domingo, 6 de abril de 2025

A História do Cinema Negro nos EUA


 Realizado pelo crítico, radialista, diretor e roteirista Elvis Mitchell, este documentário lançado pela Netflix é um registro abrangente e ocasionalmente pessoal do surgimento da blaxploitation no cinema norte-americano, cuja produção encontrou seu apogeu durante a prolífica década de 1970.

Em sua narração em off, Mitchell avalia as décadas pregressas do cinema hollywoodiano, analisando o estranho e anacrônico tratamento dado aos negros, com os valores, às vezes até bem-intencionados, transfigurados pelo preconceito institucionalizado (caso do clássico de 1915 “O Nascimento de Uma Nação”, da superprodução de 1939 “E O Vento Levou”, apontada hoje como uma problematização da relação entre escravos e senhores, e do infame “A Canção do Sul”), e as ofensivas caracterizações sofridas por toda essa comunidade nas primeiras décadas em que o cinema existiu no Século XX (com o absurdo de atores e atrizes caucasianos pintados para ‘interpretarem’ personagens afro-descendentes em inúmeras produções). Ele cita a estóica e pioneira tentativa do astro, ator e cantor Harry Belafonte, ainda nos anos 1950, de tentar assumir uma identidade de representatividade digna para sua comunidade em diversos projetos (tais como “O Diabo, A Carne e O Mundo” e “Homens Em Fúria”) –esforço que, em grande medida emperrou sua carreira –em oposição à Sidney Poitier (o primeiro ator negro a vencer o Oscar, em 1964), e sua receptividade junto à Hollywood, muitas vezes assumindo estereótipos; ainda assim, Poitier tornou-se um astro por meio de obras como “Uma Voz Nas Sombras” (aquele que lhe premiou com o Oscar), “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”, “Ao Mestre Com Carinho”, “No Calor da Noite” e “Acorrentados”.

Entretanto, na iminência dos anos 1970, com o enfraquecimento do Código Hays (que estabelecia censura de idade aos filmes lançados em cinemas) e o despontar de um cinema mais autoral, voltado para as mazelas de cunho social, diretores alternativos e marginalizados na indústria encontraram um meio para equiparar suas produções de baixo orçamento com o apelo popular das produções de estúdio, nascendo assim o exploitation –um subgênero que definia os filmes que lançavam mão de cenas e situações com inadvertida dose de sexo e violência que os filmes de estúdio não tinham liberdade para exibir. Ao exploitation logo seguiu-se inúmeras variações que exploravam (daí o termo!) as vulgares possibilidades de um cinema sem amarras, é no blaxploitation que o documentário de Elvis Mitchell se concentra.

Ele começa citando o seminal “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero, que em 1968, atreveu-se a lançar mão de um protagonista negro, em meio à coadjuvantes brancos, pela primeira vez impondo-se como um personagem forte, dotado de liderança, e sem qualquer vitimismo –o desfecho amargo, revoltante e absolutamente condizente com a realidade deste personagem ao final do filme deixou bem claro não apenas a visão desdenhosa dos brancos sobre os negros na sociedade, como também a indignação crescente, a exigir novas empreitadas rumo à um protagonismo negro que, só então, o cinema começava a descobrir.

O homem branco estava perdendo a transparência com a qual era visto como herói (e a sociedade, provavelmente, perdendo a ingenuidade com a qual comprava essa ideia) sendo retratado, nos filmes subsequentes, mais como um anti-herói. Dessa forma, surgiram as primeiras produções dentro do blaxploitation como o marcante “Rififi No Harlem”, de 1970, cuja inédita manobra mercadológica –de lançar a aclamada trilha sonora antes do longa-metragem –proporcionou uma insuspeita campanha de marketing que o tornou um sucesso de bilheteria. À ele seguiu-se, no ano seguinte, o ainda mais bem-sucedido “Shaft” (vencedor do Oscar de Melhor Canção Original) e o apoteótico “Sweet Sweetback Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles.

