terça-feira, 1 de abril de 2025

Bridget Jones - Louca Pelo Garoto


 E não é que realmente foi feito o quarto filme da franquia “Bridget Jones”? Iniciada em 2001 com o excelente (e ainda o melhor de todos) “O Diário de Bridget Jones”, esta série de filmes, inspirados nos livros de Helen Fielding, teve sucessivamente como segundo exemplar o simpático ainda que irregular “Bridget Jones-No Limite da Razão”, lançado em 2004 e, também ele, adaptado de um livro da autora. Depois, contudo, algo inusitado aconteceu: Helen Fielding lançou o terceiro livro, “Louca Pelo Garoto”, onde confrontava sua heroína, Bridget Jones, com novas situações numa nova fase da vida. O radicalismo do enredo desse terceiro livro despertou a fúria de fãs da série ao redor do mundo todo, que já naqueles tempos, ameaçaram cancelá-lo!

Essa reação foi de tal forma negativa que os planos para o terceiro filme foram improvisados –foi lançado em 2016, “O Bebê de Bridget Jones”, único filme da série feito a partir de um roteiro original (da própria Helen Fielding) e não de uma adaptação dos livros.

O tempo passou, e a relação dos fãs com o livro “Louca Pelo Garoto”, foi mudando. Não mais revoltados com o descarte do amado personagem de Mark Darcy (Colin Firth, sempre ótimo), os fãs passaram a reparar melhor na construção bem feita do enredo, na ideia revigorante de trazer a protagonista vivenciando um recomeço, enfrentando desafios sob a ótica de uma diferente faixa etária (não mais uma jovem mulher solteira) e no fato da trama, em si, não se mostrar tão acomodada quanto a trama do segundo livro (e filme). Com isso, 2004 testemunhou assim o lançamento de “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto” –produzido pela própria Helen Fielding e pela estrela Renée Zellweger –que enfim traz para o cinema o terceiro livro da série, tornando-se, portanto, o quarto filme!

A inglesa Bridget Jones é viúva desde que seu marido, Mark Darcy faleceu quatro anos atrás (e essa era a manobra narrativa que tanto despertou a fúria das fãs dos livros), no entanto, passado esse prolongado período de luto, Bridget decide que é hora de retomar à vida que tinha antes. O que significa que, apesar de ter agora dois filhos pra criar –o menino Bill (Casper Knopf) e a menininha Mabel (Mila Jankovic) –ela deve voltar a trabalhar (na mesma emissora de TV do primeiro filme) e tentar, na medida do possível, se mostrar aberta a um novo relacionamento, que parece perfeitamente viável na improvável forma do garotão Roxter McDuff (Leo Woodall), embora os flertes de hoje dia acabem dependendo muito mais de ferramentas digitais que a quarentona Bridget Jones deve se virar para aprender a usar!

Essa é, portanto, a tônica do novo “Bridget Jones”, que funcionou à perfeição na literatura e ocasionalmente, funcionou muito bem no cinema também –em grande parte, graças ao acerto fenomenal da escalação de Renée Zellweger ao papel. O diretor Michael Morris parece tão convicto da eficácia dessa fórmula, testada e comprovada junto ao seu público, que ele relaxa em muitos aspectos na sua tarefa. A narrativa de “Louca Pelo Garoto” –diferente da excelência instintiva e acertada com que era conduzida em “O Diário de Bridget Jones” –nunca consegue surpreender o público, em grande medida, porque ao negligenciar este ou aquele personagem, já podemos até adivinhar, de antemão, os rumos que à eles serão dados na trama. Além disso, escalar o respeitável (e indicado ao Oscar!) Chiwetel Ejiofor para um personagem que, em tese, surge como coadjuvante e aos poucos vai ganhando estatura junto à trama, também não pega ninguém de surpresa. Diferente, por exemplo, do que ocorre no primeiro filme com o próprio Mark Darcy –na época, o excelente Colin Firth não era tão famoso, tendo participado dos consagrados “O Paciente Inglês” e “Shakespeare Apaixonado”, mas em papel de vilão. Logo, sua escalação como Darcy era extremamente inspirada –nos passava a ideia de que ele seria quase alguém vilanesco na trama, quando de repente essas primeiras impressões (nossas e da personagem principal) iam sendo subvertidas.

