor Michael Mann. 
Tal qual é inerente em sua filmografia, os protagonistas e seus asseclas surgem como seres humanos mergulhados nos meandros de suas profissões: Assaltante de banco, no caso do John Dilinger de Johnny Depp; Agente federal, no caso do Neal Purvis de Christian Bale. Mas o registro de Mann, feito com câmera digital do próprio gênero de gangster é que é verdadeiramente desconcertante. A beleza de enquadramentos assimétricos é logo arrebatada pela imprevisibilidade da percepção que a imagem granulada nos provoca. Não há dúvida, aquele é um mundo prestes a mudar. 
E como toda mudança, esta certamente será dolorosa. Os tiroteios a céu aberto em praça pública do Velho Oeste ficaram para trás, mas ainda não longe o suficiente. As leis, a indústria e o progresso tomam de assalto os EUA (assim como a Grande Depressão, seu efeito colateral) e acabam domesticando os homens e regulamentando as cidades. Mas ainda há resquícios desses cowboys de arma na cintura nesses homens civilizados da década de 1930. E Neal Purvis é um deles. O selvagem pistoleiro agora em contato com o homem moderno dentro de si, um certo receio ao ser posto a frente do ainda embrionário Bureau de Investigação. Purvis, porém, tem pouco tempo de cena. É Dilinger a fonte real do fascínio da narrativa. E Johnny Depp, após vinte anos de carreira, e tantos ótimos filmes, aqui parece revelar um novo ator, uma nova forma de interpretar, um novo Johnny Depp, imerso num realismo de pólvora e sangue. Assistir um ator encontrar algo assim é uma jornada incrível. 
Seria injustiça não citar a linda Marion Cotillard, perfeita no contraponto humano e lúdico de uma história que é quase lendária. Em seus momentos centrais “Inimigos Públicos” tem a visceralidade da câmera digital que Michael Mann usou e aprimorou desde o fantástico “Colateral”. No seu princípio e no seu fim, porém, ele retorna às câmeras de cinema, onde o formato widescreen parece emoldurar essa trajetória que não é apenas de John Dilinger, mas de toda uma nação, a caminho de uma nova época, durante a qual só ali, naquele instante, se percebia os efeitos da mudança, e num outro nível, de todo um gênero cinematográfico que nascia então, por meio de homens que, como Dilinger, morriam para se tornarem lendas.

domingo, 1 de novembro de 2015

Drive

Dublê de corridas cinematográficas de dia e piloto de fugas criminosas a noite, jovem motorista vive sua vida alheio àqueles que estão ao seu redor. Sua bela vizinha e seu filho pequeno são quem começam a romper essa curiosa blindagem que parece separá-lo do resto do mundo. Mas as coisas mudam.
Antes encarcerado, o marido da jovem consegue liberdade e trás consigo problemas perigosos que a ameaçam e ao menino também.
Agora, o "Garoto" (que é como chamam o motorista- quando o chamam) deve valer-se de habilidade e astúcia se quiser protegê-los. Desse modo, sua jornada contra a escória humana (e de certa forma, em direção à escória humana) o transfigura no mais trágico dos personagens: Em nome do amor que sente por ela, ele acaba por tornar-se um assassino, cujos atos, o diretor Nicholas Winding Refn (do notável "Guerreiro Silencioso") trata de reprovar por meio de peculiares comentários que ele parece fazer das cenas que elabora: na ausência de uma trilha sonora que lhes dê embasamento (embora a trilha musical, por assim dizer seja retro e espetacular!); na decisão cheia de bravura de não fazer deste um filme genérico da ação; e no modo quase cirúrgico com que extrai qualquer resquício de heroísmo ao mostrar as cenas do “Garoto” eliminando bandidos com desconcertante riqueza de detalhes sádicos, e ainda deixando muito claro a transformação nociva que essas atitudes gradativamente operam em sua persona.
Para tanto, o diretor conta com uma atuação rica e criteriosa de Ryan Gosling, cujos trejeitos que ele dá ao seu protagonista anônimo não são meros cacoetes, mas sinais de identificação e reconhecimento, amostras de uma personalidade que vemos se transformar.
Winding Refn aproveita também para homenagear elementos do cinema americano que vão dos faroestes de Clint Eastwood à brutalidade de Quentin Tarantino, ainda que ao fim, o filme adquira percepções metafísicas que remetem ao seu próprio cinema, e (de novo) à “Guerreiro Silencioso”.
Todavia, não há como negar: é por “Drive” que ele haverá de ser por um longo tempo lembrado.

domingo, 18 de outubro de 2015

Orgulho e Preconceito

No século XIX, as moças da Família Bennet, como toda moça da sociedade inglesa, estão a procura de um bom casamento, e ninguém está mais dedicado a isso que sua mãe, a Sra. Bennet. Entretanto, mais velha delas, Elizabeth (Keira Knightley, adorável), está consciente de que seu temperamento e sua personalidade dificilmente permitirão que se case.
Por isso talvez, Elizabeth é a única que não se empolga com a chegada de um ricaço, e de seu igualmente rico amigo Sr. Darcy (Matthew MacFadyen, de uma excelência à toda prova). 
Inicialmente agressivo, o relacionamento entre os dois se define por uma irreprimível vontade de implicar com o outro, mas aos poucos novos e reais sentimentos vão se revelando. 
Charmosa e graciosa adaptação de Jane Austen, ótimo trabalho do diretor Joe Wright que, com inventividade e descontração, fala muito bem às plateias de hoje, qualidades refletidas na boa atuação da bela Keira Knightley.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Shame

Brandon vive numa cidade grande. Tem um emprego satisfatório e uma rotina da qual evidentemente não pode reclamar. O fato de ser solitário, aparentemente não parece perturbá-lo. Mas Brandon sofre de compulsão sexual. E as formas que ele usa para por em prática esses anseios podem vir por terra com a chegada de sua irmã, e o difícil convívio que estabelece com ela.
 Assim como a diretora Lynne Ransay (de "Movern Callar" e "Precisamos Falar Sobre O Kevin"), o artista plástico e também diretor Steve McQueen ganhou notoriedade por um elogiado trabalho nos circuitos de arte (o notável "Hunger", também estrelado por Michael Fassbender). Aqui, ele retoma a colaboração com o astro para moldar uma aguda observação sobre a vida numa metrópole por meio de um filme que é uma verdadeira experiência sensorial.
Repare na inebriante cena em que Carey Mulligan canta: uma ilha de lirismo em meio à um mar de drama contido.