Estavam estabelecidas as bases que definiriam o blaxploitation pela próxima década, trazendo ao seu público, já em 1972, uma variação dos já prestigiados filmes destinados aos brancos –houveram obras como “Superfly” (uma versão de “O Poderoso Chefão”), “Blácula” (com o astro William Marshall numa versão afro do “Drácula” de Bela Lugosi) e “Um Por Deus, Outro Pelo Diabo” (uma versão de “Butch Cassidy & Sundance Kid”) que trazia uma parceria entre Harry Belafonte e Sidney Poitier, como aliás atestam o vastos depoimentos que o documentário traz, como Laurence Fishburne e Samuel L. Jackson, observando suas impressões daquele período (quando ainda eram bem jovens), e outras estrelas de ontem (como Vonetta McGee, Carol Speed e Whoopy Goldberg) e de hoje (como Zendaya), apontando a grande importância (na cerimônia do Oscar de 1973) das indicações, na categoria de Melhor Atriz, de Diana Ross (por “O Ocaso de Uma Estrela”) e de Cicely Tyson (por “Lágrimas de Esperança”), duas obras blaxploitation –a vencedora daquele ano foi Liza Minelli, por “Cabaret”.

O filme pontua o sucesso dos rostos mais icônicos desse movimento, como a maravilhosa Pam Grier, estrela de aproximadamente sete filmes entre 1973 e 1975, incluindo os sucessos “Coffy”, “Foxy Brown” e “Friday Foster” (este, uma pioneira adaptação cinematográfica de histórias em quadrinhos).

Houveram ainda obras como “The Mack”, ainda em 1973 (também aproveitando a manobra de lançar antecipadamente o álbum de sua trilha sonora, aqui assinada pela lendária gravadora Motown), “Cooley High” (uma variação de “Loucuras de Verão”), em 1975, e também a corrosiva animação para adultos “Coonskin”, de Ralph Bakshi, que unia animação convencional e rotoscopia formulada para traçar um painel satírico, caricato, social e sexual da forma deturpada com que os negros eram tratados e enxergados na sociedade e na indústria.

Em 1977, quando do lançamento de “Os Embalos de Sábado À Noite”, Mitchell observa como Hollywood já havia começado à incorporar o estilo, as caracterizações, a narrativa despojada e a linguagem da blaxploitation, realizando obras dentro dessas definições voltadas para o público caucasiano e estreladas por caucasianos –o astro John Travolta que, no retrato indicado ao Oscar de seu personagem, Tony Manero, agrega vários traços e posturas difundidos exclusivamente pelos magníficos protagonistas da blaxploitation como Ron O’ Neal, Isaac Hayes, Billy Dee Williams, Jim Brown e Richard Roundtree.

Entre algumas obras ainda pertinentes e até hoje referenciadas (como o extraordinariamente influente “O Matador de Ovelhas”, de Charles Burnett), o blaxploitation encontrou seu declínio no fim dos anos 1970, mais especificamente em 1978, com a suntuosa produção de “O Mágico Inesquecível”, de Sidney Lumet, uma versão do clássico “O Mágico de Oz” que trazia em seu elenco Diana Ross, Michael Jackson, Nipsey Russell e Richard Pryor, e acabou mostrando-se incapaz de recuperar, nas bilheterias, o seu gordo orçamento de 24 milhões de dólares. A chegada dos anos 1980, trouxe de volta à Hollywood, a percepção de que seus protagonistas brancos poderiam voltar a interpretar heróis, como “Rambo” (com Sylvester Stallone), “O Céu Pode Esperar” (com Warren Beatty) ou “Hopper” (com Burt Reynolds).