O livro, “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto”, num esperto reaproveitamento da estrutura já clássica do livro original, seguia por tópicos muitos similares aos quais este novo filme não conseguiu se equiparar justamente por causa disso.

Apesar disso, ainda sobram momentos ternos e divertidos (muitos deles por conta da sempre memorável Renée Zellweger, bem ladeada pelo hilário personagem de Hugh Grant), e um agridoce senso de nostalgia deste filme em relação à todos os outros da série.

domingo, 16 de março de 2025

A Face Oculta do Mal


 Mais uma pérola do cinema australiano, “Gone”, lançado em 2007, é uma realização violenta, econômica e enxuta que esconde, por detrás de uma muralha de empolgação juvenil e êxtase frenético, um estudo cada vez mais asfixiante das engrenagens psicóticas capazes de sabotar os relacionamentos entre os mais desavisados. Como em muitos casos exemplares da ficção (e outros até decorridos da vida real) a ilusória sensação de segurança dos mais incautos –tal qual “Violência Gratuita” –permite a aproximação de predadores existenciais, em nada mais interessados além de infligir dano às vidas alheias.

O mochileiro Alex (Shaun Edwards) está em um percurso pelas cidades australianas quando cruza-se com o norte-americano Taylor (Scott Mechlowicz, de “Eurotrip-Passaporte Para A Confusão”). Inicialmente a amizade é instantânea: Taylor se mostra camarada, solícito e uma boa companhia nas mais diferentes situações –sugere um lugar para Alex pernoitar; providencia um encontro casual com duas garotas bem despachadas; oferece carona no dia seguinte; e revela-se um bom companheiro para os momentos de diversão.

Não enxergando nada de errado, Alex deixa-se levar. Ele vai junto de Taylor, a bordo de seu veículo, que sem ele notar, o acompanha rumo a seu objetivo: Rever a namorada Sophie (Amelia Warner, de “Contos Proibidos do Marquês de Sade”) e com ela prosseguir viagem.

É a partir do momento em que conhece Sophie que Taylor começa, aos poucos, a demonstrar sua verdadeira natureza. Manipulador, ele cria pequenos subterfúgios que se transformam em atritos entre Sophie e Alex, levando a harmonia entre o jovem casal a desaparecer.

Numa narrativa de conotações clássicas no gênero de suspense, as facetas maquiavélicas de Taylor nunca são evidentes demais a ponto dele ser desmascarado –somente Alex (um tanto quanto tarde demais) e o público acabam ficando cientes desse lado psicopata dele –ou a ponto de justificar que Sophie e Alex o deixem de lado e se livrem dessa complicação. Isso porque, valendo-se de expedientes muito comuns no cinema australiano –a circunstância da qual os personagens principais nunca conseguem se desvencilhar –o diretor Ringan Ledwidge realiza um suspense objetivo e sucinto em sua condição de baixo-orçamento, asfixiando o público com um progressão que nunca cessa, tendo como pano de fundo, as paisagens áridas do outback australiano –cujos tons amarelados (a lembrar o cultPelos Caminhos do Inferno”) contribuem muito para a sensação de desconforto gradualmente soterrar o clima descontraído e festivo do início.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro


 Sabe-se que o resultado final de “Tropa de Elite” foi acarretado por alguns acasos felizes. Sabe-se que o personagem do Capitão Nascimento, por exemplo, não havia sido planejado para ser o protagonista, mas, sim um coadjuvante; que os personagens principais de fato seriam os cadetes vividos por André Ramiro e pelo saudoso Caio Junqueira. No entanto, a atuação vibrante de Wagner Moura como Nascimento tornou-se tão antológica que o diretor José Padilha, aliado ao montador Daniel Rezende, valeram-se de todas as cenas adicionais possíveis para estender sua participação, além de fazê-lo onipresente no filme atribuindo-lhe uma narração em off –no plano original, a narração pertenceria ao personagem Mathias, de André Ramiro.