Valioso registro histórico e elaborado painel de um período, o documentário de Elvis Mitchell acima de tudo ressalta a imensa importância social e cultural no movimento da Blaxploitation e de como o cinema norte-americano como um todo deve, e muito, àquelas realizações e àqueles realizadores.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Bridget Jones - Louca Pelo Garoto


 E não é que realmente foi feito o quarto filme da franquia “Bridget Jones”? Iniciada em 2001 com o excelente (e ainda o melhor de todos) “O Diário de Bridget Jones”, esta série de filmes, inspirados nos livros de Helen Fielding, teve sucessivamente como segundo exemplar o simpático ainda que irregular “Bridget Jones-No Limite da Razão”, lançado em 2004 e, também ele, adaptado de um livro da autora. Depois, contudo, algo inusitado aconteceu: Helen Fielding lançou o terceiro livro, “Louca Pelo Garoto”, onde confrontava sua heroína, Bridget Jones, com novas situações numa nova fase da vida. O radicalismo do enredo desse terceiro livro despertou a fúria de fãs da série ao redor do mundo todo, que já naqueles tempos, ameaçaram cancelá-lo!

Essa reação foi de tal forma negativa que os planos para o terceiro filme foram improvisados –foi lançado em 2016, “O Bebê de Bridget Jones”, único filme da série feito a partir de um roteiro original (da própria Helen Fielding) e não de uma adaptação dos livros.

O tempo passou, e a relação dos fãs com o livro “Louca Pelo Garoto”, foi mudando. Não mais revoltados com o descarte do amado personagem de Mark Darcy (Colin Firth, sempre ótimo), os fãs passaram a reparar melhor na construção bem feita do enredo, na ideia revigorante de trazer a protagonista vivenciando um recomeço, enfrentando desafios sob a ótica de uma diferente faixa etária (não mais uma jovem mulher solteira) e no fato da trama, em si, não se mostrar tão acomodada quanto a trama do segundo livro (e filme). Com isso, 2004 testemunhou assim o lançamento de “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto” –produzido pela própria Helen Fielding e pela estrela Renée Zellweger –que enfim traz para o cinema o terceiro livro da série, tornando-se, portanto, o quarto filme!

A inglesa Bridget Jones é viúva desde que seu marido, Mark Darcy faleceu quatro anos atrás (e essa era a manobra narrativa que tanto despertou a fúria das fãs dos livros), no entanto, passado esse prolongado período de luto, Bridget decide que é hora de retomar à vida que tinha antes. O que significa que, apesar de ter agora dois filhos pra criar –o menino Bill (Casper Knopf) e a menininha Mabel (Mila Jankovic) –ela deve voltar a trabalhar (na mesma emissora de TV do primeiro filme) e tentar, na medida do possível, se mostrar aberta a um novo relacionamento, que parece perfeitamente viável na improvável forma do garotão Roxter McDuff (Leo Woodall), embora os flertes de hoje dia acabem dependendo muito mais de ferramentas digitais que a quarentona Bridget Jones deve se virar para aprender a usar!

Essa é, portanto, a tônica do novo “Bridget Jones”, que funcionou à perfeição na literatura e ocasionalmente, funcionou muito bem no cinema também –em grande parte, graças ao acerto fenomenal da escalação de Renée Zellweger ao papel. O diretor Michael Morris parece tão convicto da eficácia dessa fórmula, testada e comprovada junto ao seu público, que ele relaxa em muitos aspectos na sua tarefa. A narrativa de “Louca Pelo Garoto” –diferente da excelência instintiva e acertada com que era conduzida em “O Diário de Bridget Jones” –nunca consegue surpreender o público, em grande medida, porque ao negligenciar este ou aquele personagem, já podemos até adivinhar, de antemão, os rumos que à eles serão dados na trama. Além disso, escalar o respeitável (e indicado ao Oscar!) Chiwetel Ejiofor para um personagem que, em tese, surge como coadjuvante e aos poucos vai ganhando estatura junto à trama, também não pega ninguém de surpresa. Diferente, por exemplo, do que ocorre no primeiro filme com o próprio Mark Darcy –na época, o excelente Colin Firth não era tão famoso, tendo participado dos consagrados “O Paciente Inglês” e “Shakespeare Apaixonado”, mas em papel de vilão. Logo, sua escalação como Darcy era extremamente inspirada –nos passava a ideia de que ele seria quase alguém vilanesco na trama, quando de repente essas primeiras impressões (nossas e da personagem principal) iam sendo subvertidas.

O livro, “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto”, num esperto reaproveitamento da estrutura já clássica do livro original, seguia por tópicos muitos similares aos quais este novo filme não conseguiu se equiparar justamente por causa disso.

Apesar disso, ainda sobram momentos ternos e divertidos (muitos deles por conta da sempre memorável Renée Zellweger, bem ladeada pelo hilário personagem de Hugh Grant), e um agridoce senso de nostalgia deste filme em relação à todos os outros da série.

domingo, 16 de março de 2025

A Face Oculta do Mal


 Mais uma pérola do cinema australiano, “Gone”, lançado em 2007, é uma realização violenta, econômica e enxuta que esconde, por detrás de uma muralha de empolgação juvenil e êxtase frenético, um estudo cada vez mais asfixiante das engrenagens psicóticas capazes de sabotar os relacionamentos entre os mais desavisados. Como em muitos casos exemplares da ficção (e outros até decorridos da vida real) a ilusória sensação de segurança dos mais incautos –tal qual “Violência Gratuita” –permite a aproximação de predadores existenciais, em nada mais interessados além de infligir dano às vidas alheias.

O mochileiro Alex (Shaun Edwards) está em um percurso pelas cidades australianas quando cruza-se com o norte-americano Taylor (Scott Mechlowicz, de “Eurotrip-Passaporte Para A Confusão”). Inicialmente a amizade é instantânea: Taylor se mostra camarada, solícito e uma boa companhia nas mais diferentes situações –sugere um lugar para Alex pernoitar; providencia um encontro casual com duas garotas bem despachadas; oferece carona no dia seguinte; e revela-se um bom companheiro para os momentos de diversão.

Não enxergando nada de errado, Alex deixa-se levar. Ele vai junto de Taylor, a bordo de seu veículo, que sem ele notar, o acompanha rumo a seu objetivo: Rever a namorada Sophie (Amelia Warner, de “Contos Proibidos do Marquês de Sade”) e com ela prosseguir viagem.

É a partir do momento em que conhece Sophie que Taylor começa, aos poucos, a demonstrar sua verdadeira natureza. Manipulador, ele cria pequenos subterfúgios que se transformam em atritos entre Sophie e Alex, levando a harmonia entre o jovem casal a desaparecer.

Numa narrativa de conotações clássicas no gênero de suspense, as facetas maquiavélicas de Taylor nunca são evidentes demais a ponto dele ser desmascarado –somente Alex (um tanto quanto tarde demais) e o público acabam ficando cientes desse lado psicopata dele –ou a ponto de justificar que Sophie e Alex o deixem de lado e se livrem dessa complicação. Isso porque, valendo-se de expedientes muito comuns no cinema australiano –a circunstância da qual os personagens principais nunca conseguem se desvencilhar –o diretor Ringan Ledwidge realiza um suspense objetivo e sucinto em sua condição de baixo-orçamento, asfixiando o público com um progressão que nunca cessa, tendo como pano de fundo, as paisagens áridas do outback australiano –cujos tons amarelados (a lembrar o cultPelos Caminhos do Inferno”) contribuem muito para a sensação de desconforto gradualmente soterrar o clima descontraído e festivo do início.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro


 Sabe-se que o resultado final de “Tropa de Elite” foi acarretado por alguns acasos felizes. Sabe-se que o personagem do Capitão Nascimento, por exemplo, não havia sido planejado para ser o protagonista, mas, sim um coadjuvante; que os personagens principais de fato seriam os cadetes vividos por André Ramiro e pelo saudoso Caio Junqueira. No entanto, a atuação vibrante de Wagner Moura como Nascimento tornou-se tão antológica que o diretor José Padilha, aliado ao montador Daniel Rezende, valeram-se de todas as cenas adicionais possíveis para estender sua participação, além de fazê-lo onipresente no filme atribuindo-lhe uma narração em off –no plano original, a narração pertenceria ao personagem Mathias, de André Ramiro.