Na continuação, “Tropa de Elite 2-O Inimigo Agora É Outro”, o Capitão Nascimento ganha agora o protagonismo de fato e, na narrativa ainda mais mergulhada nos meandros de corrupção política e existencial dos âmbitos brasileiros, um aprofundamento ainda maior de suas características circunstanciais.

Após sofrer um atentado, o agora Tenente-Coronel Nascimento relembra os acontecimentos transcorridos quatro anos antes, quando chefiou uma operação do B.O.P.E., liderada por Mathias, onde foi contida uma rebelião no presídio de Bangu I –evento real, magnificamente bem explorado pelo roteiro objetivo, inteligente e sem firulas de Braulio Mantovani e do próprio Padilha.

Considerada catastrófica, a operação leva Nascimento a ser afastado do B.O.P.E. tornando-se subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Nesse cargo, Nascimento consegue obter, com o passar do tempo, o desbaratamento do tráfico nas favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro, entretanto, o sistema corrupto se adapta à nova realidade permitindo a ascensão de um novo problema: As milícias.

Passando a comandar as comunidades após a neutralização dos chefes do tráfico –e assumindo o lugar desses chefes –as milícias passam a controlar a corrupção do sistema, estendendo o controle do crime até esferas elevadas do poder.

E é aqui, neste ponto de “Tropa de Elite 2” que testemunhamos o surgimento do antagonista mais sensacional do filme –anos-luz a frente de qualquer um dos criminosos do filme anterior. Tendo participado do primeiro filme em uma única (e memorável) cena, o ator Sandro Rocha, intérprete do Major Edivan Rocha, ganha aqui uma importância absurda, tornando-se o líder da principal milícia mostrada no filme.

O curioso é que, poucos anos antes, a TV brasileira exibiu a novela de enorme sucesso “Duas Caras”, onde Antonio Fagundes interpretava Juvenal Antena, um líder de milícia que surgia como um grande e heróico protagonista. É claro o esforço do roteiro e da direção de Padilha, além da fabulosa atuação de Sandro Rocha, em mostrar o Major Rocha como uma contraparte exata de Juvenal Antena, contudo inserido no mundo real, com toda a crítica social e o verdadeiro questionamento moral a que se tem direito.

Beneficiado por técnicas de cinema ainda mais arrojadas que no primeiro filme (exemplo brilhante é já o atentado de sua cena inicial, a primeira de inúmeras cenas magníficas que o filme trará), “Tropa de Elite 2” é infinitamente mais denso do que seu antecessor, na medida em que troca a euforia quase jovial da adrenalina do primeiro filme por um senso de realidade que chega às raias do angustiante ao confrontar o protagonista Nascimento (e, portanto, o próprio público) com uma impunidade criminosa tão arraigada no sistema público que leva o expectador a sentir-se de mãos atadas, indignado diante de tanta corrupção.

Nessa narrativa tão competente quanto exemplar é preciso citar a construção de personagens brilhantes: Não apenas Nascimento sobre um evolução em termos dramáticos e humanos como personagem (o que só potencializa mais a interpretação esplêndida de Wagner Moura) e seu antagonista aqui, Major Rocha, se revela um verdadeiro achado em todos os sentidos, como também somos brindados com uma participação também ampliada do Capitão Fábio Barbosa (Milhem Cortaz, brilhante); as aparições de Fortunatto (o ótimo André Mattos), um apresentador sensacionalista de TV inclinado à conluios com os poderosos; de Clara (Tainá Müller, de “Cão Sem Dono”), uma repórter na busca incauta pela verdade; e de Fraga (o também ótimo Irandhir Santos), um político opositor, mas, curiosamente um aliado de Nascimento na luta contra a corrupção do sistema.

Também desta vez, a circunstância mais infame a cercar o primeiro “Tropa de Elite” foi contornada por José Padilha: Criando toda uma estrutura de pré e pós-produção para esta aguardadíssima sequência, Padilha não permitiu que cópias clandestinas vazassem de sua realização como ocorreu anteriormente, fazendo com que este novo “Tropa de Elite” fosse um sucesso salutar de bilheterias, com seus lucros canalizados para os lugares certos, como tinha que ser.

terça-feira, 4 de março de 2025

Os Vencedores do Oscar 2025


 Foi a noite da consagração de Sean Baker que saiu com nada menos que quatro estatuetas debaixo do braço (Produtor –que ele recebeu pela categoria principal, de Melhor Filme –Diretor, Roteiro Original e Montagem), e olha que “Anora” nem era o franco favorito. Assim como ocorreu em 2020 com “Parasita”, ele só começou a crescer na Temporada de Premiações nas últimas semanas demonstrando em cerimônias como o PGA, o DGA ou o Critic’s Choice que os votantes finalmente haviam descoberto um dos filmes mais deliciosos do ano, que já havia vencido a Palma de Ouro em Cannes.

Por sinal, quando todos acreditavam que a estatueta de Melhor Atriz estava entre Demi Moore e Fernanda Torres, eis que a jovem Mike Madison é anunciada a vencedora, despertando alguma reclamação nas redes sociais brasileiras –não, este definitivamente não é o mesmo caso de Gwyneth Paltrow em 1999; Mike Madison realmente MERECEU o Oscar!

Nós do Brasil, contudo, temos mais motivo para celebrar mesmo: Prestes a fazer 100 anos, o Oscar finalmente concede o prêmio de Melhor Filme Internacional a uma produção brasileira, coroando o avanço qualitativo de nossa cultura cinematográfica, e honrando uma obra que superou a barreira do idioma e das legendas para emocionar o público mundo afora.

O reflexo do quão disputada foi a premiação deste ano é que, salvo os cinco prêmios para “Anora”, houve uma distribuição parcimoniosa para todos os filmes –até mesmo “Wicked”, favorito para levar as categorias técnicas, se contentou com apenas dois prêmios, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. Os únicos favoritismos incontestes, do início ao fim, foram os de Zoe Saldaña e Kieran Culin como coadjuvantes.

MELHOR FILME

"Anora"

MELHOR DIREÇÃO

"Anora", Sean Baker

MELHOR ATRIZ

Mike Madison, "Anora"

MELHOR ATOR

Adrien Brody, "O Brutalista"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Zoe Saldaña, "Emília Perez"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Flow"

MELHOR FOTOGRAFIA

"O Brutalista"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Duna-Parte 2"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"In The Shadow Of The Cypress"

MELHOR FIGURINO

"Wicked"

MELHOR SOM
"Duna-Parte 2"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"A Substância"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Wicked"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“No Other Land"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"The Only Girl In The Orchestra"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“I’m Not A Robot"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"O Brutalista"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"El Mal", de "Emília Perez"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Anora"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Conclave"

MELHOR MONTAGEM

"Anora"

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Capitão América - Admirável Mundo Novo


 Embora persiga o tempo todo a atmosfera conspiratória do excelente “Capitão América-O Soldado Invernal”, este “Brave New World” dá continuidade realmente aos eventos mostrados em “O Incrível Hulk” (de um já longínquo 2008) e “Eternos” (de 2021). Quando reencontramos o protagonista, Sam Wilson (Anthony Mackie), ele já veste o manto de Capitão América a pelo menos quatro anos –desde que assumiu esse legado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”. Sua missão é deter a negociação envolvendo um item desconhecido entre a Sociedade da Serpente, chefiada pelo inescrupuloso Coral (Giancarlo Esposito), e um comprador misterioso. Já aí, a narrativa concebida pelo diretor Julius Onah (de “The Cloverfield Paradox”) orquestra vários pontos de partida (como é de praxe, muitos deles extraídos dos quadrinhos originais) para buscar um todo mais sólido e exuberante, ainda que, ao contrário do que fizeram (e muito bem) os Irmãos Russo nos filmes predecessores, essa solidez e essa exuberância nunca cheguem, de fato, a aparecer.

Se de um lado temos Sam Wilson e seus válidos esforços em corresponder às expectativas dele esperadas como Capitão América –não apenas ao substituir a grande e inspiradora presença de Steve Rogers, mas também ao representar um herói tão icônico sendo também um homem negro a trazer consigo à reboque toda uma questão de representatividade racial –do outro, temos o General Thadeus Ross (vivido por Harrison Ford, substituindo o falecido William Hurt, intérprete anterior do personagem) cuja fama de irascível ele procura avidamente deixar de lado por conta de A) reatar os laços com a filha, Betty (Liv Tyler), em frangalhos desde que ele caçou, por anos, o Hulk, assim como outros heróis, e B) honrar seu novo cargo de presidente eleito dos EUA perante o povo norte-americano.