Na continuação, “Tropa de Elite 2-O Inimigo Agora É Outro”, o Capitão Nascimento ganha agora o protagonismo de fato e, na narrativa ainda mais mergulhada nos meandros de corrupção política e existencial dos âmbitos brasileiros, um aprofundamento ainda maior de suas características circunstanciais.

Após sofrer um atentado, o agora Tenente-Coronel Nascimento relembra os acontecimentos transcorridos quatro anos antes, quando chefiou uma operação do B.O.P.E., liderada por Mathias, onde foi contida uma rebelião no presídio de Bangu I –evento real, magnificamente bem explorado pelo roteiro objetivo, inteligente e sem firulas de Braulio Mantovani e do próprio Padilha.

Considerada catastrófica, a operação leva Nascimento a ser afastado do B.O.P.E. tornando-se subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Nesse cargo, Nascimento consegue obter, com o passar do tempo, o desbaratamento do tráfico nas favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro, entretanto, o sistema corrupto se adapta à nova realidade permitindo a ascensão de um novo problema: As milícias.

Passando a comandar as comunidades após a neutralização dos chefes do tráfico –e assumindo o lugar desses chefes –as milícias passam a controlar a corrupção do sistema, estendendo o controle do crime até esferas elevadas do poder.

E é aqui, neste ponto de “Tropa de Elite 2” que testemunhamos o surgimento do antagonista mais sensacional do filme –anos-luz a frente de qualquer um dos criminosos do filme anterior. Tendo participado do primeiro filme em uma única (e memorável) cena, o ator Sandro Rocha, intérprete do Major Edivan Rocha, ganha aqui uma importância absurda, tornando-se o líder da principal milícia mostrada no filme.

O curioso é que, poucos anos antes, a TV brasileira exibiu a novela de enorme sucesso “Duas Caras”, onde Antonio Fagundes interpretava Juvenal Antena, um líder de milícia que surgia como um grande e heróico protagonista. É claro o esforço do roteiro e da direção de Padilha, além da fabulosa atuação de Sandro Rocha, em mostrar o Major Rocha como uma contraparte exata de Juvenal Antena, contudo inserido no mundo real, com toda a crítica social e o verdadeiro questionamento moral a que se tem direito.

Beneficiado por técnicas de cinema ainda mais arrojadas que no primeiro filme (exemplo brilhante é já o atentado de sua cena inicial, a primeira de inúmeras cenas magníficas que o filme trará), “Tropa de Elite 2” é infinitamente mais denso do que seu antecessor, na medida em que troca a euforia quase jovial da adrenalina do primeiro filme por um senso de realidade que chega às raias do angustiante ao confrontar o protagonista Nascimento (e, portanto, o próprio público) com uma impunidade criminosa tão arraigada no sistema público que leva o expectador a sentir-se de mãos atadas, indignado diante de tanta corrupção.

Nessa narrativa tão competente quanto exemplar é preciso citar a construção de personagens brilhantes: Não apenas Nascimento sobre um evolução em termos dramáticos e humanos como personagem (o que só potencializa mais a interpretação esplêndida de Wagner Moura) e seu antagonista aqui, Major Rocha, se revela um verdadeiro achado em todos os sentidos, como também somos brindados com uma participação também ampliada do Capitão Fábio Barbosa (Milhem Cortaz, brilhante); as aparições de Fortunatto (o ótimo André Mattos), um apresentador sensacionalista de TV inclinado à conluios com os poderosos; de Clara (Tainá Müller, de “Cão Sem Dono”), uma repórter na busca incauta pela verdade; e de Fraga (o também ótimo Irandhir Santos), um político opositor, mas, curiosamente um aliado de Nascimento na luta contra a corrupção do sistema.