Para tal intento, Ross quer se aproximar de Sam Wilson, sobretudo, após a bem-sucedida missão em recuperar o tal item desconhecido (que havia sido roubado de aliados japoneses), entretanto, novas complicações tornam a afastá-los: Acontece que o Celestial petrificado em pleno oceano em “Eternos”, vem a ser constituído de um novo minério que as potências mundiais identificaram como tão resistente (ou até mais!) que o cobiçado vibranium de Wakanda, o adamantium. De olho nessa nova riqueza, vários países forjam uma tênue aliança com os EUA, mas um atentado na Casa Branca –perpetrado por Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um ex-supersoldado veterano, ao que tudo indica sob controle mental –pode colocar tudo a perder, e deixar os EUA à beira de uma guerra.

A tarefa deste novo Capitão América em seu primeiro filme solo é, portanto, complicada: Provar a inocência de Isaiah, descobrir quem é o misterioso vilão manipulador que aparentemente está por trás de tudo isso, e deter uma crise política de proporções globais. Tudo isso, contando com a ajuda do novo Falcão, Joaquim Torres (Danny Ramirez), uma vez que o próprio Presidente Ross, como sempre, mostra-se alguém de difícil relação –em especial, por conta do segredo que o liga ao tal vilão manipulador, e que pode levar Ross a uma metamorfose inesperada como a ameaça conhecida por Hulk Vermelho –e, embora desse detalhe seja resguardado para o trecho final do filme, ele não é nenhuma surpresa, uma vez que dominou por completo o material promocional do filme nos últimos meses antes de sua estréia. Grave problema de marketing: Certamente, se a questão envolvendo o Hulk Vermelho e sua aparição no clímax de “Brave New World” tivesse sido guardado exclusivamente para ser visto nos cinemas (como foi feito com as aparições dos Homens-Aranhas, Tobey Maguire e Andrew Garfield, em “Sem Volta Para Casa”) a empolgação provocada pelo filme seria exponencialmente maior.

Como está, “Brave New World” não é um filme ruim, longe da irrelevância maçante de “As Marvels” ou da afetação lastimável de “Thor-Amor & Trovão”, e Anthony Mackie se esforça genuinamente para ser um herói com dignidade e valor, no entanto, os predicados desta produção –leia-se, roteiro (fragmentado e mal-amarrado em muitos momentos) e direção (burocrática e incapaz de evidenciar sequências mais memoráveis) –ficam muito aquém das obras nas quais se inspira e às quais tenta a todo o custo igualar: Os excelentes filmes estrelados pelo Capitão América anterior, Steve Rogers (Chris Evans).

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Um Tira No Jardim de Infância


 No documentário da Netflix, “Arnold”, sobre sua vida e carreira, Arnold Schwarzenegger conta que depois do surpreendente desempenho de público e crítica de “Irmãos Gêmeos”, ele e o diretor Ivan Reitman estavam ávidos por retomar a parceria e explorar novas possibilidades da então recém-descoberta veia cômica do astro. E um roteiro apropriado para isso até que não tardou a aparecer: Entre “Irmãos Gêmeos” e este “Um Tira No Jardim de Infância” (escrito por Murray Salem, Herschel Weingrod e Timothy Harris) passaram-se módicos dois anos.

Grandalhão, truculento e absolutamente adequado a sua profissão de policial em Nova York, John Kimble (Schwarzenegger) persegue a anos o traficante de drogas Cullen Crip (Richard Tyson, de “Te Pego Lá Fora” e “Falcão Negro em Perigo”). A oportunidade finalmente surge quando Crip é visto assassinando um informante que teria lhe passado a localização de seu filho e sua ex-esposa. Com Crisp atrás das grades aguardando julgamento, Kimble e a policial O’Hara (a divertida Pamela Reed, de “Os Eleitos-Onde O FuturoComeça” e “Melvin & Howard”) precisam rastrear a ex-esposa dele para que possa testemunhar no tribunal e condená-lo de uma vez por todas.

A mulher –que, ao que tudo indica, mudou de identidade para fugir do bandido, talvez, até com algum dinheiro dele –está em algum lugar da cidade de Astoria, estado de Oregon, junto com seu filho pequeno. A fim de descobrir quem são, o plano é Kimble acompanhar O’Hara que irá se disfarçar de professora (sua antiga ocupação) e encontrar o filho de Crisp entre as crianças pequenas da Astoria Elementary School. No entanto, durante a viagem, O’Hara fica doente e indisposta, obrigando Kimble, ao chegarem, a tomar o seu lugar. O grandalhão agora terá de se passar como professor de jardim de infância –e essa ideia simples responde por todo o apelo em cima do qual o filme foi construído.

Entretanto, como toca a muitas obras dos anos 1980 (ainda que este filme seja de 1990), a construção resulta impecável: Munido de seu inabalável carisma, Schwarzenegger realmente diverte estabelecendo um contraponto contrastante e hilariante com a fauna de baixinhos com a qual tem de lidar –entre essas crianças, presenças ainda bem pequenas do filho do diretor, Jason Reitman (que também viria a tornar-se diretor, em filmes como “Juno”) e da bela Odette Yustman (de “Cloverfield-Monstro” e “Alma Perdida”). E o diretor Reitman, se não chega a ostentar nenhuma genialidade, compreende perfeitamente isso: Ao explorar a dinâmica que surge entre o gigantesco protagonista e seus pequenos coadjuvantes (inicialmente conturbada, mas depois pouco a pouco harmoniosa e, ao fim, carregada de empatia), assim como a circunstância da farsa em si (a qual garante interesse do início ao fim para o expectador que fica intrigado como tudo se resolverá), ele constrói um filme delicioso de se acompanhar.

Embora estranhamente arrematado, no início e no desfecho, por dois tiroteios que impõem uma atmosfera de tensão e sanguinolência inadequada para o entretenimento familiar que em geral ele parece conceber, o filme de Reitman é bastante simpático, engraçado e leve, entregando até mesmo momentos em que Arnold protagoniza situações românticas, junto da bela e sempre competente Penelope Ann Miller; aliás, todo o elenco feminino –complementado com as participações de Linda Hunt (ganhadora do Oscar 1984 de Melhor Atriz Coadjuvante por “O Ano Que Vivemos Em Perigo”) como a diretora da escola e de Carroll Baker como a mãe igualmente maligna e criminosa do vilão –é brilhante, exigindo uma presença um pouco mais sofisticada da parte do pouco desafiado Arnold Schwarzenegger, normalmente tão a vontade em obras de ação, mas aqui, provando com certa inteligência que tem alguma versatilidade para experimentar alguns gêneros mais distintos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Ainda Estou Aqui


 A obra de Walter Salles, certamente o melhor trabalho de sua carreira, traz uma mensagem que nunca cessa de ser enviada: Aos expectadores do presente, jovens demais para conhecerem na pele, a realidade como ela de fato ocorreu, ele traz o testemunho de Eunice Facciolla Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva que, do dia para noite, no ano de 1975, foi levado de sua casa para nunca mais voltar. O contexto em que se insere este drama real é o do Brasil sob o jugo da Ditadura Militar, tema que já rendeu obras do cinema brasileiro como “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, “O Que É Isso, Companheiro?” e tantas outras.

Os primeiros trinta minutos de “Ainda Estou Aqui” são inesperadamente domésticos, tranquilos. A rotina feliz da Família Paiva composta pelo pai, Rubens (Selton Mello, sempre excelente), a mãe, Eunice (Fernanda Torres), e os cinco filhos, Vera (Valentina Herszage), Eliana (Luisa Kosovski), Ana Lúcia (Bárbara Luz), Marcelo (Guilherme Silveira) e Beatriz (Cora Mora), que vive num confortável subúrbio do Rio de Janeiro. Rubens é arquiteto o que provê a sua família uma condição estável e segura. No entanto, é o auge da perseguição militar aos dissidentes –e o governo militar surge mais truculento e autoritário do que nunca.