Também desta vez, a circunstância mais infame a cercar o primeiro “Tropa de Elite” foi contornada por José Padilha: Criando toda uma estrutura de pré e pós-produção para esta aguardadíssima sequência, Padilha não permitiu que cópias clandestinas vazassem de sua realização como ocorreu anteriormente, fazendo com que este novo “Tropa de Elite” fosse um sucesso salutar de bilheterias, com seus lucros canalizados para os lugares certos, como tinha que ser.

terça-feira, 4 de março de 2025

Os Vencedores do Oscar 2025


 Foi a noite da consagração de Sean Baker que saiu com nada menos que quatro estatuetas debaixo do braço (Produtor –que ele recebeu pela categoria principal, de Melhor Filme –Diretor, Roteiro Original e Montagem), e olha que “Anora” nem era o franco favorito. Assim como ocorreu em 2020 com “Parasita”, ele só começou a crescer na Temporada de Premiações nas últimas semanas demonstrando em cerimônias como o PGA, o DGA ou o Critic’s Choice que os votantes finalmente haviam descoberto um dos filmes mais deliciosos do ano, que já havia vencido a Palma de Ouro em Cannes.

Por sinal, quando todos acreditavam que a estatueta de Melhor Atriz estava entre Demi Moore e Fernanda Torres, eis que a jovem Mike Madison é anunciada a vencedora, despertando alguma reclamação nas redes sociais brasileiras –não, este definitivamente não é o mesmo caso de Gwyneth Paltrow em 1999; Mike Madison realmente MERECEU o Oscar!

Nós do Brasil, contudo, temos mais motivo para celebrar mesmo: Prestes a fazer 100 anos, o Oscar finalmente concede o prêmio de Melhor Filme Internacional a uma produção brasileira, coroando o avanço qualitativo de nossa cultura cinematográfica, e honrando uma obra que superou a barreira do idioma e das legendas para emocionar o público mundo afora.

O reflexo do quão disputada foi a premiação deste ano é que, salvo os cinco prêmios para “Anora”, houve uma distribuição parcimoniosa para todos os filmes –até mesmo “Wicked”, favorito para levar as categorias técnicas, se contentou com apenas dois prêmios, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. Os únicos favoritismos incontestes, do início ao fim, foram os de Zoe Saldaña e Kieran Culin como coadjuvantes.

MELHOR FILME

"Anora"

MELHOR DIREÇÃO

"Anora", Sean Baker

MELHOR ATRIZ

Mike Madison, "Anora"

MELHOR ATOR

Adrien Brody, "O Brutalista"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Zoe Saldaña, "Emília Perez"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Flow"

MELHOR FOTOGRAFIA

"O Brutalista"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Duna-Parte 2"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"In The Shadow Of The Cypress"

MELHOR FIGURINO

"Wicked"

MELHOR SOM
"Duna-Parte 2"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"A Substância"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Wicked"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“No Other Land"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"The Only Girl In The Orchestra"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“I’m Not A Robot"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"O Brutalista"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"El Mal", de "Emília Perez"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Anora"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Conclave"

MELHOR MONTAGEM

"Anora"

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Capitão América - Admirável Mundo Novo


 Embora persiga o tempo todo a atmosfera conspiratória do excelente “Capitão América-O Soldado Invernal”, este “Brave New World” dá continuidade realmente aos eventos mostrados em “O Incrível Hulk” (de um já longínquo 2008) e “Eternos” (de 2021). Quando reencontramos o protagonista, Sam Wilson (Anthony Mackie), ele já veste o manto de Capitão América a pelo menos quatro anos –desde que assumiu esse legado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”. Sua missão é deter a negociação envolvendo um item desconhecido entre a Sociedade da Serpente, chefiada pelo inescrupuloso Coral (Giancarlo Esposito), e um comprador misterioso. Já aí, a narrativa concebida pelo diretor Julius Onah (de “The Cloverfield Paradox”) orquestra vários pontos de partida (como é de praxe, muitos deles extraídos dos quadrinhos originais) para buscar um todo mais sólido e exuberante, ainda que, ao contrário do que fizeram (e muito bem) os Irmãos Russo nos filmes predecessores, essa solidez e essa exuberância nunca cheguem, de fato, a aparecer.