Não que Eunice e os filhos se dêem conta disso –a maior preocupação, nesta primeira parte, é mais a viagem que a a primogênita, Vera, fará à Inglaterra, onde irá morar com amigos da família. Há somente uma breve e aflitiva cena –certamente um vislumbre do que virá –quando, numa saída com amigos para ir ao cinema, a jovem junto de um grupo de amigos tem seu veículo interceptado numa blitz policial. A atividade dos revolucionários –focando inclusive no sequestro de figuras políticas proeminentes –está acirrando os ânimos das autoridades e, munidos de poder total e impunidade, eles se valem do sistema para sufocar e oprimir famílias inteiras. Mesmo aquelas que tentam ajudar sem aderir à qualquer tipo de violência.

Na calada da noite ou em conversas que aparentam ser triviais, Rubens discute as circunstâncias com alguns amigos (entre eles o personagem de Dan Stulbach). Nada que fique muito claro ao público, ou aos membros de sua família. Para todos os efeitos, Rubens é alguém afável, sossegado, paciente, amoroso e de fácil convívio. Nenhum desses adjetivos, porém, o livram de, um certo dia, receber uma estranha visita de homens armados e mal-encarados. Ele deve ser levado para interrogatório, dizem eles, e então, Eunice nunca mais vê o marido.

Tentativas de Eunice para elucidar a verdade, asfixiada pela angústia de não ter notícias, são severamente caladas: Ela e a filha Eliana são conduzidas a um quartel da polícia onde Eunice, por dias a fio, padece, tratada como uma criminosa, encarcerada sem direito à regalias básicas como água para tomar banho, e submetida a incessantes interrogatórios. Querem que ela aponte ligações de seu marido com conspiradores. Ela nada sabe.

Mais do que efetuar uma reconstituição de situações de enfrentamento político, onde as oposições são claras, verbalizadas e declaradas –como tantas vezes fez o diretor Costa-Gravas –Walter Salles prefere, em vez disso, focar no cotidiano familiar de Eunice, subitamente, transfigurado por uma circunstância dramática sem precedentes: Seu marido desapareceu, e embora as autoridades neguem até mesmo a prisão (o que transforma sua ausência num absurdo insólito) ela precisa seguir com a vida, cuidando dos filhos (os quais procura a todo o custo poupar da agonia extrema de vislumbrar tão imediatamente a morte sem justificativas do pai) e zelando pela casa e pela família –tarefa que vai se tornando quase impraticável a medida que o dinheiro vai faltando (uma vez que Rubens era o provedor, e ela estava proibida de declarar seu desaparecimento por lei, automaticamente não tinha como sacar dinheiro do banco para sanar necessidades básicas), enquanto o jugo opressor dos militares, ainda rondando o movimento de todos eles, vai se intensificando.

Um tanto longo –pelo menos uns vinte minutos de sua extensa duração poderia terem sido enxugados numa edição mais criteriosa –a obra de Walter Salles, adaptada do livro de Marcelo Rubens Paiva, dedicado ao pai e à mãe, parece dispender um tempo desmedido para processar a sensação de luto que permeia sua narrativa desde o momento em que o personagem de Selton Mello desaparece até o final. Como em outros filmes seus, nem sempre as opções de Salles se harmonizam com o potencial plenamente atingido de seu trabalho, mas ele conta uma história deveras poderosa demais para que detalhes tão pequenos venham a interferir.

E ele ainda tem Fernanda Torres –atriz ganhadora já de outros prêmios internacionais (um que sempre me vem à lembrança é o de Melhor Atriz em Cannes por “Eu Sei Que Vou Te Amar”, ainda em 1986), Fernanda fornece um registro estupendo da celeuma gradual que contamina Eunice conforme ela se dá conta de que o pior aconteceu e, ainda assim, precisa ser o suporte da família e não extravasar sua tristeza perante os filhos. Um belíssimo trabalho de uma das grandes atrizes do cinema nacional (ela, que ainda divide a personagem com sua própria mãe, Fernanda Montenegro, a interpretar Eunice já idosa na sequência final) digno de todas as ovações que vem recebendo.