Se de um lado temos Sam Wilson e seus válidos esforços em corresponder às expectativas dele esperadas como Capitão América –não apenas ao substituir a grande e inspiradora presença de Steve Rogers, mas também ao representar um herói tão icônico sendo também um homem negro a trazer consigo à reboque toda uma questão de representatividade racial –do outro, temos o General Thadeus Ross (vivido por Harrison Ford, substituindo o falecido William Hurt, intérprete anterior do personagem) cuja fama de irascível ele procura avidamente deixar de lado por conta de A) reatar os laços com a filha, Betty (Liv Tyler), em frangalhos desde que ele caçou, por anos, o Hulk, assim como outros heróis, e B) honrar seu novo cargo de presidente eleito dos EUA perante o povo norte-americano.

Para tal intento, Ross quer se aproximar de Sam Wilson, sobretudo, após a bem-sucedida missão em recuperar o tal item desconhecido (que havia sido roubado de aliados japoneses), entretanto, novas complicações tornam a afastá-los: Acontece que o Celestial petrificado em pleno oceano em “Eternos”, vem a ser constituído de um novo minério que as potências mundiais identificaram como tão resistente (ou até mais!) que o cobiçado vibranium de Wakanda, o adamantium. De olho nessa nova riqueza, vários países forjam uma tênue aliança com os EUA, mas um atentado na Casa Branca –perpetrado por Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um ex-supersoldado veterano, ao que tudo indica sob controle mental –pode colocar tudo a perder, e deixar os EUA à beira de uma guerra.

A tarefa deste novo Capitão América em seu primeiro filme solo é, portanto, complicada: Provar a inocência de Isaiah, descobrir quem é o misterioso vilão manipulador que aparentemente está por trás de tudo isso, e deter uma crise política de proporções globais. Tudo isso, contando com a ajuda do novo Falcão, Joaquim Torres (Danny Ramirez), uma vez que o próprio Presidente Ross, como sempre, mostra-se alguém de difícil relação –em especial, por conta do segredo que o liga ao tal vilão manipulador, e que pode levar Ross a uma metamorfose inesperada como a ameaça conhecida por Hulk Vermelho –e, embora desse detalhe seja resguardado para o trecho final do filme, ele não é nenhuma surpresa, uma vez que dominou por completo o material promocional do filme nos últimos meses antes de sua estréia. Grave problema de marketing: Certamente, se a questão envolvendo o Hulk Vermelho e sua aparição no clímax de “Brave New World” tivesse sido guardado exclusivamente para ser visto nos cinemas (como foi feito com as aparições dos Homens-Aranhas, Tobey Maguire e Andrew Garfield, em “Sem Volta Para Casa”) a empolgação provocada pelo filme seria exponencialmente maior.

Como está, “Brave New World” não é um filme ruim, longe da irrelevância maçante de “As Marvels” ou da afetação lastimável de “Thor-Amor & Trovão”, e Anthony Mackie se esforça genuinamente para ser um herói com dignidade e valor, no entanto, os predicados desta produção –leia-se, roteiro (fragmentado e mal-amarrado em muitos momentos) e direção (burocrática e incapaz de evidenciar sequências mais memoráveis) –ficam muito aquém das obras nas quais se inspira e às quais tenta a todo o custo igualar: Os excelentes filmes estrelados pelo Capitão América anterior, Steve Rogers (Chris Evans).

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Um Tira No Jardim de Infância


 No documentário da Netflix, “Arnold”, sobre sua vida e carreira, Arnold Schwarzenegger conta que depois do surpreendente desempenho de público e crítica de “Irmãos Gêmeos”, ele e o diretor Ivan Reitman estavam ávidos por retomar a parceria e explorar novas possibilidades da então recém-descoberta veia cômica do astro. E um roteiro apropriado para isso até que não tardou a aparecer: Entre “Irmãos Gêmeos” e este “Um Tira No Jardim de Infância” (escrito por Murray Salem, Herschel Weingrod e Timothy Harris) passaram-se módicos dois anos.

Grandalhão, truculento e absolutamente adequado a sua profissão de policial em Nova York, John Kimble (Schwarzenegger) persegue a anos o traficante de drogas Cullen Crip (Richard Tyson, de “Te Pego Lá Fora” e “Falcão Negro em Perigo”). A oportunidade finalmente surge quando Crip é visto assassinando um informante que teria lhe passado a localização de seu filho e sua ex-esposa. Com Crisp atrás das grades aguardando julgamento, Kimble e a policial O’Hara (a divertida Pamela Reed, de “Os Eleitos-Onde O FuturoComeça” e “Melvin & Howard”) precisam rastrear a ex-esposa dele para que possa testemunhar no tribunal e condená-lo de uma vez por todas.

A mulher –que, ao que tudo indica, mudou de identidade para fugir do bandido, talvez, até com algum dinheiro dele –está em algum lugar da cidade de Astoria, estado de Oregon, junto com seu filho pequeno. A fim de descobrir quem são, o plano é Kimble acompanhar O’Hara que irá se disfarçar de professora (sua antiga ocupação) e encontrar o filho de Crisp entre as crianças pequenas da Astoria Elementary School. No entanto, durante a viagem, O’Hara fica doente e indisposta, obrigando Kimble, ao chegarem, a tomar o seu lugar. O grandalhão agora terá de se passar como professor de jardim de infância –e essa ideia simples responde por todo o apelo em cima do qual o filme foi construído.

Entretanto, como toca a muitas obras dos anos 1980 (ainda que este filme seja de 1990), a construção resulta impecável: Munido de seu inabalável carisma, Schwarzenegger realmente diverte estabelecendo um contraponto contrastante e hilariante com a fauna de baixinhos com a qual tem de lidar –entre essas crianças, presenças ainda bem pequenas do filho do diretor, Jason Reitman (que também viria a tornar-se diretor, em filmes como “Juno”) e da bela Odette Yustman (de “Cloverfield-Monstro” e “Alma Perdida”). E o diretor Reitman, se não chega a ostentar nenhuma genialidade, compreende perfeitamente isso: Ao explorar a dinâmica que surge entre o gigantesco protagonista e seus pequenos coadjuvantes (inicialmente conturbada, mas depois pouco a pouco harmoniosa e, ao fim, carregada de empatia), assim como a circunstância da farsa em si (a qual garante interesse do início ao fim para o expectador que fica intrigado como tudo se resolverá), ele constrói um filme delicioso de se acompanhar.

Embora estranhamente arrematado, no início e no desfecho, por dois tiroteios que impõem uma atmosfera de tensão e sanguinolência inadequada para o entretenimento familiar que em geral ele parece conceber, o filme de Reitman é bastante simpático, engraçado e leve, entregando até mesmo momentos em que Arnold protagoniza situações românticas, junto da bela e sempre competente Penelope Ann Miller; aliás, todo o elenco feminino –complementado com as participações de Linda Hunt (ganhadora do Oscar 1984 de Melhor Atriz Coadjuvante por “O Ano Que Vivemos Em Perigo”) como a diretora da escola e de Carroll Baker como a mãe igualmente maligna e criminosa do vilão –é brilhante, exigindo uma presença um pouco mais sofisticada da parte do pouco desafiado Arnold Schwarzenegger, normalmente tão a vontade em obras de ação, mas aqui, provando com certa inteligência que tem alguma versatilidade para experimentar alguns gêneros mais distintos.